Valor Econômico
Temores são de possíveis impactos desestabilizadores no mercado financeiro mesmo que no fim elas não venham a ser implantadas
As ideias do economista André Lara Resende,
que têm sido apresentadas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva como possível
agenda para o seu quarto mandato, preocupam integrantes da equipe econômica
devido aos possíveis impactos desestabilizadores no mercado financeiro mesmo
que no fim não venham a ser implantadas.
Lara Resende, considerado um dos
"pais" do Plano Real, tem defendido uma baixa da taxa Selic para 7,5%
ao ano ao longo de 12 meses para reduzir os juros pagos pelo governo na dívida
pública e, assim, viabilizar um ajuste nas contas públicas sem sofrer as dores
de cortes de gastos nem de aumento de impostos.
Nas discussões de bastidores do governo, integrantes da equipe econômica têm argumentado que uma baixa de juros que seja entendida pelo mercado como artificial levará a uma forte fuga para a moeda estrangeira e à saída de posições em títulos públicos.
Lara Resende, em um texto publicado na
plataforma de newsletters Substack, prevê esses impactos no curto prazo e
defende que o Banco Central utilize as suas reservas internacionais para conter
a alta do dólar.
Integrantes da equipe econômica têm
argumentado, porém, que os US$ 372,6 bilhões em reservas internacionais seriam
consumidos rapidamente caso o Banco Central resolvesse se contrapor a uma
eventual fuga de capitais do Brasil.
Hoje, o volume diário de transações
financeiras envolvendo as duas moedas, dólar e real, nos diferentes mercados,
soma algo como US$ 80 bilhões. Se os mercados desconfiarem que o BC está
defendendo um valor máximo para o dólar, as posições de investidores contra o
real tenderiam a se multiplicar rapidamente.
O exemplo mais ilustrativo do que pode
acontecer se o BC tentar defender a moeda numa situação de mudança de regime
econômico ocorreu na China, em 2015. Na ocasião, a China tinha US$ 4 trilhões
em reservas e, em pouco tempo, gastou US$ 1 trilhão, sem muito sucesso em
conter os movimentos especulativos.
Integrantes da equipe econômica têm alertado
que, no caso da adoção do modelo defendido por Lara Resende, o Brasil poderia
perder rapidamente uma das principais linhas de defesa de sua economia: as
reservas internacionais, que foram acumuladas nos dois primeiros mandatos do
presidente Lula.
O volume não é suficiente para impedir
eventuais desvalorizações do real se a taxa de câmbio vai para um novo ponto de
equilíbrio, mas tem sido muito útil para amortecer choques externos, como na
crise financeira internacional. Queimar as reservas seria aproximar o Brasil da
situação da Argentina, que é dependente de programas de socorro do Fundo
Monetário Internacional (FMI), com condicionalidades econômicas muito mais
rígidas, para atravessar crises externas.
Lara Resende tem dito que uma vantagem
brasileira é que uma grande proporção da dívida pública é indexada à taxa
Selic. Isso faz com que, caso o BC faça a redução dos juros que ele propõe, o
governo passe imediatamente a pagar juros mais baixos. Ao longo do tempo,
segundo ele, a dívida pública prefixada seria substituída pela dívida
pós-fixada.
Economistas do governo, porém, têm alertado
que essa transição poderá ser traumática. Há algum tempo, esses títulos
pós-fixados, as Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), já são negociados com
deságio. Isso significa que o mercado exige um prêmio a mais para comprá-los
devido ao risco de crédito.
Na hipótese de uma mudança de regime
econômico, a tendência é haver rejeição desses papéis pós-fixados pelos
investidores. Isso aconteceu em 2002, durante as eleições, devido a receios em
torno do que seria o programa de Lula em seu primeiro mandato. O movimento foi
potencializado pelo mecanismo de marcação a mercado dos papéis então adotado
pelo Banco Central.
Nessas ocasiões, quando há rejeição às LFTs
pelo mercado, o Tesouro acaba sendo obrigado a recomprar a sua dívida para
conter a abertura dos prêmios exigidos pelos investidores. O alerta feito por
integrantes da equipe econômica é o de que o colchão de liquidez do Tesouro
Nacional, atualmente um pouco inferior a R$ 1 trilhão, seria insuficiente para
dar conta de um movimento de fuga de investidores de uma dívida que supera os
R$ 11 trilhões.
