quinta-feira, 5 de novembro de 2026

BC não se dobra a pressões políticas, por Alvaro Gribel

O Estado de S. Paulo

Sozinho no combate à alta de preços, BC segue sendo âncora da economia em um cenário de incertezas

O Banco Central decidiu por unanimidade manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, dez dias após o segundo turno das eleições que garantiram ao presidente Lula mais um mandato. A decisão é amparada pelos dados, já que houve uma forte piora das expectativas de inflação. Mais do que os números do mercado, o que pesou foi a projeção do próprio BC, que se descolou do centro da meta.

A atual diretoria demonstrou, mais uma vez, que não está preocupada com pressões políticas, mesmo após dias de debate em torno de uma tese do economista André Lara Resende que defendia cortes e tabelamento da taxa Selic.

A decisão de ontem havia colocado o BC sob um dilema. O órgão poderia reduzir a Selic em 0,25 ponto, com um comunicado duro, sugerindo pausa. Isso ajudaria a diminuir a insatisfação de Lula, que acabou de ser reeleito. Mas esse caminho teria pouco impacto sobre os juros na ponta e ainda levaria o Copom a gastar muita energia para não parecer leniente com a mudança no cenário. A opção foi parar com os cortes e ganhar credibilidade.

No comunicado, as estimativas do BC para a inflação aumentaram para todos os anos.

Subiram de 5,2% para 5,6% em 2026; de 3,9% para 4,7% em 2027; e, o mais importante, de 3,2% para 3,5% no segundo trimestre de 2028, o chamado “horizonte relevante” da política monetária.

Desde a última reunião, o dólar deu um salto de 6,5%, saindo de R$ 5,15 para R$ 5,48, e as projeções do Boletim Focus

Focus se deterioraram. Grande parte dessa piora ocorreu pela vitória de Lula e pelo fato de o presidente ainda não ter dado mostras de que pretende fazer o ajuste fiscal. Ao contrário, o que o Partido dos Trabalhadores tem dito é que a agenda do ajuste foi derrotada nas urnas. Dificilmente o discurso de Lula programado para o próximo domingo terá algum efeito sobre as expectativas.

Os riscos para a inflação aumentaram à frente. Há a implementação do projeto da escala 5 por 2, que pode pressionar a inflação de serviços, e a entrada em vigor da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) – que, por ora, está com uma alíquota de 11,3%, acima do esperado e que pode encarecer produtos –, além do risco de um novo choque nos preços dos alimentos com o El Niño. No setor de energia, governadores anunciaram aumento de impostos sobre os combustíveis.

Sozinho no combate à inflação, o BC continua sendo a âncora da economia em um cenário de incertezas. Resta saber se Lula irá finalmente acordar neste novo mandato e enxergar no Copom um dos seus principais aliados.

 

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