quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Malu Delgado: Mais Brasília, menos Brasil

- Valor Econômico

Sob FHC e sob Lula, alguns conselhos marcaram a história

Exatos 15 dias separam a data de criação do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, em 16 de março de 1964, do golpe militar. Nem mesmo sob a ditadura houve a ousadia de admitir abertamente a extinção do colegiado. Relatos da época comprovam, obviamente, manobras do governo militar para esvaziar e controlar politicamente o conselho que defendia os direitos humanos. Ainda que desidratado, o CDDPH sobreviveu à ditadura. Hoje, após uma luta de quase duas décadas no Congresso, foi transformado, pela Lei 12.986, em Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), em 2014, com definições claras sobre a paridade dos membros, mandatos, eleição e, sobretudo, suas atribuições.

Significa dizer que nem com caneta Bic ou Montblanc, caso se queira dar mais glamour à medida, o CNPH poderá ser extinto por decreto presidencial, ainda que Jair Bolsonaro já tenha associado direitos humanos a "politicagem", "bandidagem" e "esterco da vagabundagem". O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, afeito a bravatas, antecipou a pedido do chefe que "todos os conselhos que existem nos últimos anos" serão revisados pelo atual governo. São centenas de colegiados, alegou o ministro, "todos eles com um volume muito grande de pessoas, o que traz custos para a administração pública".

O pente-fino dos conselhos está em curso e pouco se sabe sobre o assunto, definido a portas fechadas no Palácio do Planalto. É difícil crer, pelas circunstâncias, que o governo vai analisar em profundidade o mérito das atividades por muitos destes colegiados que expõem as disparidades de um Brasil que está a léguas de distância da burocracia do Planalto Central, parafraseando o presidente, que passou a campanha prometendo "Mais Brasil e menos Brasília".

A canetada do primeiro dia de governo, a Medida Provisória 870, extinguiu o Consea, Conselho Nacional de Segurança Alimentar. A atuação do colegiado foi fundamental para que o Brasil passasse a ter uma política nacional de segurança alimentar e nutricional. Políticas públicas implementadas com ajuda do Consea permitiram, por exemplo, que a merenda escolar tivesse 30% de produtos de agricultura familiar. Inclusões produtivas de pequenas comunidades foram impulsionadas.

Hélio Schwartsman: Escândalo precoce

- Folha de S. Paulo

Caso do clã Bolsonaro torna mais realistas as expectativas dos eleitores

Gosto de escândalos de corrupção pelo que eles têm de didático. Até acredito que o padrão ético de indivíduos varie. Há alguns mais comprometidos com a moralidade administrativa, outros menos. Mas isso vale para indivíduos. Se reunirmos sem seleção específica mais do que três dezenas de pessoas, seja num partido, seja num governo, as diferenças individuais tendem a anular-se, e a resultante do grupo vai se aproximar da moralidade média da humanidade.

É um fenômeno que independe de ideologia. Afeta tanto grupos à direita, como o clã Bolsonaro, quanto à esquerda. Assim como o atual presidente foi eleito proclamando-se um arauto da moralidade, os petistas, no final dos anos 90, vendiam-se como incorruptíveis, o que ajudou Lula a vencer o pleito de 2002.

Muitos eleitores acreditaram na suposta pureza do PT porque o partido era o que menos frequentava as listas de agremiações metidas em escândalos. Mas, agora que sabemos como a história termina, é lícito concluir que a aparente correção petista se devia mais à falta de oportunidade para grandes negociatas do que à qualidade intrínseca de seus quadros. De modo análogo, os Bolsonaros passaram os últimos anos abaixo do radar porque só se envolviam nas mutretas típicas do baixo clero legislativo, que não chamam atenção.

Bruno Boghossian: Esqueleto em cova rasa

- Folha de S. Paulo

Relação amigável com milícias abre caminho para segunda crise em 22 dias de governo

A família Bolsonaro nunca fez questão de esconder sua relação amistosa com as milícias. Os integrantes do clã tratavam publicamente esses grupos de policiais e ex-policiais como generosos prestadores de serviços de segurança, ignorando os crimes de extorsão e assassinato cometidos por muitos deles.

Os vínculos não se restringiam aos discursos. Sabe-se agora que Flávio Bolsonaro empregou em seu gabinete duas parentes de um ex-PM suspeito de chefiar uma facção de matadores que agia a serviço de milicianos.

Quase todo político com uma longa trajetória sabe que episódios do passado reaparecem como assombrações. Alguns, bem escondidos, caem no esquecimento. Os esqueletos da família presidencial, porém, parecem estar enterrados em cova rasa.

Até novembro, trabalharam para Flávio na Assembleia Legislativa a mãe e a mulher de Adriano Magalhães da Nóbrega, um ex-capitão do Bope acusado de comandar uma milícia na zona oeste do Rio.

O filho do presidente diz que seu ex-assessor Fabrício Queiroz foi o responsável pelas nomeações.

Se Queiroz tinha carta branca para contratar e demitir, suspeita-se que ele não era um auxiliar qualquer de Flávio. A coisa fica mais esquisita quando se destaca que a mãe de Adriano apareceu num relatório do Coaf por ter repassado R$ 4.600 para a conta do fiel amigo do ex-assessor.

Bernardo Mello Franco: Mais uma na conta do Queiroz

- O Globo

A simpatia da família Bolsonaro pelas milícias já era conhecida. O fato novo é a proximidade de Flávio com o chefão do Escritório do Crime

Primeiro foram os 48 depósitos em dinheiro vivo. Depois, os R$ 7 milhões na conta do motorista. Era difícil imaginar outra notícia capaz de piorar a situação de Flávio Bolsonaro. Aí veio a Operação Os Intocáveis.

O Ministério Público deu um passo importante para desmontar o Escritório do Crime, principal grupo de extermínio em atividade no Rio. A Justiça ordenou a prisão do ex-PM Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado como chefe da gangue. Ele conseguiu fugir, mas não apagou os vínculos com o senador eleito.

Como deputado estadual, Flávio propôs uma moção de louvor ao miliciano por sua “dedicação, brilhantismo e galhardia”. “É com sentimento de orgulho e satisfação que presto esta homenagem”, escreveu. Dois anos depois, ele premiou o ex-PM com a Medalha Tiradentes, a maior honraria do Estado.

O reconhecimento não se limitou às palavras. O filho do presidente também empregou a mãe e a mulher do foragido em seu gabinete. As duas ficaram penduradas até dezembro. Quando largaram a boquinha, o deputado já havia sido promovido a senador.

*Idelber Avelar: Aula de Brasil

E eis que se entroncaram, muito antes do que qualquer um poderia imaginar, as duas principais investigações político-policiais do Brasil dos tempos recentes, uma dos últimos meses, a outra das últimas semanas: o enriquecimento ilícito da família Bolsonaro e o assassinato de Marielle Franco.

Como sempre, a coisa começa com o laranja: Queiroz, o inacreditável motorista que movimenta R$ 7 milhões em três anos, mas precisa pegar R$ 40 mil emprestados com o Presidente da República e pagá-los de volta na conta da Primeira-Dama. Acredite quem quiser. Ato contínuo, Queiroz fica doente, desaparece, e se abriga em uma favela de Rio das Pedras, que até a Pedra do Arpoador, do outro lado da cidade, sabe que é dominada por milícias.

Paralelamente, começa a desmoronar o castelo de corrupção de Flavinho Bolsonaro, aquele que ganhou milhões e milhões, em menos de dois anos, com uma lojinha de chocolate – e que já havia movimentado milhões de reais antes de sequer ter qualquer atividade empresarial, só com o salário de Deputado Estadual. E que deposita R$ 96 mil mangos em 48 prestações de R$ 2 mil, em um caixa eletrônico situado em uma das agências bancárias mais tranquilas que há.

