sexta-feira, 11 de março de 2022

Vera Magalhães: Gasolina no palanque

O Globo

A guinada no discurso público de Jair Bolsonaro sobre o preço dos combustíveis mostra a dificuldade, até aqui, de o presidente conseguir equacionar este que é claramente o assunto que mais lhe tira o sono hoje, pelo potencial de estrago eleitoral que tem.

Nos últimos dias, as conversas interministeriais, com o mercado e com a direção da Petrobras tinham sobre a mesa algumas alternativas, todas heterodoxas e fora do receituário liberal clássico, para conter a alta da gasolina, do diesel e do gás de cozinha.

Enquanto isso, esses preços vinham sendo represados sem anúncio formal, desde janeiro no caso dos combustíveis, há 152 dias no do gás. Até que a Petrobras acabou abrindo as comportas, e as reações a uma alta significativa dos três itens foram de espanto e corre-corre em busca, de novo, de uma solução pretensamente simples para um problema cada vez mais complexo, em virtude da imprevisibilidade da guerra na Ucrânia.

Bernardo Mello Franco: O vai ou racha dos ruralistas

O Globo

A caravana dos artistas não comoveu os profissionais do Congresso. Na quarta-feira, uma trupe liderada por Caetano Veloso percorreu gabinetes e lotou a Esplanada num ato pela Amazônia. No plenário, os deputados ignoraram os visitantes ilustres e avançaram com o projeto que libera a mineração em terras indígenas.

O texto pró-garimpo passará a tramitar em regime de urgência. Pelos planos de Arthur Lira, deve ir a votação definitiva em abril, às vésperas do Dia do Índio. Parece provocação — e talvez seja mesmo.

O lobby da devastação perdeu o medo da opinião pública. Com a vitória de Jair Bolsonaro, madeireiros, garimpeiros ilegais e grileiros de terra já haviam conquistado as chaves do Planalto. Agora eles também contam com a cumplicidade e o apoio do presidente da Câmara.

Fazendeiro em Alagoas, Lira já comandou a aprovação de ao menos quatro projetos que criam riscos graves ao meio ambiente. “Em todos os casos, atropelou-se o processo legislativo com regimes de urgência e votações sem debate, baseadas em mentiras”, critica o advogado Mauricio Guetta, professor de Direito Ambiental na PUC-Rio.

Flávia Oliveira: Alta na bomba, risco à mesa

O Globo

A guerra na Ucrânia aporta na vida real das famílias brasileiras nesta sexta-feira, quando entra em vigor o reajuste da Petrobras nos preços da gasolina (18,8%), do óleo diesel (24,9%) e do gás de cozinha (16,1%) nas refinarias. O tarifaço segue a política de paridade da estatal ao câmbio e à cotação internacional do petróleo. Economistas foram às contas. Estimam impacto de 1 a 1,5 ponto percentual na inflação oficial no bimestre março-abril. O economista André Braz, responsável pelos índices de preços da FGV, estima que o IPCA de março pode chegar a 1,5%, se o aumento dos combustíveis for inteiramente repassado (0,9 ponto percentual) aos consumidores, a partir do dia 11. Confirmado, será o maior resultado para o mês desde os 1,55% de 1995, ano seguinte ao Plano Real. E ainda restaria resíduo de 0,4 ponto percentual para os dez primeiros dias de abril.

O impacto, sobretudo, da gasolina na inflação é o lado mais facilmente mensurável — mas não o pior —do choque global nos preços das commodities decorrente do conflito na Europa. O produto é o item de maior peso (6,58%) no índice da meta de inflação e interessa à classe média, fatia barulhenta do eleitorado. Em ano de corrida presidencial, foi içado pelo mundo político ao topo de um arcabouço de medidas de custo alto e efeito incerto. O governo acena com subsídio bilionário, que pode favorecer quem anda de carro e neglicenciar os que precisam do gás para cozinhar, mas podem nem ter comida para levar ao fogão.

Luiz Carlos Azedo: Impacto da guerra chega ao Brasil com aumento de combustíveis

Correio Braziliense

As sanções econômicas de EUA, Canadá, Inglaterra e União Europeia contra a Rússia serão mais duradouras do que a guerra da Ucrânia

Os efeitos da guerra da Ucrânia na economia brasileira chegaram muito mais rápido do que se imaginava, com o aumento de 24,93% dos combustíveis anunciado, ontem, pela Petrobras. O reajuste teve impacto imediato na opinião pública e em segmentos que apoiam o presidente Jair Bolsonaro, sobretudo os caminhoneiros, cujos líderes já estão estrilando nas redes sociais. O preço do gás de cozinha leva os ecos da invasão russa para dentro de casa. Guerras sempre foram momentos disruptivos na economia dos países, dessa vez mais ainda, em razão de um mundo globalizado e conectado em redes.

Ontem, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tentou minimizar os efeitos do reajuste dos combustíveis, a partir de medidas que estão sendo tomadas como a mudança no ICMS aprovada ontem pelo Senado: a criação de uma Conta de Estabilização dos Preços dos combustíveis (CEP). A proposta ainda precisa do aval da Câmara dos Deputados, cujo presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), reagiu duramente em relação ao aumento: “Me causou espanto a insensibilidade da Petrobras com os brasileiros — os verdadeiros donos da companhia. O aumento de hoje (ontem) foi um tapa na cara de um país que luta para voltar a crescer”, disse.

