Por Vera Rosa \ O Estado de S. Paulo
Autor do livro ‘Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar’, Marco Aurélio Nogueira vê a democracia no Brasil ameaçada e diz que qualquer candidato eleito para a Presidência, seja Lula ou Flávio, terá de ‘descascar um abacaxi’
BRASÍLIA – O cientista político Marco Aurélio
Nogueira define o atual momento que vivemos como “uma encruzilhada política
paralisante”. No seu diagnóstico, trata-se de uma época na qual a manipulação
de algoritmos domina o mundo e ergue muros. Diante deste cenário, construir
pontes ficou mais difícil.
“Não dá mais para tudo ser resolvido a partir
de um confronto eterno entre o lulismo e o bolsonarismo”, diz Nogueira.
Professor aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e articulista do
Estadão, o
cientista político observa que os democratas precisam reaprender a dialogar.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva errou,
na sua avaliação, ao deixar de lado a frente ampla que ajudou a elegê-lo, em
2022. Na outra ponta, o discurso antissistema do senador Flávio Bolsonaro,
candidato do PL, não reflete uma coesão social sustentável. A terceira via, por
sua vez, não conseguiu sair do acostamento e “virou recheio de um sanduíche”.
Em seu mais novo livro, intitulado Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir,
dialogar, Nogueira trata dos muros que nos dividem e observa que o
cenário atual, com seu dinamismo frenético, acabou trazendo mal-estar.
Questionado se a democracia está sob ameaça, ele não titubeou e encaixou um “sempre” na resposta. “A democracia é aquela planta tenra, que precisa de adubação permanente”, afirmou o professor, citando frase do ex-governador da Bahia Otávio Mangabeira.
No livro “Como melhorar a vida que vivemos”,
o sr. cita as paredes e os muros que nos dividem e a necessidade de construir
pontes. Como fazer isso em um país dividido e com grave crise institucional
como o Brasil?
Eu acho que isso não é um problema que tenha
uma solução de curtíssimo prazo. Ele está sendo decantado na vida brasileira há
muito tempo, em parte por conta da briga política que, numa democracia, é
inevitável. Mas, por outro lado, essa multiplicação de muros tem a ver também
com o modo como a sociedade veio se reorganizando em decorrência da revolução
tecnológica digital. Nós vivemos numa época em que tudo está sendo posto em
dúvida e tudo é motivo de discussão. Os conflitos funcionam como uma espécie de
elixir da democracia. Agora, todas as discussões no Brasil, nos últimos anos,
são de temperatura elevada e acabam se resumindo a um choque entre duas
posições que, seguramente, não refletem a diversidade política dos brasileiros.
Hoje há um estado de indignação geral no
país. Nesse cenário, o discurso “antissistema” e a retórica de mudança colam,
mesmo quando proferidos por alguém que faz parte do sistema. Estamos num beco sem
saída ou numa encruzilhada política?
Nós estamos numa encruzilhada política
paralisante, que tem a ver com essa época de transição que atravessamos, porque
saímos de uma sociedade sólida e entramos em uma sociedade líquida, para falar
como Zygmunt Bauman (sociólogo
polonês). Beco sem saída, do meu ponto de vista, não existe na
história. Alguém sempre encontrará uma porta para sair desse beco escuro e
difícil.
É uma época de transição?
É uma transição, como se nós estivéssemos
vivendo num mundo em que sombras de diferentes épocas se cruzam e convivem. A
encruzilhada é assim: uma mão vem do passado, a outra de uma nova sociedade.
Não dá para apostar numa única direção hoje. Isso explica a confusão das
pessoas, a fragmentação, a dose expressiva de indignação que há no mundo. É
difícil conversar. E aí você pode transferir isso para aquilo que chamam de
mundo da pós-verdade. Cada um tem a sua verdade. Até a ciência está posta em
questão. Você lembra a discussão sobre o aquecimento global? (Diziam:) ‘Ah, não. Não tem crise
climática nenhuma!’. E aí cada tempestade derruba uma cidade. Então, o que está
acontecendo? Os cientistas estão loucos? O que eu chamei no livro de mal-estar
tem a ver com isso. Nós não estamos satisfeitos com nada e não sabemos em que
direção caminhar porque o nosso mundo não tem utopias.
O segundo turno da eleição entre o presidente
Lula e o senador Flávio Bolsonaro tem sido marcado por um confronto que está
atingindo inclusive o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral.
Qual é a solução?
Não dá mais para tudo ser resolvido a partir
de um confronto eterno entre lulismo e bolsonarismo. O processo político
brasileiro sugere uma porta de saída para essa situação de congelamento do
conflito bolsonarismo-lulismo, que é a reativação daquilo que nós, por falta de
melhor palavra, costumamos chamar de campo democrático. Ou seja, liberais,
socialistas, social-democratas, petistas, conservadores democráticos, precisam
receber um choque de advertência de que a dissolução dessa polarização depende
deles. A outra parte depende de uma expansão dos círculos de discussão, do
diálogo entre as pessoas, de uma maior tolerância com relação à diferença.