Ricardo Noblat: Tal pai, tal filho

- Blog do Noblat |Veja

Aperta o cerco

Quem disse?

“Enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo.”

“Tem gente que é favorável à milícia, que é a maneira que eles têm de se ver livres da violência. Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência.”

“A milícia nada mais é do que um conjunto de policiais, militares ou não, regidos por uma certa hierarquia e disciplina, buscando, sem dúvida, expurgar do seio da comunidade o que há de pior: os criminosos”.

“[Eu mesmo] gostaria de pagar R$ 20, R$ 30, R$ 40 para não ter o carro furtado na porta de casa, para não correr o risco de ver o filho de um amigo ir para o tráfico, ver um filho empurrado para as drogas.”

Antes de revelar quem disse o quê: milícia é uma organização criminosa formada por policiais e ex-policiais que extorquem dinheiro de moradores em troca de proteção contra bandidos. Muitas vezes, mata ou manda matar.

De volta ao passado: as duas primeiras afirmações foram feitas por Jair Bolsonaro em agosto de 2003 e em fevereiro do ano passado já como candidato a presidente. As duas seguintes por seu filho Flávio como deputado estadual.

Faz-se de conta que as declarações mais explosivas, chocantes e bizarras feitas por Bolsonaro pai foram coisas de um político apenas à caça de votos. De preferência, deveriam ser esquecidas uma vez que ele se elegeu presidente.

O que disse o Bolsonaro, de nome Flávio, ganhou o relevo que não mereceu à época desde que dois milicianos foram alvo, ontem, no Rio, de uma operação policial que investiga extorsões, assassinatos e outros tipos de crimes.

Luiz Carlos Azedo: Seis minutos

- Correio Braziliense / Estado de Minas

“Bolsando procurou desfazer a repercussão internacional negativa gerada por decisões recentes de seu governo sobre o meio ambiente”

O esperado discurso do presidente Jair Bolsonaro em Davos, na Suíça, para um seleto grupo de empresários e políticos, foi uma espécie de copo pela metade, gelado. De um lado, sinalizou o que investidores gostariam de ouvir em termos de direção a ser seguida pelo país; de outro, decepcionou-os por não apresentar propostas concretas de reformas, o que deixou uma impressão de superficialidade. Bolsonaro poderia ter roubado a cena em Davos, diante da ausência de peso-pesados da política mundial, como os presidentes Donald Trump (EUA), Xi Jinping (China), Emmanuel Macron (França), Vladimir Putin (Rússia) e os primeiros-ministros Theresa May (Reino Unido) e Ram Nath Kovind (Índia).

A opção pelo feijão com arroz não deixa de ser positiva, se levarmos em conta, por exemplo, a política externa anunciada no discurso de posse do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, cuja presença no Fórum Econômico Mundial foi ofuscada pelos ministros Paulo Guedes (Economia) e Sérgio Moro (Justiça). Bolsonaro leu um discurso no qual falou de segurança, preservação ambiental e desenvolvimento, redução de impostos, respeito aos contratos, privatizações, ajuste fiscal, reforma da Organização Mundial de Comércio (OMC).

Para não deixar de lado a retórica da campanha eleitoral, o presidente brasileiro criticou o bolivarianismo e defendeu a propriedade privada, a família e os “verdadeiros direitos humanos”. Anunciou a meta bastante exequível de colocar o Brasil entre os 50 melhores países para se investir e a necessidade de educação voltada aos desafios da “quarta revolução industrial”. Apenas três líderes do chamado G7 participarão da reunião de Davos: o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe; a chanceler alemã, Angela Merkel; e o premiê italiano, Giuseppe Conte.

Bolsonaro procurou desfazer a repercussão internacional negativa gerada por decisões recentes de seu governo sobre o meio ambiente. Durante o discurso, enfatizou que o Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente e que o governo quer compatibilizar preservação e biodiversidade com avanço econômico. Disse que a agricultura ocupa somente 9% do território brasileiro, e a pecuária, menos de 20%. “Hoje, 30% do Brasil são florestas. Então, nós damos, sim, exemplo para o mundo. O que pudermos aperfeiçoar, o faremos. Nós pretendemos estar sintonizados com o mundo na busca da diminuição de CO2 e na preservação do meio ambiente”, declarou, após ser questionado pelo fundador e presidente do Fórum, Klaus Schwab. Depois, em reunião com investidores, confirmou que o Brasil permanecerá no Acordo de Paris sobre o clima. Além de destacar a intenção de ampliar a abertura comercial e a integração à economia mundial, Bolsonaro ressaltou a intenção de combater a corrupção, frisando o papel nesse sentido do ex-juiz Sergio Moro, no Ministério da Justiça.

Relações perigosas
No Brasil, porém, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente da República, está na frigideira, por causa do ex-assessor Fabrício Queiroz. Raimunda Veras Magalhães, mãe do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, aparece em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) como uma das pessoas que fizeram depósitos para o ex-motorista do então deputado estadual. Ela depositou R$ 4,6 mil na conta de Fabrício, de um salário líquido de R$ 5.124,62 na Alerj.

Rolf Kuntz: Em Davos, o filho do presidente vira tema a ser evitado

Rolf Kuntz e Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

Há um enorme elefante branco em Davos: Flávio Bolsonaro. Enquanto o novo governo tenta se apresentar ao mundo e insistir que, sob Jair Bolsonaro, o País vai lutar contra a corrupção, as suspeitas envolvendo seu próprio filho dominam as conversas nos corredores do Fórum Econômico Mundial – aberto nesta terça-feira, 22 – e fazem parte da curiosidade da imprensa estrangeira.

Ao Estado, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, deixou claro que Davos não era lugar para tratar desses assuntos. Diante de uma pergunta sobre o caso envolvendo Flávio, ele comentou que esse é um tema que “mais adequadamente deveria ser tratado no Brasil”.

Eduardo Bolsonaro, deputado e irmão de Flávio, se recusou a falar do assunto. Questionado pelo Estado, ele apenas respondeu: “Não vou perder meu tempo com isso”. “Flávio já deu entrevista”. Eduardo ainda chamou de “lixo” a informação de que o irmão tenha empregado em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) a mãe e a mulher do ex-capitão da Polícia Militar Adriano Magalhães da Nóbrega, alvo de um mandado de prisão acusado de comandar uma milícia no Estado. Nóbrega está foragido.

Fontes da delegação brasileira indicaram à reportagem que houve um temor real de que a estreia internacional do novo presidente fosse ofuscada pela primeira crise em seu governo. De fato, desde anteontem, foram diversos os meios de comunicação na Europa e que cobrem o evento que citaram a “sombra” que o caso de Flávio já estava causando na viagem do presidente.

Na única vez que falou com a imprensa desde que chegou a Davos, em um encontro que durou menos de 2 minutos, Jair Bolsonaro não citou Flávio.

Empresários estrangeiros não deixaram de ironizar a situação. “O elefante branco é muito visível”, comentou um dos executivos, pedindo anonimato.

Vera Magalhães: Guedes salva o dia

- O Estado de S.Paulo

Jair Bolsonaro perdeu a chance de fazer história em Davos. O ineditismo de um presidente sul-americano abrir o Fórum Econômico Mundial foi desperdiçado com uma fala mais curta que o mínimo necessário para enunciar alguma plataforma, mais genérica que o necessário para convencer um público tão qualificado e, principalmente, completamente desprovido de senso de liderança e convicção de estadista.

Daí que a reforma da Previdência, o projeto que vai definir o sucesso de sua Presidência, tenha ficado fora da fala. Certamente não foi por falta de tempo, uma vez que o discurso, lido no teleprompter em tom vacilante, teve seis parcos minutos.

