domingo, 18 de outubro de 2026

O apelo da dignidade, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Falha no primeiro turno não foi a falta de debates, mas a falta da vontade de debater

O rebaixamento nas redes sociais parece prioritário no pleito político; parlamentares da caixa de gargalhadas, com milhões de votos, são epifenômenos dessa aberração

Na fatigante expectativa do segundo turno, especialistas insistem em que problemas nacionais sejam postos em debate entre os dois candidatos e não se confundam campanhas com exposições biográficas. Todo mundo está cansado de saber que Lula, autodeclarado mais sindicalista que de esquerda, representa estabilidade democrática, ideias de povo próspero e soberano. Por vias populistas, sempre "entregou" benefícios sociais.

Mas até os mal-informados também estão cansados de saber que Flávio Bolsonaro tem mais folha corrida do que biografia publicável em 23 anos de vida parlamentar. Supunha-se que um político da ultradireita em ascensão tivesse algo de pertinente a dizer sobre ajuste fiscal ou sobre um benefício qualquer a "entregar", como senha de trânsito no mercado eleitoral. O que ele diz numa hora, desdiz na outra. É um "flatus" ambulante. De concreto, o projeto de tirar o pai da cadeia. Embora possa facilmente entregar o país.

Há cansaço, sim, "fadiga de material". Mas esse "stress corrosion" (jargão técnico de engenheiro para queda estrutural de ponte ou viaduto) também acomete o arcabouço das explicações de macroestrutura. Não que estejam erradas, são apenas abstratas demais, próprias ao entendimento intelectual, porém deslocadas em tempo e espaço para a média compreensão imediata.

E o problema imediato dos debates é que a massa eleitoral parece não querer saber de coisa alguma. A falha no primeiro turno não foi falta de debates, mas demonstração da falta de vontade de debater. Agito é o que balança as redes. Não apenas os 33 milhões que deixaram de votar, mas principalmente aqueles que, polarizados por uma "mudança" engana-vista, aderem à lógica televisiva do Big Brother.

Por pouco caso que disso façam as explicações por frações de classes de consumo, o reality show oferece um simulacro de parte importante do processo eleitoral. No BBB não se trata de saber, mas de polarizar afetivamente. É modelo de um democratismo tão radical que favorece o homem sem qualidades. Ganha o pior, ou seja, aquele que, exatamente por falta de méritos, catalisa por plebiscito a simpatia majoritária. Criticá-lo desperta a emoção reversa da autopiedade: é como dizer "coitadinho de mim mesmo", tão semelhante.

O rebaixamento nas redes sociais parece hoje prioritário no pleito político. Parlamentares da caixa de gargalhadas, com milhões de votos, são epifenômenos dessa aberração. Mas o pano de fundo conceitual permanece o do reality show, regido pelo ditado latino "qui vult decipi, decipiatur": quem quer ser enganado, seja. No espelho eletrônico, o pobre empreendedor de si mesmo quer se ver como rico, a vítima como carrasco vingador.

Redes, onde versões precedem fatos, são as ruas movimentadas dessa megalópole-BB chamada internet. No Rio, as semimortas pertencem a neopentecostais, traficantes e milicianos. Debater o quê, com quem? Daí repercutir como contra-hegemonia nas redes o eco das ruas ainda vivas: "fascismo não se discute, se destrói", pois "é difícil defender, só com palavras, a vida" (João Cabral). Cabe mesmo a cada brasileiro sentir no peito o apelo da sua dignidade.

 

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