sábado, 7 de novembro de 2026

Tsunami azul enfraquece a ultradireita nos EUA, por Marco Aurélio Nogueira*

Revista Será?

A eleição de Lula no Brasil e a dos democratas nos EUA separaram-se por cerca de dez dias, a primeira em 25 de outubro e a segunda em 3 de novembro. Ambas foram comemoradas como conquistas democráticas, embora tenham tido características distintas. E resultaram de posicionamentos eleitorais dominados pela rejeição de candidaturas de extrema direita, Flavio Bolsonaro no Brasil, Donald Trump nos EUA.

Os democratas norte-americanos venceram embalados por um grande repúdio ao governo Trump. Subiram à tona o custo de vida, a inflação, as denúncias de corrupção, os gastos nababescos do governo, as guerras e as intervenções, as ameaças e acusações cruéis contra minorias e imigrantes. As promessas megalomaníacas que Trump fez em 2016 e repetiu em 2024 desmoronaram diante dos fatos eloquentes da vida cotidiana.

A vitória e o desafio dos democratas, por Hubert Alquéres*

Donald Trump pediu aos americanos que votassem nas eleições de meio de mandato como se seu nome estivesse nas urnas. Foi atendido. A derrota republicana de 3 de novembro devolveu aos democratas o controle das duas Casas do Congresso e atingiu estados que pareciam protegidos pela fidelidade ao presidente. As urnas impuseram um limite ao seu poder. Mas seria precipitado confundir esse resultado com o encerramento dos riscos de seu governo.

Os números dão a dimensão da mudança. Até o fechamento das edições de quinta-feira, o bloco democrata tinha 54 cadeiras asseguradas no Senado, contra 44 republicanas, com duas disputas pendentes. Conquistou sete cadeiras antes ocupadas pelos republicanos, incluindo as do Texas, Kansas, Ohio e das duas Carolinas. Na Câmara dos Representantes, já havia conquistado 237 das 435 cadeiras, com a apuração ainda em andamento.

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Revés extremista

Por CartaCapital

O simbolismo da derrota de Trump e dos percalços de Benjamin Netanyahu

Vermelha no Brasil, a onda mudou de cor ao chegar aos Estados Unidos. O azul do Partido Democrata coloriu o mapa da “América” na terça-feira 3 e impôs uma derrota incontestável a Donald Trump. Insatisfeitos com o custo de vida, os rumos da guerra no Irã e a transformação da Casa Branca em um guichê de negócios, os eleitores norte-americanos decidiram impor os primeiros limites aos delírios imperiais de um presidente que havia ultrapassados todas as linhas vermelhas da compostura e da decência. Caberá à oposição entender não só o voto de confiança, mas a responsabilidade de comandar a Câmara dos Deputados e do Senado e oferecer uma alternativa competitiva de poder. Sob Trump, os EUA se tornaram uma ameaça ainda maior à liberdade, ao multilateralismo e à paz mundial. E sem conseguir reverter o lento, porém inexorável, declínio político e econômico do país. Nero moderno, o republicano incendeia a nação e joga a culpa nos outros – nos aliados “incompetentes”, nos “comunistas”, nos imigrantes.

Chantagem macroeconômica, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

O câmbio, refém da volatilidade de capitais, afeta de modo inapelável a determinação dos juros

André Lara Resende, em seu artigo “Eu acuso”, tem o papel importante de restabelecer o debate a respeito das políticas monetária e fiscal e questionar os dogmas do pensamento único. Nosso artigo de hoje tem o propósito de considerar as sugestões oferecidas por André.

Vamos iniciar nosso despretensioso périplo escrevendo sobre o dinheiro, um bicho nervoso, sensível e pragmático. Tem sua própria lógica, vive procurando oportunidades de acumular mais dinheiro. Os “técnicos” no assunto afirmam que o dinheiro não tem ideologia e partido político. Discordamos: na economia monetária-financeira, quem comanda o jogo é a “ideologia” nascida do poder do dinheiro.

Um país para depois da vitória, Celso P. de Melo*

CartaCapital

A experiência de Mandela permite entender por que vencer uma eleição difere de reconstruir uma sociedade

Na noite de 25 de outubro, poucas horas depois de confirmada sua vitória, Lula disse que, encerrada a eleição, já não tinha mais adversários: precisava governar para 215 milhões de brasileiros. Ninguém era obrigado a gostar do presidente eleito, acrescentou, mas ele teria de governar para todos. A frase parece simples. Não é. Uma eleição termina quando os votos são contados. As divisões que revelou não desaparecem na mesma noite. Vencedores e vencidos continuam morando nas mesmas cidades, trabalhando lado a lado e dependendo das mesmas instituições. O adversário derrotado continua sendo cidadão no dia seguinte.