Ao deixar de fora o tema que a plateia mais queria ouvir, Bolsonaro passou aos investidores – que pareceu querer atrair enaltecendo nossas belezas naturais – o recado de que vacila quanto a firmar um compromisso com a reforma.

Coube a Paulo Guedes consertar as coisas na palestra que fez depois a investidores, organizada por um banco, em que por 90 minutos detalhou os planos do governo para a economia e assegurou que a mudança no sistema previdenciário será aprovada.

Claro que não se pode comparar a natureza dos dois discursos. Mas dá para pedir ao presidente o tal compromisso e cobrar um plano para reerguer a economia, como, aliás, fez o presidente executivo do fórum, Klaus Schwab, ao tentar espremer algo de concreto de Bolsonaro. A reforma será uma tarefa difícil de levar a cabo. Dizer naquele palco que ela é a prioridade era o recado que Bolsonaro poderia passar.

Monica De Bolle*: Bolsonaro em Davos

- O Estado de S.Paulo

Há ideologia de sobra, apenas não exatamente a que preponderou durante boa parte dos governos petistas

Foram oito minutos e mais um tantinho de perguntas e respostas com o anfitrião Klaus Schwab. Com o cenho fechado e nítido desconforto, o capitão-presidente apresentou-se à elite globalista na montanha durante a abertura da sessão plenária do Fórum Econômico Mundial.

O discurso conteve algumas mensagens sobre as reformas econômicas, sobre as intenções de abrir a economia brasileira, sobre a necessidade de acabar com o viés ideológico no País, apesar do viés ideológico estar presente, saudável, e viril no Ministério das Relações Exteriores. Houve, também, tentativa de sublinhar os compromissos do Brasil com o meio ambiente, apesar dos sinais contraditórios desde a campanha. Empenhou-se Bolsonaro em afirmar que seu governo pretende compatibilizar a preservação do meio ambiente e o compromisso com a biodiversidade com o avanço econômico, apesar das atitudes já tomadas em relação à demarcação de terras indígenas – de responsabilidade, agora, do Ministério da Agricultura. Contudo, nada disso compõe a real história do discurso de Davos em meio aos escândalos de corrupção que rondam a família do presidente no Brasil. A real história são os ecos do passado, sobretudo de um passado não muito distante.

Disse Bolsonaro que assumiu o Brasil “em uma profunda crise ética, moral, e econômica”, o que é verdade. Seus eleitores depositaram nele a confiança de combater a corrupção e a violência, o que levou o presidente a citar a escolha de Sergio Moro para a pasta da Justiça e da Segurança. Em Davos, Sergio Moro e Paulo Guedes foram apresentados ao mundo como os pilares de sustentação de muitas esperanças. “Tenham certeza de que, até o final do meu mandato, nossa equipe econômica liderada pelo ministro Paulo Guedes nos colocará no ranking dos 50 melhores países para se fazer negócios”. Apesar de algumas melhorias, o Brasil ainda amarga a 109ª posição dentre 190 países de acordo com o índice Doing Business do Banco Mundial. Subir ao menos 59 posições em 4 anos é a tarefa hercúlea que Bolsonaro acaba de dar ao seu superministro perante a comunidade internacional.

Fábio Alves: De olho na popularidade

- O Estado de S.Paulo

Se caso Coaf não mostrar um estrago nas pesquisas, adesão do Congresso é mais provável

Apesar do perfil bem mais conservador de um Congresso bastante renovado, os investidores ainda não estão completamente convencidos de que o grau de adesão dos novos parlamentares à agenda econômica liberal do governo Jair Bolsonaro terá o mesmo apoio esperado para a pauta de costumes, incluindo temas como família e educação.

Essa dúvida passou a pesar mais nos últimos dias com as revelações recentes do episódio das movimentações financeiras atípicas envolvendo o filho do presidente e senador eleito Flávio Bolsonaro e o seu ex-assessor Fabrício Queiroz, apuradas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Os investidores estão mantendo o sangue frio diante dos últimos acontecimentos envolvendo o filho do presidente e afirmam que estão monitorando a situação. Mas admitem que as próximas pesquisas de popularidade e de aprovação do presidente Bolsonaro devem deflagrar uma reação mais forte nos preços dos ativos.

Para o mercado financeiro, os números da popularidade do presidente devem ditar as expectativas sobre a aprovação de medidas importantes no Congresso, como a reforma da Previdência.

Isso porque uma das perguntas no radar dos investidores é: sem trégua no noticiário de jornais e de emissoras de rádio e TV, como os parlamentares que estão assumindo o mandato vão reagir a novas revelações do caso Coaf e a um eventual desgaste na imagem do governo Bolsonaro?

Reagirão esses parlamentares de maneira diferente do que sempre se observou quando um governo imerso numa crise política tenta aprovar uma medida importante no Congresso, cobrando um preço no batido “toma lá dá cá”?

Merval Pereira: Boas indicações

- O Globo

Bolsonaro assumiu compromissos importantes, que independem do quanto utilizou dos 45 minutos que tinha

Criticar o discurso do presidente Jair Bolsonaro no Fórum Econômico Mundial em Davos pelo tamanho não é uma medida correta. Melhor seria dizer que o presidente brasileiro perdeu a oportunidade para se aprofundar nos temas que realmente importam ali, mas assumiu compromissos importantes, que independem de quanto tempo utilizou dos 45 minutos que tinha.

O discurso de oito minutos foi montado para incentivar os investidores estrangeiros. Falou em reformas, Previdência incluída, em abertura da economia, simplificação da burocracia para melhorar ambiente de negócios, diminuição da carga tributária, abertura para o mundo e ainda se comprometeu com preservação do meio ambiente.

A emoção revelada no início foi indevida, mas Bolsonaro é um estreante em eventos internacionais, não tem nem o carisma nem a popularidade entre os estrangeiros que tinham Fernando Henrique ou Lula. E nem é um orador-ator como seu ídolo Trump. Ao contrário, pelo escândalo de corrupção do governo Lula, e por causa de suas opiniões emitidas durante toda a vida parlamentar, como a defesa da tortura, a imagem do Brasil no exterior nunca esteve tão ruim.

Por isso, fez bem o presidente em assumir compromissos com a redução da emissão de CO2, e a preservação do meio ambiente, depois de ter mantido o Brasil, talvez a contragosto, no Acordo de Paris sobre o clima.

Bolsonaro também defendeu a agropecuária brasileira, o principal fator a impulsionar nossa economia, explicando que, no seu modo de ver, agricultura e meio ambiente devem estar juntos. Caberá ao presidente Bolsonaro mostrar na prática que sua tese é viável. Mas os ambientalistas temem que o agronegócio seja prioritário para o governo.

Míriam Leitão: Oportunidade perdida em Davos

- O Globo

Por Alvaro Gribel (A colunista está de férias.)

O discurso de Bolsonaro em Davos foi o que os economistas chamam de “não evento”. Se o objetivo era impressionar a elite financeira internacional, isso não aconteceu. O presidente brasileiro teve o privilégio de abrir o Fórum, mas, nervoso, falou por apenas seis minutos e meio. A reforma da Previdência não foi citada, apesar de ter defendido o equilíbrio fiscal, a abertura da economia e a redução da carga tributária. A pauta liberal esteve presente, mas dividiu espaço com temas que tem importância apenas para a sua militância, como o valor gasto em campanha e a alegação de que foi “injustamente atacado a todo o tempo”. Bolsonaro disse que pela primeira vez na história do Brasil um presidente “montou uma equipe de ministros qualificados” e que “os críticos têm muito a aprender” com ele. Para quem precisa dar um sinal forte para destravar a confiança dos investidores estrangeiros, ficou a sensação de que a oportunidade foi perdida.

