quinta-feira, 5 de maio de 2022

Merval Pereira: Uns tempos estranhos

O Globo

Os tempos que estamos vivendo podem favorecer que situações impensáveis numa democracia sejam normalizadas, como se fizessem parte de um diálogo saudável. Não há nada de saudável, no entanto, no envolvimento de militares no debate das urnas eletrônicas ou na declaração do ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, de que as Forças Armadas continuam “em estado de permanente prontidão” para o cumprimento de suas missões constitucionais. Se continuam, é porque já estão “de prontidão”, o que é preocupante e inexplicável.

Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e os líderes políticos estão caindo numa armadilha institucional quando colocam os militares em condições de igualdade com os Três Poderes da República nessas conversações.

O presidente do Supremo, ministro Luiz Fux, em discurso ontem, provavelmente decepcionado com a nota oficial do Ministério da Defesa, referiu-se ao Legislativo quando disse que estavam juntos na defesa da democracia. Não colocou o Executivo nessa conta, muito menos os militares, cujo comportamento institucional pressupõe que estejam a serviço dos Três Poderes, e não apenas de um deles, no caso o Executivo comandado pelo presidente Bolsonaro.

O elogio da liberdade de imprensa em seu dia, feito também por outros ministros do STF, tem a ver com essa disputa pela defesa da democracia. Outro ministro do Supremo, Edson Fachin, que preside o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), afirmou que não se pode transigir com ameaças à democracia, nem permitir a corrosão da autoridade do Judiciário.

A nota do Ministério da Defesa sobre o encontro do ministro Paulo Sérgio com Fux no mínimo causa estranheza ao falar em “prontidão”, situação que se enquadra quando há guerra, sublevação, questão interna de segurança. Não consta que exista nada disso no momento, embora seja permitido temer que os ataques do presidente Jair Bolsonaro às urnas eletrônicas possam causar desestabilização política no país.

Malu Gaspar: O que, afinal, está acontecendo com Lula?

O Globo

Provocaram frisson as declarações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à revista Time, na entrevista em que ele disse que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, é tão responsável pela guerra quanto o russo Vladimir Putin.

Referências para se posicionar de forma diferente, ele tinha.

No início de março, seu ex-chanceler Celso Amorim rechaçou a invasão da Ucrânia sem mas nem porém: “Eu não posso condenar a invasão dos Estados Unidos ao Iraque e depois aceitar outra invasão”.

O que interessa, nesse caso, não é nem a Ucrânia e nem o Iraque. Feliz ou infelizmente, a influência das palavras de Lula sobre os rumos da guerra é zero.

Seu principal efeito, no momento, é atordoar os estrategistas de campanha, que passam boa parte do tempo tentando convencer interlocutores políticos e jornalistas de que os “erros” não mais se repetirão, porque a comunicação mudará.

Eles sabem que, assim, Lula ajuda o bolsonarismo a reforçar o antipetismo, quando é vital reduzir índices de rejeição.

Mas, a cada vez que os aliados garantem que “agora Lula será diferente”, surge uma nova declaração que embaralha tudo. No final da semana passada, o ex-presidente afirmou que Bolsonaro “não gosta de gente, só gosta de policial”. Depois teve de pedir desculpas aos policiais. 

Há um mês, ele também teve de se explicar depois de conclamar os seguidores a bater na porta dos deputados e a abordar suas famílias para cobrar apoio a projetos.

Tal comportamento espanta quem já viu Lula ganhar uma eleição com a Carta aos Brasileiros e se reeleger com folga depois do mensalão, executando guinadas de discurso milimetricamente pensadas para atrair os não petistas.

Luiz Carlos Azedo: Entre Doria e Tebet, terceira via definha

Correio Braziliense

Ambos estão sendo pressionados a desistirem das respectivas candidaturas à Presidência pela maioria dos deputados e senadores de seus partidos, o PSDB e o MDB, porém, resistem

É cada vez mais difícil uma chapa que reúna o ex-governador de São Paulo João Doria (PSDB) e a senadora Simone Tebet (MDB-MS). Nenhum dos dois aceita ser vice nem se apresenta como candidato competitivo o suficiente para atrair outros aliados. Ambos estão sendo pressionados pela maioria dos deputados e senadores de seus respectivos partidos a desistirem da disputa e resistem, com a diferença de que o presidente do MDB, deputado Baleia Rossi (SP), pretende manter a candidatura de Tebet, enquanto seu colega do PSDB, Bruno Araujo (PE), já foi até destituído da coordenação de campanha pelo candidato tucano.

Hoje, haveria uma reunião da Executiva do PSDB para dar um xeque-mate em Doria. Fora tudo combinado num encontro de cúpula na semana passada, promovido pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), do qual também participou Araújo. Foi tiro pela culatra. Doria agendou um jantar na noite de ontem com a bancada federal e esvaziou a reunião, que foi adiada. Advertido pelos aliados de que a maioria da bancada prefere não ter candidato, para utilizar os recursos do fundo eleitoral na própria campanha, o ex-governador pagou para ver. Tanto a ala que apoia Doria quanto a que desejava o ex-governador gaúcho Eduardo Leite, que declarou apoio ao colega paulista, mesmo juntas, são minoritárias.

É um jogo de faz de conta, no qual os deputados tucanos de São Paulo pontificam. Gostariam de se livrar de Doria, a pretexto de que isso possibilitaria mais espaço para a reeleição do governador Rodrigo Garcia (PSDB), que o sucedeu. Mas nenhum parlamentar paulista tem coragem de assumir essa posição — por que os outros o fariam? As inserções do PSDB na tevê e as viagens de Doria pelo país esvaziaram a conspiração. Todas esperam as próximas pesquisas para saber se o tucano conseguirá sair da margem de erro nas e ultrapassar os cinco dígitos. Doria aproveita para jogar com o tempo a seu favor. Se a terceira via se inviabilizar de vez, cogita montar uma chapa da federação PSDB-Cidadania tendo a senadora Eliziane Gama (MA) como vice.

