terça-feira, 27 de outubro de 2026

Um novo Brasil, por Pedro Doria

O Globo

Pela primeira vez em muito tempo, houve um embate político público entre duas grandes ideias de Brasil

Como definimos democracia? Existem dois caminhos. Quando olhamos de cima para baixo, o regime é feito de suas instituições. Os três Poderes operando em sintonia, nenhum ator que abuse da autoridade que tem. Impessoalidade. Por esse ângulo, o Brasil vai mal. Mas há outro jeito de ver, de baixo para cima. Não a democracia dos Poderes, mas a do povo. Uma sociedade engajada, atuante. Atenta. Ciente de que o regime depende dela. Não uma sociedade que diga — “isto é com eles, cuido só do meu”. O contrário. Uma sociedade dedicada ao trabalho comum de construir em conjunto a nação. Vista assim, do chão, da rua, talvez o Brasil esteja bem melhor do que nos habituamos a enxergar. Existe uma saída para nossa crise. Mas nossos líderes a reconhecerão?

Entre os séculos XVII e XIX, quando os filósofos que imaginaram a democracia liberal trabalharam, houve aqueles que pensaram a instituição. John Locke e os limites do governo, o barão de Montesquieu e seus três Poderes, James Madison com os freios e contrapesos. Mas houve um ou outro, como o jovem Alexis de Tocqueville, que chegou aos Estados Unidos nascentes para ver como funcionava aquele regime. Não foram presidente ou burocratas que o impressionaram. Foi a gente das ruas, uma gente que tratava a coisa pública como dela. Reuniam-se em assembleias, participavam de debates intensos. Pensavam, manifestavam o que pensavam, agiam.

Aquilo que vimos, nesta eleição, não é habitual. Pela primeira vez em muito tempo, houve um embate político público entre duas grandes ideias de Brasil. Durante os dois primeiros mandatos de Lula, a esquerda nas ruas foi domesticada, com balão da CUT, sanduíche pago e ala do MST. Na internet, o que havia era imprensa sustentada pelo Planalto. Em 2013, a explosão popular anárquica desaguou na direita sem destino de 2015, que se unificou na forma de bolsonarismo, a partir de 2018. Na era pós-blogs da internet, essa direita monopolizou as redes sociais. Até o fim do primeiro turno, foi assim. Aí, mudou.

O PT envelheceu, ficou obeso, inerte e se perdeu do povo. Esquerda que vive de academia sem povo não para em pé. Mas, no segundo turno, o PT perdeu o controle — e, ao perdê-lo, viu acontecer o que parecia impossível. Foi a sociedade que decidiu ir às ruas. Foi um deputado bronco, sem qualquer história no partido, que pôs num grupo de WhatsApp perto de 10% do eleitorado que compareceu. O bolsonarismo perdeu o monopólio das ruas e do meio digital a um só tempo, entre a primeira e a segunda semana do segundo turno. Houve uma explosão popular.

Nos números das urnas, o que vimos no segundo turno foi o seguinte: as classes A e B não se mexeram. Quem votou em Lula permaneceu, quem escolheu Flávio também. O movimento veio do Brasil mais pobre — as classes C, D e E. Gente que se absteve, votou branco ou nulo escolheu ir de Lula contra Flávio. A memória do que foi o governo Jair Bolsonaro bateu forte para os mais pobres, quando seu filho ganhou a primeira rodada do pleito. Então o brasileiro tomou a decisão de sair de casa, gritar, falar, fazer-se ouvir. Votar. A democracia de Montesquieu vai muito mal. A de Tocqueville está viva.

Na pesquisa Meio/Ideia que saiu na quarta-feira, perguntamos aos brasileiros o que, para eles, queria dizer melhorar de vida. Quarenta e três por cento responderam que era ter o próprio negócio; 32%, ter um emprego CLT, com plenos direitos. É assim em todos os estratos sociais, mais ou menos na mesma proporção, com exceção apenas da classe E. Uma coisa tem a ver com a outra. É uma sociedade muito diferente do Brasil do passado, um povo cuja aspiração não é o concurso público ou a vida protegida pelo Estado. É um povo com gana de crescer, de ser ativo, de controlar o próprio destino.

Ao perceber-se perante a possibilidade de retorno do bolsonarismo, o brasileiro por conta própria foi às urnas apesar do desânimo com o Estado. Os dois recados são igualmente importantes. Aquele com desgosto do primeiro turno, este expressivamente ativo do segundo. O que sustenta uma democracia não são as engrenagens acima. É o desejo de autonomia e a recusa a tiranos abaixo. A visão do Brasil de grandes empresas, com muitos funcionários, guiadas por um Estado grande, forte e que dá direção não corresponde mais ao que o brasileiro deseja. Ele busca um Brasil mais comunitário, de milhões de pequenas empresas, em que as pessoas possam escolher os horários e controlar seus destinos. Sem perder o Estado de bem-estar.

O bolsonarismo foi rejeitado. A incógnita é se o novo Congresso, o Supremo como está e nosso presidente octogenário, filho político da CLT, estão à altura de construir aquilo a que a sociedade aspira.

 

2 comentários:

Mais um amador disse...

Perfeito. Ótima coluna.

Anônimo disse...

Realmente PERFEITO! Gostei especialmente de 2 frases: "O PT envelheceu, ficou obeso, inerte e se perdeu do povo. Esquerda que vive de academia sem povo não para em pé." Assino embaixo.