Temer foi mais liberal
“Trago-lhes uma mensagem clara: o Brasil está de volta. E o Brasil que está de volta é um país mais próspero, um país mais aberto, um país de mais oportunidades de investimentos, de comércio, de negócios”. As palavras não são de Bolsonaro, mas do ex-presidente Temer, que iniciou dessa forma seu discurso em Davos no ano passado. Ele também defendeu uma agenda liberal na economia, com abertura comercial, e lembrou as reformas aprovadas em seu curto governo. O ex-presidente aproveitou para citar a melhora em vários indicadores, como a queda dos juros ao mais baixo nível histórico, a redução da inflação e o recorde na balança comercial. O final dos quase 20 minutos de discurso foi dedicado à reforma da Previdência.

Elio Gaspari: De Guerreiro@edu para Bolsonaro

O Globo /Folha de S. Paulo

Senhor presidente, 
Fui empregado do Itamaraty durante 45 anos, seis dos quais como ministro das Relações Exteriores do general João Figueiredo (1979-1985). Ouvi o que o senhor disse em Davos, esperando que o governo da Venezuela “mude rapidamente”. Por cá, tenho ouvido a mesma coisa, pois o presidente Nicolás Maduro arruinou o país. Escrevo-lhe para sugerir que nossa diplomacia trate a crise desse país com quem temos dois mil quilômetros de fronteira seca tirando as meias sem tirar o sapato. Para as pessoas comuns, isso parece impossível, mas no Itamaraty sabemos fazê-lo.

Tenho horror a falar de qualquer coisa, sobretudo de mim. Na Casa corre o chiste segundo o qual eu sou capaz de dormir durante meus próprios discursos. Costumo adormecer os outros mas, mesmo acordado, falo pouco.

Quando sugiro que tiremos a meia sem tirar o sapato, lembro que a hostilidade verbal de seu governo em relação a Nicolás Maduro já foi explicitada. Nossas precauções devem se relacionar com o dia seguinte a uma eventual queda do bolivarianismo. O que advirá? Isso ninguém sabe. Tomara que não aconteça nada e que os venezuelanos resolvam a própria crise.

Em 1965, o Brasil apoiou a intervenção militar americana na República Dominicana, mandou tropas para uma força multilateral de paz e chegou a comandá-la. Mesmo assim, veja a frequência com que se fala das nossas missões militares recentes no Haiti e no Congo. Da República Dominicana, fala-se pouco. O que começou como uma operação destinada a evacuar cidadãos americanos transformou-se numa ocupação, e a tropa brasileira ficou por lá durante 18 meses. Até hoje, a diplomacia americana discute o processo de decisão que levou o presidente Lyndon Johnson a invadir o país. De qualquer forma, a Dominicana fica a dois mil quilômetros das nossas fronteiras.

O Itamaraty tirou a meia sem tirar o sapato em 1982, quando o general argentino Leopoldo Galtieri invadiu as Ilhas Malvinas, ocupada pelos ingleses desde 1833. O general achava que os Estados Unidos ficariam neutros e a primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher absorveria o golpe. Não aconteceu uma coisa nem a outra. Se o Brasil apoiasse Galtieri, seria sócio de uma aventura. Se apoiasse a Inglaterra, alimentaria um ressentimento que duraria gerações. Ficamos no fio da navalha, apoiando o direito argentino à posse da ilha e dissociando-nos da invasão. Lembro-me de que o general Figueiredo foi a Washington e disse ao presidente Ronald Reagan que o Brasil não admitiria um ataque ao continente argentino. Ele não ocorreu, até porque não foi necessário.

Flávio empregou parentes de suposto miliciano

Mãe e mulher de Adriano Nóbrega, acusado de comandar milícias, trabalharam na Alerj

Roberta Jansen, Constança Rezende / O Estado de S. Paulo

RIO- Flávio Bolsonaro empregou até novembro em seu gabinete na Alerj a mãe e a mulher do ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, suspeito de comandar uma das principais milícias do Rio. Acusado por homicídio e expulso da PM, ele está foragido.

O deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) empregou em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) até novembro do ano passado a mãe e a mulher do ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM Adriano Magalhães da Nóbrega. O ex-policial é acusado de comandar uma das principais milícias do Estado, em Rio das Pedras, comunidade pobre na zona oeste.

Nóbrega, acusado de homicídio e expulso da Policia Militar, teve mandado de prisão expedido na Operação Intocáveis, desencadeada ontem pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Rio, e está foragido. O parlamentar atribuiu a indicação das familiares do ex-PM a seu ex-assessor Fabrício Queiroz, apontado como autor de movimentações suspeitas de R$ 1,2 milhão em 13 meses.

A defesa do ex-servidor confirmou por nota que seu cliente indicou as duas para os cargos. “O sr. Fabrício solicitou a nomeação da esposa e da mãe do sr. Adriano para exercerem atividade de assessoria no gabinete em que trabalhava, uma vez que se solidarizou com a família que passava por grande dificuldade pois à época ele estava injustamente preso, em razão de um auto de resistência que foi, posteriormente, tipificado como homicídio, caso este que já foi julgado e todos os envolvidos devidamente inocentados”, informou a nota pelo advogado de Paulo Márcio Ennes Klein.

Segundo a Assembleia Legislativa do Rio, a mulher do ex-capitão, Danielle Mendonça da Costa Nóbrega, trabalhou no gabinete de Flávio de 6 de setembro de 2007 até 14 de novembro do ano passado. Já a mãe de Nóbrega, Raimunda Veras Magalhães, esteve lotada no mesmo gabinete de 11 de maio de 2016 até 14 de novembro de 2018. Ambas recebiam salário mensal de R$ 6.490,35. Raimunda é citada no relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) feito na Operação Furna da Onça, que investiga corrupção no Legislativo fluminense. Raimunda repassou R$ 4.600 para a conta de Queiroz.

Flávio contratou mãe de miliciano

Por Alessandra Saraiva e Rafael Rosas | Valor Econômico

RIO - O senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL) voltou a ser alvo de denúncias que questionam nomeações feitas para seu gabinete, quando foi deputado estadual no Rio de Janeiro. O assessor Fabrício Queiroz teria nomeado parentes - a mulher e a mãe - do capitão da Polícia Militar Adriano Magalhães da Nóbrega, supostamente ligadas a uma milícia. O policial teve ontem a prisão preventiva decretada no âmbito da operação "Os Intocáveis", deflagrada pelo Ministério Público do Rio e o Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), com o objetivo de desarticular a milícia que atua em Rio das Pedras, na zona oeste do Rio. Nóbrega está foragido.

Parentes de suspeito de integrar milícia trabalharam em gabinete de Flávio
O senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL) voltou a ser alvo de denúncias que questionam nomeações feitas por ele em seu gabinete na época em que era deputado estadual no Rio. Mais uma vez o assessor Fabrício Queiroz está no centro das nomeações, que agora envolvem parentes do ex-policial militar Adriano Magalhães da Nóbrega. Ele teve ontem a prisão preventiva decretada no âmbito da operação "Os Intocáveis", deflagrada pelo Ministério Público do Rio e pelo Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) com o objetivo de desarticular a milícia que atua em Rio das Pedras, na zona oeste da cidade. Nóbrega está foragido.

Adriano, que foi capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), é apontado como um dos integrantes do Escritório do Crime, grupo apontado como responsável por diversas execuções no Rio na última década. Segundo o MP, não está descartada a ligação de acusados na operação de ontem no assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Em entrevista ao "Jornal Nacional", o deputado federal eleito Marcelo Freixo (Psol) disse que não se pode garantir que os presos ontem tenham relação com o caso Marielle, uma vez que a investigação do assassinato da vereadora está a cargo de Delegacia de Homicídios e não da Gaeco. Adriano foi expulso da PM em 2014, por fazer serviço de segurança a um contraventor.