Mas esse movimento foi tentado na eleição de
2022 por Lula, quando ele convidou Geraldo Alckmin para a chapa. A frente ampla
que derrotou Jair Bolsonaro foi abandonada pelo governo?
Não tenho dúvida. Foi abandonada de dois
modos, inclusive. Um, pela cooptação daqueles que Lula convocou para integrar o
seu governo. Penso aí na Simone Tebet, na Marina Silva, que foram ministras,
não eram do PT e foram simplesmente apagadas durante o governo. Uma outra parte
do problema é que o próprio campo democrático, que teve alguma relevância para
impulsionar a vitória do Lula, acabou por não demonstrar maior interesse em
permanecer como um campo de oposição, no bom sentido da palavra. Uma boa parte das
dificuldades eleitorais da candidatura Lula, hoje, tem a ver com esse
desaparecimento da frente democrática que o ajudou em 2022. Não houve
candidatos de terceira via, vamos chamar assim, que pudessem se alinhar ao
presidente Lula no segundo turno. Os candidatos alternativos eram todos
candidatos que estavam mais à direita do que ao centro. E com isso o Lula
ficou, no segundo turno, falando sozinho com os seus convertidos, tentando
capturar votos.
Caso o presidente seja reeleito, o sr. acha
que esse resgate da frente ampla será necessário para que ele possa governar?
Se o presidente Lula for reeleito, esse
resgate vai ser importante para fazer uma oposição inteligente a ele. Nenhum
governo no mundo pode sobreviver e governar bem se não tiver uma oposição
inteligente. Se a oposição se limitar ao histrionismo bolsonarista, Lula não
governará bem porque a maioria da Câmara e a maioria do Senado serão contrárias
a ele.
As disputas eleitorais no Brasil têm sido
cada vez mais ácidas e sem propostas. Por que a chamada terceira via nunca
consegue emplacar um nome?
O campo democrático brasileiro se fragmentou
de 2014 para frente. Um dos elementos que era referência, o PSDB, simplesmente
desapareceu. E outros partidos também definharam. O PDT, por exemplo, não
atingiu a cláusula de barreira; o próprio PSB não se saiu muito bem. Nas atuais
eleições, a chamada terceira via apareceu como uma espécie de dissidência do
campo bolsonarista. A polarização cresceu de tal maneira que paralisou os
demais atores. Então, a terceira via virou o recheio de um sanduíche. Nós
entramos numa fase social em que a marcação de identidade se tornou uma coisa
muito forte. É a busca por reconhecimento. E isso também ajudou a colocar
antagonismo entre as pessoas. Não é um antagonismo guerreiro, mas um atrito
entre os diferentes grupos religiosos, raciais, étnicos, de gênero e assim por
diante.
O seu livro também trata da manipulação de
algoritmos. Ainda nesta semana, a campanha de Lula reclamou da “seletividade
algorítmica” da Meta, que daria tratamento desigual a ele em relação a Flávio.
A revolução digital está impulsionando um ambiente favorável ao desarranjo
social e institucional?
Com certeza que está. Eu acho que é como se
nós pudéssemos ver nisso uma parte do programa da revolução digital. Hoje nós
somos, em boa medida, guiados pelas plataformas. Quando você quer assistir a um
filme na TV, você é invadido por uma enxurrada de ofertas que acabam por
dificultar a sua escolha. Nós não conseguimos largar o celular, andamos com ele
como se fosse um colar de pérolas preciosas. O tema da soberania nacional,
hoje, se reconfigurou como soberania digital, ou seja, quem controla os dados
tem poder. E nós, seres humanos, não controlamos os dados. A Meta é aliada do
Trump (Donald Trump, presidente dos
EUA), como são as demais plataformas. Pode não ser uma aliança
ideológica, mas é uma aliança pragmática.
Qual é o desafio de uma eleição presidencial
onde a IA tem dominado e produzido vários cenários inverídicos?
Os comandantes da Tropa do Flávio e do
Exército do Lula deveriam parar um pouco para pensar e deixar de produzir tanta
porcaria. É uma coisa horrorosa, agressiva. Eu não sei como isso pode ser
concebido para capturar votos. Apresentar propostas não é uma coisa difícil.
O eleitor de direita não é necessariamente um
bolsonarista. Na sua avaliação, o bolsonarismo é uma força política que veio
para ficar, independentemente da eventual vitória de Flávio Bolsonaro?
Eu acho que sim, mas essa força, que é
expressiva tem algumas carências e uma delas é um partido. O PL não é
propriamente um partido bolsonarista. É uma legenda que está sendo usada pelo
bolsonarismo. Pode acontecer de ele ser ocupado inteiramente pelo bolsonarismo
e virar o partido bolsonarista, com esse nome ou com outro, mas teremos de ver.