Maria Cristina Fernandes: Para não desviar o foco sobre o Brasil

Valor Econômico

Rede de proteção à democracia rejeita marola na Ucrânia

Luiz Inácio Lula da Silva arrancou uma capa deferente da revista “Time”. Ponto para o ex-presidente. Ao contrário de seu adversário na disputa presidencial, é reconhecido como um democrata no resto do mundo. Se já ganhou esta batalha, ainda não venceu a eleição. Por isso, Lula poderia ter feito melhor uso da entrevista. E por quê?

Há cerca de um mês, o senador Jaques Wagner (PT-BA), que estava nos Estados Unidos para participar de um seminário na Universidade de Harvard, foi chamado a Washington para uma conversa com Juan González, assistente especial do presidente Joe Biden e diretor para o Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional.

Lá foram explicitadas as preocupações do governo americano com os rumos da gestão Jair Bolsonaro, a consciência de que a corda foi demasiadamente esticada com a Venezuela e a expectativa de boas relações entre os dois países num eventual governo Luiz Inácio Lula da Silva. O senador, compreensivelmente, não confirma o encontro, relatado por duas outras fontes.

Dias depois, o presidente Joe Biden tomou a iniciativa de defender recompensas financeiras para que o Brasil mantenha suas florestas em pé e enviou dois subsecretários de Estado, Jose Fernandez e Victoria Nuland ao país.

Cristiano Romero: Lula e a dificuldade em atrair o voto não petista

Valor Econômico

Sem mea culpa, Lula torna seu o desastre da gestão Dilma

Em sua mais recente e sempre brilhante coluna no Valor, o sociólogo José de Souza Martins explica como funcionou, historicamente, a moderação de poder entre os extremos da política no Brasil. A polarização aguda não é novidade. A questão, e daí a importância da perspectiva histórica, é como a superamos.

Na monarquia, durante o 2º reinado (1840-1889), o poder moderador era exercido pelo rei, que detinha o mecanismo da terceira via para solucionar conflitos. “O mecanismo funcionava bem. Como, dentre outros, ressaltou Euclides da Cunha, os liberais inovavam e os conservadores decidiam como a inovação seria posta em prática”, diz Souza Martins em “Dificuldades da Terceira Via” (Valor, caderno EU&, página 3, edição de 29/04/2022).

O 2º reinado é apontado por historiadores como um período de relativa paz na história do país. Dom Pedro II valia-se do poder moderador para contornar impasses decorrentes da disputa de poder. Para Souza Martins, isso “nos fez um país de história politicamente lenta”. De fato, não há exemplo melhor dessa morosidade política do que o fim tardio da escravidão, ignomínia que, de tão longeva, tornou-se nossa principal característica nacional, razão do nosso fracasso.

Bruno Boghossian: O golpe de Bolsonaro é militar

Folha de S. Paulo

Forças Armadas lideram criação de roteiro para anular votação em caso de derrota

O ministro Luís Roberto Barroso foi até generoso quando perguntou se as Forças Armadas são "orientadas para atacar" as eleições. Depois de três anos no coração do poder, com uma adesão continuada às ameaças golpistas de Jair Bolsonaro, é impossível ver os generais como colaboradores que apenas obedecem cegamente às ordens do presidente.

Se Bolsonaro levar adiante o plano de melar as eleições, o golpe será militar. As Forças Armadas trabalham ativamente na confecção do roteiro que o presidente parece disposto a seguir para invalidar a votação e continuar no poder. Além disso, os generais passaram a disparar insinuações cada vez mais ameaçadoras de intervenção nesse processo.

Há meses, o militar indicado pelo Exército para atuar no TSE procura as brechas que Bolsonaro e seus sócios pretendem usar para anular a votação em caso de derrota.

Ruy Castro: A seguir: ditadura com Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Já não se dão à pachorra nem de desmentir o golpe

Há dois anos, quando comecei a dizer aqui que a cooptação por Jair Bolsonaro de militares, policiais e civis armados era a preparação para um golpe em caso de derrota na eleição, ouvi que estava vendo fantasmas debaixo da cama. No passado, essa imagem se aplicava aos comunistas, que, solertes, esperavam a hora de se pôr de pé, acender a luz e render os inocentes de pijama e camisola. Passaram-se 60 anos. Os comunistas seguem debaixo da cama, de onde nunca saíram, e quem hoje prepara o golpe —o autogolpe, como o definiu, com descaro, um general— é quem já está no poder.

É um golpe preparado às claras, com direito a ser pregado em carreatas, motociatas, cavalatas e outras atas bancadas com dinheiro público, sob a indiferença de instituições também pagas para coibi-las. E é tão ostensivo que, desde há algumas semanas, passou a ser abertamente denunciado pelos jornais e demais veículos de opinião, e nem assim os suspeitos de tramá-lo se dão à pachorra de desmenti-lo. É como se já o déssemos de barato —algo previsto para acontecer entre a eleição e o Dia de Finados.

