segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Atenção na eleição americana está em decisões da Justiça

O Globo

Trump, favorito entre republicanos, se defende em quatro processos criminais e tenta manter seu nome nas cédulas

A corrida eleitoral nos Estados Unidos começa hoje com as prévias no estado de Iowa. De acordo com as pesquisas, as primárias ao longo do semestre consagrarão mais uma vez como adversários o republicano Donald Trump e o democrata Joe Biden. Ao mesmo tempo, a atenção estará nos tribunais, onde Trump tenta defender sua candidatura de toda sorte de acusação. Com 50 pontos percentuais de vantagem na corrida republicana, ele é réu em quatro processos criminais. Seu nome foi vetado nas cédulas em dois estados, Maine e Colorado, sob a alegação de ter participado de “insurreição” em 6 de janeiro de 2021.

As tentativas de Trump de reverter o resultado da eleição de 2020 são públicas: repetidas declarações mentirosas sobre fraudes, pedidos para que votos inexistentes fossem contados, discurso para a multidão que invadiu o Capitólio e pressão para que o então vice Mike Pence não confirmasse a vitória de Biden. Mesmo esse histórico não garante que a Justiça arrisque tomar uma decisão radical barrando sua candidatura.

Fernando Gabeira - A fronteira com o Equador

O Globo

A produção e a distribuição de drogas são um dado essencial não apenas na economia, mas na vida social de nosso continente

Tinha vários temas na cabeça e, de um modo geral, isso é bom. No entanto não posso escapar do Equador. O que aconteceu lá é importante para o Brasil e também para os Estados Unidos e a Europa, mesmo que se finjam de mortos.

A produção e a distribuição de drogas são um dado essencial não apenas na economia, mas na própria vida social de nosso continente. O impacto delas na vida dos outros países é menor que aqui, onde muita gente morre ou é subjugada nas áreas ocupadas pelo tráfico. O caso brasileiro é especial. Por aqui passam rotas de drogas, e o país tornou-se o segundo maior consumidor mundial de cocaína.

Miguel de Almeida - Vereador, pra que te quero

O Globo

Câmara Municipal de Rio e São Paulo é povoada por políticos capazes de confundir números primos com o número de parentes

Sempre me pergunto: o que Carlos Bolsonaro pensa sobre moradia popular? Qual sua posição a respeito da mobilidade urbana? Será que é a favor ou contra a ampliação das calçadas em zonas centrais? Ninguém sabe, ninguém viu. Curiosamente, nesse caso ele está limpo. A culpa não lhe cabe diretamente (jamais pensei que o inocentaria alguma vez), mas pertence, sim, ao sistema eleitoral e ao próprio eleitor, quando não dá importância ao cargo de vereador em metrópoles como Rio ou São Paulo.

Enquanto se cai na gaiatice de Deus, pátria e família evangélica, a Câmara Municipal das duas cidades é povoada por políticos capazes de confundir números primos com o número de parentes apaniguados (parece o caso do governador de Santa Catarina). Por trás das fake news de Damares e assemelhados — crianças com dentes arrancados para sexo oral ou a “mamadeira de piroca” —, entre outras razões escusas, se esconde a estratégia de poluir o ambiente com preconceitos para fugir a temas administrativos mais elaborados. O professor da turma, reprovado nas provas de oficialato, já expressou seus conhecimentos - 4% negativos + 5% positivos = 9% positivos. Ah, Jair.

Ricardo Henriques - Por uma utopia pragmática

O Globo

É preciso ter altas ambições de transformação, enfrentando com determinação nossa dívida social histórica. Mas, sem capacidade de realização, tudo isso será, mais uma vez, só um desejo

Renovadas as energias na passagem de ano, é hora de agir diante de imensos desafios pela frente. Em escala global, provavelmente nada é mais urgente do que enfrentar a emergência climática. Estimativas confiáveis apontam 2024 como ainda mais quente que 2023, quando o planeta teve a maior temperatura média já registrada. O ano também será de decisões cruciais sobre o futuro da democracia no mundo.

Em nível nacional — somados aos problemas históricos de pobreza, desigualdade e racismo —, teremos tarefas inadiáveis, como o enfrentamento da crise de segurança pública, o avanço significativo na qualidade da educação, a transição para uma economia de baixo carbono, além da melhoria das condições de saúde, transporte e saneamento nas cidades.

