quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Ciro e Marina no jogo

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


A pesquisa do Ibope divulgada ontem traz boas notícias para dois candidatos: Ciro Gomes, do PSB, mostra-se uma alternativa governista à candidatura oficial de Dilma Rousseff. E a senadora Marina Silva, do PV, desponta com consistência como a grande novidade, com potencial até mesmo para disputar o segundo turno, na opinião do presidente do instituto, Carlos Augusto Montenegro.

Como pesquisa é um retrato do momento, e não a certeza no dia da eleição, nada garante que o resultado em 2010 será o mesmo encontrado pela pesquisa CNI/Ibope divulgada ontem. Mas, como ressalta o presidente do instituto, Carlos Augusto Montenegro, “é preciso analisar as curvas” ao longo do tempo.

As curvas de José Serra e de Ciro Gomes são de estabilidade, a de Ciro com viés de alta.

A curva da provável candidata Marina Silva, do PV, é certamente ascendente, e a da candidata do presidente Lula, ministra Dilma Rousseff, claramente de baixa.

A entrada em cena da senadora Marina Silva causou um rebuliço na corrida presidencial, mas até o momento o maior prejudicado com a novidade é o candidato tucano que, embora tenha se mantido em um patamar bastante confortável diante de seus adversários, perdeu a possibilidade de ganhar a eleição no primeiro turno.

Outro ponto importante a notar é que quando o candidato do PSDB passa a ser o governador de Minas, Aécio Neves, não apenas o candidato do PSB, Ciro Gomes, ganha a dianteira, como o número de votos brancos e nulos e os de indecisos cresce muito, chegando a ser, num dos cenários, de 31%.

Quando a ex-senadora Heloísa Helena, do PSOL, sai da disputa, aumentam os votos para todos os candidatos, sendo que Ciro Gomes cresce mais que Dilma e Serra, e Marina fica com o lugar de Heloísa Helena, com 8% dos votos.

Mesmo nos cenários em que Serra aparece na frente como candidato dos tucanos, o índice de brancos e nulos e o de indecisos continua muito alto, em torno de ¼ do eleitorado fica sem se decidir.

Montenegro acha que o de brancos e nulos acaba ficando na média histórica, em torno de 8%, o que deixa quase 16% de votos para se espalharem entre os candidatos.

Boa parte desses pode migrar para a candidatura de Marina, que o presidente do Ibope considera mais consistente do que a de Heloísa Helena, que está nesse patamar de 7% a 8% desde a última eleição em 2006.

Montenegro considera que Marina é mais equilibrada politicamente, e “está está envolvida com uma causa que agrada a todos, o meio ambiente, já foi ministra, é mais centrada”.

Ele lembra que, na eleição de 2006, a ex-senadora “era a válvula de escape do eleitor que estava desiludido com o mensalão do PT, e depois com o caso dos ‘aloprados’”.

Tanto que levou o Alckmin para o segundo turno, e ele teve menos votos, porque os da Heloísa Helena voltaram para Lula. Montenegro acha que Marina está entrando em um outro contexto, e está convencido de que ela “vai mudar essa eleição toda”, mesmo sendo difícil vencer, por ter pouco tempo de televisão.

O presidente do Ibope acha que a queda de Dilma “já é sinal de que as pessoas estão entendendo que o PT sem Lula é uma outra coisa”. Montenegro tem uma tese, defendida há muito tempo, de que, com o mensalão, ficou separado o petismo do lulismo, e ele diz que o que tem 80% de popularidade é o lulismo.

O fato importante nessa pesquisa, ressalta, é justamente esse: a popularidade do presidente Lula continua estável, e a candidatura de Dilma Rousseff descolou-se dele. Ele levou-a a um patamar de cerca de 20%, e ela não se sustentou.

“Como ela é baseada toda em cima do Lula, isso é grave”, analisa Montenegro, para quem “não é absurdo termos mais adiante três candidatos disputando quem vai para o segundo turno: Ciro, Dilma e Marina, podendo até a Dilma ficar no quarto lugar”.

Pela situação de hoje, diz ele, não seria absurdo imaginar que Marina e Ciro podem chegar ao segundo turno.

“Vai depender da força da televisão”, diz.

“Fica difícil para a Marina se ela tiver apenas 1 minuto, ou o Ciro com 3 minutos, mas se eles fizerem algum acordo de televisão, passam a ter chance”, analisa Montenegro.

Se chegarem à conclusão de que Dilma não dá mesmo, os petistas vão buscar outro candidato dentro do seu partido ou apoiam o Ciro, pergunta Montenegro, para quem o PT não tem alternativa viável para essa substituição. “Não se fabrica mais candidato”, adverte ele, que considera que “o PT perdeu todo aquele glamour, todas as lideranças”.

Nos últimos anos, lembra, “só saiu gente do PT, não entrou ninguém de peso”.

Essa pesquisa do Ibope não traz simulações do segundo turno, por ter sido encomendada pela CNI sem essa especificação, mas Montenegro considera que nada mudou em relação à pesquisa feita anteriormente para o PMDB, que deu “uma proporção de 70 a 30 a favor de Serra contra Dilma em votos válidos”.

Em uma próxima pesquisa, Montenegro pretende fazer simulações com a possibilidade de a base governista ter apenas um candidato, — no momento ou Dilma ou Ciro —, mas ele considera difícil que isso venha a acontecer.

Ele considera que o quadro mais provável é o que contrapõe os quatro principais candidatos: Serra, Dilma, Ciro e Marina. “Acho que o Ciro não desiste mais, está provado que ele tem potencial”.

Montenegro causou espanto quando afirmou, em uma entrevista para a revista “Veja”, que Lula não fará seu sucessor.

Ele está refraseando seu ponto de vista: “O que eu digo é que Lula não elege o sucessor do PT”.

Mas, “se der a louca nele de apoiar a Marina, apoiar o Ciro, se o Aécio nesses dez dias sair para o PMDB, o que acho quase impossível, aí ele pode fazer o sucessor”.

Carlos Augusto Montenegro diz que o candidato para ser viável “tem que ter luz própria, ter currículo, já ter disputado eleições. Qualquer candidato teria 14% com o apoio do Lula”.

Os russos estão chegando

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


O resultado da última pesquisa Ibope fotografa o momento em que PT e PSDB testemunham o abalo do jogo muito bem combinado e previsível da disputa plebiscitária entre governo e oposição.

Se era o projeto do presidente Luiz Inácio da Silva pôr sua força à prova, tampouco não desagradava aos tucanos concorrer com Dilma Rousseff, uma candidata inexperiente, cujo atributo mais visível nem é a antipatia pessoal, mas a apatia política.

Estavam ambos confortáveis, na convicção de que a sorte estava lançada de acordo com as regras previamente determinadas, quando a senadora Marina Silva apresenta a candidatura, o deputado Ciro Gomes reafirma a sua e entra em cena a evidência de que faltava um dado fundamental para aquele acerto dar certo: combinar com o eleitorado sempre ávido por novidades.

Os dois principais oponentes foram os que mais perderam. O governador de São Paulo, José Serra, quatro pontos porcentuais; a ministra da Casa Civil, três pontos. Com a agravante, para ela, de ter caído do segundo para o terceiro lugar.

Ultrapassada - pouca coisa em termos numéricos, mas suficiente para provocar um efeito psicológico negativo - por Ciro Gomes, que, em relação à pesquisa anterior, ficou no lucro de cinco pontos porcentuais.

No cenário mais provável, o que põe na disputa Serra, Ciro, Dilma e Marina, o governador tem 34%, o deputado 17%, a ministra 15% e a senadora do PV, 8%.

Ciro ganhou muito, mas, em termos relativos, Marina Silva ganhou mais. É a única sem padrinho e sem "recall" de cargos e eleições anteriores. Se levarmos em conta que Dilma teve quase um ano de exposição diária na companhia de Lula para entrar na casa dos dois dígitos das intenções de votos, os 8% de Marina em um mês de candidatura não assumida, representam um desempenho e tanto.

A rejeição da senadora (37%) beira a marca do pênalti. Segundo os especialistas no tema, candidato com 40% de rejeição dificilmente se elege. Foi o único quesito em que Dilma subiu. Está com exatos 40%. Ciro fica com 33% e Serra com a menor, 30%. Esta poderia ser a boa notícia para o governador, como contraposição à perda na vantagem.

Afinal, ele é conhecido por 66% dos entrevistados. Marina por apenas 18%, Ciro por 45% e Dilma por 32%. De Serra e Ciro um bom naco do eleitorado já conhece qualidades e defeitos. Sobre Marina quase ninguém sabe nada, o que tanto pode apontar para um bom futuro como pode resultar em decepção. Por ora, Marina ainda é um símbolo. E para poucos.

Ciro faz o impetuoso, adversário dos erros e companheiro dos acertos do governo Lula.


Estabelece contraponto com o desempenho anódino dos postulantes da oposição, embora possa a qualquer momento se tornar seu maior inimigo.

Seja como vier a ser, fato é que a campanha presidencial desponta fugir à fórmula elaborada nos laboratórios tucano-petistas. O que, em algum momento, poderá resultar numa circunstancial, mas inusitada aliança.

Aos costumes

O ex-governador Orestes Quércia desembarcou ontem em Brasília para uma conversa com o presidente da Câmara, Michel Temer, também presidente licenciado do PMDB, já agastado com o fato de Temer vir adiando um encontro para tratar do assunto com ele.

Quércia fecha com José Serra, domina a máquina do PMDB paulista, da qual Temer dependeu para se eleger deputado federal em 2006, com a mais modesta das votações entre os eleitos pela legenda.

Em miúdos: para ser vice Michel Temer pode até depender da vontade do PT, mas para ter assegurada a sobrevivência política precisa mesmo é se acertar com o PMDB.

Contrato de risco

Até a concessão de asilo político ao presidente deposto de Honduras, entende-se.

Mas, se o governo brasileiro não impuser limites à ação de Manuel Zelaya dentro da embaixada brasileira, compreendendo também as próprias limitações, vai se tornar parte num conflito que não se resume ao embate entre um presidente constitucional contra um governo golpista.

Trata-se, antes, de um choque entre duas concepções autoritárias forjadas na violência. De um lado o governo de facto impondo a regra do jogo a ferro e fogo e, de outro, o deposto a bordo de seu lema "pátria, restituição ou morte".

Zelaya tem contra ele o Legislativo, o Judiciário, parte considerável da opinião pública e o fato pretender ignorar - ao molde de Hugo Chávez - as outras instituições em nome de um projeto de prolongamento anticonstitucional de permanência no poder.

A maneira de se lidar com essas situações é pela via legal e não por meio da força, isso é ponto pacífico.

Só que não cabe ao Brasil se imiscuir nos meios e modos internos de outro país, muito menos quando o asilado em questão não demonstra dispor de organização e apoio político suficientes para fazer valer seu mandato em termos negociados.