Maria Hermínia Tavares*: O golpe pode dar errado

Folha de S. Paulo

Estratégia de Bolsonaro não vingará se a sociedade defender as instituições democráticas

Ele não disse nada, nem precisava. Ao participar, no Primeiro de Maio, de dois atos promovidos para atacar a Suprema Corte e ameaçar as instituições democráticas, Bolsonaro disparou um aviso pontiagudo do que intenta neste ano eleitoral. Que seu discurso vazio tenha sido recebido com certo alívio é um indício desalentador do quanto a política nacional foi sequestrada pelas provocações do ex-capitão.

Isso porque ele se prepara para tumultuar o processo de sua sucessão e contestá-lo pela violência se o resultado lhe for desfavorável. Abdicando de governar, dia sim, o outro também, a pé ou de moto, ele se dedica a açular a militância raivosa. Quando necessário, mostra que defende a sua turma —como fez com o Daniel Silveira— e vai dosando o xingatório contra ministros do STF, a Justiça Eleitoral e a urna eletrônica.

Nos porões dessa radicalização, ataques mais virulentos circulam nas redes bolsonaristas. Segundo o professor Marcelo Alves, do Departamento de Comunicação da PUC do Rio de Janeiro, de setembro do ano passado a março último, pipocaram no YouTube 1.701 vídeos contra o sistema eleitoral, vistos 69 milhões de vezes. Por fim, é explícita a corte do presidente às Forças Armadas, bem como o uso que delas faz para desfilar autoridade. Que outro sentido teria sua participação, fora da agenda, na reunião do Alto Comando do Exército, na terça-feira passada (3/5)?

William Waack: Não tem conversa

O Estado de S. Paulo

Chefes militares não querem ajudar nem Bolsonaro nem o Supremo

Jair Bolsonaro está arrastando menos oficiais-generais do que pensa na irresponsável aventura política, especialmente a de contestar o sistema eleitoral. Mas conseguiu ajudar a quebrar uma cadeia de entendimento que já foi bastante sólida entre o topo das Forças Armadas e o STF.

O presidente não perde oportunidade de participar de reuniões de fardados com muitas estrelas, como aconteceu esta semana com o Alto Comando do Exército. Só não percebe, diz um conhecedor dessas rodas, que já virou “encontro de comadres com restos da comida do dia anterior, não serve para nada”.

Os comandantes militares não estão dispostos a marchar com Bolsonaro rumo à insensatez. Contudo, repetem exatamente as mesmas críticas de Bolsonaro ao STF. Consideram que o Supremo deixou de ser um tribunal “unido” e se transformou num ajuntamento de togados obcecados por holofotes.

Mais ainda: interferem nos outros Poderes e exercem influência perniciosa na política, sem terem sido eleitos. A paciência se esgotou, resume oficial da ativa, quando integrantes do Supremo como o ministro Luís Roberto Barroso, ainda por cima falando a estrangeiros, distorcem a participação das Forças Armadas no processo eleitoral.

Eugênio Bucci*: Por que Bolsonaro ainda pode crescer

 

O Estado de S. Paulo

Estamos aprendendo, tarde demais, que não é por desinformação que muita gente o idolatra, mas por ódio a tudo o que seja informação. O desastre quica na área.

Até pouco tempo atrás, as passeatas de esquerda encenavam uma predisposição para o embate físico. A característica se fazia presente na coreografia de todos os comícios anticapitalistas, e não apenas no Brasil. Punhos erguidos socando o espaço sinalizavam a vontade de esmurrar o oponente. As palavras de ordem jorravam carregadas de agressividade quase bélica. Com frequência, lá vinham os black blocs atirando pedras nas vitrines e coquetéis molotov nos policiais. Naqueles tempos idos, embora tão recentes, a voz e o corpo da esquerda se opunham à ordem estabelecida, e sua linguagem eram as jornadas teatrais contra o establishment, a autoridade, as regras de trânsito e as boas maneiras.

Agora é o oposto. A velha gramática dos protestos virou de ponta-cabeça. Ano passado, nos Estados Unidos, quem promoveu arruaças foi a extrema-direita trumpista, que chegou ao cúmulo de promover a invasão do Capitólio. O símbolo mais icônico do atentado foi aquele sujeito enrolado num cobertor que parecia pele de urso e coroado, usando um capacete com dois chifres hediondos. O tipo ganhou o apelido midiático de “viking” e ficou famoso (no Brasil, um imitador do tal “viking” tem animado os convescotes golpistas do bolsonarismo).

Míriam Leitão: Juros em alta no Brasil e nos EUA

O Globo

A inflação está mais alta, mais espalhada, mais resistente e mais imprevisível. Ao Banco Central só cabe tentar levá-la de volta à curva descendente. E é isso que deverá conseguir no segundo semestre, mas ontem foi dia de elevação dos juros novamente. Em 14 meses, desde março do ano passado, os juros saltaram de 2% para 12,75%. E o BC indicou que é provável uma nova elevação da Selic em junho, o que deve levá-la para 13,25%. Ontem, houve pelo menos um alívio pelo banco central americano. Ele acelerou o ritmo de alta dos juros para meio ponto, mas praticamente descartou um passo ainda mais rápido, de 0,75% nas próximas reuniões. Isso ajudou a conter o dólar aqui no Brasil.

A inflação no país vem sofrendo pressões de vários lados. Da economia internacional, há o choque nos preços agrícolas pela guerra entre Rússia e Ucrânia e as novas medidas de lockdown na China, que afetam as cadeias de produção, com impacto nos produtos industriais. A expectativa de aumento dos juros nos EUA e o risco de desaceleração da economia chinesa reverteram parte dos ganhos que as moedas de países exportadores de commodities, como o real, tiveram no primeiro trimestre.

Vinicius Torres Freire: Arrocho de juros vai longe

Folha de S. Paulo

Autoridade monetária afirmava que aperto monetário ia acabar neste mês. Não deu.