João Saboia* - A regulamentação da renda básica de cidadania

Valor Econômico

Após 20 anos desde sua aprovação, a Lei 10.835/2004 que instituiu a renda básica continua uma promessa não realizada

O dia 8 de janeiro ficará marcado para sempre no país como aquele em que a Praça dos Três Poderes foi invadida por golpistas e os prédios da Presidência da República, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal foram vandalizados. Mas outro acontecimento importante e menos lembrado ocorreu há vinte anos no mesmo dia 8 de janeiro. Trata-se da instituição da renda básica de cidadania (RBC) por meio da Lei 10.835/2004.

A lei menciona que o valor do benefício deveria ser concedido a todos os brasileiros e “suficiente para atender às despesas mínimas de cada pessoa com alimentação, educação e saúde”. A lei ainda informava que seu início se daria em 2005 e que sua abrangência deveria ser alcançada em etapas, sendo priorizadas as pessoas mais pobres. Após 20 anos desde sua aprovação, a Lei 10.835/2004 continua uma promessa não realizada.

Bruno Carazza* - As emendas e o novo presidencialismo de coalizão

Valor Econômico

Aumento de protagonismo dos parlamentares no Orçamento abala as bases de funcionamento de nosso sistema político

Quando a Assembleia Nacional Constituinte, reunida em 1987, sinalizava que seus membros iriam adotar um sistema político com as mesmas características herdadas do final da ditadura, o cientista político Sergio Abranches pressentiu que o resultado não seria bom.

Na sua visão, o modelo de eleição proporcional de deputados estimularia a proliferação de partidos e reforçaria o poder das bancadas dos Estados. Além disso, o federalismo que emergia da nova Constituição tinha um protagonismo forte da União, tanto em arrecadação tributária quanto no poder de desenhar políticas públicas.

Como resultado, os presidentes teriam que lidar com uma base fragmentada em muitos partidos e ainda deveriam atender a demandas por recursos vindas de cada Estado. A consequência, Abranches imaginou, seria um sistema propenso a crises, dadas as dificuldades que o presidente teria para formar e manter uma coalizão que, em função das condições institucionais criadas, seria excessivamente heterogênea em termos ideológicos e regionais.

Denis Lerrer Rosenfield* - Lições identitárias

O Estado de S. Paulo

A teoria da racialização choca-se frontalmente com a realidade e com os brasileiros que se autointitulam ‘pardos’

O estrago causado pelas políticas identitárias nas mais importantes universidades americanas, com destaque nas últimas semanas para a Universidade Harvard, é uma lição a ser aprendida. A reitora, Claudine Gay, primeiro compactua com o antissemitismo, sendo extremamente complacente com ele. Presa ao esquema mental identitário de equiparar os judeus a brancos opressores, que poderiam ser assim discriminados e, mesmo, perseguidos pelas turbas universitárias esquerdistas. Segundo, foi acusada, com razão, de plágio, não conseguindo nem mesmo reescrever os textos plagiados. Um escândalo para uma professora. Em seus 26 anos de docência, publicou 11 artigos sem expressão e nem um único livro.

Michel Temer* - O semipresidencialismo

O Estado de S. Paulo

Ao longo do tempo vários fatores se desenharam para fortalecer a presença governativa do Parlamento

Fato, valor e norma. Era a lição do professor Miguel Reale quando ressaltava que certos fatos vão sendo tão valorizados que, em dado momento, são normatizados. Seja: viram leis. É o caso, penso, do semipresidencialismo.

Falava-se pouco desse sistema de governo. Que é semi porque não é o presidencialismo puro, nem o parlamentarismo. É amálgama dos dois sistemas. Com efeito, trata-se de fórmula em que o presidente da República também “reina e governa”, já que recebe atribuições que não significam apenas presença governativa nas relações exteriores, mas tarefas como a chefia das Forças Armadas, a designação do primeiro-ministro e até a possibilidade de sanção ou veto a projetos de lei juntamente com o primeiro-ministro. Mas a função governativa interna, a administração executiva do País, passa para o Poder Legislativo.

Marconi Perillo* - Violência no Equador traz recados ao Brasil

Correio Braziliense

Temos no Brasil facções criminosas — algumas, inclusive, já internacionalizando suas operações— que precisam ser combatidas com muito mais rigor que hoje

A explosão de violência no Equador, nosso vizinho de América do Sul, traz dois recados para o Brasil. O primeiro é que combater a violência, o narcotráfico e os grupos criminosos organizados é urgente. É preciso ter coragem para, com o uso intensivo de inteligência policial e das melhores ferramentas tecnológicas, exterminar as organizações criminosas que atuam com tráfico de drogas, roubo de cargas, pirataria e, muitas vezes, atuam como verdadeiras máfias que aterrorizam moradores e vendem proteção contra si mesmas. Além disso, um total controle das fronteiras é essencial. Nossas fronteiras são como peneiras por onde passam drogas, armas, contrabando e criminosos em busca de ambiente mais favorável para suas fugas.