Democracia desorganizada

Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - O presidente Lula recebeu um prêmio em Nova York. Disse que o "Brasil é país de instituições sólidas e democráticas". Sobre democracia, não se discute. Já solidez das instituições é um conceito relativo, sobretudo no aspecto organizacional.

Enquanto Lula continua nos EUA, um documento da Presidência foi divulgado na Câmara, aqui em Brasília. Informa, de novo, que o Planalto guarda as imagens do seu circuito interno de segurança apenas por um prazo médio não superior a 30 dias. A história vai para o lixo porque falta memória no disco rígido do sistema.

Trata-se ainda do episódio do final do ano passado entre a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e a então secretária da Receita Federal, Lina Vieira. Sem imagens, ficou a palavra de uma contra a da outra sobre a existência da reunião na qual o governo teria pedido para "agilizar" um processo a respeito de empresas da família Sarney.

A indigência gerencial nos órgãos públicos é de dar dó. No documento de ontem, o Planalto informava como registra os carros no principal edifício da administração federal: "Os veículos que transportam autoridades, após reconhecidos, não têm suas placas anotadas".

Como é característico nessa cultura da desídia, nenhuma medida foi anunciada para corrigir tamanha esculhambação. O desmazelo não é de hoje, é verdade. Mas a atual gestão já teve tempo suficiente para adotar as ações necessárias. Não custaria nada obrigar todos os órgãos federais a registrar quem entra e sai de prédios públicos.

Outro exemplo é a decisão do Supremo Tribunal Federal, há um mês, determinando a liberação de notas fiscais usadas por deputados para justificar o uso de verbas indenizatórias. A Câmara desdenha do STF. Não cumpre a decisão. Se essas são instituições sólidas, como disse Lula, há um novíssimo conceito sobre solidez na praça.

Governo quer liberdade total

Rosângela Bittar
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Sem Tribunal de Contas da União, seria risonho e franco o mundo do Poder Executivo de uma maneira geral. Incluindo na festa as Estatais, as Universidades, os bancos federais, as instituições diversas que manipulam dinheiro público e também os repassam. Para ficarem estas entidades vulneráveis a uma fiscalização mínima é preciso que aconteça algo quase impossível, a criação de uma comissão Parlamentar de Inquérito que funcione bem e apure de fato denúncias dos desvios de recursos. Os mecanismos de controle interno reaparecem de vez em quando no governo, por espasmos, em períodos de crise. Resta ao contribuinte a confiança de que sua contribuição terá o controle exercido pelo TCU, que é insuficiente e às vezes equivocado, mas é o único e deve ser preservado.

No atual governo houve vários momentos de campanha contra o Tribunal de Contas, depois uns ataques mais diretos, um recuo estratégico nos protestos e um momento, como o de agora, de discrição, que não se sabe quanto vai durar. Transformou-se o TCU em alvo também do Legislativo. Os primeiros, para evitar avaliações incômodas da atuação de gestores que pretendem ter a unanimidade, a favor, do público e da crítica. Quanto aos parlamentares, estão acusando o golpe da transferência de poder que imaginam ter ocorrido quando o Tribunal de Contas passou a dar a última palavra sobre as obras que poderiam ou não ser contempladas no orçamento. Uniram-se à pressão do Executivo.

Com a atribuição de exercer a fiscalização sobre a aplicação de recursos públicos, foi o TCU que abriu, no ano passado, investigação sobre o empréstimo de R$ 4,3 bilhões pelo Banco do Brasil à Oi para a compra da Brasil Telecom. O objetivo do tribunal: verificar se as condições do empréstimo seguiram os padrões de mercado e os critérios técnicos do BB. A auditoria do TCU, que produzirá um relatório a ser votado no fim deste mês, foi criticada como exorbitante. Ao avaliar os procedimentos, o tribunal poderá tão somente pedir correções nas regras do empréstimo, ou, se identificadas irregularidades, aplicação de multas aos responsáveis. Pode ser pouco, mas é algum controle.

Recentemente, auditoria do TCU descobriu irregularidades no planejamento e execução das obras do Arco Rodoviário, no Rio, projeto que levará cerca de R$ 1 bilhão do PAC, o programa de obras do governo federal que tem diversas delas retidas pelo filtro do Tribunal. A fiscalização de obras é uma das atribuições mais pesadas, para a qual o TCU conta com grande estrutura e até um cargo especial, o de secretário de fiscalização.

As joias do PAC, mostrou reportagem de Raymundo Costa e Daniel Rittner, no Valor, não poderiam, a rigor, figurar no palanque de realizações do governo Lula, na campanha de 2010, porque não houve avanços em sua execução. Levantamentos sucessivos mostram que apenas 7% das principais obras do programa foram concluídas, ou seja, execução rasteira. São avaliações que o trabalho do TCU permite fazer.

Falhas de gestão também são ali detectadas. Foi o TCU que descobriu não estar o governo aplicando 18% de sua arrecadação tributária de 2008 em Educação, como manda a Constituição, e identificou sobrepreço e erros em licitações de obras da Petrobras, empresa, por sinal, com pendências em várias auditorias do tribunal, já convidada a ajustar seu falho sistema de concorrência pública.

O programa Bolsa Família, que desperta temor reverencial e afasta avaliações sob pena de seus executores politizarem o debate e acusarem o crítico de querer acabar com a bolsa, é tema de análises frequentes no TCU, que já apontou equívocos no cadastro de beneficiários e fraudes na execução.

A má qualidade gerencial dos programas do governo, já reconhecida até por ministros mais atentos ao que se desenvolve em suas áreas, é a principal causa do péssimo resultado apontado pelas auditorias.

Os parlamentares da aliança governista vêm tentando podar o TCU em suas atribuições de fiscalizar obras. O Executivo está adotando medidas para, apesar dos vetos do TCU, garantir que suas obras, mesmo se declaradas irregulares, recebam recursos. E não se trata de uma reação a um aumento da pressão do tribunal sobre os gestores.

Não é de hoje que o TCU é integrado por políticos, parlamentares que não renovaram seu mandato. A tradição da casa é esta, muitos políticos importantes na história do Brasil passaram por lá: Golbery do Couto e Silva foi ministro do TCU; Etevilno Lins também, Silvestre Peres de Góis Monteiro, Tales Ramalho, Augusto Tavares de Lyra, José Américo de Almeida, Gustavo Capanema, Abgar Renault, Luiz Octávio Gallotti, Clóvis Pestana, Thales Ramalho. Os dois mais importantes diretores da Câmara em diferentes períodos, Luciano Brandão e Paulo Afonso Martins integraram o tribunal.

O Tribunal de Contas da União, previsto na Constituição, não está no sistema Judiciário mas no Legislativo, e deve auxiliar o Congresso na fiscalização financeira, orçamentária, operacional e patrimonial da União e das entidades da administração direta e indireta. Já era previsto na Constituição de 1824 mas desde 1808 foram plantadas suas bases com o Erário Régio ou Tesouro Real Público, criado por Dom João.

O TCU é uma instância de satisfação ao contribuinte quanto ao dinheiro dele arrecadado, e seu quadro de auditores é considerado o que há de melhor no serviço público.

Governos, reconhecem ministros do TCU, não gostam de fiscalização, muito menos de controle. Mais ainda quando são altos os orçamentos gastos a fundo perdido. Quanto mais fiscalização, mais se encontram irregularidades, corrupção e se evidencia a impunidade. As tentativas de enquadrar o Tribunal, neste momento, fazem parte do arsenal preparatório da campanha eleitoral de 2010.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

"Identificação ao PT derrota Dilma"

Heloisa Magalhães, do Rio
DEU NO VALOR ECONÔMICO

A população não quer mais quatro anos de PT sem Luiz Inácio Lula da Silva, avalia o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro. Para ele, a alta popularidade do presidente República não está sendo transferida para a ministra Dilma Rousseff em grande parte devido ao desgaste do PT.

Ao comentar a pesquisa CNI/Ibope divulgada ontem, Montenegro voltou a afirmar que a ministra não tem chance. Para ele, o eleitor cada vez mais vai ficar com o sentimento de que Dilma vencendo serão "quatro anos com as coisas ruins do PT e sem as coisas boas de Lula".

Montenegro diz que, nas últimas eleições, quem estava à frente nessa altura da campanha, acabou levando
. A seguir, a entrevista:

Valor: Não é cedo para tanta certeza de que Dilma não se elege?

Carlos Augusto Montenegro: Lula está tentando fabricar alguém. O PT sofreu desgaste com mensalão e aloprados. O partido perdeu a identidade, a ética, e o charme. O PT mobilizava formuladores de opinião, atores, artistas e estudantes. Tudo isso foi para o saco, acabou. Nos últimos dez anos, o PT só perdeu gente. Erundina, Plínio de Arruda Sampaio, Heloísa Helena, Luciana Genro, Marina, [Fernando] Gabeira. Só se vê gente saindo, ninguém entrando. Outros foram cassados ou se esconderam como [Luiz] Gushiken, [Antonio] Palocci, [José] Genoino, João Paulo [Cunha], José Dirceu. E os que ficaram perderam expressão, como [Aloizio] Mercadante e [Eduardo] Suplicy. O partido não tem liderança e o Lula resolveu inventar uma pessoa. Acho que o Brasil está diferente. É difícil eleger um poste, independentemente dele [Lula] estar muito bem avaliado. Principalmente sendo uma pessoa que nunca participou de eleição que não tem voto, carisma ou simpatia.

Valor: Mas diante do desgaste do PT será que Dilma não seria favorecida exatamente por não ter tido cargo eletivo no PT?

Montenegro: O candidato precisa ter currículo, história. É a primeira vez que Lula não será candidato. Muitas pessoas de baixa renda que melhoraram de vida podem até votar no candidato de Lula por gratidão. Por isso mesmo Dilma tem de 13% a 15% das intenções de voto. Sem Lula, teria 1%. Qualquer um que Lula apoiasse teria 13% a 14% [das intenções de voto] pois é o que pode transferir. A rejeição a Dilma ter chegado a 40% significa que ela anda para trás. Possivelmente, foi o episódio da Receita [Federal, quando a secretária Lina Vieira declarou que ouviu da ministra pedido para apressar investigação em torno da família Sarney].

Valor: O senhor acha que uma pesquisa um ano antes das eleições retrata o quadro para daqui a 12 meses?

Montenegro: Por acaso nas últimas quatro eleições presidenciais quem estava na frente um ano antes, ganhou. Isso aconteceu na segunda eleição de Fernando Henrique Cardoso e nas duas vezes em que Lula venceu.

Valor: Mas na de Fernando Collor foi diferente.

Montenegro: Collor não conta pois foi a primeira eleição presidencial após a ditadura. E ainda: eram 12 candidatos numa eleição. A primeira eleição de FHC também foi diferente pois foi muito influenciada pelo Real. Lula estava na frente, veio o Real e FHC ganhou no primeiro turno. Depois dessa quem estava na frente [um ano antes nas pesquisas] venceu. FHC em 1997, Lula em 2001 e Lula em 2005 exatamente neste período. Não é uma regra, mas hoje é difícil mudar. É preciso fato muito forte para mudar. Dilma não é um fato forte.