Reinaldo Azevedo: Bolsonaro ainda pode vencer

Folha de S. Paulo

Presidente é o primeiro direitista que consegue dar expressão popular à voz da reação porque fala aos simples

Chegamos a meados de março, e a candidatura de Jair Bolsonaro à reeleição não derreteu como muitos previam. Nunca apostei nessa possibilidade, como sabem os que me acompanham aqui e alhures. Ao contrário: escrevi, e mantenho a avaliação, que ele deve chegar competitivo ao segundo turno.

Subestimá-lo, ignorando a arena sanguinolenta das redes sociais em que também se trava a disputa, foi o erro mais tolo cometido em 2018. Por "competitivo", entenda-se: o presidente pode ser reeleito.

Lula parece ter a mesma avaliação. Em encontro com lideranças femininas na manhã desta quinta (10), foi direto: "A luta não será fácil. Não existe essa do ‘já ganhou’. Eleição, a gente só sabe o resultado depois da apuração".

Bruno Boghossian: Banco de reserva

Folha de S. Paulo

Manobra no PSD realça dificuldade na faixa que ainda tenta se espremer entre Lula e Bolsonaro

Notícias do território separatista da terceira via: o senador Rodrigo Pacheco desistiu de concorrer ao Planalto e deve ser substituído pelo governador gaúcho Eduardo Leite como presidenciável do PSD. Com o anúncio, sai um candidato que marcava 1% nas pesquisas e entra um nome que marca, no máximo, 3%.

A troca tem tudo para deixar a disputa eleitoral exatamente como está, mas também revela uma dificuldade crescente na faixa do mercado político que ainda tenta se espremer entre Lula e Jair Bolsonaro.

A busca do PSD por um candidato reserva realça a ideia de que o partido não está na corrida para valer. O lançamento de Pacheco era visto como uma manobra para evitar o alinhamento de políticos da sigla com o PT ou com o bolsonarismo ainda no primeiro turno. É difícil acreditar que Leite seja escalado para desempenhar um papel muito diferente.

Hélio Schwartsman: Segurar preço pode ser má ideia

Folha de S. Paulo

Russos experimentarão as piores dores das sanções, mas o resto do mundo também sofrerá

É possível que as sanções econômicas que a comunidade internacional baixou contra a Rússia surtam efeito. Empobrecer repentinamente a elite e a classe média de um país é uma receita infalível para minar a popularidade do governante de plantão. A incógnita é se Putin ainda depende do apoio de seus súditos para manter-se no poder ou se já criou uma estrutura sólida o bastante para resistir a pressões internas.

De certo, temos que, se são os russos que experimentarão as piores dores das sanções, o resto do mundo também sofrerá.

Ruy Castro: O Brasil ripado

Folha de S. Paulo

Teme-se pelas riquezas culturais e se sobrará alguma coisa quando o pesadelo acabar

"A Funai acabou", disse o fotógrafo Sebastião Salgado ao Globo. A instituição que hoje usa os mesmos nome, endereços, verbas, aviões e mordomias não é a mesma que, em seus primeiros 52 anos, fez o que pôde para proteger os índios. A Funai dos últimos três anos parece querer exterminá-los. Salgado responsabilizou-a pela contaminação em massa com Covid dos indígenas korubo, povo do Vale do Javari, no Amazonas, pelos invasores estimulados pelo governo. E esse é só um dos povos ameaçados.

Outra instituição, a Biblioteca Nacional, está à deriva há muito tempo. Seu ex-presidente nominal, um discípulo de Olavo de Carvalho, foi removido para a Secretaria Especial de Cultura, ex-Ministério da Cultura, este reduzido a humilhante apêndice do Ministério do Turismo, cujo atual titular é o sanfoneiro particular de Bolsonaro. Para dirigir a Biblioteca, indicaram um oficial da reserva da Marinha. A Biblioteca Nacional, uma das dez maiores do mundo, já teve como presidentes em seus 224 anos Raul Pompéia, Celso Cunha, Plínio Doyle, Eduardo Portella e Muniz Sodré. Nenhum deles jamais comandou um navio.

Celso Ming*: A pancada da gasolina e do diesel

O Estado de S. Paulo.

A pancada da correção dos preços da gasolina (+18,7%), do óleo diesel (+24,9%) e do gás de cozinha (+16,0%) terá efeitos econômicos e psicológicos.

Há meses o governo vem dando trombadas sucessivas entre seus ministros na tentativa de substituir o critério de definição dos preços internos aos equivalentes aos das importações (Paridade dos Preços Internacionais). Por não conseguir eleger outro critério, a Petrobras tem de aplicar o que está a seu dispor.

A ideia de que a variação dos preços internacionais não deve ser aplicada imediatamente, mas com certo intervalo, tem o inconveniente da superdosagem: em temporada de alta, quando feitos os reajustes nessas condições, a paulada pode ser bem menos suportável, como agora. Desta vez, a Petrobras ficou 57 dias sem corrigir os preços dos combustíveis.

O principal impacto econômico dessa correção é mais inflação na veia, que não acontece apenas por meio do aumento de custos.