Flávio empregou parentes de suspeito de comandar milícia

Flávio Bolsonaro empregou mãe e mulher de ex-PM do Rio suspeito de chefiar milícia

Raimunda Magalhães está entre os ex-servidores com movimentações bancárias em investigação

Ana Luiza Albuquerque, Italo Nogueira e Júlia Barbon | Folha de S. Paulo

RIO DE JANEIRO- O deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) empregou até novembro do ano passado em seu gabinete na Assembleia Legislativa a mãe e a mulher de um ex-policial militar suspeito de comandar milícias no Rio de Janeiro.

O ex-capitão da PM Adriano Magalhães da Nóbrega, 42, está foragido e é um dos 13 alvos de uma operação deflagrada nesta terça-feira (22) pelo Ministério Público para prender suspeitos de chefiar milícias que atuam nas comunidades como de Rio das Pedras e Muzema, na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.

A mãe do ex-PM, Raimunda Veras Magalhães, e a mulher dele, Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, deixaram o gabinete de Flávio, a pedido, no mesmo dia, em 13 de novembro. Elas ocupavam um mesmo cargo e ganhavam R$ 6.490,35 mensais cada. A informação foi antecipada pela TV Globo.

Raimunda é um dos ex-servidores de Flávio citados em relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) que identificou movimentações financeiras atípicas de seu ex-assessor Fabrício Queiroz. Ela repassou R$ 4.600 para a conta de Queiroz.

Queiroz é policial militar aposentado e amigo há mais de 30 anos do presidente Jair Bolsonaro, que o indicou para a vaga no gabinete do filho.

À época da revelação do relatório, em dezembro do ano passado, a reportagem procurou a ex-assessora em endereços relacionados ao seu nome, mas não conseguiu localizá-la.

Raimunda é sócia de um restaurante no Rio Comprido, zona norte do Rio, localizado em frente a uma agência do Itaú na qual foram realizados 18 depósitos em espécie para Queiroz de janeiro de 2016 a janeiro de 2017. No total, o montante depositado chegou a cerca de R$ 92 mil. Nóbrega é sócio de outro restaurante na mesma rua.

Em nota, a assessoria do senador eleito disse que Raimunda foi contratada por indicação de Queiroz, que supervisionava o seu trabalho, e que não pode ser responsabilizado por atos que desconhece.

Já a defesa de Queiroz, que confirmou a indicação, afirmou que “repudia veementemente qualquer tentativa de vincular seu nome a milícia” e que “a divulgação de dados sigilosos obtidos de forma ilegal constitui verdadeira violação aos direitos básicos do cidadão”.

Segundo o advogado Paulo Klein, Queiroz conheceu Nóbrega quando trabalharam juntos no 18° Batalhão da Polícia Militar e não sabia do suposto envolvimento com milícias.

Ainda segundo seu advogado, Queiroz solicitou a nomeação da mulher e da mãe do colega para o gabinete de Flávio Bolsonaro porque a família passava por dificuldades financeiras.

Para a defesa, Nóbrega estava "injustamente preso" em razão de um auto de resistência posteriormente tipificado como homicídio.

Nóbrega foi denunciado pelo Ministério Público acusado de participar da tentativa de assassinato do pecuarista Rogério Mesquita, em razão da disputa pelo espólio do bicheiro Waldomir Paes Garcia, o Maninho. Apenas um envolvido foi condenado no caso —outro policial militar.

A relação de Nóbrega com o jogo do bicho o levou a ser demitido da corporação. Em processo administrativo disciplinar, foi considerado culpado da acusação de atuar como segurança de José Luiz de Barros Lopes, o "Zé Personal", contraventor da máfia dos Caça-Níqueis.

Queiroz é investigado sob suspeita de participar de um esquema de lavagem de dinheiro e ocultação de bens. O Coaf identificou uma movimentação atípica de R$ 1,2 milhão em sua conta bancária em 2016 e 2017.

O alerta se deve não só ao volume, mas também à forma com que as operações eram feitas. No período, Queiroz realizou saques uma vez a cada dois dias em valores elevados, sempre após depósitos de quantias semelhantes.

Flávio Bolsonaro não é formalmente investigado no caso na esfera criminal, mas sim na área cível, que apura improbidade administrativa. A suspeita é de que Queiroz fosse o responsável por recolher parte do salário de servidores com finalidade ainda não esclarecida. O senador eleito nega a prática.

A investigação do caso está suspensa após liminar do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal.

HOMENAGEM
Flávio Bolsonaro homenageou o ex-policial Nóbrega duas vezes na Assembleia do Rio. Em 2003, propôs uma moção de louvor por desenvolver sua função com "dedicação, brilhantismo e galhardia".

"Imbuído de espírito comunitário, o que sempre pautou sua vida profissional, atua no cumprimento do seu dever de policial militar no atendimento ao cidadão", escreveu.

Gabinete de Flávio empregou mãe e mulher de chefe do crime

Flávio Bolsonaro empregou parentes de ex-PM foragido a quem deu prêmio na Alerj

Bruno Abbud, Igor Mello e Vera Araújo | O Globo


Até novembro de 2018, a mãe e a mulher de Adriano da Nóbrega, ex-PM apontado como chefe do Escritório do Crime, eram funcionárias do gabinete do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). Ele ainda mantém empregados quatro servidores citados em relatório de movimentações suspeitas. O gabinete do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSLRJ) empregou até novembro do ano passado a mãe e a mulher do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, considerado pelo Ministério Público do Rio como o homem-forte do Escritório do Crime, organização suspeita do assassinato de Marielle Franco. Adriano foi alvo de um mandado de prisão ontem e está foragido, acusado há mais de uma década por envolvimento em homicídios.

Adriano e outro integrante da quadrilha, o major da PM Ronald Paulo Alves Pereira, foram homenageados por Flávio na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), em 2003 e 2004, respectivamente. Adriano é amigo de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, investigado sob suspeita de recolher parte dos salários de funcionários do político. Teria sido Queiroz — amigo do presidente Jair Bolsonaro desde os anos 1980 — o responsável pelas indicações dos familiares de Adriano.

A mãe de Adriano, Raimunda Veras Magalhães, e a mulher, Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, ocuparam cargos no gabinete de Flávio Bolsonaro. Elas tinham salários de R$ 6.490,35. Segundo o Diário Oficial do Estado, ambas foram exoneradas a pedido no dia 13 de novembro de 2018. O GLOBO revelou a existência do Escritório do Crime em agosto de 2018.

Ex-integrante do Bope, Adriano se formou no curso de operações especiais da PM em 2000. Ele foi preso na operação “Dedo de Deus”, de 2011, desencadeada para combater o jogo do bicho no Rio. À época, era capitão da PM. Ele foi expulso da corporação em 2014.

Estreia internacional: Editorial | Folha de S. Paulo

Bolsonaro corrige bravatas, mas não aproveita o tempo para explicitar plataforma de reformas

Foi satisfatória, embora sucinta demais, a primeira fala do presidente Jair Bolsonaro (PSL) fora do Brasil. No principal auditório do Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), o mandatário vestiu bem o figurino protocolar e, diante de potenciais investidores, privilegiou a sua agenda em prol dos negócios.

Tratou também de corrigir algumas bravatas infelizes que haviam surgido na retórica presidencial e em manifestações do núcleo ideológico ao seu redor. O compromisso com a preservação ambiental talvez seja a mais alvissareira dessas mensagens reparadoras.