Valor: E os 80% de popularidade de Lula? Não contam?

Montenegro: A pesquisa mostra que Dilma está descolada do Lula no sentido negativo. Ele manteve quase intacta a aprovação e Dilma caiu quase cinco pontos percentuais. Se ela estivesse totalmente atrelada a Lula, também estaria na onda ascendente. Ele ficou com uma aprovação exuberante e ela caiu. A questão é se a população quer mais quatro anos de PT sem Lula. Depois do mensalão, teve o petismo e o lulismo. Lula se descolou do PT e ficou acima de tudo. Lula foi uma das coisas boas que restaram do PT. E ele agora vai embora. Quem quer quatro anos de PT sem Lula? Na hora de mudar, o PT está ficando com as coisas ruins e o Lula com as boas.

Valor: O senhor não acha que a pesquisa espontânea, a essa altura, é a que melhor reflete o quadro?

Montenegro: Espontânea funciona como quase certeza de voto, mais perto das eleições, quando o eleitor já sabe quem são os candidatos, o programa de governo, o jingle. Quando se pergunta em quem [o eleitor] vai votar sem citar nome e quando já é difícil mudar o nome de quem vai votar.

Valor: Com a alta aprovação a Lula, qual seria a mensagem que a oposição teria a apresentar?

Montenegro: As pessoas já começaram a entender que não é só Lula que faz o governo. O fato da Dilma estar caindo mostra isso. A maioria da classe média já entendeu que PT e PSDB têm propostas [de governo]parecidas. Lula avançou na área social ou talvez outro avance mais na infraestrutura mas as pessoas já perceberam que o ritmo das coisas não muda. O Brasil estava fadado a crescer e a questão é quem vai atrapalhar. Bandeira do PT tem que ser de continuidade e a do PSDB de manutenção da política econômica que foi de estabilidade e talvez falar de reformas política e tributária. Ninguém vai brigar contra ninguém. O PSDB não vai contra o Bolsa Família. A classe média aumentou e muitos saíram da pobreza mas os ganhos não vão para o PT.

Risco nacional

Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO


A ministra Dilma Rousseff tem razão: nacionalista não é xingamento. O sentimento de amor à pátria é bom. Mas há perigos sobre os quais a ministra não falou: o da manipulação e uso político do nacionalismo; a apropriação pelo governo do sentimento de pátria como se pertencesse a um grupo político. Foi isso que se viu no lançamento do présal e no modelo de exploração.

O histriônico discurso da nova independência do Brasil, as criticas à oposição e o palanque para a sua candidata mostraram que o presidente Lula, já no lançamento do projeto, confundiu pátria e governo.

A modelagem tem um defeito de fabricação que vem exatamente dessa manipulação do sentimento nacional em favor de uma empresa de capital aberto que tem sócios privados. A Petrobras não é o Brasil. É a maior empresa brasileira, mas não pertence a todos os brasileiros.

Tem menos de um milhão de acionistas privados — num país de 190 milhões de habitantes — e os acionistas é que serão beneficiados de forma ilegítima pelo modelo escolhido.

No sistema de partilha, a Petrobras vai receber até cinco bilhões de barris de óleo equivalente sem ter o trabalho de entrar em uma licitação.

Por ter 30% em todas as áreas de exploração ela já entra como a operadora, com poder decisório.

O Brasil não é o grupo político que hoje está no poder. Vantagens concedidas a uma empresa não são transferências de riqueza ao povo. O poder dado a uma empresa de capital misto não é defesa de soberania nacional. O governo faz confusão deliberada.

Essa mistura é explosiva, perigosa, conhecida.

O modelo escolhido para o pré-sal tem outras distorções evidentes. O governo diz que explorar o petróleo em profundezas inéditas é uma atividade sem risco e por isso cria dificuldades, ônus, obrigatoriedades para as empresas participantes.

Se fosse sem risco não teria acontecido o que aconteceu em Tupi, para começo de conversa. A produção diária foi metade da esperada e os testes tiveram que ser suspensos porque o equipamento teve problemas de corrosão ao enfrentar a pressão do fundo do mar. O primeiro fato é normal, o segundo é preocupante, segundo os técnicos.

O governo já discute o gasto do dinheiro de um petróleo que ainda não se sabe como retirar e comemora o petróleo como redenção nacional perpétua numa época em que o mundo está às vésperas de um imposto sobre combustíveis fósseis.

O investidor que vier terá que aceitar as seguintes condições: ser sócio da Petrobras queira ou não, em qualquer área. Ver esse sócio ter o privilégio de receber 30% do negócio. Ter no comando do empreendimento integrantes de uma outra estatal com poder de veto. E isso, se ganhar uma licitação na qual vencerá quem der mais petróleo para o governo. Petróleo que, depois, será entregue à Petrobras. O sócio privado terá o direito de entrar com o dinheiro de investimento, correr riscos, e conviver com uma participação estatal completamente excessiva.

Para ficar mais claro, os consórcios serão formados pela Petrobras, pela PetroSal (ou Petroqualquercoisa) e pelas empresas que ganharem a licitação. O consórcio será administrado pelo comitê operacional, no qual a Petro-Sal terá metade dos integrantes, o presidente, o poder de veto e de voto de qualidade. Portanto, o burocrata da empresa a ser criada que decidirá como, quando e onde furar.

O sistema escolhido pelo governo é estatizante. Isso não tem nada a ver com nacionalismo. Transfere recursos públicos para sócios privados. Isso também não tem nada a ver com nacionalismo.

Cria uma burocracia com poderes excessivos e ingerência em decisões empresariais.

Isso é qualquer coisa menos nacionalismo.

Quando o monopólio foi retirado da Constituição há 14 anos, o governo estabeleceu um modelo que deu certo. Trouxe 50 empresas estrangeiras para o Brasil que investiram bilhões, escolheram em sua maioria — mas não por imposição — a sociedade com a Petrobras, e ajudaram a ampliar as reservas brasileiras. Na época, a Petrobras pediu mais tempo do que os três anos que teve para escolher as áreas nas quais tinha feito investimento.

Recebeu esse prazo a mais e foi assim que chegou às reservas do pré-sal.

A oposição, que governava naquela época, continua demonstrando os sinais agudos de amnésia. Não sabe o que fez, por que fez e o que defende como melhor caminho para o Brasil. O presidente Lula disse que o “companheiro” Serra defende o modelo. E Serra parece ter gostado mesmo porque esteve no lançamento-palanque e nada contestou, exceto a divisão federativa dos impostos. Entre as emendas que o PSDB apresentou está a de distribuir ações preferenciais para as famílias do Bolsa Família. E os pobres que não estão no programa? Ou a oposição já se esqueceu também dos conhecidos problemas do cadastro do Bolsa Família? O Brasil está na seguinte situação: tem uma oposição que não faz oposição e um governo que manipula o sentimento nacionalista da população para ter dividendos eleitorais. Aí é que está o perigo. Não no nacionalismo, mas no uso que se faz dele.

Militância quadrilateral

Marcelo Mário de Melo
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)


1– Para que se conquistem mudanças profundas na república brasileira, sintonizadas com as necessidades da maioria da população e impulsionadas pela sua mobilização, é preciso mudar o padrão atual da militância de esquerda, fundado na absolutização dos processos eleitorais e nos arranjos de cúpula característicos da política tradicional. Nessa construção, coloca-se o desafio de um encontro de contas com o passado recente, recolhendo-se as experiências e análises que fecundam uma nova perspectiva e rejeitando-se aquelas que, à esquerda e à direita, induzem à repetição de velhos erros e alimentam a mesmice.

2 – São abundantes as pesquisas e análises sobre o perfil atual da sociedade brasileira nos seus aspectos econômicos, sociais, culturais, psicossociais, demográficos, regionais, organizacionais - estatais, civis, formais, informais e marginais. Em muitas delas se revelam realidades e vertentes com potencialidade para a geração de novas articulações políticas. Mas esse conhecimento não chega aos arraiais da esquerda. E estabelecer o traço de união é um segundo desafio que se impõe.

3 – A ação militante deve compreender a rejeição da fome, do raquitismo político, da subnutrição cultural e da corrupção visceral, sob o fundamento da elaboração crítica e do desdobramento de propostas em torno de cada um destes aspectos, e considerando as esferas do programa, da estratégia, da tática e da política de organização. Este é o alcance da militância quadrilateral.

4 – A fome, num conceito expandido, refere-se não só ao alimento, mas a todos os tópicos inscritos entre os direitos sociais e as políticas públicas, como emprego e renda, habitação, saúde, educação, cultura, seguridade, etc.

5 – O raquitismo político diz respeito às limitações e deformações que marcam a representação popular e o controle civil nas esferas estatais, nas instâncias e ocorrências da sociedade civil, como o processo eleitoral, a vida partidária, as estruturas sindicais e associativas, os movimentos sociais e comunitários.

6 – A subnutrição cultural, por um lado, expressa o bloqueio à população do acesso aos bens de cultura e a ausência de uma política cultural voltada para assegurá-los, numa rede de equipamentos públicos básicos e obrigatórios, a partir do município, a exemplo do SUS. Os debates culturais de hoje são centrados nas reivindicações dos segmentos da produção cultural, profissional e amadora, individual e grupal, deixando-se ao largo as necessidades e os direitos culturais dos cidadãos. No âmbito da militância, é necessário incrementar o componente teórico na análise e na formação política, a partir do conhecimento da realidade nacional e internacional e da articulação com a intelectualidade de esquerda.

7 – A corrupção visceral caracteriza o tradicional comportamento predatório e corrupto das classes dominantes ante o patrimônio público, à frente das instâncias do poder.

Paralelamente, esses mesmos setores, ao longo da história brasileira, colocando o lixo debaixo do tapete e tentando ocultar os seus rabos de palha, têm levantado a bandeira da moralidade, como forma de desviar a atenção e confundir o debate político, sempre que sentem alguma ameaça aos seus interesses econômicos ou aos seus esquemas políticos. Mas marcando a distância ante esses expedientes, típicos da velha UDN e do udenismo, coloca-se para os militantes de esquerda e socialistas, a exigência inarredável de uma postura vigilante, nítida, exemplar, substanciosa e prática, no que se refere aos bens públicos ou coletivos. O combate à corrupção das classes dominante integra o ideário socialista e não pode ser descartado. A denúncia das mordomias foi um dos componentes da luta democrática contra a ditadura de 1964 e mantém a validade. O peleguismo renitente, enraizado na Era Vargas, precisa ser enfrentado em suas variantes atuais e nas irradiações para além do movimento sindical.

8 – Esta é uma pauta para discussão, traçada em linhas gerais, que requer desdobramentos e especificações. E aí se destaca, entre outros tópicos, a situação da juventude e a sua mobilização política.

