Folha de S. Paulo
Governo e oposição devem recalibrar as
respectivas intensidades na corrida pelo comando do Congresso
Nenhuma das duas forças antagonistas tem
fôlego para sustentar eternamente a dinâmica do conflito extremo
A revisão nos métodos de ação e pensamento
não se impõe só à esquerda na definição do panorama político daqui em diante. A
direita também terá de fazer ajustes de procedimentos para se
manter relevante no papel de oposição.
Nenhuma das duas correntes tem fôlego para sustentar a dinâmica do conflito extremo, que tende a se esgotar com o tempo. Pela ordem natural das coisas, não há ânimos que se mantenham eternamente exacerbados nem energias hiperativas que as circunstâncias não arrefeçam.
A disputa pela presidência do Congresso, que começou antes da posse dos 40 eleitos e 14
reeleitos no colegiado de 81 senadores, já se avizinha como cenário de teste
para uma nova configuração do embate das forças saídas há pouco de uma disputa
eleitoral com perdas e ganhos de parte a parte.
O primeiro turno deu aos oposicionistas a
sensação de domínio do terreno e o segundo conferiu aos governistas estímulo
para recuperar o mando de campo no Parlamento.
É esse o pano de fundo da corrida pela
presidência do Senado,
a Casa mais sensível devido à predominância da direita e das pautas que
emergiram da eleição: anistia aos condenados por tentativa de golpe de Estado e
impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.
Apontados como trunfos da oposição emergente
com os 29 senadores do PL,
esses temas abrem espaço para a adaptação da direita à conjuntura equilibrada
com a derrota na eleição presidencial. O resultado desencorajou adesão a
teorias conspiratórias sobre a lisura do processo e deve desestimular também
mergulhos profundos na agenda inscrita no manual do golpismo.
A oposição precisa da presidência do Senado
para se manter à tona. Pragmática, escolheu duas candidaturas —de Rogério
Marinho (PL-RN) e Tereza
Cristina (PP-MS)— refratárias a extremismos e de perfis
complementares, cujo propósito é o de ir levando devagar os barcos da anistia e
do impeachment de ministros do Supremo.
Não garante êxito, mas significa que o jogo
está em aberto.

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