Ao lembrar seus espectadores de que o Brasil utiliza parcela minoritária de seu território para atividades agropecuárias que ajudam a alimentar o planeta, Bolsonaro afirmou ser perfeitamente possível o país avançar na conciliação de objetivos ecológicos e produtivos.

A confirmação, pelo próprio presidente após o discurso, de que o país permanecerá no Acordo de Paris —pacto pelo controle dos gases que favorecem o aquecimento planetário— reforçou o recado.

Para quem flerta com um ideário estapafúrdio e incoerente chamado antiglobalismo, a simples presença benfazeja no palco coruscante do “globalismo”, além dos votos por um mundo de paz, liberdade e democracia, constitui um alívio.

O discurso de Bolsonaro no figurino de Davos: Editorial | O Globo

Presidente faz pronunciamento curto, objetivo e trata de temas de interesse dos investidores externos

Na primeira viagem internacional, há 20 dias da posse, o presidente Jair Bolsonaro mostrou um perfil distante daquele candidato radical da campanha, e assumiu posições diferentes de teses ultranacionalistas defendidas por ministros seus.

Foi um discurso curto, objetivo, sobre temas da agenda dos investidores estrangeiros: reformas, meio ambiente, corrupção, respeito aos contratos, combate à burocracia, também para melhorar o ambiente de negócios e assim por diante.

Não poderia ser diferente. Davos, nos Alpes suíços, onde ocorre anualmente o Fórum Econômico Mundial, é forte símbolo da globalização, tão combatida pelo nacional-populismo do presidente Trump e pela ultradireita europeia.

O que não impede que Trump, impossibilitado de ir ao encontro devido ao shut down da administração americana, tenha despachado para a Suíça o secretário de Estado Mike Pompeo, para representá-lo. Davos não pode mesmo deixar de ser considerado por qualquer país sério.

Dois passos para o crescimento: Editorial | O Estado de S. Paulo

O presidente Jair Bolsonaro tentou apresentar em Davos um Brasil atraente para o investidor estrangeiro, mas o primeiro atrativo, em condições normais, é a perspectiva de expansão dos negócios. Essa perspectiva depende hoje, em primeiro lugar, do programa de ajustes e de reformas. Sem avanço na reforma da Previdência, nem o modesto crescimento econômico previsto para este ano e para próximo está garantido. Esse prosaico detalhe foi lembrado por um experiente analista do Fundo Monetário Internacional (FMI), Gian Maria Milesi-Ferretti, numa entrevista coletiva sobre as novas projeções para a economia global. Segundo as novas estimativas, o Brasil cresceu 1,3% em 2018 e deve crescer 2,5% neste ano e 2,2% no próximo.

Projeções são condicionadas por pressupostos, e um dos mais importantes, neste caso, é a execução normal dos programas de arrumação das contas públicas e, especialmente, de modernização do sistema de aposentadorias e pensões. Os grandes investidores participantes do Fórum Econômico Mundial sabem disso. As palavras de Milesi-Ferretti, diretor adjunto do Departamento Econômico do FMI, apenas adicionam um sinal de alerta às novas estimativas de expansão do Brasil.

Mesmo sem a advertência, os números projetados para o Brasil pelos técnicos do FMI justificam pouco otimismo. Indicam apenas um desempenho melhor que o dos anos anteriores, mas nem de longe uma nova fase de prosperidade. Mostram basicamente uma recuperação cíclica, depois de uma funda recessão. Na melhor hipótese, o País poderá retomar o nível de atividade anterior à crise, eliminando a ociosidade criada nos últimos anos. Atingir um patamar superior será mais complicado.

O desafio imediato para o novo governo, portanto, é consolidar a recuperação. O controle das finanças públicas, incluída a reforma da Previdência, é condição para qualquer lance mais ambicioso. Para conduzir o País a um novo patamar de atividade será preciso a capacidade produtiva e, como consequência, o potencial de crescimento econômico.

Menos ajuda do exterior para recuperação da economia: Editoria | Valor Econômico

Se o governo brasileiro ainda precisava de aviso quanto à instabilidade do cenário mundial neste ano, as análises divulgadas na segunda-feira pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) não poderiam ser mais claras. A mensagem tornada pública em Davos, no Fórum Econômico Mundial, é cristalina: a economia do mundo está em desaceleração. O que significa um desafio para os novos governantes do país na medida em que essa tendência pode prejudicar o ritmo de crescimento das exportações brasileiras, tornando ainda mais lento o processo de retomada do ritmo de atividades.

O FMI revisou para baixo - novamente - a projeção para a expansão econômica global. A estimativa agora passou a ser de 3,5% em 2019 e de 3,6% no próximo ano. Nos dois casos, são índices inferiores ao que o FMI calcula que o mundo cresceu no ano passado. São reduções pequenas mas indicam uma tendência de desaquecimento global.

As causas da desaceleração econômica que se desenha são muitas, variando de país para país ou de região para região. Mas não há dúvidas que as incertezas provocadas pelas disputas comerciais entre os Estados Unidos e a China pesam muito negativamente nesse panorama, como se vê inclusive pelas oscilações bastante significativas observadas nos últimos meses nos mercados financeiro e de commodities. Também com grande influência desfavorável são as dúvidas em relação às perspectivas da China continuar se expandindo economicamente em ritmo semelhante aos dos últimos anos.

Em ambos os casos - problemas comerciais entre as duas maiores economias do planeta e economia chinesa - não se vê perspectiva unânime entre os especialistas de solução a curto prazo. A China é um dos maiores receios. O crescimento de 6,6% em 2018 é o menor desde os anos 1990. E deve cair para 6,2% neste ano, prevê o FMI, o que reforça a fragilidade do país, principal parceiro comercial do Brasil.

Beth Carvalho -Saudosa Maloca

Murilo Mendes: O Filho do Século

Nunca mais andarei de bicicleta
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa "Danúbio Azul"
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardem-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora da fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos vôos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos,
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Rubens Barbosa*: Prioridades da diplomacia nos primeiros cem dias

- O Estado de S.Paulo

Repetindo promessas de campanha, medidas de política externa não surgem como surpresa

De acordo com o texto que teria sido apresentado em reunião ministerial, as propostas feitas pelo ministro Ernesto Araújo para os primeiros cem dias do governo Bolsonaro foram:

1) Visita do presidente Bolsonaro aos EUA e lançamento das bases de Acordo de Parceria Brasil-EUA ou instrumento similar, que incluirá o lançamento de um acordo comercial, bem como entendimentos em segurança, tecnologia e defesa;

2) visita do presidente Bolsonaro a Israel, com a criação de parcerias em segurança, tecnologia e defesa;

3) início do processo e revisão do Mercosul para aperfeiçoamento de instrumentos favoráveis ao setor produtivo, redução tarifária e dinamização da agenda externa;

4) retorno ao modelo de passaporte com o Brasão da República;

5) implementar a isenção unilateral de vistos para cidadãos norte-americanos e canadenses;

6) realização de auditorias nas embaixadas brasileiras que possam ter sido instrumentos de desvios durante os governos do PT.

Repetindo promessas de campanha e declarações depois das eleições, as medidas não surgem como uma surpresa. São prioridades genéricas que precisam ser trabalhadas para que se transformem em diretrizes para a ação diplomática.

Andrea Jubé: O comandante na tropa de choque do Planalto

- Valor Econômico

Villas Bôas estará um lance de escadas acima de Bolsonaro

Num momento em que o presidente Jair Bolsonaro atravessa uma turbulência mais persistente do que o esperado para 22 dias de governo - a crise envolvendo as movimentações atípicas do primogênito Flávio Bolsonaro, o iminente envio da reforma da Previdência ao Congresso, a terceira cirurgia - uma das principais lideranças políticas chega ao Planalto para reforçar o seu time de conselheiros. Um líder político que, por ironia, veste farda.