» Marcelo Mário de Melo é jornalista, foi militante do PCBR e atualmente assessor da Fundação Joaquim Nabuco

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Amorim perde outra, na Unesco

Deborah Berlinck
Correspondente
DEU EM O GLOBO

A série de derrotas do Itamaraty em eleições para órgãos internacionais, na gestão Celso Amorim, aumentou ontem com a derrota do egípcio Farouk Hosni, candidato apoiado pelo Brasil à direção-geral da Unesco. Ele perdeu para a ex-chanceler e atual embaixadora da Bulgária na França, Irina Bokova.
Hosni era acusado de antissemitismo.

Egípcio perde para búlgara eleição na Unesco

Ex-chanceler, que corria por fora na disputa, surpreende e vence na 5° rodada derrotando candidato apoiado pelo Brasil

PARIS. Farouk Hosni, o candidato egípcio à direção-geral da Unesco (a agência da ONU para Educação e Cultura) que causou polêmica ao admitir ter defendido a queima de livros de Israel das bibliotecas do Egito, foi derrotado ontem por uma candidata improvável: a embaixadora da Bulgária na França, Irina Bokova.

Essa ex-comunista convertida em pró-União Europeia convicta, de 57 anos, que foi ministra das Relações Exteriores da Bulgária e parlamentar, correu discretamente por fora e surpreendeu a todos, obtendo 31 votos contra 27 do comitê executivo da Unesco, formado por 58 países. Bokova ainda vai entrar para a História: será a primeira mulher e a primeira representante de um país do ex-bloco comunista a chegar ao comando da Unesco. Seu nome deverá ser endossado pelos 193 membros da Unesco, na assembleia geral da organização, em outubro.

Brasil se saiu mal, diz excandidato à vaga A eleição foi uma batalha: pela primeira vez, a disputa teve que ir a cinco turnos, com árabes e africanos se aliando ao egípcio, e europeus eliminando seus candidatos e mudando de campo à medida que as controvérsias em torno do egípcio aumentavam.

Emocionada, ela prometeu ontem união.

— Todos os candidatos propuseram boas ideias. Vou usar todas as boas ideias. Vamos trabalhar juntos, porque nunca acreditei em guerra de civilizações — disse.

O Brasil, que derrubou dois candidatos do país para apoiar abertamente o egípcio — oficialmente, para dar uma chance aos árabes, que há muito tempo querem o comando da Unesco — sai mal desta eleição. Esta foi a avaliação de um dos candidatos brasileiros preteridos, Márcio Barbosa, vice-diretor-geral da Unesco. Ele disse que alertou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, dos riscos da candidatura egípcia.

— O Brasil se sai muito mal, porque se alia a países que praticam uma política que não imaginamos como uma democracia — disse, acrescentando que EUA e Japão já consideravam até cortar ajuda a alguns programas da Unesco, caso Hosni tivesse sido eleito.

Funcionários da Unesco se mostram aliviados Para Barbosa, a eleição da búlgara salvou a imagem da Unesco. Com um egípcio que pregou queima de livros israelenses, diz Barbosa, a organização perderia credibilidade nas suas principais vocações: diálogo entre culturas, diversidade cultural e liberdade de imprensa.

— Ela (Bokova) é competente, qualificada, não tem arestas, tem uma vida que todos reconhecem como importante na democracia no país dela, conhece a organização, é simpática e tem tudo para ser uma grande diretora — disse Barbosa.

O candidato derrotado, horas antes da eleição, já pressentia a dificuldade da disputa.

Numa entrevista à televisão egípcia El Hazat, Hosni acusou organizações judaicas de não quererem um árabe no comando da Unesco. E ainda fez críticas à organização: — A forma como a Unesco lidou comigo mostra que está se tornando uma organização política e não uma organização cultural.

Na campanha, o candidato egípcio, ministro da Cultura há mais de 15 anos, e um dos homens mais próximos do presidente egípcio Hosni Mubarak, chegou a pedir desculpas por suas declarações contra israelenses, alegando que foram feitas no calor do conflito entre palestinos e Israel. Mas, nos corredores da Unesco, funcionários não escondiam alívio com a eleição da búlgara.

Câmara aprova 7,7 mil novas vagas de vereador

Isabel Braga
DEU EM O GLOBO

Pela emenda, que agora será promulgada pelo Congresso, posse de suplentes é retroativa a 2008, mas OAB irá à Justiça

BRASÍLIA. A Câmara aprovou ontem, em segundo turno, emenda constitucional que recria mais de 7,7 mil vagas de vereadores no país. Mais uma vez, as galerias estiveram lotadas de suplentes de vereadores, que aplaudiram o resultado e cantaram, de pé, o Hino Nacional: 380 votos sim, 29 votos não e duas abstenções. A emenda será promulgada pelo Congresso, mas a tão sonhada posse dos suplentes não deve se concretizar imediatamente.

O texto aprovado diz que o aumento de vagas retroage ao pleito de 2008, mas a eventual posse de suplentes será contestada na Justiça.

Logo após a aprovação da emenda em plenário, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Ayres Britto, afirmou, mais uma vez, entender que a emenda só valerá para 2012. O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cézar Britto, avisou que, se alguma Câmara de Vereadores insistir em dar posse a suplentes, a entidade entrará com uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) no Supremo Tribunal Federal (STF) questionando a legalidade da medida.

— Se a interpretação dada pelas Câmaras de Vereadores for a de que a lei retroage, vamos entrar no Supremo com uma Adin. Uma lei poderia dizer que não pode mais haver vereadores no país e eles perderem, imediatamente, seus mandatos? Não. Se não pode mais, também não pode menos — disse Britto.

Além de recompor vagas, a proposta aprovada é uma reação à decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que, em 2004, cortou 8 mil vagas de vereadores.

Desde 2004, os vereadores vêm se mobilizado pelo novo aumento das vagas.

Emenda reduz limite de repasses para Câmaras A emenda aprovada ontem irá reduzir os limites percentuais previstos na Constituição de repasse de recursos das prefeituras para as Câmaras de Vereadores. Segundo o texto, hoje as prefeituras repassam entre 5% e 8%, de acordo com a população. O percentual irá variar de 3,5% a 7%.

Ontem, muitos deputados voltaram a destacar nos discursos que a posse dos suplentes não é algo pacífico e imediato.

— Nunca vi PEC para eleger vereador. Quem elege é o povo.

Essa Casa critica a interferência do Judiciário, mas aprova emenda inconstitucional — afirmou o deputado Silvio Costa (PTB-PE), provocando reações indignadas dos que estavam nas galerias.

Os que defendem o aumento de vaga estabelecido na proposta de emenda constitucional (PEC) reagiram e muitos defenderam a aplicação imediata da regra.

— Estamos corrigindo o jogo e valorizando a democracia — afirmou o deputado Fernando Ferro (PT-PE).

— Essa PEC recompõe o número de vereadores reduzido pelo TSE e reduz gastos das prefeituras com as Câmaras de Vereadores — afirmou o relator da emenda, Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP).

Ibope aponta crescimento de Ciro na corrida presidencial

Daniel Bramatti
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ele tem 17% das intenções de voto, ante 34% de Serra e 15% das preferências para Dilma

Na primeira pesquisa CNI/Ibope em que é incluído o nome da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, recém-filiada ao PV, Ciro Gomes (PSB) aparece empatado, em segundo lugar, com Dilma Rousseff (PT) na disputa pela Presidência em 2010. O tucano José Serra (PSDB) lidera, mas com menos do que a soma dos adversários - ou seja, haveria segundo turno se as eleições fossem hoje.

Ciro está em trajetória ascendente desde a pesquisa anterior, feita em junho, conforme indicam dois dos cenários avaliados pelo Ibope - em outros quatro não é possível fazer uma comparação, por causa da recente entrada de Marina na corrida. Nas simulações em que a representante do PV não aparece na lista apresentada aos eleitores, o pré-candidato do PSB sobe cinco pontos de junho para setembro. Com 17%, fica atrás de Serra, que cai de 38% para 34% e empata tecnicamente com Dilma, que passa de 18% para 15%. Quando é Aécio Neves quem aparece como candidato do PSDB, Ciro chega a liderar.

Nos cenários com Marina - os mais prováveis, dada a movimentação política da ex-ministra -, a preferência por Ciro oscila entre 14% e 17%, quando Serra também está na disputa, ou entre 25% e 28%, quando o governador paulista é substituído por seu colega de Minas Gerais.

"A pesquisa foi feita em um momento de boa exposição para Ciro e de desgaste para Dilma", disse o cientista político Carlos Melo, do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa. Ele se referiu ao programa de TV do PSB, exibido em rede nacional no último dia 3, e ao episódio em que Lina Vieira, ex-secretária da Receita Federal, acusou a ministra da Casa Civil de pressioná-la para supostamente favorecer a família Sarney, alvo de investigação do Fisco.

Carlos Melo destacou que uma pesquisa feita com tanta antecedência em relação à eleição serve mais para "definir o grid de largada" do que para indicar favoritos em 2010. Para ele, com o resultado, Ciro se posiciona como possível "plano B" da base governista ou como eventual vice de Dilma - cargo que o PMDB cobiça.

Lúcio Rennó, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), fez avaliação semelhante: "Ciro Gomes fortalece sua posição e se posiciona como uma alternativa viável para a candidatura Dilma dentro do campo governista".

TUCANOS

Apesar de ter reduzido suas chances de uma vitória no primeiro turno, o governador de São Paulo, com índices entre 34% e 35%, permanece em situação confortável na disputa interna com Aécio. O tucano mineiro não passa da terceira colocação nos diferentes cenários e chega a empatar tecnicamente com Marina e Heloísa Helena (PSOL).

Serra e Ciro são os mais conhecidos e os menos rejeitados entre os candidatos. Dilma e Marina, por sua vez, têm alta rejeição e são pouco conhecidas. Os fenômenos estão relacionados, segundo a MCI Estratégia, do cientista político Antônio Lavareda, empresa que assessora a Confederação Nacional da Indústria na interpretação dos dados da pesquisa. "Candidatos menos conhecidos podem apresentar índice de rejeição mais elevado", alerta o relatório que acompanha o levantamento.

Em três meses, os eleitores que disseram não votar "de jeito nenhum" em Dilma passaram de 34% para 40%. No caso de Serra, essa evolução foi de 25% para 30%. Apenas 32% dos eleitores dizem conhecer "bem" ou "mais ou menos" a ministra da Casa Civil. Já o governador paulista é conhecido por 66% dos pesquisados.

PMDB ligado a José Serra pressiona Temer para evitar aliança com Dilma

Cristiane Jungblut e Isabel Braga
DEU EM O GLOBO

Quércia procura Temer e expõe racha no partido sobre eleições de 2010

BRASÍLIA. O grupo do PMDB que apoia a candidatura do governador tucano José Serra à Presidência, liderado por Orestes Quércia, explicitou ontem o racha do partido ao procurar o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), e pressionálo a não antecipar a definição da aliança com a ministra Dilma Rousseff em 2010. Quércia quer adiar a decisão para o próximo ano, quando será realizada a convenção do partido.