Simon Schwartzman*: O apagão do ensino médio

O Estado de S. Paulo.

O que se tem é uma reforma confusa, sem ter quem a lidere e com alunos prejudicados por dois anos de escolas fechadas

Levantamento recente da Secretaria de Educação de São Paulo mostra o impacto da pandemia no ensino médio do Estado, que já não vinha bem. Em Língua Portuguesa, em 2019, os alunos que terminavam o ensino médio já estavam, em média, 3,83 anos atrasados em termos do que haviam aprendido, ou seja, sabiam menos do que o esperado no 9.º ano do ensino fundamental. Em 2021, este atraso havia aumentado para 4,24 anos. Em Matemática, o atraso, que era de 5,14 anos, aumentou para 6,53 anos, ou seja, tinham o nível próximo ao esperado no 5.º ano. É provável que, no resto do País, o impacto tenha sido maior.

É assim que estes estudantes estão entrando, em 2022, no novo ensino médio, estabelecido em 2017. Pela lei, os estudantes que entram no ensino médio como um caminho para o ensino superior deveriam escolher as áreas de estudo de sua preferência; para a maioria, sobretudo da rede pública, que não irá além do nível médio, seria possível obter uma qualificação profissional valorizada no mercado de trabalho.

Pedro Doria: MBL e a política da dopamina

O Estado de S. Paulo / O Globo

Mais que afundar a carreira política do deputado estadual paulista Arthur do Val (sem partido), o impacto das mensagens em áudio que ele gravou e foram vazadas traz lições importantes. Algumas são lições bastante antigas, bastava ter lido qualquer guia derivado de Maquiavel que se proponha à autoajuda do político iniciante. Mas outras não são tão triviais. Tratam dos limites do tipo de ação política digital usado pelo MBL, pelo bolsonarismo e mesmo pelo que alguns chamam de neobolchevismo digital. Arthur foi abatido pelas armas que sempre usou. Mais: por causa das armas que sempre usou.

É bom antes definir que arsenal é esse. É tratar política de forma histérica. Tudo é escândalo, e nunca há possibilidade do diálogo. O objetivo é manter o giro do conteúdo das redes sociais, um conteúdo que mobilize, deixe os seguidores sempre alertas. Como o escândalo de anteontem é sempre esquecido, é preciso se manter no ataque. É uma política movida a altas doses de dopamina. O neurotransmissor surgiu no processo evolutivo para nos deixar em estado de alerta quando há risco de vida, também regula o prazer, por isso mesmo é aquele jorro fugaz. A dopamina ativa aquilo que o viciado sente. Explode, aí passa rápido.

Fernando Abrucio*: 2013 foi o ovo da serpente

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Se quisermos mudar o país para termos um futuro melhor, a renovação não pode se pautar pelo despreparo, insensibilidade social e moralismo hipócrita

A história humana é repleta de eventos paradoxais. Um dos mais comuns é a existência de momentos marcados pela busca do novo, que, ao final, resultam em retrocessos. A Revolução Francesa gerou Napoleão Bonaparte; a Russa, o totalitarismo de Stalin. No Brasil, multidões foram às ruas em junho de 2013 para pedir a renovação da política brasileira. Apostou-se muito no que viria daquele movimento cívico de massas. Porém, os principais grupos surgidos daquele episódio demonstraram ser o inverso do que diziam: só representam o retrocesso de tudo que o país conquistou desde a redemocratização.

Na verdade, nunca nutri grande esperança no discurso presente naquelas jornadas de junho de 2013, especialmente quando ouvia as soluções propostas para os problemas do país. Estava na avenida Paulista no dia 20 de junho, saindo do trabalho, e ouvi grupos gritando: “Sem partido”, frase que me lembrou a Marcha sobre Roma comandada por Mussolini em 1922. Parecia mais com a metáfora do ovo da serpente, para citar o famoso filme de Ingmar Bergman sobre as origens do nazismo. Pressenti tempos sombrios e, infelizmente, eles vieram.

Não se trata de criticar uma parte da agenda de problemas apresentados pelas ruas, como a necessidade de melhorar os serviços públicos, mas sim o ideário vencedor desse processo político. Ele se baseava num discurso agressivo, tanto na forma como no conteúdo, contra a velha política e as instituições sociais mais relevantes, em nome de uma mistura mal combinada de um ultraliberalismo quase infantil com um conservadorismo moral modernizado pela linguagem das redes sociais. Havia um sentimento de superioridade muito grande naquelas lideranças, quase todas muito jovens, que imaginavam que sabiam tudo e que podiam se contrapor aos seus adversários de forma desrespeitosa e pouco democrática.

José de Souza Martins*: O Estado suspeito

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

É preocupante que cheguemos às eleições de 2022 sem que as estruturas paralelas do poder abusivo e corrupto tenham sido devidamente investigadas, denunciadas e neutralizadas

Menções a corrupção e suas variantes têm sido frequentes no Brasil, as mais recentes relativas ao transporte, pela FAB, de parentes e amigos de membros do governo. Iniciativas têm sido tomadas para regulamentação tópica de anomalias como essa. Mas só essa. O resto permanece.

Há ainda os casos de uso de dinheiro público para viagens de membros do governo nem sempre claramente justificadas como sendo viagens por razões propriamente de Estado. É tal a falta de clareza que pesa sobre elas a suspeita de objetivos que não as justificam.