Lygia Maria - A falácia do golpe

Folha de S. Paulo

Coalizões do PT com "golpistas" só comprovam que o que ocorreu em 2016 foi um processo legítimo de impeachment

Golpe é coisa séria. Uma ruptura institucional repentina com a derrubada de um governo legítimo e a tomada do poder por grupos que não haviam sido designados legalmente para o comando do Estado.

Mas, para o PT, tal fenômeno parece ser banal. O partido ainda trata o impeachment de Dilma Rousseff como golpe, mas mantém alianças com quem teria contribuído para a tal quebra do regime democrático.

Marcus André Melo* - 'Reis eleitos, com o título de presidentes'

Folha de S. Paulo

Impasse nas relações Executivo-Legislativo

O modelo de Simón Bolívar para a América Latina era "reis eleitos, com o título de presidentes". Mas presidencialismo imperial é coisa do passado. Os presidentes perderam poderes discricionários e alguns constitucionais. Como no Brasil, onde as relações Executivo-Legislativo estão se reacomodando. E há confrontos.

O presidente Lula apresentou a MP da desoneração como para medir forças com os presidentes das duas Casas legislativas. Isso após ter seu veto integral a proposta derrubado no Senado. Ou seja, dobrou a aposta. O que explica esta medida audaciosa? Uma hipótese é que se trata de uma estratégia de sinalização de seu comprometimento com a responsabilidade fiscal. Espera ganhar mesmo perdendo: irá recorrer ao episódio para justificar o aumento da arrecadação em 2024.

Ana Cristina Rosa - Ano novo, problema antigo

Folha de S. Paulo

Não dá para apartar a grave crise do Equador do cenário de extrema desigualdade econômica

Onde grassa a miséria, é impossível encontrar uma situação de segurança e bem-estar social. A lógica do desenvolvimento econômico compreende o avanço de indicadores relacionados à qualidade de vida do povo —o que subentende que todos prosperem. É o tipo de lição que quanto antes for compreendida e aplicada, melhor para todo mundo.

Contudo, não é o que acontece na América Latina, onde mais de 180 milhões de pessoas não têm dinheiro para as necessidades básicas, segundo relatório divulgado no final de 2023 pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

Ignácio de Loyola Brandão* - Por que tanto ódio?

O Estado de S. Paulo

Do ponto de vista do abraçar, querer bem e ter compaixão, padre Júlio dá lições a todos nós

Há em São Paulo um mistério que me atormenta. Mistério que talvez nem Sherlock Holmes, Agatha Christie, George Simenon, Patricia Cornwell, Ellery Queen e Patricia Highsmith consigam resolver. Ah, senhores vereadores, os citados estão entre os mestres da ficção policial. Ficção é fantasia, imaginação. Realidade são os que roubam celulares nas ruas, quebram vidros dos carros e levam o que podem, sequestram pessoas, exigem Pix dos idosos na porta dos bancos, reviram lixo em busca de comida, ou aqueles que exigem Pix para salvar suas almas e levá-las a Deus, telefonam comunicando compras feitas com nosso cartão fora de nosso perfil, e assim por diante.

Isso vocês, boa parte de nossos edis (edil é sinônimo de vereador, assim como prócer, agnoteta, arquimandrita), ignoram. Realidade é a cidade suja, calçadas arrebentadas, bueiros entupidos, ruas esburacadas ou sem iluminação, correio que não pode chegar a muitos CEPs por insegurança, casas sobre esgotos ou na beira de morros despencando com chuvas, doenças infecciosas, riachos cheios de urina e merda correndo entre casas, semáforos quebrados.

Ruy Castro - Quem "traiu" o quê e com quê

Folha de S. Paulo

Bob Dylan, Ray Charles, Miles Davis e Nara Leão, todos foram acusados, um dia, de trair suas raízes

Ano sim, ano não, essa história volta à cena. Em 1965, Bob Dylan, astro do folk americano com "Blowin’ in the Wind", trocou seu violão pela guitarra elétrica e se converteu ao rock com "Like a Rolling Stone". Escalou as paradas e nunca mais olhou para trás. O pessoal do folk o chamou de "traidor". Era como se seu colega brasileiro Catulo da Paixão Cearense abandonasse "Luar do Sertão", hino do folk nacional, e se passasse para o Carnaval compondo "Teu Cabelo Não Nega".