A ala governista, comandada por Temer, reagiu e reforçou a mobilização para antecipar a decisão política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a aliança entre PT e PMDB nas eleições presidenciais. No fim da tarde, depois de reunião com Quércia, Temer e o líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), encontraram-se reservadamente com a ministra.

A conversa com Dilma teve também o objetivo de demonstrar que o resultado das pesquisas de opinião que apontam queda nas intenções de voto na ministra não afetou, ainda, o objetivo deste grupo do PMDB de apoiá-la. Temer defendeu a aliança, mesmo diante das cobranças de Quércia que, acompanhado do senador Jarbas Vasconcelos (PE), afirmou não ser hora de assumir compromisso.

O argumento de Temer é que o PMDB é governo, e a tendência é apoiar Dilma ou deixar os cargos que ocupa.

— Estamos em fase de definição, e dei declarações exatamente para buscar definições.

Temos que conversar sobre isso porque outros setores estão conversando — justificou Temer. — O PMDB está no governo, e a tendência natural é apoiar o candidato do governo.

Ou sair do governo.

Diante da declaração de Quércia de que é preciso esperar a convenção do partido, em 2010, disse: — Aí fica aético para o PMDB.

Quércia, Jarbas e o deputado Ibsen Pinheiro (RS) argumentaram a dificuldade de obter apoio de tucanos nos estados. Caso de Minas, onde o governador Aécio Neves deixaria de apoiar a candidatura do ministro Hélio Costa ao governo do estado. Quércia quer, pelo menos, deixar o partido livre, sem aliança formal, como em eleições passadas.

— Viemos ponderar que é precipitado definir agora que candidatos vamos apoiar. Precisamos discutir melhor. Ficou estabelecido novo diálogo, daqui a duas, três semanas. O assunto será definido na convenção, mas podemos ir conversando.

Há muitas mudanças ocorrendo nos diretórios do PMDB. O que deve orientar isso é a realidade dos estados — disse Quércia.

Já Temer citou o apoio de candidatos do PMDB que têm interesse em usufruir a popularidade de Lula.

A reunião de Quércia, Temer, Ibsen e Jarbas, que teve também a presença de Henrique Alves, foi tensa. Temer e Alves deixaram claro que não aceitam esperar a convenção. O líder argumentou que um partido não pode fazer parte do governo Lula e passar a apoiar um candidato da oposição. Ontem, Temer também foi procurado pelo presidente do PT, Ricardo Berzoini (SP), e os dois concordaram que é preciso melhorar o diálogo.

No Rio, Mangabeira se filia ao partido O ex-ministro Mangabeira Unger, da Secretaria de Assuntos Estratégicos, filiou-se ontem ao PMDB do Rio. A presidente em exercício da executiva nacional da legenda, deputada Íris de Araújo (GO), confirmou a filiação.

O ex-ministro ligou dos EUA para aderir ao PMDB.

— Ele (Mangabeira) me ligou ontem, por volta das 11h30m, para comunicar a filiação, que foi feita no domicílio do Rio de Janeiro. O ex-ministro disse que vai me enviar algumas correspondências sobre os planos no partido — afirmou Íris.

Honduras sitia Embaixada do Brasil

DA REDAÇÃO
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Governo golpista corta água e luz de casa onde Zelaya se abrigou; presidente deposto diz que está tranquilo

Forças de segurança do governo golpista de Honduras cercaram a embaixada brasileira no país, onde o presidente Manuel Zelaya, deposto em junho, está abrigado desde anteontem.

Soldados lançaram bombas de gás lacrimogêneo contra cerca de 4.000 manifestantes pró-Zelaya nos arredores da casa, e os manifestantes atiraram pedras. Houve ao menos 20 feridos. De madrugada, o governo cortara água, luz e telefone da embaixada, deixando os 313 presentes na dependência de um gerador a diesel.

O Brasil pediu reunião do Conselho de Segurança da ONU para garantir a segurança de Zelaya. O presidente Lula chamou o governo hondurenho de "golpista" e defendeu negociações por "uma saída democrática". O presidente interino do país, Roberto Micheletti, diz que não invadirá a embaixada.

Em entrevista por telefone a Eliane Cantanhêde, Zelaya afirmou que não combinou com o Brasil sua volta a Honduras e se disse "muito tranquilo".

Honduras sitia Zelaya em missão do Brasil

Forças de segurança dispersam apoiadores do presidente deposto, e embaixada brasileira tem luz, água e telefone cortados

Líder golpista dá garantia de que representação não será invadida; polícia detém 150 pessoas, e ex-chanceler de Zelaya já fala em "mortos"

Apoiadores de Zelaya tentam proteger-se de bombas de gás lacrimogêneo em frente à Embaixada do Brasil; deposto antevê "atos piores, inclusive uma invasão"
Forças de segurança cercaram ontem a Embaixada do Brasil em Honduras, onde o presidente deposto Manuel Zelaya está refugiado desde anteontem, após entrarem em confronto com partidários de Zelaya, que haviam se aglomerado em frente à representação na véspera para comemorar o regresso do mandatário.

Utilizando bombas de gás lacrimogêneo, soldados e policias obrigaram cerca de 4.000 manifestantes pró-Zelaya a deixar os arredores da representação do Brasil em Tegucigalpa e ocuparam prédios contíguos, enquanto helicópteros sobrevoavam o local. Manifestantes reagiram atirando pedras, e ao menos 20 pessoas ficaram feridas.

Durante a madrugada, o governo golpista cortara água, luz e telefone da casa de dois andares que abriga a representação, deixando as estimadas 303 pessoas presentes -depois reduzidas a 70- na dependência de um gerador de energia a diesel.

Ao menos duas bombas de gás lacrimogêneo foram jogadas contra a embaixada brasileira durante a dispersão, mas não houve relatos de feridos.

Em clima de tensão, durante o dia de ontem forças de segurança patrulharam ruas de Tegucigalpa para garantir o cumprimento do toque de recolher decretado pelo governo golpista depois da confirmação da volta do deposto, estendido ao menos até hoje.

Segundo a polícia, cerca de 150 pessoas foram presas por desrespeito ao toque de recolher e por participação em distúrbios -que incluíram ataque a veículos das forças de segurança- e levados a um estádio de beisebol. Foram fechados também os quatro aeroportos internacionais hondurenhos e postos de controle na fronteira.

A emissora pró-Zelaya Canal 36 teve a energia elétrica cortada e não realizava transmissões desde a noite de segunda. Para o governo golpista, a imprensa realiza "terrorismo midiático".

O presidente deposto, que adotou o bordão "pátria, restituição ou morte", disse que o cerco à representação permitia "antever atos piores de agressão e violência, inclusive a invasão da Embaixada do Brasil".

"Sabemos que estamos em perigo. [Mas] estamos dispostos a arriscar tudo, a nos sacrificar", disse Zelaya, que convocou partidários a Tegucigalpa.

O líder golpista, Roberto Micheletti, rejeitou, porém, uma invasão: "Digo publicamente ao presidente Lula, respeitaremos sua sede, porque é terra do Brasil, e nós a respeitaremos".

Micheletti elogiou pedido de Lula a Zelaya para que não promova atos que deem argumentos a uma invasão, mas voltou a cobrar de Brasília que conceda asilo ao deposto -o que Zelaya rejeita- ou então o entregue à Justiça hondurenha para a realização do "devido processo".

O governo Micheletti rejeita a versão de que tenha destituído Zelaya por meio de golpe e acusa o deposto de ter desrespeitado a Constituição do país ao tentar levar a cabo uma consulta para promover referendo junto com a eleição do próximo dia 29 de novembro. Para o governo interino, a medida visava permitir a reeleição de Zelaya.

Em Nova York, a chanceler de Zelaya, Patricia Rodas, disse que "a repressão visa o povo hondurenho" e que, além dos feridos, "já estão por ser confirmadas mortes", entre as quais a de uma criança que aparentemente morreu devido à fumaça causada por gás lacrimogêneo.

Rodas exortou ainda países a restaurar os embaixadores retirados de Honduras, para apoiar o retorno de Zelaya ao poder.

Mediação

Devido ao retorno unilateral de Zelaya, Micheletti deu ainda por encerrada a mediação da crise realizada pelo presidente da Costa Rica, Óscar Arias.

Já os candidatos ao pleito de novembro ofereceram-se ontem como "interlocutores" entre as partes e exortaram Micheletti e Zelaya ao diálogo. O candidato Porfirio Lobo, direitista que havia respaldado o golpe, ameaçou retirar o apoio se o líder golpista não dialogar.

Com agências internacionais

Mozart - Requiem - Karl Bohm

Bom Dia!
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Dr. Felippe Mussi faleceu nesta segunda-feira, em Curitiba

Por: Da Redação
DEU NO PORTAL DO PPS


PPS lamenta morte de Mussi

O presidente nacional do PPS, Roberto Freire, divulgou nesta terça-feira (22) nota de pesar pelo falecimento, em Curitiba, do presidente do Conselho de Ética do partido, o advogado Luiz Felipe Haj Mussi. Confira abaixo a íntegra da carta.

Uma imensa perda

Com a morte do advogado Luiz Felipe Haj Mussi, aos 64 anos, na noite de ontem (dia 21), em Curitiba/PR, o Partido Popular Socialista (PPS) sofre uma imensa perda em seus quadros mais qualificados. Além de ser o presidente do Conselho Nacional de Ética do PPS, à qual lhe dava o brilho de sua inteligência e sensibilidade, além do seu vasto conhecimento do Direito, Mussi era também o companheiro à disposição para qualquer tarefa partidária, fosse ligada à profissão que abraçou como meta de vida, fosse vinculada a qualquer uma das nossas frentes de atividades.

Tendo iniciado sua militância política no movimento estudantil, no final dos anos 60, enfrentou os “anos de chumbo” do regime militar, e já na condição de advogado, na primeira metade dos anos 70, teve participação importante na resistência aos governos militares, lutando pela redemocratização do Brasil e defendendo presos políticos. Destaque-se sua coragem cívica e profissional, quando assumiu o cargo de secretário da Segurança Pública no primeiro governo eleito pelo voto popular, o de José Richa (1983-1986).

Em 2006, tivemos o privilégio de tê-lo como candidato ao Senado, por seu estado natal, o Paraná, levando ao debate, em nome do PPS, a crítica ao que chamava de "coronelismo moderno" - os mesmos grupos políticos se revezam nas posições mais importantes da política estadual há décadas.

Advogado, membro do Instituto dos Advogados do Paraná (IAP), desembargador Federal do Trabalho, Luiz Felipe Haj Mussi foi um estudioso preocupado com a falta de segurança pública. Em artigo recente, publicado num dos principais jornais paranaenses, sobre Municipalização da Segurança, um tema que o apaixonava e que é um dos problemas mais complexos e delicados que temos no país, ele se dizia esperançoso de que “o texto constitucional possa ser modificado para permitir que cada estado da federação organize a sua própria polícia, civil, única, desmilitarizada, hierarquizada, controlada pela comunidade e ciosa da preservação dos direitos civis.”