O arrocho vai continuar, como era previsível. O Banco Central aumentou a taxa básica de juros, a Selic, de 11,75% para 12,75% ano, como havia jurado em meados de março. Mas, então, muito otimista, dissera que a onda de aperto terminaria neste mês.

Não vai dar.

Haverá pelo menos mais um aumento, na reunião de 15 de junho, a não ser que a paz baixe na Ucrânia, chova maná do céu e o coronavírus desapareça da China —e olhe lá.

Para quanto vai a Selic? Para começar, provavelmente a 13,25%, no mês que vem e a 13,75% em setembro. No mínimo.

O próximo governo vai começar com um peso ainda maior nas costas. Se disser muita bobagem na campanha e na "transição", pode arruinar suas possibilidades de sucesso logo de cara.

O maior aperto de juros desde 2013-2015 só acaba quando termina, escreveu a direção do BC no comunicado da sua decisão desta quarta-feira: "... é apropriado que o ciclo de aperto monetário continue avançando significativamente em território ainda mais contracionista" ... "até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas".

O arrocho vai até que a expectativa de inflação de 2023 volte para a meta. Tem chão ainda.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

Lula deveria expor suas propostas com clareza e detalhes

O Globo

Um dos efeitos deletérios da decadência do debate político no Brasil — resultado dos atos e palavras de Jair Bolsonaro — é abaixar o sarrafo nas exigências dos demais candidatos. É um equívoco. Todas as falhas, independentemente de quem seja o autor, precisam ser apontadas. O Brasil que vai às urnas no final do ano precisa eleger alguém capaz de enfrentar desafios nada triviais. Precisão no diagnóstico e clareza de propósito são exigências para todos os postulantes.

Nos dois quesitos tem sido decepcionante o desempenho do líder nas pesquisas e principal desafiante de Bolsonaro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nas vésperas de ser lançado oficialmente pré-candidato, Lula deixou claros em entrevista à revista americana Time seu apego ao passado e sua incapacidade de vislumbrar uma saída para os problemas presentes e futuros do Brasil.

Questionado sobre seus planos para a economia — área crítica em qualquer governo —, voltou a tergiversar, como tem feito em suas manifestações recentes. Deu duas respostas sem substância. Afirmou que não discutiria o assunto antes de ganhar a eleição e que basta examinar seus dois mandatos para saber o que vem pela frente. Ora, tais declarações ignoram que uma das maiores preocupações dos eleitores no atual momento diz respeito à economia e que Brasil e mundo passaram por transformações profundas desde que ele saiu da Presidência. Mais detalhes são necessários — e rápido.

Ainda na entrevista à Time, Lula se mostrou desorientado com a cena global. Foi sensato ao defender a transição gradual para uma matriz energética limpa (ele não apoia o fim imediato da exploração de petróleo como o esquerdista colombiano Gustavo Petro) e o resgate do protagonismo brasileiro nos temas ambientais. Ao mesmo tempo, sua posição sobre outros temas internacionais foi desastrosa. Negou-se a chamar o venezuelano Nicolás Maduro de ditador e afirmou que o ucraniano Volodymyr Zelensky era tão culpado quanto Vladimir Putin pela guerra na Ucrânia. São dois absurdos.

Poesia | Vladimir Maiakóvsk: "Eu"

 

Música | Verônica Ferriani e Gian Correa: O que é, o que é (Gonzaguinha)

 

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Opinião do dia - Antonio Gramsci*: Liberalismo

“A formulação do movimento do livre-câmbio baseia-se num erro teórico cuja origem prática não é difícil identificar, ou seja, baseia-se na distinção entre sociedade política e sociedade civil, que de distinção metodológica é transformada e apresentada como distinção orgânica. Assim, afirma-se que a atividade econômica é própria da sociedade civil e que o Estado não deve intervir em sua regulamentação.

Mas, dado que sociedade civil e Estado se identificam na realidade dos fatos, deve-se estabelecer que também o liberismo é uma "regulamentação" de caráter estatal, introduzida e mantida por via legislativa e coercitiva: é um fato de vontade consciente dos próprios fins, e não a expressão espontânea, automática, do fato econômico. Portanto, o liberismo é um programa político, destinado a modificar, quando triunfa, os dirigentes de um Estado e o programa econômico do próprio Estado, isto é, a modificar a distribuição da renda nacional.”

*Antonio Gramsci (1891-1937), Cadernos do cárcere, v. 3, p. 47, 3ª edição. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2007.

Vera Magalhães: Jovem, aliste-se!

O Globo

Sim, hoje é o último dia para tirar ou transferir o título de eleitor. Mas isso não é desculpa para não fazê-lo. Nunca foi tão importante que todos aqueles interessados em definir que rumo o Brasil tomará entendam que o caminho para isso começa pelo voto. E parece que os jovens, justamente aqueles cuja vida será mais afetada, e por mais tempo, por decisões dos políticos que venham a ser eleitos ou reeleitos em outubro, estão desconectados dessa realidade.

Pesquisa Ideia Big Data feita para o Jornal Nacional mostra o tamanho do problema: os jovens de 16 e 17 anos se informam sobre política por uma teia desconexa que tem portais, blogs e telejornais, mas também WhatsApp, Instagram, Facebook e até TikTok.

O levantamento mostra uma postura passiva do jovem diante da política: depois de ser impactados por informações que chegam em doses fracionadas por essas fontes heterogêneas e, em grande medida, heterodoxas, eles não se sentem aptos ou motivados a debater e opinar sobre aqueles conteúdos.