A outra coisa é que o bolsonarismo não tem uma coesão social sustentável. O
eleitor básico, ou o admirador do bolsonarista, é um cidadão flutuante. Não
digo que ele seja indeciso, mas ele dança conforme a música. E a música bolsonarista,
que pode ser qualquer coisa com a ideia de mudança conseguiu, nesta eleição,
ser sedutora.
Se Lula perder esta eleição, qual será a consequência para o PT?
O partido ficará obrigado a refletir sobre a
sua própria história porque não encontrar um substituto para o Lula é um
problema grave. Deveria existir um conjunto de lideranças capazes de
desempenhar o papel de candidato tanto aos governos estaduais como ao governo
federal. Mas o PT não se renovou. O mundo mudou e o discurso do PT continuou o
mesmo. Outra possibilidade é que o partido, numa eventual derrota do Lula, se
entregue a um ajuste de contas interno para saber quem foi o culpado pelo
fracasso. E isso poderá redundar num estilhaçamento do PT. As esquerdas, em
momento de crise, sempre tendem a ter dissidências. Não quer dizer que isso vá
acontecer porque o PT também tem a sua própria fortaleza e pode fazer parte
daquele campo democrático (da
frente ampla), sem querer hegemonizá-lo.
O PL terá no ano que vem 121 deputados e 28
senadores. Se Lula for reeleito, como governar com esse Congresso que saiu das
urnas, muito mais conservador que o de hoje, e onde ‘influencers’ derrubaram
antigos políticos?
No governo, Lula conseguiu cooptar alguns
integrantes do Congresso que não eram de esquerda. Ele fez uma composição ali
meio confusa, distribuindo ministérios ao MDB, PSD, União Brasil, PP e assim
foi. É provável que ele tente essa mesma operação no quarto governo, se for
reeleito. O problema é que as possibilidades de atração se reduziram e a força
do PL, somada a outros partidos ali, faz mais da metade da Câmara.
O STF tem responsabilidade por esse cenário
político a que chegamos hoje?
Eu não acho muito bom trabalhar na análise
política com a ideia da culpa. Eu acho que tem responsabilidades, mas não
propriamente culpa. O STF foi sendo redefinido pelas escolhas presidenciais.
Então, o Michel Temer escolheu Alexandre de Moraes, o Lula escolheu o Flávio
Dino, e assim por diante. Esse modo de composição do Supremo é ruim porque os
escolhidos pelos presidentes tendem a se comportar no tribunal como aliados
deles. Nos últimos meses, o espetáculo dado pelo STF foi trágico e patético.
Nunca foi normal na história da Corte um ministro xingar o outro, bater boca,
ameaçar, chamar a Polícia Federal... Isso espirrou na opinião pública e serviu
de combustível para quem via no tribunal a mão do Lula, através do Moraes. O
tribunal acabou fazendo parte do conflito político e influenciou as eleições,
com certeza.
O sr. defende mandatos fixos para ministros
do STF?
Eu acho que hoje seria uma medida saudável
para o país. Seria mais produtivo para o Brasil se os ministros não durassem
tanto tempo, praticamente uma vida inteira, sem nenhum tipo de cerceamento.
Nos últimos dias, o presidente anunciou um
pacote de bondades para os eleitores. Teve a aprovação do fim da escala 6x1, o
perdão da dívida dos microempreendedores individuais, o PIX MEI de até R$ 5
mil. São medidas com impacto fiscal. O que o sr. achou desta iniciativa?
Essa do PIX de R$ 5 mil, por exemplo, é uma
coisa meio escandalosa. É de um oportunismo eleitoral de deixar qualquer um
corado de vergonha. Não sei se isso vai ser transformado em uma palavra solta
ao vento ou se vai ser levado à frente. A mesma coisa em relação às canetas
emagrecedoras. São coisas que, em campanha, os candidatos falam, muitas vezes
no empolgamento do comício, mas que não vão ser levadas à frente pelo absurdo
que contêm. Mesmo essa coisa do perdão das dívidas. Tudo isso é muito justo,
muito generoso, mas tem consequências. O país já está com uma dívida elevada,
com desajuste fiscal complicado. Onde vai parar isso? Como é que se faz uma
reversão ou uma acomodação das coisas em termos de gestão econômica? É um
desafio enorme. Seja quem for o vencedor das eleições, terá que descascar esse
abacaxi.
A democracia está ameaçada no Brasil?
A democracia sempre esteve ameaçada no
Brasil. Ao longo da nossa história republicana ou ela foi escanteada por
golpes, ou reprimida por medidas constitucionais, ou esteve em vigor de uma
maneira frágil, como se fosse aquela planta tenra, que precisa de adubação permanente,
como Mangabeira (Otávio Mangabeira) falou.
E, no contexto atual, ela está de mãos dadas com as demais democracias do
mundo. As democracias hoje, no mundo, estão todas ameaçadas.

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