Mussi, que foi velado no Palácio das Araucárias desde a madrugada, será enterrado hoje, às 17 horas, no Cemitério Parque Iguaçu.

Pessoa de fino trato, de decência, de leveza humana, de fidalguia no seu relacionamento interpessoal, o querido companheiro, que deixou conosco a marca de sua sabedoria, de seu compromisso partidário e de sua lhaneza em nossa convivência - deixa, simultaneamente, um grande vazio de sua presença física, de seu humor. A perda que nos alcança, com impacto, é bem maior, sem dúvida, em seus familiares – esposa, filhos e netos, a quem transmitimos, em nosso nome pessoal e da direção nacional do PPS, as nossas condolências e nossos votos de muita paz.

Brasília, 22 de Setembro de 2009

Roberto Freire
Presidente Nacional do PPS

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Mudança polêmica

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


Um debate ontem na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) mostrou que a mudança do marco regulatório para a exploração do petróleo na camada do pré-sal vai ser mais difícil de ser aprovada do que imagina o governo. A questão técnica está sendo substituída pela disputa ideológica, e nesse campo o governo corre o risco de ver sua base partidária heterogênea se dividir. Os partidos de esquerda que formam o chamado “bloquinho” — PDT, PCdoB, PSB — certamente formarão ao lado do governo, na tentativa de aprovar a mudança de modelo, reforçando o aspecto estatizante da proposta.

Mas a oposição, à frente PSDB e DEM, quase certamente terá o apoio de partidos de centro-direita, como PP, PTB, PR e parte do PMDB, para a manutenção do sistema de concessão. Ou então obrigarão o governo a “negociar” muito essa mudança.

O senador Francisco Dornelles, que faz parte da base política do governo, definiu a situação com objetividade: se colocou contra a mudança do sistema de concessão para o de partilha, como quer o governo, mas garantiu que, se qualquer dos objetivos buscados pelo governo não puder ser alcançado com a legislação atual, ele mudaria seu voto.

E quais são esses objetivos explícitos? Garantir uma “reserva estratégica”, a necessidade de evitar que o Brasil seja um mero exportador de Petróleo; a garantia de que toda a sociedade seja por ele beneficiado e a criação de um fundo de natureza social.

Para Dornelles, o Estado pode, por meio do contrato de concessão, “ter o controle absoluto sobre a exportação do pré-sal, estabelecendo regras referentes a essa exportação”, o que afasta o perigo de o país se tornar apenas exportador de petróleo bruto, sem beneficiá-lo.

O modelo atual também permite o controle estratégico da produção de petróleo.

“O Conselho Nacional de Petróleo (CNPE) é responsável pela velocidade das licitações, e a Agência Nacional do Petróleo (ANP) aprova os planos de produção dos campos a serem explorados”, ressaltou Dornelles.

Já a destinação do petróleo, caso haja situação de emergência, também é estabelecida pelo CNPE e pela ANP. O senador Dornelles, ao defender o modelo atual de concessões, lembrou que a produção de petróleo dobrou na vigência do modelo, passando de cerca de 900 mil barris por dia, em 1997, para mais de 1,8 milhão de barris, em 2007.

E que o montante do bônus de assinatura — que não existe no modelo de partilha, que atingiu quase R$ 2 bilhões em 2008 —, cuja receita está sendo totalmente destinada à União, “seria enormemente ampliado em decorrência da diminuição de risco”.

Uma parcela dos recursos dos bônus de assinatura e das participações especiais pode ser destinada ao Fundo Social, sugeriu Dornelles.

A definição de que a disputa se dará no aspecto ideológico e não técnico foi feita pelo presidente da comissão especial que vai analisar a mudança no marco regulatório, o deputado petista Arlindo Chinaglia, que disse com todas as letras que o objetivo das mudanças, “pelo que está exposto” nas propostas do governo, é aumentar a presença do estado.

Dornelles havia definido sua posição anteriormente, afirmando: “As modificações no marco regulador do petróleo têm sentido contrário à minha visão de organização de Estado. Na realidade, elas se apoiam na concentração de poder nas mãos da União em detrimento de estados e municípios e na ampliação da participação do poder público nas atividades empresariais, com a conseqüente redução da participação do setor privado”.

Essa presença maior do Estado na exploração do petróleo do pré-sal foi um dos temas mais discutidos no painel. O deputado tucano Luiz Paulo Vellozo Lucas chegou a cunhar uma frase — “O governo está estatizando o risco” — ao concordar com o depoimento de alguns técnicos que avaliavam que, no modelo de partilha, o governo tem que assumir integralmente os custos da exploração, ressarcindo-os antes de dividir o resultado.

O fato de o risco de não encontrar petróleo ser bastante reduzido no pré-sal não significa que os custos de exploração sejam pequenos, pois as dificuldades técnicas são grandes.

Pelos cálculos do mercado petrolífero, será necessário um investimento da ordem de US$ 600 bilhões para a exploração do pré-sal, e desse montante nada menos que 30% terão que ser investidos pela Petrobras, se permanecer a determinação do governo de que a petrolífera brasileira tenha uma participação obrigatória de pelo menos 30% de cada campo explorado.

Além da questão constitucional — já que, segundo alguns especialistas, o governo não poderia dar uma concessão à Petrobras ou a qualquer outra empresa sem licitação —, existe o perigo de que a necessidade de garantir os investimentos novos no présal, além dos já existentes, faça a Petrobras ter problemas financeiros no futuro.

Houve um consenso entre os debatedores de que também o fato de a Petrobras vir a ser a única operadora do pré-sal pode prejudicar o desenvolvimento tecnológico. A falta de competividade foi ressaltada pelo deputado Vellozo Lucas como um fator negativo dessa exclusividade para a Petrobras, que, no sistema de concessão, convive com o mercado petrolífero globalizado, trocando informações com outras companhias, absorvendo conhecimento e ampliando suas capacitações técnicas, hoje reconhecidas no mundo inteiro.

Para Dornelles, a discussão do pré-sal começou pelo fim, “muito focada na destinação e repartição de uma receita virtual advinda da complexa exploração do pré-sal”.

Para o senador, a preocupação central deveria estar voltada para os investimentos necessários para à exploração do pré-sal.

O deputado Arlindo Chinaglia acolheu uma sugestão de Vellozo Lucas de que se façam contas e projeções para definir qual dos sistemas é mais eficiente para o país.

Os perigos de Marina

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Pergunte-se a um integrante do comando do PSDB ou a dirigente nacional do PT qual dos dois partidos se sente mais prejudicado com a entrada de Marina Silva na disputa presidencial, a resposta será a mesma.

"Acho que ela tira mais votos de nós", concluem ambos, que só não falam em coro porque a análise é feita em dia e local diferentes. O tucano diz a frase numa terça-feira no bairro Morumbi e o petista a repete na noite de sábado em Higienópolis, em São Paulo.

A coincidência de opiniões não representa uma certeza absoluta. Até que as próximas pesquisas desenhem melhor o comportamento do eleitorado, tanto o PT quanto o PSDB vivem na dúvida a respeito de quem sofre mais perdas com a candidatura "verde".

Que Marina leva desvantagem para um dos lados, todos concordam, já que sua entrada em cena acabou com o plano do presidente de fazer da eleição um plebiscito. Mas ninguém sabe ao certo quem perde mais.

Em princípio, cada um dos lados se sente a maior vítima.

A primeira impressão do PSDB é a de que Marina Silva conquista aquele eleitor decepcionado com o PT e que ficaria com os tucanos só por falta de opção, um contingente nada desprezível com o qual estava contando a oposição.

Já o PT acha que esse mesmo eleitorado poderia hesitar, mas não estava perdido. Antes de Marina aparecer como alternativa, os petistas mantinham a esperança de que, na hora da polarização entre PT e PSDB, prevalecesse a rejeição aos tucanos em geral e ao governo de Fernando Henrique Cardoso em particular.

Com a ex-ministra do Meio Ambiente na disputa, os petistas desiludidos teriam onde desembarcar.

Mas, o fato de reconhecerem de maneira igualitária os danos provocados por uma candidatura do PV não quer dizer que PT e PSDB tenham a mesma visão a respeito de como lidar com a questão durante a campanha.

Os tucanos parecem enxergá-la como uma possível aliada. Já os petistas - os engajados no projeto de Lula para Dilma Rousseff , bem entendido - a veem como uma bomba a ser desarmada, caso suas intenções de voto venham a crescer de maneira preocupante.

Como não é possível cooptá-la - para o posto de vice, por exemplo -, a única opção seria explorar seus pontos fracos. Do ponto de vista do PT, os seguintes: radicalismo na questão ambientalista, defesa inflexível dos movimentos sociais, MST incluído, questionamentos sobre a conduta de dirigentes do PV, identificação religiosa com teses repudiadas pelos "modernos", como a posição dela contra o aborto.

Se Marina crescer muito, há no PT o sentimento de que o PSDB se aliaria ao bombardeio.

Uma das armas tidas como poderosas é a filiação (e militância) do deputado Sarney Filho no Partido Verde. Pensa-se em apresentar a candidata como "companheira" do "filho de Sarney".

Um ato ousado para o partido que salvou o pai de ser processado pelo Senado por quebra de decoro parlamentar.

Além de uma ação de execução complicada essa de "desconstrução" de imagens, pois há sempre o risco - como se viu na disputa pela Prefeitura de São Paulo em 2008 - de o feitiço fazer picadinho do feiticeiro.

Bossa-nova

A nova cruzada de Fernando Henrique Cardoso em defesa da descriminalização da maconha não é vista com tranquilidade no PSDB. A preocupação é que a "causa" possa render prejuízos para a candidatura presidencial do partido.

O governador José Serra preferiria que o ex-presidente não tivesse dado à revista Veja a entrevista da semana, falando sobre o tema. Não falou com ele a respeito, mas pediu que um amigo comum tentasse, com habilidade, demovê-lo.

Soube do fracasso da missão três dias antes da publicação e entregou o caso nas mãos de Deus.

Depende

A escolha do candidato do PT ao governo paulista é uma obra em aberto. Se Lula deixar correr solto, a máquina do partido emplaca o prefeito de Osasco, Emídio de Souza.

Se o presidente impuser sua vontade, ganha a legenda o ministro da Educação, Fernando Haddad. Isso, evidentemente, se Ciro Gomes mantiver sua candidatura a presidente e se as pesquisas qualitativas continuarem a apontar uma alta rejeição ao nome do deputado Antonio Palocci.

Um complicador: o grupo da ex-prefeita Marta Suplicy, que domina a seção paulista do PT, rejeita o nome do ministro da Educação. Avalia que seria arriscado Marta tentar o governo, mas prefere o risco à opção Haddad.

Meirelles na cabeça

A ala do PMDB que vai de PSDB em 2010 torce para ver o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, candidato ao governo de Goiás.

Isso obrigaria o presidente Lula a apoiá-lo e liberaria o palanque de Iris Rezende, até então apalavrado com o PT, para composição com os tucanos.