As razões são um mix dos dilemas que consomem em alguma medida todo aquele, de qualquer faixa etária, que se aventura no mar bravio das redes: medo de ser cancelado, o tom agressivo do debate e uma sensação de que aquilo que você disser não convencerá ninguém. Nesse cenário, não é de estranhar que tenhamos assistido neste ano ao menor índice de jovens na faixa em que o voto não é obrigatório se inscrevendo para votar.

Bernardo Mello Franco: A omissão do Congresso

O Globo

A era das notas de repúdio ficou para trás. Agora a cúpula do Congresso quer combater o golpismo com declarações apaziguadoras e promessas de acordão.

Ontem o presidente da Câmara, Arthur Lira, defendeu uma “saída negociada” para a crise. Sem citar as ameaças de Jair Bolsonaro à democracia, apresentou-se como um guardião do equilíbrio e da moderação.

“O Legislativo sempre buscou a harmonia e a tranquilidade entre os Poderes”, discursou. Ele elencou duas tarefas para si mesmo: “apaziguar” e “acalmar”. Faltou informar quem precisaria ser amansado.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, foi tomar um cafezinho no Supremo, alvo dos atos bolsonaristas de domingo. Após ser recebido pelo ministro Luiz Fux, saiu recitando platitudes e pregando a paz universal.

Ao ser questionado sobre o conflito aberto entre as Forças Armadas e o Judiciário, o senador tentou desconversar: “Eu não considero que haja uma crise instalada nesse sentido”.

Fernando Exman: O chuchu do PSB é servido com tempero

Valor Econômico

Alckmin defende campanha com foco em economia e saúde

Geraldo Alckmin se prepara para iniciar a terceira fase de um plano que, na visão de quem acompanha de perto seus movimentos recentes, foi meticulosamente preparado.

Nesta etapa preliminar da campanha, primeiro o ex-governador de São Paulo olhou para dentro do seu novo grupo político. Egresso do PSDB, dedicou-se a romper resistências no PT. E a fortalecer vínculos com o PSB, sigla que o acolheu para ser candidato a vice do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Agora, começará a falar para fora. A expectativa é que amplie o diálogo com segmentos que ainda resistem a uma chapa de centro-esquerda, como o eleitorado cristão, o agronegócio, o empresariado e o mercado financeiro. O interior de São Paulo é outra preocupação.

Alckmin deve participar de eventos ao lado de Lula e ter uma agenda própria. Acredita-se que quem está no poder e disputa a reeleição sempre sai na frente. Portanto, é preciso logo transformar a campanha num plebiscito sobre o governo Jair Bolsonaro (PL).

Para integrantes do PSB, Alckmin saiu do PSDB num movimento que simboliza a maturidade política necessária para vencer Bolsonaro e restabelecer a normalidade institucional do país. Algo que ainda é incompreendido por muitos, mas fundamental diante do fato de que a estratégia da extrema direita para ganhar eleições em outros lugares do mundo foi eliminar quem ocupava o centro do tabuleiro.

Tiago Cavalcanti*: O que importa, dogma ou realidade?

Valor Econômico

O contraditório é parte fundamental para o avanço da ciência e é essencial estarmos abertos ao debate

Não sei se o fato é recente ou se no passado também era assim, mas hoje as opiniões se tornam tão rígidas e fortes que nem as evidências objetivas são consideradas. Tudo tende a se tornar dogma, mais similar à religião do que à ciência.

São vários os tópicos que causam discussões inflamadas, sobre os quais opiniões rígidas são formadas. Por exemplo: o papel da vacinação na imunização e transmissão do novo coronavírus; ações humanas causam ou não mudanças climáticas; ações afirmativas diminuem ou não a meritocracia; há ou não racismo na polícia; entre outras questões.

Com a crescente disponibilidade de dados, cada vez mais aumenta a possibilidade de analisarmos a realidade com diversas abordagens estatísticas e potentes computadores. Assim, podemos formar nossas visões com evidências científicas, discutidas e debatidas por um conjunto de especialistas, que sejam replicadas e periodicamente verificadas.

Daniel Rittner: Chega de penduricalho nas tarifas de energia!

Valor Econômico

Conta de luz subiu 117% desde 2013; alta do IPCA foi 70%

Desde 2013, quando a ex-presidente Dilma Rousseff tentou baixar na marra as contas de luz e deu com os burros n’água, a tarifa média de energia subiu 117%. Enquanto isso, o IPCA teve alta acumulada de 70%. O valor do megawatt-hora pago pelo consumidor residencial saiu de R$ 284,67 e foi para R$ 616,64 em 2021, como se lê no Informativo de Gestão do Setor Elétrico, documento anual que é publicado pelo Ministério de Minas e Energia (MME). Neste ano, mais um aumento de dois dígitos: Light (14,68%), Enel Rio (16,86%), Coelba (21,13%), Enel Ceará (24,88%). Até julho estão previstos os reajustes de outras 13 distribuidoras, como Cemig, Copel e Enel São Paulo. Mal dá para curtir o recém-anunciado fim da bandeira de escassez hídrica, adicional tarifário para arcar com o custo bilionário de acionamento das termelétricas.

É hora de pressão política, mas tem que ser do jeito certo. Decretos legislativos, sustando os últimos reajustes, avançam na Câmara dos Deputados com ar de cinismo. A mesma turma que aproveita a tramitação de medidas provisórias para enfiar mais subsídios nas contas de luz agora se vira para dar alguma resposta a eleitores insatisfeitos.