Ainda não se fez uma pesquisa consistente sobre a história da corrupção no Brasil para explicar-lhe as causas, as metamorfoses e a persistência. Pesquisa que abranja desde a época colonial, quando ainda não se usava essa palavra e o que hoje chamamos de corrupção ainda era outra coisa, mas era.

Claudia Safatle: Governo quer conter impacto da guerra sobre o diesel

Valor Econômico

Redução a zero da alíquota de PIS e Cofins sobre o combustível custará ao país R$ 13,5 bilhões

Uma decisão está tomada: assim que o projeto de lei complementar nº 11, aprovado ontem no Senado, for submetido à Câmara e sancionado pelo presidente Bolsonaro, o governo anunciará a redução a zero do PIS e da Cofins cobrado sobre o diesel. A medida valerá até o fim do ano e custará aos cofres públicos cerca de R$ 13,5 bilhões. São arrecadados com esse tributo cerca de R$ 18 bilhões por ano. Se tudo der certo, a redução dos impostos sobre o diesel valerá por nove meses e terá um impacto sobre o preço final do produto de algo entre R$ 0,30 e R$ 0,50 por litro.

Essa medida não afeta a lei do teto do gasto público e é, por enquanto, a única inciativa pronta do governo para enfrentar a substancial elevação de preços do óleo no mercado internacional, em decorrência da guerra da Ucrânia, país invadido pela Rússia no dia 24 de fevereiro.

A decisão da Petrobras de anunciar, ontem, o reajuste de 18,7% nos preços da gasolina e de 24,9% nos do diesel, aguçou o senso de urgência tanto no Senado quanto no Executivo. Passou-se da conversa para votação de duas propostas. Ambas foram aprovadas.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Norte para o STF deveria sempre ser o comedimento

O Globo

Duas decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) trazem certo alívio em relação a uma questão, ao mesmo tempo, espinhosa e crítica para o futuro da democracia brasileira: o risco representado pelo ativismo judicial.

Na primeira, o Supremo manteve o trecho do Orçamento que destinou R$ 4,9 bilhões ao fundo eleitoral deste ano. Embora o relator, ministro André Mendonça, tivesse em seu voto de estreia defendido uma posição mais razoável dos pontos de vista político e moral — limitar o fundo aos valores de 2018 corrigidos pela inflação —, o Supremo não tem autonomia para mexer em destinações orçamentárias, atribuição constitucional do Parlamento.

Na segunda decisão, a Corte se recusou a rever o prazo que a Lei da Ficha Limpa estabeleceu para a inelegibilidade dos condenados: oito anos depois do cumprimento da pena. Como o STF já se pronunciara sobre a lei e, de lá para cá, não houve nada que justificasse reexaminar a questão, os ministros novamente se contiveram. Nem deram conhecimento à liminar do ministro Nunes Marques, que estipulava prazo de oito anos depois da condenação.

Poesia| Bertold Brecht: Precisamos de você

Aprende - lê nos olhos,
lê nos olhos – aprende
a ler jornais, aprende:
a verdade pensa
com tua cabeça.

Faça perguntas sem medo
não te convenças sozinho
mas vejas com teus olhos.
Se não descobriu por si
na verdade não descobriu.

Confere tudo ponto
por ponto – afinal
você faz parte de tudo,
também vai no barco,
"aí pagar o pato, vai
pegar no leme um dia.

Aponte o dedo, pergunta
que é isso? Como foi
parar aí? Por que?
Você faz parte de tudo.

Aprende, não perde nada
das discussões, do silêncio.
Esteja sempre aprendendo
por nós e por você.

Você não será ouvinte
diante da discussão,
não será cogumelo
de sombras e bastidores,
não será cenário
para nossa ação

Música | Coral Edgard Moraes e Maestro Marco César - Risos de Mandarim (Getúlio Cavalcanti)

 

quinta-feira, 10 de março de 2022

Merval Pereira: Estado laico?

O Globo

É um absurdo que um presidente da República diga a um grupo religioso que vai levar o país para onde eles quiserem. Fossem de qualquer religião, Bolsonaro não poderia assumir esse compromisso, como fez com os evangélicos. Não estamos num governo teocrático, nem num país que se submete a qualquer religião. É um absurdo duplo: campanha eleitoral e declaração pública de que o governo está à disposição de um grupo religioso em troca de votos. Um retrocesso terrível para o país.

O presidente Bolsonaro usa até mesmo ardis políticos para tentar enganar os evangélicos, quando se apresenta uma situação em que seus interesses pessoais ou políticos colidem com os deles. É o caso do projeto de aprovação do jogo no Brasil. Apesar de afirmar aos evangélicos que vai vetá-lo, o projeto é de interesse de sua família. Seu filho Flavio já esteve nos Estados Unidos para reuniões com grandes financiadores dos jogos de azar.

Malu Gaspar: Um poço de conflitos

O Globo

A indicação de Rodolfo Landim para comandar o conselho da Petrobras tem sido tratada na cúpula do governo como solução de emergência para um problema considerado grave pelo presidente da República.

Para Jair Bolsonaro, controlar o preço dos combustíveis é questão de sobrevivência e pode fazer a diferença entre a vitória e a derrota nas eleições deste ano.