Reflexões do PT sobre a sucessão

Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Considerada "muito boa" pelos participantes, a última reunião do Diretório Nacional do PT tratou praticamente de todas as dificuldades diante da candidatura da ministra Dilma Rousseff a presidente. Nem por isso deixou de ser uma reunião de cobranças e advertências.

O partido quer que a ministra retome o planejamento inicial feito para a campanha, ou seja, ir atrás do PT e ser a candidata dos petistas e da militância petista. A candidata do Partido dos Trabalhadores e não somente a candidata de Lula.

Dilma vinha de uma agenda acelerada, segundo as reflexões petistas. Então sobreveio o diagnóstico do câncer e, depois do câncer, a ex-secretaria da Receita Lina Maria Vieira, que a colocou sob a suspeita de interferir num processo tributário de interesse da família Sarney. A ministra se retraiu, quando a posição do Diretório Nacional é na direção contrária.

Não se trata propriamente de Dilma fazer campanha e correr o risco de ser impugnada na Justiça Eleitoral. Mas de se aproximar dos movimentos sindicais e dos movimentos sociais e populares. Na sequência, se aproximar dos partidos que compõem a base de sustentação do governo no Congresso.

Em terceiro lugar, mas não menos importante, o PT quer que Dilma ponha o pé na estrada, pois avalia que não basta, para elegê-la, só o prestígio do presidente Lula, as realizações do governo e o cenário cor-de-rosa com que o Palácio do Planalto sinaliza o futuro - até fevereiro, pelo menos, só haveria notícias boas, como queda do desemprego e poços de petróleo.

Em outras palavras, o PT reconhece a avaliação da maioria dos partidos, segundo a qual, para se eleger, Dilma não deve contar apenas com os votos que Lula pode lhe transferir. Ela também tem que entrar com sua cota pessoal. E para que isso aconteça tem que ser a candidata do PT, da base aliada, do movimento sindical e dos movimentos populares.

Foi decidida a criação de duas comissões partidárias. Uma vai traçar as linhas do programa de um novo governo do PT sob o comando de Dilma Rousseff. O argumento é que também não basta dizer que a ministra da Casa Civil vai dar continuidade ao governo do presidente Lula. É necessário dizer o que será essa continuidade e quais são os próximos passos.

A outra será uma comissão eleitoral para discutir os palanques e problemas regionais. E são muitas as dificuldades nos Estados. "Impressionante", no termo usado por um integrante do Diretório Nacional. Em especial no chamado Triângulo das Bermudas (Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais), que concentra 40% do eleitorado.

São Paulo, berço do petismo, não tem um candidato indiscutível. Tem alguns pré-candidatos e uma situação nova, que é a liberação, pela Justiça, do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci (o STF julgou que não havia provas para que ele fosse processado pela quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, como queria o ministério público).

Há sempre o recurso à ex-prefeita Marta Suplicy. E a possibilidade de apoio a Ciro Gomes. O PT trabalha com a informação segundo a qual Ciro disse ao presidente do partido, Ricardo Berzoini, que está à disposição do PT. Mas registra que as articulações do deputado do PSB do Ceará são todas voltadas na direção da Presidência da República.

Com relação a Ciro Gomes, a propósito, o denominador comum no PT é que a vice na chapa de Dilma é tudo o que o deputado quer e tudo o que não pode acontecer, porque isso significaria o fim da aliança com o PMDB.

No Rio de Janeiro a disputa é entre o prefeito de Nova Iguaçu, Lindenberg Farias, e o governador Sérgio Cabral. Conta-se com a intervenção de Lula para a retirada de Lindenberg do páreo. Mas contava-se também, em 2005, que ele retiraria a candidatura do deputado Virgílio Guimarães (PT-MG) em favor da candidatura única petista a presidente da Câmara do ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh - deu Severino Cavalcanti.

O mesmo raciocínio se aplica a Minas Gerais, onde a sucessão estadual está embolada: Hélio Costa (PMDB) quer, Aécio Neves (PSDB) diz que apoia, enquanto os petistas Fernando Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte, e Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social, se engalfinham pela vaga.

O PMDB quer que a aliança nacional com o PT seja anunciada até outubro. O PT avalia que isso é bom e ruim, ao mesmo tempo. É bom porque dá uma linha para a sociedade: PMDB e PT estarão juntos em 2010. É ruim porque definir a coligação antes de acertar os palanques estaduais, implodem a base de sustentação ao governo e a aliança nacional, se amanhã ou depois ocorrer um grave problema regional.

É melhor, portanto, esperar um pouco, resolver as demandas estaduais possíveis e só depois anunciar o acordo nacional.

Na primeira reunião do Diretório Nacional depois do desligamento do partido da senadora Marina Silva (PV-AC), alas mais à esquerda propuseram que o PT recorresse à Justiça para retomar o mandato da ex-ministra do Meio Ambiente.

Aliás, tanto o de Marina como o de Flávio Arns (PT-PR), embora o desligamento do senador tenha ocorrido num cenário diferente: Arns saiu atirando; Marina , "com compostura".

A proposta foi rechaçada. O PT quer ir com calma no que se refere a Marina Silva. Se puder, nem toca no assunto. Se for inevitável, pretende desejar a ela que faça uma boa campanha e que procure colocar no centro do debate a questão do meio ambiente. Isso forçaria o PT a fazer um programa ambiental mais avançado.

No fundo, o PT teme que Marina possa ser vice numa chapa com José Serra. A opinião majoritária, no momento, é que trata-se de uma hipótese improvável. Mas também antes considerava-se pouco provável que ela saísse do PT.

Parece não haver dúvidas, entre os integrantes do Diretório Nacional, que Marina não será uma nova Heloisa Helena (PSOL). Na avaliação dos petistas, quem diria, HH perdeu muito, na eleição presidencial de 2006, por seu radicalismo e por sua agressividade. Marina, ao contrário, seria uma pessoa calma que não afugenta o eleitorado.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

Não precisa exagerar

Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Tudo bem que o advogado José Antônio Dias Toffoli tenha só 41 anos (faz 42 em novembro), pois a idade mínima para ministros do Supremo é 35. Mas, cá para nós, é um ponto a menos, já que ele pode ficar uns 30 anos no mesmo cargo, governo atrás de governo, como ocorre com Marco Aurélio Mello, indicado por Collor.

Tudo bem que Toffoli não tenha currículo brilhante, já que há bons profissionais com pouca densidade acadêmica em várias áreas. Mas, cá para nós, é um ponto a menos ele não ter mestrado nem doutorado, já que foi indicado não para um cargo qualquer, mas para o Supremo, cérebro e alma da defesa da Constituição brasileira.

Tudo bem que Toffoli levou pau para juiz já faz muito tempo, na década de 1990. Mas, cá para nós, é um ponto a menos ele virar ministro da mais alta Corte tendo sido incapaz de ser juiz estadual -não em um, mas em dois concursos.

Tudo bem que Toffoli seja camarada do Lula e do Zé Dirceu, advogado do PT em eleições e advogado-geral da União do governo amigo.

Mas, cá para nós, é um ponto a menos que sua ligação com o partido seja seu grande talento e maior trunfo. Ainda mais porque o mais eletrizante processo tramitando no Supremo é o do "mensalão", que pega petistas de jeito.

E tudo bem que Toffoli tenha duas condenações em primeira instância no Amapá, aparentemente por receber do Estado para defender a pessoa física do então governador.

Afinal, condenações assim sempre podem ser, e estão sendo, revistas. Mas, cá para nós, é um ponto a menos, além de a questão poder parar no STF. Toffoli julgando Toffoli.

Diminuindo daqui e dali, o que justifica Toffoli ser nomeado para a oitava vaga (do total de 11) do STF na era Lula? Será que o Brasil não tem ninguém mais maduro, com sólido currículo, que não tenha tomado bomba para juiz, que seja mais do que só ligado ao PT e que não tenha condenação nenhuma?

Reflexões em voz baixa

Wilson Figueiredo
DEU NO JORNAL DO BRASIL


O presidente Lula não é de pisar fundo no freio, quando entra de mau jeito numa curva fechada, mas de enfiar o pé no acelerador. Dirige perigosamente. Os outros que se cuidem. À maneira de Ademar de Barros, a quem, aliás, superou no número de tentativas de chegar à Presidência da República. “Desta vez vamos”, bradava em vão Ademar. Lula chegou lá na quarta tentativa. O governador paulista ficou pelo caminho, o presidente não disfarça o desagrado de largar o osso.

Por parte de Lula, o ato inaugural da próxima sucessão foi assumir a preferência pessoal pela ministra Dilma Rousseff e soltar as rédeas da candidatura, quando, numa das muitas viagens ao exterior, de passagem pela Itália, confessou ao jornal La Republica que gostaria de ser sucedido, e bem sucedido, por mulher. Para evitar chiliques por perto, o presidente se valeu diplomaticamente de verbos no condicional.

Na Itália, chão da história, Lula – sem ligar o nome ao fenômeno – pressentiu a dificuldade que sobrecarregou a candidatura do general Lott em 1960. O andor ficou pesado. “Vencer não será fácil”, disse Lula com inflexão de falsa modéstia. Se àquela altura já era difícil, mais ainda agora. Ficou mais difícil depois da proliferação de candidaturas que, sem o gene das vitórias inesperadas, têm peso diferenciador no balanço das pesquisas preliminares.

Em política não se luta apenas pela vitória. Derrotas também contam quando se terceiriza a vitória. É do jogo. Lula sabia que o PT acusaria o golpe baixo. As consequências já estão por aí. Para ganhar tempo, adiou mais do que podia o encaminhamento do candidato a vice, à espera da hora favorável para dar caráter plebiscitário à sucessão presidencial. O fato é que, dois mandatos depois, o confronto com os dois mandatos anteriores prometia a Lula garantir o triunfo, mas a expectativa não se materializou. Ninguém se interessa pelas diferenças entre dois presidentes que ficaram devendo ao futuro as reformas negligenciadas, principalmente a reforma política.

Nas últimas semanas, o presidente se deu mal, até nas pesquisas, por não agir no tempo certo. A candidata apareceu antes da hora, a escolha do vice atrasou. Um hiato perigoso. A indicação do companheiro de Dilma não pode deixar de considerar a hipótese médica a que está sujeita a candidatura oficial. A decisão se complicou, e não adianta apenas correr contra o tempo. O PT admite fazer dieta e alimentar-se de rãs, mas engolir sapos ao vivo já excedeu os limites. Está com o PMDB atravessado na garganta. O PT não pesou na escolha de Dilma, mas não abrirá mão do vice. Se ficar à margem, vai precisar de um muro descomunal para os petistas chorarem até o fim dos séculos. Quanto ao PMDB, nem é bom pensar. Já deve estar sentindo a tentação da candidatura própria e com a vaga do vice para terceirizar. Um rebuliço está se armando ao menos como hipótese.