Vinicius Torres Freire: O novo aumento da Petrobras

Folha de S. Paulo

Preços não sobem faz 53 dias, diesel subiu lá fora e imposto menor não adiantou

Quando a Petrobras aumentou o preço dos combustíveis, em 11 de março, houve revolta quase geral, além de faniquitos e azáfamas hipócritas na política. Pouco depois, seria aprovada uma lei para mudar a cobrança do ICMS e o governo federal reduziria a zero o PIS/Cofins sobre o diesel. No dia 28 de março, Jair Bolsonaro demitiria o general Silva e Luna da presidência. Depois do fiasco da nomeação de um substituto, José Mauro Coelho assumiu o comando da petroleira em 14 de abril.

Eram grandes a agitação, a demagogia e a besteirada.

O que aconteceu com o preço dos combustíveis? Nada. Quer dizer, não baixou. Bidu. Ficaram mais altos. A mexida nos impostos não deu em nada. A convulsão durou tanto quanto tretas de redes sociais.

Bruno Boghossian: Bolsonaro já mudou 0 Supremo

Folha de S. Paulo

Tribunal entrou no jogo do presidente com reações tímidas, excessos e condescendência

O ciclo liderado por Donald Trump pode ter produzido um abalo histórico na Suprema Corte dos Estados Unidos. Com três nomeações, o ex-presidente construiu no tribunal uma maioria que se mostra disposta a reverter o direito ao aborto no país, derrubando um entendimento que está de pé há quase 50 anos.

Governantes populistas costumam tratar as instituições —incluindo o Judiciário— como campos de batalha políticos. Trump conseguiu transformar a Suprema Corte do país numa máquina capaz de lhe oferecer vitórias nessa trincheira. Jair Bolsonaro busca um caminho parecido. Até agora, o brasileiro não conta com maioria no STF, mas seu governo já foi capaz de mudar o tribunal.

Mariliz Pereira Jorge: Vai ter golpe

Folha de S. Paulo

Bolsonaro só pensa nisso, e nunca haverá o Brasil que nos foi prometido

Saudade da época de poucas certezas. A minha única era que "amanhã é um novo dia". Parece-me, hoje, uma mistura de ingenuidade juvenil com crença na imortalidade, mas um tanto de boçalidade. Não faço ideia de como não morri lá atrás, não apenas uma vez, mas inúmeras delas, tal a certeza de que amanhã teria sempre um novo dia.

Mas se, de um lado, eu dava como certo que, fizesse chuva ou sol, o amanhã estaria ali na curva do horizonte, do outro lado, o que girava a roda da vida era um redemoinho de incertezas —e isso não era ruim. O futuro sem respostas, mas cheio de possibilidades, é ainda mais bonito do que um novo amanhecer.

Luiz Carlos Azedo: Silêncio de Fux desanuvia a crise

Correio Braziliense

O discreto posicionamento do presidente do STF, durante o recrudescimento dos ataques de Bolsonaro ao Supremo, foi muito questionado pelos próprios pares, mas ajudou a distensionar o ambiente político

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, reuniu-se ontem com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD), e com o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira. Os encontros tiveram o claro propósito de desanuviar o clima de tensão existente entre a Corte e os demais Poderes, em razão do caso do deputado Daniel Silveira, cuja condenação à prisão foi perdoada (graça) pelo presidente Jair Bolsonaro e, também, das declarações do ministro Luís Barroso sobre o posicionamento das Forças Armadas em relação à segurança das urnas eletrônicas.

O discreto posicionamento de Fux durante o recrudescimento dos ataques de Bolsonaro ao Supremo foi muito questionado pelos próprios pares, nos bastidores da Corte, mas ajudou a distensionar o ambiente político, ao menos por enquanto. Após o encontro com Pacheco, o STF distribuiu nota na qual afirma que ambos estão comprometidos com “a harmonia entre os Poderes, com o devido respeito às regras constitucionais”. Ao sair do encontro, Pacheco falou:

“O que nós não podemos é permitir que o acirramento eleitoral — que é natural do processo eleitoral e das eleições — possa descambar para aquilo que eu reputei como anomalias graves e se permitir falar sobre intervenção militar, sobre atos institucionais, sobre frustração de eleições, sobre fechamento do Supremo Tribunal Federal. Essas são anomalias graves que precisam ser contidas, rebatidas com a mesma proporção a cada instante porque todos nós, todas as instituições, têm obrigações com a democracia, com o estado de direito, com a Constituição”, disse o presidente do Senado, conciliador.

A conversa do ministro da Defesa com o presidente do Supremo, porém, foi antecedida por uma ostensiva demonstração de alinhamento do Exército com o presidente Bolsonaro, que participou da reunião com o Alto Comando da Força pela manhã, ao lado do general Paulo Sérgio. Depois, ambos foram para o Ministério da Defesa. Os dois eventos não constavam da agenda oficial de Bolsonaro, que explora o esgarçamento das relações da cúpula militar com o Supremo, agravadas pelas declarações de Barroso, na semana passada.

Vera Rosa: Um biombo para ofuscar a ‘joinha’ no MEC

O Estado de S. Paulo

Faz duas semanas que Bolsonaro só aumenta a crise com o STF, enquanto o desemprego e a inflação corre soltos

A queda de braço entre o presidente Jair Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal é chamada nos bastidores do Planalto de “gambito da rainha”, uma jogada de mestre no xadrez. Além de emparedar o STF, a “rasteira” dada por Bolsonaro na Corte serve como biombo para esconder escândalos de corrupção do governo. E um desses fios desencapados está justamente no Ministério da Educação.

Seis dias depois do indulto presidencial ao deputado Daniel Silveira – que ameaçou bater com um “gato morto” em ministros do STF –, a Comissão de Educação do Senado tentou ouvir Darwin Einstein Lima, o engenheiro que atuava como consultor do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação.