Cacá Diegues - Criação de um cinema nacional

O Globo

Minha geração não queria mais falar de um Brasil que conhecíamos, mas abrir o horizonte para falar de um Brasil que ninguém conhecia

O cinema brasileiro de qualidade nunca se impôs no próprio país, a não ser no final do século XX, durante o curto período em que os filmes eram feitos pela geração do Cinema Novo, produzidos e distribuídos pela Embrafilme, a empresa do Estado então comandada por Roberto Farias, um cineasta daquela geração.

O Cinema Novo cria uma “linguagem nova para dar expressão a um realismo crítico da situação nacional e à revelação de uma poesia até agora escondida. Essa síntese é a nova arte cinematográfica brasileira, manifestação do mesmo idealismo combativo que hoje se insurge contra a infame opressão estrangeira e contra o apoio a essa opressão dentro do país”, como escreveu Otto Maria Carpeaux na época.

Sérgio Augusto* - Com os pés e a cabeça

O Estado de S. Paulo

Desconfio que foi a propósito de Franz Beckenbauer e seu jeito sobranceiro de jogar, sempre de cabeça erguida, que ouvi ou li pela primeira vez esta observação: “Ele nem sabe qual a cor da grama”.

Outros, geralmente volantes e meio-campistas, como Didi, Falcão e Ademir da Guia, também fizeram por merecê-la, mas é quase unânime a certeza de que, no futebol das últimas décadas, o kaiser do Bayern e da seleção alemã, zagueiro de ofício, reinou absoluto no quesito elegância.

Craque dentro e fora do campo, inclusive como cartola, Beckenbauer teve participação decisiva até na entrada do primeiro negro no escrete teutônico, Erwin Kostedde. Atletas e dirigentes racistas opuseram-lhe resistência; Franz nem precisou de prorrogação para derrotá-los.

Poesia | Não tenho pressa - Fernando Pessoa

 

Música | Elba Ramalho - A Mulher do Dia (Carlos Fernando)

 

domingo, 14 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Quantidade de pleitos não garante qualidade da democracia global

O Globo

Este ano baterá todos os recordes eleitorais no mundo, mas há risco de maior corrosão democrática

Por uma conjunção de calendários, este ano baterá todos os recordes eleitorais. Cerca de 2 bilhões, quase metade da população adulta do planeta, tomarão parte em votações em mais de 60 países de todos os continentes em 2024. Provavelmente só em 2048 o mundo voltará ter tantas disputas eleitorais. Até dezembro, haverá eleição no país mais poderoso (Estados Unidos) e no mais populoso (Índia). No Brasil, a disputa é pelas prefeituras e câmaras municipais. Na Indonésia, estão em jogo Presidência e Congresso. Na União Europeia, vagas no Parlamento. Haverá eleições em países com maioria muçulmana (Paquistão), católica (México) e anglicana (Reino Unido). Mesmo disputas em países pequenos podem ter importância global, como a ocorrida ontem em Taiwan, um desafio à influência da China.

Se, na quantidade, o ano parece a festa da democracia, em qualidade 2024 é menos vistoso. Os pleitos na Rússia, na Venezuela e no Irã demonstram que depositar o voto na urna é um passo imprescindível, mas insuficiente para um país ser democrático. Quando a oposição é perseguida, presa e impedida de participar, a eleição se transforma em mero teatro. Mesmo quando há alguma competição, a saúde da democracia não está garantida.

Merval Pereira - O Equador pode ser aqui

O Globo

O combate ao crime organizado não pode ser responsabilidade exclusiva dos estados, como teimam em interpretar restritivamente a Constituição. Narcotráfico e tráfico de armas são crimes federais, transnacionais, entram pelas fronteiras.

Chegamos a uma situação em que, quando algum cidadão reage a um assalto e prende ou mata um bandido que tentou assaltá-lo, vibramos como se fosse nosso herói. Por outro lado, quando vemos nas redes sociais um assalto bem-sucedido, sofremos com o cidadão, como se nós estivéssemos naquele vídeo.

Não é possível viver assim, atrás das grades nos edifícios, em carros blindados quando se tem possibilidade de ter um. A escalada da violência só faz aumentar, e adiamos as providências há pelo menos 20 anos, quando a criminalidade já exigia uma Secretaria Extraordinária de Segurança Pública, criada por Lula em sua primeira presidência, em 2003.

Elio Gaspari - Segurança é loteada

O Globo

Confiança é uma coisa, competência é outra, e prevalece massagem dos egos na mudança de Dino para Lewandowski

Ricardo Lewandowski assumirá um Ministério da Justiça transformado em algo parecido com a mal falada Codevasf. Pela primeira vez na história dessa pasta ocupada por Diogo Feijó (1831-1832), por Bernardo Pereira de Vasconcelos (1837-1839) e Tancredo Neves (1953-1954) discutiu-se o preenchimento de cargos no seu segundo escalão a partir de critérios partidários ou regionais.

