domingo, 1 de novembro de 2026

EUA, Brasil e a realidade, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O último capítulo da novela Flávio Bolsonaro começou a ser escrito no “esbarrão” do chanceler Mauro Vieira com o secretário de Estado Marco Rubio, na sexta-feira, quando eles abriram o caminho para boas relações entre Brasil e Estados Unidos no quarto mandato de Lula, como impõem a realidade, a diplomacia e o bom senso.

Flávio se deu uma importância que não tinha, passou vergonha para o mundo e logo será apenas um imigrante a mais nos EUA, enquanto o pragmatismo de Lula e Donald Trump entra em ação e os reais interesses dos dois países serão postos na mesa da diplomacia, e não dos negócios, como seria entre Flávio e Trump.

O caminho entre Brasil e o país, aliás, nunca esteve de fato interditado, apesar de Trump sonhar em ser o líder da extrema direita mundial, ouvir Jair, Flávio e Eduardo Bolsonaro daqui e dali e confrontar o Brasil com tarifaços e classificando PCC e CV como terroristas, o que, em tese, pode ter graves consequências.

Mesmo com as trombadas políticas, o trânsito flui. Os dois presidentes se falam e o governo não perdeu contato com Washington. Agora não vai ser diferente, mas com Brasil e Lula em alta, pela vitória, manifestações e repercussão internacional, e EUA e Trump, em baixa, com crise de popularidade e possível derrota na terça-feira.

Quando disse que a eleição brasileira “parecia fraudulenta”, Trump emendou: “Gosto muito do Lula, me dou bem com ele”. Depois, quando chamou de “uma vergonha”, alegou que não tomara partido a pedido de Lula e ia falar com ele. Não são manifestações de quem está caraminholando retaliações.

Outros detalhes: nem Trump nem Milei reconheceram o resultado, mas a embaixada americana admitiu que a vitória de Lula é “definitiva e impressionante”, e a reação do Brasil foi muito diferente diante da Argentina, que ajudou Flávio a fugir, e dos EUA, que, além disso, o acolheram. Enquanto Vieira e Rubio acertavam os passos, ao largo da reunião de chanceleres do G20, em Atlanta, na Georgia, o Itamaraty chamava a representante da Argentina em Brasília para “conversas”, um tradicional protesto diplomático.

A explicação oficial é cândida: dessa vez, o chamado não foi protesto, o intuito é “apurar os fatos” e nem era para vazar. Ok. Mas não seria bom também convidar representantes dos EUA para apurar os mesmos fatos?

Lula 3 e 4 dá de ombros para Milei, afundado em crises, mas com os EUA não se brinca. No palco, o script é um; nos bastidores, a realidade se impõe. A quem interessa colidir por causa do imigrante Flávio ou dos Bolsonaro? Como bem disse Tarcísio ao Estadão, “a eleição acabou; agora, é olhar para a frente”.

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