Dono de uma empresa que fechou contratos com prefeituras atendidas pelo FNDE, Darwin recebeu R$ 2,4 milhões para facilitar a liberação de recursos a municípios maranhenses, como mostrou o Estadão.

Sérgio Praça*: O governo está longe de ser miliciano

O Globo

Uma das acusações mais graves contra o presidente Jair Bolsonaro (PL) afirma que ele comanda um governo “miliciano”. Bolsonaro pode ser considerado odioso por diversos motivos. Seu desprezo pela vida alheia durante a pandemia o coloca num patamar acima dos piores políticos do mundo democrático. Mas chamá-lo de miliciano — como já fizeram Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT) — não é correto.

É preciso primeiro definir “milícia”. Segundo antropólogos como Alba Zaluar e Ignacio Cano, milícias são grupos armados que dominam um território para, ao mesmo tempo, “proteger” e extorquir moradores e empreendedores. São formadas em parte por funcionários públicos como bombeiros ou policiais. Com origem no jornalismo carioca, essa definição é a mais comum no Brasil. É a usada pelo jornalista e cientista social Bruno Paes Manso no premiado “A república das milícias: dos esquadrões da morte à Era Bolsonaro”.

Elio Gaspari: Humberto Barreto, um sertanejo contra a censura

O Globo / Folha de S. Paulo

Morreu na madrugada desta terça-feira o advogado Humberto Barreto. Tinha 90 anos e, pelo seu temperamento, afora os amigos e parentes, poucos lembram que ele foi um dos homens mais influentes da República ao tempo da ditadura. Formalmente, foi o secretário de Imprensa do presidente Ernesto Geisel de 1974 a 1977, quando assumiu a presidência da Caixa Econômica. Na vida real, era uma das pessoas mais próximas de um presidente reservado. Conheciam-se desde os anos 1940. Com sua mulher, Lilian, era eterno parceiro de biriba do casal Geisel e seu vizinho lindeiro em Teresópolis.

Em 1973, quando o amigo foi escolhido para a Presidência da República, estava escalado para a chefia do Gabinete Civil. Mexidas burocráticas fizeram com que acabasse na Assessoria de Imprensa. Ninguém sabia quem ele era, nem ele conhecia jornalistas. Tornou-se não só um assessor poderoso, como um batalhador pelo fim da censura. Entregava ao presidente textos vetados para mostrar os absurdos que a tesoura praticava, e as portas de sua sala ficavam abertas para os repórteres. Como Geisel evitava jornalistas, ele avisou, logo nos primeiros meses de governo: “Se eles têm lepra, sou o diretor do leprosário”.

Eram tempos difíceis, e Humberto Barreto navegou-os com calma sertaneja. Em outubro de 1975, quando o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado no DOI de São Paulo, reservadamente, ele contestava a versão oficial do suicídio: “O presidente nem precisava falar para mim que não acreditava na versão do suicídio. Bastava ver as fotos”.

Cristovam Buarque*: Escravismo persistente

Correio Braziliense

Na próxima semana, faz 134 anos da Abolição, mas a escravidão continua mantida por sua última trincheira: a desigualdade na qualidade da escola

Em 1850, o deputado baiano Silva Guimarães teve a estranha ideia de propor lei declarando livres os filhos das escravas nascidos a partir daquela data. A proposta foi obviamente arquivada porque era inconcebível romper o princípio jurídico de que o ventre da escrava pertencia ao seu senhor. Além disso, o recém-nascido era negro, não fazia sentido declará-lo livre sem alforria individual proclamada por seu dono. Cento e setenta anos depois, ainda parece estranha a ideia de pobre estudar na mesma escola de brasileiro rico.

Foi necessário esperar até 1871 para que a ideia do "ventre livre" chegasse ao parlamento com chance de aprovação. Depois de seis meses de debates, a lei foi aprovada por 56 votos contra 47 deputados que se opunham ao que consideravam injusta ilegalidade de "desapropriar os donos e sequestrar os filhos de escravas".

Para conseguir os votos, foi necessário determinar que os filhos só seriam livres ao completar 21 anos, as filhas aos 18. Achando pouco, o sistema encontrou forma de impedir que a lei fosse posta em prática: negar escola aos libertos. Os escravocratas perceberam que o ser humano nasce duas vezes: ao sair do ventre da mãe e ao entrar na escola.

Para abolir a escravidão de uma criança, não basta declarar livre o ventre de sua mãe, é preciso libertar o cérebro da criança ao receber conhecimento para se orientar e usufruir do mundo. O trabalho é servil por compra de escravo ou por negação de educação que assegure a possibilidade do trabalho livre. A Lei do Ventre Livre ficou incompleta por não libertar os cérebros. Os libertos receberam alforria para usar os pés e as mãos, mas não a educação necessária para usufruírem da liberdade.

Bertolt Brecht*: As cinco dificuldades para escrever a verdade

Revista Prosa Verso e Arte

Hoje, o escritor que deseje combater a mentira e a ignorância tem de lutar, pelo menos, contra cinco dificuldades. É-lhe necessária a coragem de dizer a verdade, numa altura em que por toda a parte se empenham em sufocá-la; a inteligência de a reconhecer, quando por toda a parte a ocultam; a arte de a tornar manejável como uma arma; o discernimento suficiente para escolher aqueles em cujas mãos ela se tornará eficaz; finalmente, precisa de ter habilidade para difundir entre eles. Estas dificuldades são grandes para os que escrevem sob o jugo do fascismo; aqueles que fugiram ou foram expulsos também sentem o peso delas; e até os que escrevem num regime de liberdades burguesas não estão livres da sua acção.