O PT quer cadeiras ocupadas pelo PSB e seria desmontada a "República do Maranhão" criada por Flávio Dino. Nenhum dos prováveis degolados foi classificado como incompetente e nenhum dos prováveis sucessores é louvado pela competência em questões de segurança pública. Trata-se apenas de discutir a filiação partidária ou a origem regional. Pior: prevalece nas aspirações a massagem dos egos de candidatos interessados em melhorar seus contatos e polir seus currículos.

Na campanha eleitoral, quando o tema da segurança pública teve a importância que merecia, Lula prometeu dividir o ministério. Na cadeira, atendeu às ponderações de Flávio Dino e Lewandowski, desistindo da ideia.

Dora Kaufman* - TSE precisa banir IA da campanha de 2024

O Globo

O temor dominante é o dano potencial da desinformação à democracia, particularmente com ‘deepfakes’

Em 2024, estão previstas eleições em mais de 60 países, envolvendo quase 50% da população adulta mundial e incluindo a escolha do presidente dos Estados Unidos, dos integrantes do Parlamento Europeu e dos prefeitos e vereadores no Brasil. Nos Estados Unidos, como noticiado pelo New York Times em março de 2023, os engenheiros republicanos e democratas estão empenhados em usar a inteligência artificial (IA) para aprimorar técnicas de microtargeting, gerar mensagens personalizadas e aumentar o impacto da publicidade. O temor dominante é o dano potencial da desinformação à democracia, particularmente com as deepfakes (amálgama de deep learning e fake, técnica que sintetiza imagens ou sons humanos com IA).

Dorrit Harazim - Haia existe

O Globo

Netanyahu jamais conseguirá apagar o dano moral, político, diplomático e histórico sofrido na Corte internacional

Ninguém gosta de ser submetido a julgamento. Países, também não. E o Estado de Israel, comandado por Benjamin Netanyahu, menos ainda. Mesmo que consiga convencer a Corte Internacional de Justiça (CIJ) a arquivar a acusação de genocídio apresentada pela África do Sul, ou mesmo que consiga evitar a petição por medidas provisórias urgentes, como a interrupção dos ataques a Gaza, Netanyahu jamais conseguirá apagar o dano moral, político, diplomático e histórico sofrido em Haia. A sentença final a ser decidida pelos 15 juízes da Corte pode demorar dias, semanas, meses, até anos, mas a mera questão central — Israel cometeu genocídio? — é devastadora em si.

Relegada ao papel de cemitério do Direito Internacional, a Palestina como um todo, e Gaza em especial, pouco espera da Justiça dos homens. Só que a petição apresentada pela África do Sul pode ter desdobramentos inesperados. Como previsto, foi desconsiderada como frivolidade pelo secretário de Estado americano, Antony Blinken. Mas não por Netanyahu, que optou por apresentar sua defesa perante a Corte. Não é de hoje que lideranças israelenses se preocupam com uma eventual percepção mundial de que a opressão sofrida pela Palestina ocupada é uma forma de apartheid. O espectro de isolamento internacional semelhante ao imposto ao regime de minoria branca na África do Sul — que culminou na extinção do apartheid nos anos 1990 — sempre existiu. Et pour cause.

Eliane Cantanhêde - Por que?

O Estado de S. Paulo

Posição do Brasil contra Israel, política e sem valor prático, traz efeitos internos e externos

Por que, afinal, o presidente Lula decidiu atrair mais chuvas e trovoadas, dentro e fora do País, ao anunciar oficialmente apoio ao julgamento de Israel, por genocídio, na Corte Internacional de Justiça de Haia? Não precisava. Países não votam na Corte e não interferem no resultado. Bastava acompanhar de perto e ver no que daria, como fizeram China e Rússia, os dois principais integrantes dos Brics.

A explicação nos bastidores, ou melhor, nos palácios, é a tragédia humanitária em Gaza, transformada num gigantesco cemitério de crianças depois que Israel reagiu ao ataque terrorista do Hamas despejando sua ira e sua força na faixa que abriga(va) os palestinos. Mas, fora dos gabinetes envidraçados de Oscar Niemeyer, a interpretação é outra: a posição ideológica de Lula e do PT contra Israel.