Apesar de ter feito uma intervenção na companhia no ano passado, trocando o presidente e quatro conselheiros, Bolsonaro se queixa de que não conseguia conversar com a direção da empresa, nem entender por que não é possível conter a alta nos preços dos combustíveis via Petrobras.

Trocando em miúdos, o fuzuê não deu o resultado que Bolsonaro queria. Nem o general Silva e Luna, que se tornou presidente, nem o almirante Bacelar, que hoje preside o conselho, “resolveram o problema” dele.

Míriam Leitão: Ato pela Terra, ameaças e viradas

O Globo

O dia começou ontem em Brasília com o improvável encontro do governo e o PT para acertar os últimos detalhes dos projetos para subsidiar os combustíveis fósseis. À tarde, a capital floresceu. O cantor Caetano Veloso e muitos artistas fizeram uma sonora manifestação contra a boiada que Bolsonaro e Arthur Lira (PP-AL) querem passar sobre a Amazônia e as Terras Indígenas, sobre o próprio país, aproveitando a guerra. E, no mundo, tudo de novo no front. Houve uma reviravolta nos preços dos ativos, o petróleo despencou e as bolsas subiram. O mercado precificou o fim da guerra, diante dos sinais de negociação.

O governo Bolsonaro está correndo para aprovar uma excrescência: o PL 191, o mais nocivo de todo o pacote antiambiental, anti-indígena e a favor de agrotóxicos feito por este governo e defendido pelo atual presidente da Câmara dos Deputados. Bolsonaro mentiu, de novo, ao dizer que é preciso aprovar o projeto para nos livrar da dependência externa de fertilizantes. Ele tenta tirar proveito da guerra da Ucrânia.

Luiz Carlos Azedo: Lula e Bolsonaro mantêm polarização eleitoral

Correio Braziliense

Bolsonaro paga por seu negativismo na pandemia e pelo fracasso econômico, além do desmantelamento das políticas públicas, principalmente na saúde, na educação e no meio-ambiente

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua à frente das pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República, com 39%, mas o presidente Jair Bolsonaro mantém um lugar garantido no segundo turno, com 31,1%, encurtando sua distância para o petista, segundo o Instituto Paraná Pesquisas. O ex-juiz Sergio Moro refluiu para 7,5% e está em empate técnico com Ciro Gomes, que tem 6,8%, mantendo-se um empate técnico na terceira e na quarta colocações. João Doria (2,2) e Eduardo Leite (1,3%) vêm em quinto e sexto. André Janones marca 0,7%; Simone Tebet, 0,4%; e Alessandro Vieira, 0,1%. Somados, os candidatos que buscam a terceira via não chegam a 20% do eleitorado.

William Waack: ‘Bênção’ e ‘maldição’

O Estado de S. Paulo.

A gravidade da guerra na Ucrânia expõe o desinteresse no Brasil por defesa e segurança

O Brasil não é parte em qualquer conflito internacional agudo de cunho geopolítico, religioso, étnico ou mesmo comercial. Não ameaçamos nem somos ameaçados por nossos vizinhos. Não temos querelas ou questões graves com ninguém lá fora. É uma “benção” mas também uma “maldição”.

Ao conforto dessa realidade corresponde uma grande dificuldade da sociedade brasileira de se preocupar com problemas de segurança internacional e defesa nacional. Quando surgem no debate político eleitoral, questões de política externa ou defesa são de curtíssimo prazo e de cunho estritamente partidário-ideológico.

O Brasil já foi descrito como uma grande ilha de costas para o mar, dada nossa condição geográfica (em termos geopolíticos) de relativo isolamento. Nas relações internacionais geografia é destino, mas mesmo esse destino manifesto de potência regional com muitos vizinhos parece pouco nos interessar.

Eugênio Bucci*: A guerra mundial contra os fatos

O Estado de S. Paulo.

Os que admiram Putin e a ele juram ‘solidariedade’ são ‘solidários’ no repúdio às liberdades e aos direitos e na indústria das ‘fake news’

Vladimir Putin é um tirano bonapartista, típico do século 19. Para ele, a prosperidade só vem com o alargamento dos domínios territoriais. Exibicionista, proclama que seus armamentos são maiores que os dos outros. Aboletado no Executivo, atropela o Legislativo, subjuga o Judiciário e banca o pai forte do povo, passando por cima das mediações da democracia.

Outra faceta do autocrata de Moscou é sua obsessão por idolatrar o passado. O futuro dos sonhos dele é a restauração de uma fantasiosa glória pretérita (a sua “grande Rússia” parece o decalque de um mapa mistificado do século 18). Na verdade, mais do que bonapartista, seu ideário tem marcas de fascismo bruto.

José Serra*: Grilagem na Amazônia: é preciso dar um basta

O Estado de S. Paulo.

De 2016 a 2020, tanto o desmatamento quanto os focos de incêndio em FPNDS foram mais frequentes nas áreas com registro no CAR

Num dos meus últimos artigos, busquei chamar a atenção para os desafios e oportunidades em torno da Amazônia. Nosso mais simbólico bioma, relevante por tantos motivos, passou a estar associado nos últimos anos ao retrocesso brasileiro. Num momento em que governos e sociedades se mobilizam em várias instâncias – como nas Conferências das Partes ou COPS, no âmbito das Nações Unidas – para conter o agravamento do aquecimento global, o Brasil frequenta a imprensa internacional por caminhar na direção contrária: o desmatamento amazônico.