Quando a sucessão começou, pelo efeito das pesquisas na excitação presidencial, Lula fez uma reflexão em voz alta (estava na Itália) e disse que “em política os cenários mudam muito rapidamente, e faltam ainda dois anos”. De fato. Faltavam ainda dois anos, mas agora resta apenas um, insuficiente para acomodar, sem resolver, as dificuldades em torno de Dilma Rousseff. Houve uma aceleração de partículas, que são as outras candidaturas nascidas de desajustes ao longo do caminho e a viabilidade espremida entre opções apertadas.

Faltavam então dois anos, agora ficou apenas um. O prazo encurtou para resolver dificuldades e acomodar interesses multiplicados. O vice vai ser escolhido à luz de hipóteses (médicas e políticas) que, em condições normais, não seriam consideradas. Vices não passam de avalistas fictícios aos quais se recomenda discrição. Repetiu-se com Dilma o caso Lott. Com antecedentes políticos de índole revolucionária, mas de baixa valia num cenário de classe média ascendente. O tom vigoroso do general Lott foi eleitoralmente ineficaz: devolveu o Brasil aos quadros constitucionais vigentes, mas ele ficou para trás e não lhe facilitou a vida com os políticos. Dona Dilma não é de oferecer garantia a feirantes eleitorais.

Ninguém ainda se deu conta do que está embutido na escolha do companheiro de chapa para a candidata. O PMDB mantém dupla personalidade, nenhuma considerada melhor que a outra. O currículo revolucionário de Dilma Rousseff poderia estar politicamente valorizado se os dois mandatos de Lula tivessem transcorrido à esquerda, ainda que para inglês ver, mas à direita, com lantejoulas neoliberais, deixará mal o próprio presidente, assim que se dissipar o efeito mágico. Uma variante apenas próxima da social-democracia não enche os olhos dos cidadãos nem gera mandatos. Veremos.

* Wilson Figueiredo é jornalista.

Ciro no mercado persa

Vinicius Torres Freire
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Ressurreição da candidatura Ciro altera alianças regionais e também o debate político e econômico da eleição de 2010

BASTOU o desempenho eleitoral de Dilma Rousseff deixar de ser excelente para que alguns preços do feirão do PMDB subissem, entre outros desarranjos da feira partidária. Desde sexta-feira passada, Michel Temer, presidente do condomínio ou do camelódromo político peemedebista, voltou a apregoar sua candidatura a vice de Dilma, ameaçada pelo tumulto nas alianças regionais entre seu partido e o lulismo-petismo. Há mais desordem e mais incerteza nas coalizões estaduais não apenas porque Dilma tremelicou nas pesquisas, mas porque desde meados do ano o PSDB (José Serra) resolveu trabalhar sua candidatura no interior do país.

Mais importante, a incerteza sobre Dilma aumentou devido a fatores permanentes: o lulismo-petismo expeliu Marina Silva, o que vitaminou Ciro Gomes.

Ciro é mais do que ele e sua circunstância de "plano B" de Lula. Sua presença na disputa vai desordenar muito mais que o páreo das pesquisas. José Serra e Dilma, apesar de não serem as candidaturas do sonho da grande banca e do empresariado, eram palatáveis e não causam inquietude maior. Ciro é outra história, pois também muito opinionado mas mais imprevisível e ainda desenquadrado nos grandes esquemas da política nacional. De resto, o deputado tem contas antigas a acertar com o PSDB, pode desarranjar rapidamente os acertos do PMDB com Dilma (e outros) e, como "novidade", ainda é uma candidatura que pode tomar vários formatos até o final da campanha, daqui a um ano.

A votação de Dilma nas pesquisas era de fato excelente para uma até ontem desconhecida sem experiência de urna e da demagogia de palco & palanque. Seu desempenho ainda é ótimo. Mas os preços no mercado eleitoral parecem muito elásticos, muito sensíveis, à variação de intenções de voto. Além disso, algumas variações se tornaram mais ou menos permanentes. Dilma perdeu pontos com o "noticiário negativo": currículo falso (317 votos a menos), ausência dos palanques lulianos devido ao tratamento de saúde, o caso Lina Vieira e os efeitos marginais da crise econômica, que morderam a popularidade de Lula (apenas um tico, mas morderam). Dilma deixou de ganhar votos e deve ter perdido alguns com a pré-temporada eleitoral da senadora Marina Silva (PV).

Ficou sem outros tantos devido à ressurreição do deputado federal Ciro Gomes (PSB).Note-se que, ainda em junho, a candidatura cirista ao governo de São Paulo era levada a sério pelo próprio deputado, o PSB encomendava pesquisa, o PT "cogitava" abrir mão de candidatura própria e o domicílio eleitoral de Ciro era assunto.

Foi também entre maio e junho que o PSDB procurou o PMDB para conversas, e que Serra passou a visitar o Nordeste -em junho, fechou acordo com o DEM da Bahia.

Dilma avariada, Marina, Ciro e um PSDB menos letárgico transtornaram de vez alianças regionais, ainda muito abertas e confusas, como o demonstrou Cátia Seabra, ontem na Folha. O fato de o PT ter perdido sua mania exclusivista, a mando de Lula, tornou a situação ainda mais instável, como na Bahia, em Minas, no Paraná, no Rio e em Goiás. Mas a ressurreição de Ciro vai bagunçar mais do que coalizões.

Os riscos dos desdobramentos da crise

Yoshiaki Nakano
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Do pico de nível de atividade econômica, no período pré-crise, atingido em abril de 2008, até o segundo trimestre de 2009, a atual crise provocou uma contração maior no PIB, no comércio mundial e nas bolsas de valores do que a grande depressão dos anos 30. Entretanto, as respostas das políticas monetária e fiscal foram muito mais rápidas e intensas do que nos anos 30. Com isso, tivemos uma rápida e sensível melhora nas expectativas e surpreendente início de recuperação da atividade econômica desde o segundo trimestre na Alemanha, França e no Japão, estabilização nos Estados Unidos e recuperação do crescimento na Ásia.

A rigor a crise financeira iniciou-se nos Estados Unidos e contaminou diretamente os bancos dos principais países desenvolvidos. Nos países emergentes ela foi importada pelo pânico psicológico, revelou-se sem maiores consequências e a desaceleração do crescimento veio da queda nas exportações. A sustentação do crescimento e o seu ritmo dependerão do dinamismo de seu mercado doméstico. Tudo indica que os emergentes estão retomando o crescimento ainda que em ritmo menor.

Algumas grandes questões colocam em risco a recuperação recém-ensaiada nos países desenvolvidos. Ela se sustentará no momento em que os estímulos fiscais forem retirados? O que acontecerá com o seu sistema financeiro enquanto a nova regulação não vem, com uma política monetária fortemente expansionista, que inundou o sistema com abundante liquidez, uma taxa de juros próxima a zero e o retorno das práticas e da especulação financeira?

Com o socorro monumental dado pelo Federal Reserve (Fed, banco central) e pelo Tesouro, o mercado financeiro norte-americano já voltou a operar com as mesmas práticas que desencadearam a crise, as operações de trading no mercado de capitais, gerando grandes lucros e, com isso, os bônus bilionários e a sensação de que a crise financeira já acabou.

No entanto, não é a percepção dos analistas econômicos que sabem que as fragilidades do sistema financeiro não foram removidas e ninguém está prevendo a recuperação da economia em forma de V. Ao contrário, os analistas mais sérios agrupam-se em dois grupos. De um lado, aqueles que acham que a recuperação terá a forma U, mas com base achatada e longa e, de outro, aqueles que acreditam que a recuperação terá a forma de um W. Há fortes argumentos para ambos os grupos.

Aqueles que veem a recuperação em forma de U, com base achatada e longa, apontam que dois choques negativos e persistentes nos países desenvolvidos: choque de queda no consumo, em função da enorme destruição de riqueza financeira e necessária elevação da taxa de poupança das famílias americanas que estavam super-endividadas. O mesmo ocorre na Europa em menor grau; assim, a hipótese de recuperação via exportações está afastada.

Com forte e persistente queda no consumo e nas exportações, a recuperação dos investimentos também é remota. Mais do que isto alguns analistas como Paul Krugman apontam riscos dos Estados Unidos entrarem numa espiral deflacionária, pois as respostas de política econômica tomadas até agora nos Estados Unidos e os desdobramentos da crise estão distantes daquelas tomadas pela Suécia e outros países nórdicos no início da década de 90, que permitiram rápida recuperação econômica. O desenrolar da crise mais se assemelha com o caso japonês em que o socorro do banco central e do tesouro se deu sem simultânea reestruturação do sistema financeiro, como no caso sueco, e com isso a recuperação foi lenta e prolongada e agravada pela temível espiral deflacionária.

Aqueles que acreditam que a recuperação será longa e em forma de W ou www, apontam duas ordens de riscos. Primeiro os riscos oriundos da estratégia de saída das expansionistas políticas monetária e fiscal e da retirada das garantias e da liquidez extraordinária injetada no sistema. Os desafios são gigantescos: em que momento reverter as políticas, lembrando que os estímulos fiscais têm data marcada para serem retirados e que a sua permanência requer aprovação do Congresso provavelmente resistente; como sequenciar ao longo do tempo as saídas; como coordenar e sincronizar globalmente as saídas.

Em segundo lugar temos os riscos oriundos da injeção extraordinária de liquidez e socorro aos bancos sem a simultânea reestruturação. Com recursos sem limite, as taxas de juros próximas a zero garantidas pelo Fed e na crença de que o governo não permitirá novas quebras os bancos, as mesmas práticas especulativas que geraram as bolhas e seu colapso retornaram. Pois é assim que geram enormes lucros recordes agora captando recursos custo praticamente zero e especulando com ativos com preços deprimidos.

Não são as operações tradicionais de empréstimos bancários ao setor real da economia que estão de volta. Basta verificar que as reservas bancárias ociosas passam de mais de US$ 1,3 trilhão. São as operações alavancadas de trading no mercado de capitais que voltaram e que, ao canalizarem recursos da liquidez extraordinária injetada pelos bancos centrais para as bolsas de valores, principalmente dos emergentes, petróleo, as commodities e para moedas-commodities, como o real, estão provocando a elevação de seus preços que já atingiram níveis em plena recessão global que não se justificam. Assim já podemos falar de mini-bolhas. De fato, nestas instituições quando o preço de seus ativos aumentam no seu balanço recompõe-se o seu patrimônio líquido e a alavancagem se reduz com isto são estimulados pela expectativa de polpudos lucros e bônus milionários abrem o apetite ao risco alavancando-se com novas operações e assim sucessivamente até que geram bolhas que podem eventualmente estourar.

Assim, aqueles que acreditam que a recuperação se dará sob a forma de W apontam para as grandes dificuldades de implementar uma saída das políticas e da retirada da liquidez extraordinária sem turbulências num quadro no qual a própria ação de socorro dos bancos centrais está gerando mini-bolhas. Certamente haverá sustos já que o socorro do governo aos bancos foi feito sem a sua reestruturação que deverá demorar e quem sabe será implementado só em 2011.

Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP, escreve mensalmente às terças-feiras