O Globo
A avalanche que entregou 10 milhões de votos
a mais a Lula foi a verdadeira frente ampla. Não a dos partidos, mas a das ruas
e das redes sociais
Foi épico e educativo. Nunca se viu uma
vitória eleitoral assim. A estratégia do segundo turno não nasceu no comitê de
campanha do presidente Lula.
Brotou nas ruas. Um movimento espontâneo de estudantes em Niterói, que se
espalhou pelo país, comandado por jovens nascidos digitais. Terminou sendo
confirmado pelos mais velhos, que foram votar, muitos levados por seus netos. A
reeleição de Lula tem muito a ensinar sobre tendências, política, comunicação,
sociologia.
Na economia, no primeiro dia, o mercado desabou como era de se esperar. E aí não há mistério. Os operadores estavam com posições montadas para o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro. O desmonte está sendo tão grande quanto a aposta. Durante alguns dias, o mercado continuará assim em queda, depois a volatilidade diminuirá naturalmente, mas deve impactar, por exemplo, os próximos boletins Focus, que refletem as expectativas dos gestores do dinheiro. Seria prudente reduzir incertezas fiscais e econômicas. De fato, existem e precisam ser enfrentadas, com esclarecimento sobre o futuro das contas públicas. Se o dólar ficar em alta por muito tempo, eleva a inflação, a queda das bolsas fragiliza empresas, a instabilidade financeira pode ter consequências adversas e aleatórias.
Na política, o presidente Lula terá que
atravessar um deserto. Ele já fez muitas travessias difíceis. Lula terá que,
para bem governar, construir uma coalizão partindo da situação mais desfavorável
em que já esteve pelo crescimento da oposição direitista. Mas é importante
entender que ele poderá atrair parlamentares dessa base oposicionista para
apoiar diversos projetos do governo. Partidos de direita e de centro-direita
que estavam na campanha de Flávio Bolsonaro, no segundo turno, não
necessariamente ficarão na oposição. Podem eventualmente estar numa coalizão de
governo. Não há coesão ideológica que os ligue ao bolsonarismo. Muitos são
aliados de ocasião.
O que salta aos olhos no quadro partidário
hoje é como o PL vem crescendo, engolindo a direita, o centro, o centrão. O
MDB, que um dia foi o partido que encarnava a luta democrática, viu seu
presidente Baleia Rossi apoiar Flávio Bolsonaro. O candidato Ronaldo Caiado
apoiou Flávio, mas o PSD ficou neutro. Os dois, e vários outros, vêm sendo
espremidos, vendo suas bancadas diminuírem pelo crescimento do PL. O PSD tinha
14 senadores, terá quatro. O MDB elegeu, em 2006, 90 deputados. Vinte anos
depois elegeu 36. Se a direita ou o centro quiserem sobreviver terão que deixar
de ser satélites do bolsonarismo e mover-se para uma posição independente.
O PL, com o tamanho que alcançou, será cada
vez mais beneficiado pelas regras do jogo. Por ter feito uma grande bancada,
recebe a maior fatia dos fundos eleitoral e partidário e grande parte das
emendas. Por isso, terá mais dinheiro para investir na campanha seguinte. Como
o PL é o hospedeiro do bolsonarismo, essa derrama de dinheiro só fortalece o
vírus da extrema direita. Portanto, não é a esquerda que está sob ameaça, é o
centro e a direita que tenha, ou teve, princípios democráticos. Aliás, em um
projeto autocrático, esses partidos estão sob perigo existencial.
A esquerda também tem muito a aprender com o
vendaval de emoções e eventos das últimas três semanas. O próprio Lula disse no
discurso da vitória que tinha aprendido muito com essa campanha. Ela é mesmo de
ser estudada. O que ficou claro é que o movimento que ganhou ruas e redes foi
orgânico, espontâneo e defendia valores que estavam sob ameaça. O mais precioso
deles, a democracia. O pior que o governo pode fazer agora é, na soberba da
vitória, se encastelar.
O que se viu nessa avalanche que entregou 10
milhões de votos a mais a Lula no segundo turno foi a verdadeira frente ampla.
Não aquela formalizada por partidos ou figuras notórias numa foto ou documentos
assinados. Foi muito mais forte, foi movimento. Nas ruas, nos 14 quarteirões da
Paulista, na Candelária, em Copacabana, em Brasília, pelo país inteiro,
inclusive cidades do interior, em todas as redes sociais através de vídeos
criativos e tocantes, o que vimos foi se formar uma corrente de contenção contra
o risco autoritário e o retrocesso. Lula disse que foi a democracia que venceu.
Sim, foi. Como fazer um governo que contenha tantos sonhos espalhados em tantas
praças será o grande desafio dos próximos quatro anos.

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