Para que o leitor tenha dimensão do que falo: de agosto de 2020 a julho de 2021, segundo os dados oficiais do Inpe/prodes, 1,32 milhão de hectares de florestas foi derrubado na região amazônica. O equivalente a mais de 5% de todo o território do Estado de São Paulo. Ou seja, mantidos os números, em menos de 20 anos teremos desmatada na Amazônia uma área equivalente a todo o nosso Estado.

Inclusive, o desmatamento amazônico é a maior fonte de emissão de gases de efeito estufa (GEES) no Brasil. A floresta retira carbono da atmosfera e tem função crítica na regulação do regime de chuvas não apenas da região, afora sua biodiversidade.

Maria Hermínia Tavares: O funeral do PSDB

Folha de S. Paulo

Tucanos começaram a minar o próprio chão quando Aécio contestou resultado das urnas

A saída de Geraldo Alckmin do PSDB rumo ao PSB e à Vice-Presidência na chapa de Lula pode ser comparada à missa de sétimo dia de um partido que foi uma das vigas mestras do sistema político inaugurado com a democracia, nos longínquos anos 1980. Indistinguível de outras de igual porte, a legenda continuará à disposição dos que ambicionam fazer da política uma profissão.

Na sua origem, o PSDB foi a agremiação centrista de construtores da democracia; de reformadores moderados da economia e das estruturas do Estado; e de inovadores no terreno das políticas sociais. Sustentou com o PT, embora apenas no plano nacional, competição eleitoral centrípeta, que tornou possível a estabilização das regras democráticas e significativo progresso social.

Aproximava-os o compromisso com a democracia; com a garantia das liberdades; e a busca de maior equidade. Distanciavam-se na importância atribuída à moderação fiscal; às atribuições do setor público e dos mercados; e às formas de obter reconhecimento no exterior.

Quando, no poder, o PT conseguiu dominar todo o território do centro à esquerda, o PSDB foi deslizando para a direita, recrutando ali quadros e a maioria do seu eleitorado, ao tempo em que mudavam suas bandeiras e valores. Até 2014 —mas só nas disputas presidenciais— o partido foi o desaguadouro dos votos antipetistas de todos os matizes da direita: ultraliberais ou conservadores; republicanos ou patrimonialistas; democratas ou nostálgicos da ditadura.

Bruno Boghossian: O presidente involuntário

Folha de S. Paulo

Presidente disfarça interesses para repetir a ideia de que o poder é uma missão divina

A rotina de eventos antecipados de campanha, passeios de moto e comícios golpistas tem cansado Jair Bolsonaro. Num encontro com líderes evangélicos, o presidente disse que não vê a hora de deixar o cargo para "ir para a praia, tomar um caldo de cana na rua, voltar a pescar". Embora passe boa parte do tempo pensando na reeleição, ele insiste no figurino do governante involuntário.

Bolsonaro não explora essa imagem à toa. Atualmente, a maioria da população concorda com ele e gostaria de vê-lo longe do Palácio do Planalto a partir do ano que vem. Mas o presidente trabalha para reconquistar a coalizão de eleitores que lhe deu votos suficientes para garantir sua vitória em 2018.

Vinicius Torres Freire: Árabes, Putin, Bolsonaro e gasolina

Folha de S. Paulo

Conversas políticas e mercado alucinado derrubam preço do petróleo e amanhã vai ser outro dia

No final da tarde europeia, Yusef al-Otaliba tuitou. O preço do petróleo deu outra despencada. Al-Otaliba é o embaixador dos Emirados Árabes Unidos nos EUA e figura política de peso em seu país. Na nota que acompanhava o tuíte, escreveu: "Somos a favor de aumentos de produção [de petróleo] e vamos estimular a Opep a pensar em níveis de produção mais altos".

E daí? O preço da sua gasolina pode ter a ver com decisões da Opep, com boatos de uma remota negociação de cessar-fogo na Ucrânia, com o fato de a União Europeia querer dar um jeito suave no seu abastecimento de energia e com as pressões políticas de Joe Biden no mundo do petróleo.

Pode ser que Jair Bolsonaro também tenha a algo a ver com isso, pois se desespera ao ver que a carestia dos combustíveis pode tornar sua reeleição ainda mais difícil. Quer fazer algo faz ano, mas está empacado feito uma mula, por ignorância e desarticulação política, o que talvez seja uma sorte. No mais, a balançada dos mercados pode não passar desses movimentos de manadas ou de cardumes de sardinhas.

Ruy Castro: É o mesmo estupro

Folha de S. Paulo

A guerra ignora as tragédias individuais, mas é repulsivo que alguns se aproveitem delas

A guerra da Ucrânia nos entra dia e noite pelos olhos, ouvidos e corações, mas pergunto-me se temos como avaliar a tragédia dos que estão participando dela no papel de alvo: a população civil. É terrível imaginar que, em meio aos bombardeios, a vida segue inexorável para tantos ucranianos que, há duas semanas, nada tinham a temer do futuro próximo. Penso, por exemplo, nas gestantes com parto previsto para o começo de março nas condições com que sempre sonharam. Como imaginar que suas contrações se dariam num subterrâneo apinhado e imundo?

