domingo, 18 de outubro de 2026

O perigo de se depender dos EUA, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O calvário vivido por Volodmir Zelenski em sua história com Donald Trump é completo para analisar como o presidente americano se comporta perante aliados e adversários.

O Brasil vive um contexto diferente da Ucrânia, mas no momento em que se prepara para entrar na órbita americana ou se manter sob a chinesa, a lição é clara: os riscos são severos em ambos os casos.

O amor de Trump pela Rússia e desprezo pela Europa datam de 1987, quando o empresário foi convidado a visitar a União Soviética depois de comprar centenas de televisores para um hotel que estava montando em Nova York em uma loja que era um aparelho da KGB. Ao voltar, Trump gastou US$ 94 mil em anúncios no Wall Street Journal , New York Times e Boston Globe defendendo o abandono dos aliados europeus, japoneses e sauditas.

No seu primeiro mandato, em julho de 2019, Trump pressionou Zelenski a ordenar que o procurador-geral da Ucrânia “cavasse sujeira” de Hunter Biden, filho de Joe Biden, na época conselheiro da Burisma, maior empresa de energia da Ucrânia. Em troca, Trump desbloquearia US$ 391 milhões em ajuda militar ao país, sob ocupação parcial russa desde 2014.

Zelenski resistiu. A gravação da conversa foi tornada pública e a maioria democrata na Câmara abriu o primeiro processo de impeachment contra Trump, rejeitado pela maioria republicana do Senado.

Desde essa época, Trump odeia Zelenski. Em contrapartida, hackers russos quebraram o sigilo da equipe de Hillary Clinton e contas fakes no Facebook da máquina de propaganda do Kremlin atuaram pela eleição de Trump em 2016.

Já na transição, seus assessores estabeleceram contatos com representantes do governo russo. Fazer política externa sem autorização do governo é crime nos EUA, e seis assessores foram processados.

No ano passado, Zelenski resistiu às chantagens do secretário do Tesouro Scott Bessent para assinar um contrato que entregava os minérios ucranianos para os EUA, como a Venezuela de Delcy Rodríguez foi forçada a fazer com seu petróleo.

Agora, Trump firma um acordo de compra do diesel russo e exige que a Ucrânia pare de atacar as refinarias do inimigo, enquanto a Rússia mantém bombardeios devastadores contra alvos civis ucranianos. Zelenski, mais uma vez, resiste.

A dependência ucraniana e europeia da inteligência americana, do sistema de comunicação Starshield e dos interceptadores de mísseis Patriot se torna agora uma imensa fragilidade, com a suspensão dessas ajudas. Tanto a Otan, aliada dos EUA, quanto Zelenski, desafeto de Trump, estão vulneráveis. A lição, portanto, é: goste ou não de Trump, não dependa dos EUA.

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Quem não tem recurso e tecnologia e vive uma guerra moderna, então Tem que depender da China pra fornecer esses equipamentos de guerra inteligência de satélite , que hoje os Estados Unidos fornece a inteligência , é isso Lourival?
a mesma coisa falo do Brasil se não importar a tecnologia dos Estados Unidos vai importar da China que já está tomando conta do país através do PT , isso você não fala