Pedro Malan* - Trinta anos do real e décadas vindouras

O Estado de S. Paulo

A corrida para tornar-se um país rico no século 21 será mais difícil. O que não quer dizer que não haja oportunidades a serem exploradas

Em 2024 o real completa seus primeiros 30 anos como a moeda nacional de estável poder de compra. Um marco histórico, dado nosso passado de recordista mundial de inflação acumulada, do início dos anos 1960 ao início dos anos 1990.

Nenhum brasileiro que tenha menos de 46 anos (a maioria da população) tem lembrança vívida da marcha da insensatez que foi a evolução de nossa inflação – alta, crônica e crescente por décadas até chegar aos surreais 2.400% no ano de 1993, o último ano antes da criação do real. Da mesma forma, nenhum brasileiro que tinha menos de 46 anos em 1989 (novamente, a maioria da população) jamais havia votado para presidente da República. Há que comemorar os 35 anos de eleições diretas para o cargo, apesar das dores do aprendizado.

Ao derrotar a hiperinflação e se consolidar, o real permitiu que o País pudesse vislumbrar, com um pouco mais de clareza, a magnitude de outros problemas econômicos, sociais e político-institucionais que precisavam ser enfrentados para que pudéssemos vislumbrar nosso futuro, no longo prazo, com mais confiança. Nas comemorações dos 30 anos do real e de nossa democracia seria importante incorporar uma visão que vá além de 2024, do próximo triênio, do restante desta década.

Rolf Kuntz - Destravar o Brasil ainda é um desafio

O Estado de S. Paulo

Lula promete um ano mais próspero que o desenhado nas profecias do mercado. Seu discurso seria mais tranquilizador se explicasse como vai equilibrar as contas

A festa foi boa, a economia cresceu cerca de 3% e o desempenho brasileiro em 2023, começo do mandato presidencial, foi muito melhor que o previsto no fim do ano anterior pelos profetas do setor financeiro. Naquele momento, a mediana das projeções apontava uma expansão de 0,80%. Mas o pessimismo voltou. No mercado, o avanço estimado para 2024 ficou em 1,59%, no início do mês, segundo o boletim Focus de 8 de janeiro. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já falou em 2,2%. Na maior parte do setor privado, as apostas têm variado entre 1% e 2%.

Se os fatos confirmarem qualquer desses números, o avanço do País será, mais uma vez, inferior à média mundial projetada por instituições multilaterais e por grupos financeiros. Segundo indicou em outubro o Fundo Monetário Internacional (FMI), o produto bruto global deve aumentar 2,9% neste ano e o do Brasil, 1,5%. No cenário do Banco Mundial, os números estimados são 2,4% e 1,5%. Neste século, o dinamismo brasileiro tem sido geralmente menor que o de outros emergentes e inferior, também, ao da maioria dos países avançados. As projeções do FMI são revistas no início do ano. Haverá enorme surpresa se ocorrer grande melhora no quadro previsto para o Brasil.

Celso Rocha de Barros - Marta Suplicy de volta ao PT

Folha de S. Paulo

Reforma política reduz partidos, e destino da esquerda é federação com gente que já teve entre si brigas ainda mais feias

Marta Suplicy voltará ao PT para ser vice na chapa de Guilherme Boulos.

O movimento, orquestrado por Lula, é uma bela jogada. Marta tem votos na periferia de São Paulo, onde sua administração realizou investimentos importantes. Sua experiência administrativa, e mesmo sua passagem por partidos de centro nos últimos anos, podem enfraquecer a impressão de que uma chapa liderada por Guilherme Boulos seria radical demais.

Seu retorno ao PT causou algum ruído. Mesmo grupos da esquerda do PT defendem Marta como vice de Boulos, mas preferiam que ela concorresse por alguma outra legenda aliada. E, sejamos honestos, se era para voltar um dia, Marta deveria ter rompido com o PT de maneira menos ruidosa: não precisava ter votado a favor do impeachment. Sobretudo, não precisava ter entregado flores a Janaína Paschoal no dia da votação do impeachment na Câmara.

Marcos Lisboa* - Veja bem...

Folha de S. Paulo

Criatividade com o conceito de superávit primário requer um novo termômetro

A evolução da dívida pública pode parecer tema arcano para a maioria da população, mas afeta o seu dia a dia. Se a dívida do governo cresce seguidamente mais do que a renda do país, o resultado será maior inflação ou mais impostos. Existe outra opção, o calote. O governo simplesmente deixa de pagar o que deve no prazo previsto.

Esse tem sido um hábito frequente no Brasil. A PEC dos Precatórios impôs o adiamento do pagamento das dívidas da União com cidadãos que tiveram seus direitos reconhecidos pelo Judiciário.