Maria Cristina Fernandes: Gás para começar outra vez

Valor Econômico  

Parlamentarismo branco de Brasília é quem move troca na Petrobras

O almirante Eduardo Bacellar Leal Ferreira chegou à presidência do Conselho de Administração da Petrobras junto com o governo Jair Bolsonaro. O estatuto prevê que seu mandato, de até dois anos, poderia ser renovado três vezes consecutivas.

O almirante poderia, portanto, atravessar o próximo mandato presidencial inteiro, mas deixará o cargo sem que apresente óbices a seu exercício.

Se aprovado pela mesma assembleia, o engenheiro Rodolfo Landim poderá, no limite, manter o cargo até 2030, atravessando os dois próximos mandatos presidenciais.

A escalada dos combustíveis é tão danosa que a troca é associada ao impulso do presidente em meter a mão na política de preços da estatal.

Cálculos independentes já apontam defasagem no preço determinado pela política de paridade internacional, de 25% a 30%. A vontade do presidente já tem sido, de alguma forma, contemplada. Para atendê-lo mais ainda seria preciso enfrentar o câmbio, os projetos de lei que tramitam no Congresso, além do superveniente Vladimir Putin.

Lu Aiko Otta: Menos impostos nos combustíveis, lá e cá

Valor Econômico

Tratada como vilã, tributação no Brasil é menor do que na média dos países da OCDE

Tratada como vilã na novela dos combustíveis, a tributação sobre esses produtos no Brasil é menor do que na média dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Aqui se paga 36,8% sobre o preço final da gasolina e 21% no diesel, ante 52,6% e 47,3% na média das principais economias do mundo.

Os dados estão na nota técnica “O Sistema Tributário dos Países da OCDE e as Principais Recomendações da Entidade: Fornecendo Parâmetros para a Reforma Tributária no Brasil”, elaborada por Pedro Humberto Bruno de Carvalho Junior, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Janela partidária dá mais força a Centrão nas eleições

Valor Econômico

Enfraquecimento do Executivo e maior autonomia do Centrão, que com bancadas crescentes, comanda o Legislativo, é desafio para próximo presidente

A janela para a troca de partidos está aberta até o dia 1 de abril e o que conta, como sempre, é a busca do dinheiro para a disputa das eleições deste ano. O fundo eleitoral mais que dobrou, para R$ 4,9 bilhões, e não por outro motivo as bancadas que mais devem crescer são as dos partidos do Centrão, que terão o maior quinhão dos recursos. O fundo é distribuído levando em conta as bancadas eleitas em 2018 e não as hoje atuantes na Câmara dos Deputados.

Seja quem for o próximo presidente da República, terá de se entender com um bloco de centro fisiológico reforçado em número de parlamentares e com muito mais poder decisório sobre o Orçamento, como se comprova neste ano em que os recursos das emendas somam R$ 33,5 bilhões, ou um terço das despesas discricionárias da União.

O presidente eleito tende a atrair a adesão do bloco centrista, mas sob compromissos de repartição do poder que podem se revelar paralisantes, a depender da margem de vitória e de sua capacidade de formar alianças, habilidade obrigatória desprezada pelo presidente Jair Bolsonaro, com as consequências que se conhece. À repulsa de formação de um bloco de apoio no Congresso seguiu-se a dependência absoluta do Centrão, que ocupa a Casa Civil e a Secretaria de Governo, além de ter palavra decisiva nas mudanças orçamentárias.

Poesia | Joaquim Cardozo: Os mundos paralelos

Existe um EU dentro de mim
que não me pertence
não é meu.

Mas pode estar em mim;
do outro lado de mim.
Lado que comigo não tem contato.
Um EU antagônico para o meu ser de agora
Agora e agônico.

O que faço está mais além desfeito:
É um fazer contrafeito que morre
E renasce, depois, no meu peito.

Nada me vem contra o que está de mim vizinho.
O que me vem é contra o que de eterno em mim me oprime
— Aquilo que está no que era de outra vez;
E que esteve noutro sentido e ainda perdura e se antepõe
E que me destrói, me impõe, me presume e suprime.

Todos os meus atos são atos reflexos
No projetivo espelho tempo/espaço, no fechado não denso.
Correspondência injetiva, deprimente, fria, de interno entorno.

Ouço a voz paralela a minha voz,
Ouço o canto que é um eco do que, outrora, foi meu.
Em conflito com o que poderia ser silêncio
Se este pudesse fluir lentamente como o tempo
E ser, se pudesse, confundidamente tempo-silêncio

No que aqui é doce, no paralelo é amargo
No que aqui é macio no paralelo é áspero
Mundo paralelo!
afogar
Nele é que vou me apagar, me sumir, me perder,
Me esconder, para sempre, no esquecer.
Noitemente amanhecer.