Nessas circunstâncias, a única saída seria a
emissão de dinheiro pelo Banco Central e a entrega de recursos ao Tesouro
Nacional. Essa emissão monetária é um passo em direção à hiperinflação, com as
despesas do Tesouro sendo financiadas pela fábrica de dinheiro do BC.
Neste fim de semana, o
ministro da Fazenda, Dario Durigan, declarou que não há nenhum encontro
agendado entre Lara Resende e o presidente Lula e que as ideias do
economista estão fora de cogitação.
O quanto essas declarações de Durigan podem
tranquilizar os mercados na volta do feriado é uma questão em aberto. Os
investidores, até agora, estavam confusos sobre qual seria o rumo do governo
Lula, mas as opções pareciam se restringir à hipótese de um ajuste mais forte,
que reconquiste a credibilidade da política fiscal, ou à continuidade do
gradual ajuste adotado no primeiro mandato, considerado lento e com idas e
vindas para acomodar interesses eleitorais do presidente Lula.
O noticiário de que as ideias de Lara Resende
têm sido levadas ao presidente Lula faz o mercado contemplar, entre os vários
cenários possíveis, que haja uma ruptura extrema na direção da política
econômica do governo.
Durigan, em declaração ao Valor, disse que diversos
economistas entraram em contato com ele e com o presidente do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, para se
colocarem à disposição para dialogar.
Conforme antecipado pelo Valor na semana passada, está
havendo uma disputa nos bastidores pela definição da agenda econômica no quarto
mandato de Lula. De um lado, a atual equipe econômica tem defendido que a
continuidade dos ajustes fiscais é o caminho mais seguro. Já um grupo de economistas
historicamente ligados ao PT, que inclui, entre outros, Mercadante e o
ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, é contra um ajuste nas contas, que
consideram um “estelionato eleitoral”.
Não está claro, por enquanto, quem vai vencer
essa disputa. Mas as incertezas já pesaram bastante nos mercados na semana
passada, levando a uma alta na cotação do dólar e a forte pressão na inflação
implícita em títulos públicos, que provavelmente contaminará as expectativas de
inflação do mercado.
Tudo isso coloca mais pressão na despesa com
juros do governo e torna mais penoso o ajuste nas contas públicas que seria
necessário para conter o rápido avanço da dívida pública.
Economistas desenvolvimentistas que são
ouvidos pelo presidente Lula têm argumentado que ele não deveria ceder ao que
consideram chantagem dos mercados. A linha de argumentação é que, no Brasil, os
mercados teriam uma visão liberal, alinhada com o candidato derrotado Flávio
Bolsonaro, e que procuram forçar o abandono da agenda social do presidente democraticamente
eleito.
Mas essa pressão dos mercados não ocorreu
apenas aqui. Na França, os juros dos títulos do governo estão nos maiores
níveis dos últimos 24 anos, em virtude da fragilidade fiscal do país. No Reino
Unido, em 2022, a então primeira-ministra Liz Truss teve sua liderança
interrompida quando os mercados rejeitaram o seu miniorçamento, levando os
juros aos maiores níveis da história.
Os Estados Unidos também estão sofrendo
pressão nos seus títulos, embora exista uma discussão sobre se ela é motivada
por questões fiscais ou pela onda de captação de empresas de inteligência
artificial e pela política monetária do Fed (Federal Reserve, o BC americano).
Os Estados Unidos estão mais protegidos porque emitem a principal moeda de
reserva do mundo.
Num país emergente, como o Brasil, a
paciência dos investidores costuma ser mais curta do que em economias avançadas
— e as ondas de pânico, mais extremas. Incertezas como as alimentadas pelo
presidente Lula nos dias seguintes à sua eleição podem ter efeitos concretos na
economia real mesmo que, ao fim, a decisão seja pela rejeição de soluções
consideradas radicais pelo mercado e seja adotado o caminho do ajuste nas
contas públicas.

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