No mês passado, o governo editou medida provisória que posterga o ressarcimento de contribuintes que, de acordo com decisão judicial, pagaram mais tributos do que deveriam. "Veja bem, eu devo para vocês. Só não posso pagar agora. Então, decidi ressarci-los mais tarde."

Hélio Schwartsman - Uma paz para acabar com a paz

Folha de S. Paulo

Livro mostra como surgiram países do atual Oriente Médio e como isso contribuiu para a instabilidade regional

Para entender melhor o que acontece no Oriente Médio, li "A Peace to End All Peace" (uma paz para acabar com qualquer paz), de David Fromkin. Embora não exatamente nova, é uma obra de fôlego que mostra como surgiram os países que hoje constituem a região e como sua gênese contribuiu para a instabilidade atual.

Fromkin começa sua investigação nos estertores do Império Otomano, passa a lupa sobre a 1ª Guerra Mundial e para em 1922, que é quando o mapa do Oriente Médio assume feições semelhantes às atuais. É um prato cheio para apreciadores do beletrismo histórico. "Grand Jeu", acordo Sykes-Picot, declaração Balfour e outros eventos, sobre os quais lemos hoje nos artigos mais eruditos sobre o imbróglio médio-oriental, são cuidadosamente discutidos.

Bruno Boghossian - Trump em busca de revanche

Folha de S. Paulo

Ex-presidente posa como vítima de perseguição e insinua vingança como plataforma para um segundo governo

Donald Trump apareceu em dois tribunais na última semana. Na terça (9), o ex-presidente acompanhou advogados que argumentavam que ele deveria ter imunidade no caso em que é acusado de conspiração para reverter a eleição de 2020. Dois dias depois, participou da última audiência de uma ação por fraude fiscal.

O republicano não era obrigado a comparecer a nenhuma das duas sessões. Trump escolheu estar lá porque transformou os processos em espetáculos centrais de sua campanha para voltar à Casa Branca.

Muniz Sodré* - Retratos a gosto

Folha de S. Paulo

Hoje, um outro tipo de estetização da vida social se constrói por meio da rede eletrônica

É possível que "O Retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde, clássico genial da literatura inglesa, ajude na compreensão, entre nós, do intrigante fenômeno de enrijecimento da polarização social. Pesquisas de opinião revelam imobilidade de posições há um ano. O governo Lula é republicano, mas seu retrato público tem fissuras.

No romance, Dorian, belo e ingênuo, corrompido pelos costumes sociais sob forte influência do amigo Lorde Henry Wotton, ganha um retrato com o atributo de envelhecer enquanto ele permanece jovem. A imagem pintada reflete aos poucos efeitos do seu envolvimento em crimes, sua decadência moral.

Ruy Castro - Renasce Carmen Dolores

Folha de S. Paulo

A escritora brasileira mais ousada de seu tempo passou o século 20 fora da literatura. É a sua hora de voltar

A carioca Emilia Moncorvo Bandeira de Mello, nascida no Império, descobriu cedo que só sentimentalmente a mulher podia contar com o homem. Em tudo o mais, deveria aprender a contar consigo mesma, para o que "adviesse de anormal". Isso lhe aconteceu em 1887, quando, aos 35 anos, viu-se viúva com quatro filhos e sem meios de sustento. "Quando a adversidade me bateu à porta", disse anos depois, "não me perguntou se eu era mulher ou homem." E foi à luta.

Pouco antes, um dos textos que escrevia de brincadeira, para si mesma e para as amigas, caíra nas mãos do jornalista Alcindo Guanabara. Ele lhe perguntou se podia publicá-lo. Emilia concordou, desde que, como era casada, o assinasse com pseudônimo. Morto o marido, ela procurou Alcindo e se ofereceu como cronista. Ele a contratou e, depois de tentar vários pseudônimos, Emilia fixou-se no de Carmen Dolores.

Poesia | Chega de Saudade - Vinicius de Moraes com narração de Mundo dos Poemas

 

Música | Paulinho da Viola - Foi um rio que passou em minha vida

 

sábado, 13 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Pacote verde é mais um agrado para montadoras

O Globo

Setor já beneficiado por incentivos tributários pouco eficazes recebeu uma nova benesse de R$ 19 bilhões

É cheio de boas intenções o programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), lançado pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva no fim do ano passado com o objetivo de estimular a descarbonização da frota de automóveis no Brasil. Mas elas não escondem que o programa promove mais um incentivo bilionário a montadoras que, há décadas, dependem da ajuda do Estado para sobreviver num mercado cada vez mais competitivo, que exige produtividade e criatividade.