Música | Geraldo Azevedo, Elba Ramalho: Chorando e Cantando

 

quarta-feira, 9 de março de 2022

Opinião do dia | Antonio Gramsci*: "partido político"


"Será necessária a ação política (em sentido estrito) para que se possa falar de "partido político"? Pode-se observar que no mundo moderno, em muitos países, os partidos orgânicos e fundamentais, por necessidade de luta ou por alguma outra razão, dividiram-se em frações, cada uma das quais assume o nome de partido e, inclusive, de partido independente. Por isso, muitas vezes o Estado-Maior intelectual do partido orgânico não pertence a nenhuma dessas frações, mas opera como se fosse uma força dirigente em si mesma, superior aos partidos e às vezes reconhecida como tal pelo público. Esta função pode ser estudada com maior precisão se se parte do ponto de vista de que de um jornal (ou um grupo de jornais), uma revista (ou um grupo de revistas) são também "partidos", "frações de partido" ou "funções de determinados partidos",

*Antonio Gramsci(1891-1937), Cadernos do Cárcere, V. 3, p. 349, Civilização Brasileira, 2007

Vera Magalhães: Pérolas de presente no 8 de Março

O Globo

Uma das formas mais comuns nos discursos feministas para marcar que 8 de Março não é uma data para vender flores ou perfumes, e sim uma oportunidade de fomentar discussões a respeito da condição feminina e da desigualdade de gêneros no Brasil e no mundo, foi pedir aos homens que, nesse dia, não deem flores às mulheres.

Pois, em 2022, o debate público trocou rosas por pérolas, mas não aquelas que adornam lindas joias, e sim as bobagens que, na gíria, ganharam essa denominação.

Antes das 7h, ao levantar, fui surpreendida por um post da jornalista Natuza Nery republicando o anúncio de um ciclo de palestras sobre a participação feminina na política “estrelado” apenas por… homens! Jair Bolsonaro, os ministros Paulo Guedes (Economia) e Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura), o presidente da Câmara, Arthur Lira, e o vice-governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, palestrariam, ao longo de vários dias, a respeito desse tema sobre o qual têm tanto a dizer. As mulheres? Estariam na plateia, claro, aprendendo.

Elio Gaspari: Alckmin na Vice de Lula

O Globo

A ideia é fazer um governo de coalizão

Lula e Geraldo Alckmin estão fechando a aliança, e o ex-governador e ex-candidato do PSDB à Presidência será o vice na chapa do petista. Como aliança, é um golpe de mestre. Vacina Lula e recoloca Alckmin no cenário de que foi afastado por sucessivas derrotas e erros de julgamento.

Na sua origem, estaria o interesse de Lula de, uma vez eleito, formar um governo de coalizão, à semelhança da base política que sustentou Angela Merkel na Alemanha. Esse raciocínio teria partido de Lula.

Durante seus oito anos de governo, o líder petista teve um vice empresário, limpo e bem-sucedido. José Alencar foi leal e discreto. Quando fazia contraponto ao presidente na política econômica, combinava antes e demarcava limites razoáveis. Alckmin é um político correto e de lealdades acima da média, mas sua biografia não é a de Alencar.

Bernardo Mello Franco: A solidão de Moro

O Globo

Sergio Moro é novato na política, mas já aprendeu a se livrar de aliados incômodos. O ex-juiz foi rápido para rifar Arthur do Val, o Mamãe Falei. “Jamais dividirei meu palanque e apoiarei pessoas que têm esse tipo de opinião”, tuitou na noite de sexta, quando o falastrão ainda voava de volta da Ucrânia.

O deputado youtuber virou uma companhia tóxica após ofender refugiadas em plena guerra. A questão é que ele sempre usou “esse tipo de opinião” para se promover. Mesmo assim, Moro o havia escolhido para dividir o palanque em São Paulo.

Fundador do MBL, Do Val integra a turma da nova direita que aposta no insulto como arma política. Em 2020, chamou o padre Julio Lancellotti de “cafetão da miséria”. Antes disso, xingou ministros do Supremo, invadiu a Faculdade de Medicina da USP, ofendeu colegas na Assembleia Legislativa e conseguiu ser expulso do DEM por mau comportamento.

Luiz Carlos Azedo: Doria avalia opções diante do próprio fracasso pré-eleitoral

Correio Braziliense

Não se pode descartar a possibilidade de o tucano paulista desistir da candidatura à Presidência, mas dificilmente o fará como derrotado por uma conspiração interna

Avança uma conspiração surda na bancada paulista do PSDB para que o governador de São Paulo, João Doria, jogue a toalha e desista de ser candidato. As conversas entre paulistas e tucanos dissidentes, que querem pôr o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, no lugar de Doria, têm conexões com os aliados do Cidadania, que aprovou uma federação com os tucanos, e antigos líderes do União Brasil, que se afastaram de Doria por causa da filiação do vice-governador Rodrigo Garcia (ex-DEM) ao PSDB.

A terra se move sob os pés de Doria porque as pesquisas mostram que sua rejeição é a mais alta entre todos os candidatos e sua candidatura não encorpa nem mesmo em São Paulo. Os tucanos paulistas estão chegando à conclusão de que a insistência de Doria com a candidatura pode resultar na derrota de Rodrigo Garcia — que assumirá o governo de São Paulo e concorrerá à eleição — para o ex-prefeito paulista Fernando Haddad. A consolidação do nome do ex-governador Geraldo Alckmin como vice na chapa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo PSB mostra que o conflito com o ex-governador Márcio França está sendo resolvido.