Primavera brasileira, por Pedro Serrano*

CartaCapital

O Brasil vira exemplo de resistência ao avanço da extrema-direita

Não é exagero chamar de épica a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2026. Um dos marcos históricos desse pleito é o de ter sido a primeira vez, desde a adoção do sistema de dois turnos, em 1989, que um candidato acabou eleito após ficar em segundo lugar na primeira votação, feito que a mídia e a sociedade consideravam praticamente impossível.

A maneira pela qual se deu essa virada nas urnas é especialmente memorável. Ela foi fruto de uma grande mobilização nacional, que envolveu sobretudo a juventude do País, tanto nas redes sociais quanto nas ruas, constituindo um espaço único e fluido de troca de ideias e encaminhamento de ações. Um dos aspectos mais comoventes dessas movimentações é, sem dúvida nenhuma, o seu caráter espontâneo, o fato de não terem sido orquestradas por qualquer diretriz oficial de campanha. Essa característica foi constatada desde a primeira das manifestações, ocorrida em 5 de outubro, logo após a divulgação da predominância de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Na ocasião, estudantes da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, saíram às ruas em apoio a Lula de forma orgânica e autêntica. Segundo depoimentos dos próprios participantes, a motivação principal dessa manifestação foi evidenciar que a democracia estaria gravemente ameaçada numa eventual vitória do senador.

Terceiro turno, a batalha da vez, por Roberto Amaral*

A Bolsa de Valores comemorou o resultado do primeiro turno batendo recorde de ganhos, com uma alta de 7,7%, completada com o recuo do dólar em 4%. Os especuladores fizeram sua festa. Contudo, a aposta do mercado, que tinha nome e programa, foi, para alívio do país, derrotada nas urnas na segunda volta, assustando a coalizão financeiro-rentista que capturou o orçamento da União e, por ofício, transfere renda para uma minoria mínima, aprofundando a desigualdade social. 

A reação não se fez esperar: no pregão do dia 26, puniu o voto. O Ibovespa caiu 13,88%, o dólar subiu 8,21% e os juros futuros saltaram para 15,25%.

A revanche do capital não é uma reação conjuntural de operadores, mas a forma política necessária de um capital que não se valoriza pela produção, e precisa submeter a política eleitoral e o orçamento público à sua reprodução. A análise política explicita o movimento: depois de apostar no bolsonarismo e perder, a Faria Lima cobra de Lula o programa derrotado nas urnas. O dito “mercado” não aceita o resultado eleitoral como definição da vontade política; desloca a disputa para o orçamento e para a política monetária, tentando transformar o programa derrotado nas urnas em precondição da governabilidade. 

O indecifrável diálogo entre economia e política, por Marcus Pestana

Quis o destino que eu frequentasse esses dois universos:  o da política e o da economia. Às vezes parece conversa de bêbado – um mar de incompreensões e mal-entendidos. As motivações são semelhantes, mas os caminhos nem sempre se encontram. Toda corporação profissional tem lá sua linguagem complexa e hermética como proteção defensiva de seu campo específico de conhecimento. Data a máxima vênia é a senha dos advogados para barrar o acesso de intrusos à sua órbita de ação. Basta indicar talimogene laherparepvec, identificar um sinal patognomônico ou diagnosticar uma tromboangeite obliterante para um médico demarcar campo com leigos metidos à auto diagnose e automedicação.

La América Latina y la Sostenibilidad: ¿cuáles son las perspectivas y retos? Por George Gurgel de Oliveira*

I. Las Relaciones Sociedad y Naturaleza 

Vivimos tiempos sombríos y de grandes desafíos para la afirmación y la defensa de la democracia, de la Paz y de la sostenibilidad de nuestra América Latina y del planeta.

 La ampliación de la conciencia ambiental a nivel mundial es una necesidad para la construcción de una nueva perspectiva de sociedad que sea democrática y sostenible. Los problemas económicos, sociales y ambientales, tanto mundiales como continentales y nacionales, continúan siendo retos políticos a ser resueltos para la construcción de otra perspectiva de ocupación del planeta por la sociedad humana.

¿Es posible una sociedad mundial sostenible?

La búsqueda de alternativas para la superación de la realidad actual insostenible, reclama la necesidad de construir una nueva agenda para las cuestiones de la sostenibilidad mundial, continental y nacional (Agenda 21, ONU, ECO 92, Agenda 20-30).

Poesia | O Cão Sem Plumas, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Caetano Veloso - EVOCAÇÃO Nº 1, de Nelson Ferreira