Em 30 de dezembro, Lula assinou uma Medida Provisória que amplia as exigências de sustentabilidade na venda de carros e concede incentivos fiscais às empresas que investirem em descarbonização. A estimativa é que, até 2028, os créditos concedidos somem R$ 19 bilhões. Para este ano, estão previstos R$ 3,5 bilhões. Para 2025, R$ 3,8 bilhões.

Entre as exigências previstas, está a medição das emissões de carbono em todo o ciclo de energia, para todas as fontes — etanol, gasolina, bateria elétrica ou biocombustível. No caso da gasolina, ela será feita da extração do petróleo à queima do combustível. A MP prevê ainda a ampliação do uso de material reciclado na fabricação e um sistema de recompensa e penalização na cobrança de IPI às empresas. Quem poluir mais pagará mais.

Todas essas medidas são necessárias. Ninguém jamais negará que produzir veículos menos poluentes é medida bem-vinda. Mas a questão não se restringe a isso. Incentivar o transporte individual — sobretudo movido a combustível fóssil — não é exatamente uma medida que contribua para o planeta. Ainda que embrulhado numa embalagem verde, o pacote recém-lançado canaliza recursos públicos para um setor que deveria prescindir deles.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - Os destrutivos “homenzinhos”

CartaCapital

O pequeno fascismo cotidiano floresce em indivíduos que carregam na alma as frustrações da sociedade de massa

As manifestações oficiais sobre a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023 foram acompanhadas de análises e proclamações que celebravam a solidez da democracia brasileira. Vou buscar aqui um caminho um tanto acidentado para inspecionar os desvarios destrutivos das massas que invadiram prédios públicos e destruíram obras de arte e outras coisas mais. O leitor de CartaCapital há de tolerar minha busca de apoio em Hannah Arendt, Wilhelm Reich e Élisabeth Roudinesco. O personagem social que deambula nas páginas desses três autores é o indivíduo que carrega na alma as dores, aspirações e conflitos da sociedade de massa capitalista.

A busca pela diferenciação dos estilos de vida é a marca registrada da concorrência de massas. Desgraçadamente para a maioria dos aspirantes, pobres e remediados, os impulsos para acompanhar os hábitos, gostos e gozos dos bem aquinhoa­dos se esboroam nas angústias da desigualdade. A maioria não consegue realizar seus desígnios, atolada no pântano da sociedade de massa. Os ganhos propiciados pela valorização da riqueza financeira sustentam o consumo dos ricos e, simultaneamente, aprisionam as vítimas da crescente desigualdade nos circuitos do crédito. No afã desatinado de acompanhar os novos padrões de vida, a legião de fragilizados compromete fração crescente de sua renda no endividamento.

Pablo Ortellado - O Brasil condena o 8 de Janeiro?

O Globo

Parcela significativa dos brasileiros acredita que as eleições presidenciais foram fraudadas

Peço desculpas ao leitor por retomar o assunto 8 de Janeiro, mas a pesquisa AtlasIntel divulgada no começo da semana traz dados preocupantes que merecem comentário. Ao contrário das pesquisas Quaest e Datafolha, que mostraram apoio bastante baixo à invasão das sedes dos três Poderes, a da AtlasIntel mostrou sustentação relevante. E também traz pistas que podem explicar por que isso acontece.

Enquanto a pesquisa Quaest registrou apoio de apenas 6% à invasão do Congresso, Palácio do Planalto e STF, a Atlas mostrou 15% de concordância com a ocupação dos três Poderes. A diferença entre as duas pesquisas, 9 pontos percentuais, é grande, acima da margem de erro, e merece análise.

Carlos Alberto Sardenberg - Muita conversa para pouca ação

O Globo

Pelo jeito, demorará para o governo federal ir para cima da milícia e do narcotráfico. A Polícia Civil do Rio tentou

Com a devida licença poética, foi mais ou menos assim.

Do prefeito do Rio para o ministro interino da Justiça, no X (Twitter):

— Tem bandido cobrando 500 mil de empreiteira que toca obra pública.

Ministro, também no X:

— Tô sabendo. Seu colega de Nova Iguaçu também alertou. Vamo pra cima.

Não foram. Ficaram ocupados consigo mesmos, com as trocas no Ministério da Justiça e Segurança Pública. O então ministro interino, Ricardo Cappelli, continua secretário executivo da pasta, mas entrou em férias, depois deixará o cargo. Também se dá como certo que o atual secretário de Segurança Pública, Francisco Tadeu Barbosa de Alencar, será substituído, provavelmente por Benedito Mariano, quadro do PT que participou da transição nas questões de segurança.