O general Eduardo Villas Bôas transmitiu o comando do Exército há dez dias para o general Edson Pujol. Perdeu o posto, mas não a liderança. O gaúcho de Cruz Alta assume nos próximos dias um gabinete no quarto andar do Palácio do Planalto, um lance de escadas acima do gabinete presidencial. Longe do quartel, estará mais próximo do que nunca de Bolsonaro.

Os laços de confiança e lealdade entre ambos ficaram evidentes no dia 2, na posse do general Fernando Azevedo e Silva no Ministério da Defesa. Diante de uma plateia de oficiais das três Forças, Bolsonaro atribuiu sua vitória nas urnas ao general, e em tom solene, disse que levarão para o túmulo os segredos que trocaram: "o que nós já conversamos morrerá entre nós, o senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui".

A leitura automática dessa declaração remonta à polêmica postagem de Villas Bôas em sua conta no Twitter, que constrangeu os ministros do Supremo Tribunal Federal na véspera do julgamento do "habeas corpus" do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais". A mensagem mobilizou os mais de 400 mil seguidores na rede social e estremeceu os pilares da República.

Ranier Bragon: Só não vê quem não quer

- Folha de S. Paulo

É preciso muita candura para aceitar a tática do avestruz adotada pelo presidente

Todo governo em seu início é beneficiado pela chamada “lua de mel” de que fala a surrada metáfora conjugal. Mas é preciso muito amor no coração, muita candura de espírito para considerar plausíveis as (não) explicações dadas até agora por Jair Bolsonaro sobre o suspeitíssimo caso de seu filho Flávio e do ex-motorista deste, Fabrício Queiroz.

Adota-se até aqui a covarde estratégia de cortes dessa e de todas as épocas de empurrar para auxiliares em desgraça —incluindo filhos— a responsabilidade exclusiva por desatinos. A velha tática do avestruz, a de “eu não tenho nada a ver com isso”.

Perdoem-me os embevecidos pela lua de mel, mas infelizmente Jair tem muita coisa a ver com isso.

O presidente recebeu na conta da mulher, Michelle, R$ 24 mil de Queiroz. Também empregou no gabinete em Brasília uma filha desse motorista, que repassava quase todo o salário ao pai e cuja atividade identificável era a de personal trainer no Rio.

Alvaro Costa e Silva: Rachadinha

- Folha de S. Paulo

A operação política dos velhos e dos novos tempos

Mesmo em recesso, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro recusa-se a perder o protagonismo que desfrutou nos últimos anos, quando pela presidência da casa passaram Sérgio Cabral e Jorge Picciani, ambos presos. As atenções no momento estão voltadas para a farra de saques e depósitos na agência bancária que serve ao Palácio Tiradentes.

Haja digitação no caixa eletrônico. Os “rolos” de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador eleito Flávio Bolsonaro, começaram com R$ 1,2 milhão, movimentado entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017, mas podem chegar a R$ 7 milhões em três anos. No período de um mês, em 2017, 48 depósitos, todos de R$ 2.000, em dinheiro, foram parar na conta de Flávio, na época deputado estadual. Segundo o relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, não foi possível identificar o autor dos depósitos, mas estes foram realizados no autoatendimento da agência da Alerj. Bingo!

Outros 22 deputados chamaram a atenção do Coaf devido a atípicas movimentações de dinheiro envolvendo 74 servidores.

Hélio Schwartsman: O enigma venezuelano

- Folha de S. Paulo

Teoria do seletorado é um bom modelo para entender a persistência do ditador Nicolás Maduro

Por que Nicolás Maduro ainda não caiu? Motivos para defenestrá-lo é o que não falta. Nos últimos cinco anos, o PIB da Venezuela caiu 50%. Milhões de cidadãos já fugiram do país, que experimenta retrocesso em praticamente todos os indicadores sociais.

Um bom modelo para entender a persistência do ditador é a teoria do seletorado, proposta pelos cientistas políticos americanos Bruce Bueno de Mesquita, Alastair Smith, Randolph Siverson e James Morrow no início dos anos 2000.

O quarteto, nos passos de Maquiavel, recomenda que esqueçamos todo o blá-blá-blá em torno de interesse público, vontade geral etc. Do pior tirano ao mais convicto democrata, o objetivo principal de quem chega ao poder é manter-se no poder.

Para fazê-lo, precisa lidar com três grupos distintos: o seletorado nominal (cidadãos aptos a participar da escolha do dirigente), o seletorado real (os que de fato participam) e a coalizão vencedora (os que asseguram a vitória). Uma vez entronizado, o líder precisa pagar a coalizão para não ser derrubado.

Joel Pinheiro da Fonseca: O bicho-papão marxista

- Folha de S. Paulo

O marxismo cultural vai além da mera constatação da predominância da esquerda

“Marxismo cultural” é uma teoria da conspiração que visa a explicar e dar um sentido a um fato que, esse sim, existe e é problemático: o predomínio intolerante da esquerda em diversos âmbitos da cultura nacional.

Um ponto de partida de que poucos discordariam: em certos âmbitos da cultural —como universidades, órgãos de imprensa, artistas— há mais gente com visões que podem ser classificadas no amplo balaio de gatos da “esquerda”. Em muitas redações ou faculdades, os votos foram muito mais para políticos de esquerda.

O marxismo cultural vai além da mera constatação da predominância da esquerda: ele dá a ela o sentido de um projeto.

Ele postula que essa realidade é produto da ação concertada de alguns indivíduos que planejam, infiltrando-se nessas instituições, dominar o país e instaurar o comunismo ou algum outro regime que conjure imagens de pesadelo. Recupera o medo dos “bolcheviques” que estariam prestes a dominar a sociedade (tão bem manuseado pelo nazismo alemão).

Assim, um professor universitário que defenda o Acordo de Paris ou um jornalista que votou no PSOL não são pessoas —assim como você— navegando um oceano de opiniões e atitudes, mas agentes de uma agenda em comum que visa a destruição da família, da religião e da propriedade.

E mais: de uma agenda dotada do poder de moldar a cultura. Esse projeto é tramado nas mais altas esferas do poder e controla os rumos da sociedade, e portanto é maléfico por definição.

Quando vai para o terreno da história, a teoria é risível. Os autores da Escola de Frankfurt, que passaram suas vidas tentando ler um mundo que parecia esmagar suas crenças e seus ideais, sendo hostilizados inclusive por grande parte da esquerda de sua época, foram transformados em grandes engenheiros por trás da transformação da cultura.

Bernardo Mello Franco: Tal pai, tais filhos

- O Globo

Bolsonaro já foi aconselhado a manter os filhos longe do palácio. A ideia era evitar que as confusões do trio causassem desgaste para o governo

O vice-presidente Hamilton Mourão disse que os rolos do primeiro-filho geram “algum problema familiar, mas não para o governo”. Será mesmo?

Mourão não é o único aliado que gostaria de ver os herdeiros de Bolsonaro longe do palácio. O desejo é compartilhado por outros integrantes do núcleo militar do governo. Os generais temem que confusões envolvendo Flávio, Carlos e Eduardo contaminem a administração de Jair. Por enquanto, não conseguiram ser ouvidos.

No desfile da posse, o vereador Carlos posou de guarda-costas do pai na garupa do Rolls-Royce presidencial. Não foi só um ato de exibicionismo. Para políticos que esperavam Bolsonaro no Congresso, o “02” quis mostrar que será uma eminência parda do novo governo.

Pelo que se viu até aqui, ele tinha razão. Na sexta passada, o UOL informou que Carlos já teve mais audiências com o presidente do que 18 dos 22 ministros. Embora não ocupe cargo em Brasília, ele participou da primeira reunião ministerial da “nova era”. Passou o encontro tuitando, enquanto os titulares de pastas tiveram que deixar os celulares fora da sala.