1- A CORAGEM DE DIZER A VERDADE

É evidente que o escritor deve dizer a verdade, não a calar nem a abafar, e nada escrever contra ela. É sua obrigação evitar rebaixar-se diante dos poderosos, não enganar os fracos, naturalmente, assim como resistir à tentação do lucro que advém de enganar os fracos. Desagradar aos que tudo possuem equivale a renunciar seja o que for. Renunciar ao salário do seu trabalho equivale por vezes a não poder trabalhar, e recusar ser célebre entre os poderosos é muitas vezes recusar qualquer espécie de celebridade. Para isso precisa-se de coragem. As épocas de extrema opressão costumam ser também aquelas em que os grandes e nobres temas estão na ordem do dia. Em tais épocas, quando o espírito de sacrifício é exaltado ruidosamente, precisa o escritor de muita coragem para tratar de temas tão mesquinhos e tão baixos como a alimentação dos trabalhadores e o seu alojamento.

Quando os camponeses são cobertos de honrarias e apontados como exemplo, é corajoso o escritor que fala da maquinaria agrícola e dos pastos baratos que aliviariam o tão exaltado trabalho dos campos. Quando todos os altifalantes espalham aos quatro ventos que o ignorante vale mais do que o instruído, é preciso coragem para perguntar: vale mais porquê? Quando se fala de raças nobres e de raças inferiores, é corajoso o que pergunta se a fome, a ignorância e a guerra não produzem odiosas deformidades. É igualmente necessária coragem para se dizer a verdade a nosso próprio respeito, sobre os vencidos que somos. Muitos perseguidos perdem a faculdade de reconhecer as suas culpas. A perseguição parece-lhes uma monstruosa injustiça. Os perseguidores são maus, dado que perseguem, e eles, os perseguidos, são perseguidos por causa da sua virtude. Mas essa virtude foi esmagada, vencida, reduzida à impotência. Bem fraca virtude ela era! Má, inconsistente e pouco segura virtude, pois não é admissível aceitar a fraqueza da virtude como se aceita a humidade da chuva. É necessária coragem para dizer que os bons não foram vencidos por causa da sua virtude, mas antes por causa da sua fraqueza. A verdade deve ser mostrada na sua luta com a mentira e nunca apresentada como algo de sublime, de ambíguo e de geral; este estilo de falar dela convém justamente à mentira. Quando se afirma que alguém disse a verdade é porque houve outros, vários, muitos ou um só, que disseram outra coisa, mentiras ou generalidades, mas aquele disse a verdade, falou em algo de prático, concreto, impossível de negar, disse a única coisa que era preciso dizer.

Não se carece de muita coragem para deplorar em termos gerais a corrupção do mundo e para falar num tom ameaçador, nos sítios onde a coisa ainda é permitida, da desforra do Espírito. Muitos simulam a bravura como se os canhões estivessem apontados sobre eles; a verdade é que apenas servem de mira a binóculos de teatro. Os seus gritos atiram algumas vagas e generalizadas reivindicações, à face dum mundo onde as pessoas inofensivas são estimadas. Reclamam em termos gerais uma justiça para a qual nada contribuem, apelam pela liberdade de receber a sua parte dum espólio que sempre têm partilhado com eles. Para esses, a verdade tem de soar bem. Se nela só há aridez, números e factos, se para a encontrar forem precisos estudos e muito esforço, então essa verdade não é para eles, não possui a seus olhos nada de exaltante. Da verdade, só lhes interessa o comportamento exterior que permite clamar por ela. A sua grande desgraça é não possuírem a mínima noção dela.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

Vendilhões da democracia

O Estado de S. Paulo

É estarrecedor que membros de MDB e PSDB, partidos ligados às lutas democráticas, sejam coniventes com Bolsonaro. Por benefícios de curto prazo, transigem com princípios inegociáveis

É triste constatar que a maioria do MDB, partido cuja história está diretamente vinculada à restauração da democracia no País e à Constituição de 1988, não veja problemas em aderir ao bolsonarismo. Segundo revelou o Estadão, se o MDB declinar da decisão de ter candidatura própria ao Palácio do Planalto, a maioria do partido inclina-se por apoiar a reeleição de Jair Bolsonaro. Os dados são de uma sondagem feita pelo MDB entre seus prefeitos, bancadas e delegados eleitos pelos diretórios estaduais.

Ainda que não diminua sua responsabilidade, é preciso reconhecer que o MDB não está sozinho nessa proximidade com o presidente da República que afronta as instituições, põe em dúvida o processo eleitoral e tenta envolver as Forças Armadas em devaneios golpistas. Também parte significativa do PSDB, especialmente na Câmara dos Deputados, não vê empecilhos em alinhar-se ao bolsonarismo. Citam-se os dois partidos por seu histórico de defesa do regime democrático, mas há também outras legendas que tratam Jair Bolsonaro como um útil parceiro.

Observa-se, assim, um nítido decaimento da consciência cívica não apenas em parte da população – há, por exemplo, quem saia à rua para pedir o fechamento da Corte constitucional –, mas da própria classe política. É um nível de retrocesso ainda mais preocupante, pois se dá em pessoas que, pela própria trajetória profissional, deveriam ser especialmente cuidadosas com o regime democrático e as suas instituições. Como um deputado, por exemplo, pode apoiar um presidente da República que questiona, sem nenhuma prova, a lisura das eleições? Como um parlamentar pode apoiar um movimento político que, entre suas causas, defende o AI-5, pede o fechamento do Congresso e postula o retorno da ditadura militar?