José Casado: Preso no labirinto

- O Globo

Aos 69 anos, Paulo Guedes, ministro da Economia, começa a desvelar na mesa do jogo de poder a sua maior aposta como ativista do liberalismo. Na gélida Davos, Suíça, apresentará o projeto de uma “frente única” de conservadores e liberais-democratas para um programa liberal no Brasil.

Num dos textos publicados no GLOBO no final de 2017, sugeriu o desmonte do “Leviatã moldado pelo nacionalismo estatizante do regime militar”. Na travessia do tempo, ressaltou, ele “acabou —quem diria —aparelhado pelos petistas”.

“Esse aparelho de Estado”, prosseguiu, “antes dirigido por uma tecnoburocracia administrativa de comando central com foco em infraestrutura, foi saqueado por grupos de interesse corporativo e partidos políticos desidratados pela concentração de recursos no governo central. O capitalismo de Estado dos militares tornou-se o capitalismo de quadrilhas dos social-democratas.”

Guedes seduziu um de seus leitores, Jair Bolsonaro, na época candidato à procura de uma ideia.

A eficácia política dessa ideia de uma “frente” de conservadores e liberais-democratas será testada em temas como a reforma da Previdência, a partir da segunda-feira, 4 de fevereiro. É quando o Congresso começa a decidir sobre os limites da ação governamental na desmontagem desse “legado” do regime militar.

Merval Pereira: Plebiscitário e minoritário

- O Globo

Governos minoritários e plebiscitários, como se desenha este, tendem a ter fôlego curto, alerta cientista político

A propósito da coluna de domingo, em que analiso a correlação de forças entre Executivo e Legislativo, com base em um pronunciamento do juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos Antonin Scalia, o professor Walter Costa Porto, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral, um dos melhores especialistas em legislação eleitoral, autor do livro “O Voto no Brasil”, relembrou um diálogo tirado de Saul K. Padover em “A Constituição Viva dos Estados Unidos”, entre George Washington e Thomas Jefferson, dois dos “pais fundadores” dos Estados Unidos.

Jefferson voltara de Paris quando, em uma manhã, à mesa com Washington, lhe perguntou por que havia favorecido o Senado na convenção.

- Por que, rebateu Washington, derramaste esse café no pires?

- Para esfriá-lo, explicou Jefferson.

- Muito bem, prosseguiu Washington, nós derramamos a legislação no pires senatorial para esfriá-lo.

Também o cientista político Carlos Pereira, da Fundação Getulio Vargas no Rio, analisou a fala de Scalia e considera que ela não pode ser usada em relação à situação brasileira, já que, diferentemente dos EUA, o presidencialismo brasileiro opera em um ambiente multipartidário e, nos últimos anos, hiper-fragmentado. Embora tenha, como elogia Scalia em relação aos Estados Unidos, duas Casas Legislativas fortes.

Além disso, ressalta Pereira, “com um Executivo extremamente poderoso, também diferente do caso americano, onde o presidente é constitucionalmente fraco”. Quando o presidente americano tem a sorte de sair das urnas com seu partido ocupando a maioria de cadeiras nas duas casas legislativas, o sistema opera de forma muito similar ao parlamentarismo europeu, sem separação de poderes e, portanto, sem gridlocks (impasses).

Os “problemas” (ou virtudes, para Scalia) aconteceriam apenas nas situações de governo dividido, quando o partido do presidente não desfruta de maioria em uma (situação atual) ou nas duas casas legislativas. Para Carlos Pereira, o multipartidarismo opera como um controle endógeno de um Executivo constitucionalmente forte, mas ao mesmo tempo minoritário no Legislativo, o que o obriga a montar e a gerenciar coalizões multipartidárias pós-eleitorais se quiser governar.

Daí porque, sem “moedas-de-troca” capazes de gerar ganhos mútuos para o Executivo e o Legislativo, os riscos de gridlocks (impasse) quase que seriam permanentes, inviabilizando assim o funcionamento virtuoso do jogo.

Luiz Carlos Azedo: A confiança no Brasil

- Correio Braziliense / Estado de Minas

“Bolsonaro procura reposicionar o governo brasileiro no exterior. Não é uma tarefa fácil”

O presidente Jair Bolsonaro, ontem, em Davos, numa entrevista quebra-queixo para jornalistas brasileiros, disse que sua passagem pelo Fórum Econômico Mundial tem objetivo de restabelecer a confiança dos agentes econômicos no Brasil. “Queremos mostrar, via nossos ministros, que o Brasil está tomando medidas para que o mundo restabeleça a confiança em nós, que os negócios voltem a florescer entre o Brasil e o mundo, sem o viés ideológico, que nós podemos ser um país seguro para investimentos. E, em especial, a questão do agronegócio, que é muito importante para nós, é a nossa commodity mais cara. Queremos ampliar esse tipo de comércio.”

O discurso de Bolsonaro foi discutido por sua equipe de governo, representada em Davos pelos ministros Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública), Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Paulo Guedes (Economia), Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral da Presidência) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional). O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, também integra a comitiva para Davos, enquanto o irmão senador, Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), continua ardendo na fogueira do caso Queiroz aqui no Brasil. O Fórum Econômico Mundial começa hoje e vai até sexta-feira, com previsão de uma redução de crescimento mundial, segundo anunciou a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde.

Os indicadores de crescimento de 2018 apontam para uma retração da economia mundial, que pode resultar numa grande recessão se suas causas não forem revertidas. Disputas comerciais entre as maiores economias do mundo, dívidas e eventos climáticos extremos (olha o aquecimento global aí, gente!) são alguns dos principais riscos previstos. A China teve seu pior índice de crescimento em 28 anos: no ano passado, a expansão do PIB chinês foi de apenas 6,6%; em 2019, será de 6,3%. A expansão induzida pelos incentivos fiscais nos Estados Unidos está se esgotando: a taxa de crescimento do PIB será de 2,5% em 2019 e apenas 2%, em 2020. Na Europa, a projeção é de uma expansão de 2% em 2019. Para 2019 e 2020, o crescimento global previsto pela ONU é de 3%, abaixo da taxa de 3,1% em 2018.

Ana Carla Abrão: A roda que gira

- O Estado de S. Paulo

Fronteiras antes tão bem definidas desaparecem em produtos e serviços financeiros

Regulação financeira era, até outro dia, sinônimo de imposição de requerimentos de capital e de controles de liquidez e solvência. Além disso, compunham o pacote tradicional, autorizações de funcionamento com critérios mínimos rigorosos; regras estritas de atuação para grandes conglomerados financeiros; e controles e colchões contra riscos operacionais, de crédito, ou de mercado. Recentemente, evoluiu-se para adicionar planos e fundos de resolução bancária, dando um passo adiante em relação aos sistemas de seguro-depósito, por definição mais limitados na contenção de crises financeiras sistêmicas.

Agora a regulação financeira enfrenta novos desafios e busca se adaptar aos novos tempos. Enquanto a crise de 2008 foi esvanecendo – e preenchendo todo o foco regulatório –, outros modelos de negócio surgiram, definindo um novo ecossistema financeiro. Padrões foram mudados, novos serviços e produtos passaram a ser ofertados e novas expectativas passaram a ditar as regras, numa disrupção que tem na relação com o consumidor o seu principal ponto de quebra.

Novas tecnologias abriram espaço para que as Bigtechs, como Amazon e Google, ou empresas como a Apple, alterassem padrões e impulsionassem mudanças de comportamento nas pessoas. Mas, acima de tudo, determinaram uma nova forma de se relacionar com um consumidor cada vez mais independente, exigente e muito ciente de suas escolhas.