sábado, 24 de outubro de 2026

Com regras mais rígidas, Globo baixou a temperatura do debate entre Flávio Bolsonaro e Lula, por Mauricio Stycer

Folha de S. Paulo

Nos primeiros três blocos, houve a sensação de alguma civilidade entre os dois candidatos

Última parte voltou a lembrar os piores momentos do encontro na Band, que entrou para a antologia da política brasileira

Cinco dias depois do debate na Band, um confronto eleitoral que entrou para a antologia dos momentos mais baixos da história política brasileira, a Globo blindou o seu evento, no esforço de subir um pouquinho o nível. Conseguiu em partes.

Não que o público tenha assistido a um debate esclarecedor a dois dias de uma das eleições mais disputadas da história do Brasil. Não que a emissora tenha evitado a difusão de mentiras a granel. Não que os candidatos não tenham fugido de muitas perguntas feitas.

Mas, no geral, com regras mais rígidas, a emissora carioca conseguiu baixar a temperatura do embate e enquadrou os candidatos quase o tempo todo. Foi um evento intencionalmente frio, que ofereceu, nos primeiros três blocos, a sensação de alguma civilidade entre Lula e Flávio Bolsonaro.

César Tralli, no comando do debate ao vivo, adotou um tom professoral. Na maior parte do tempo, limitou-se a informar as regras e dar informações sobre os tempos que os candidatos tinham para fazer perguntas, respostas e réplicas. Um robô poderia ter feito esse trabalho.

Tralli também teve a função de informar aos candidatos se eles teriam direito de resposta a supostas acusações ou mentiras de que foram alvo, sem esclarecer as razões para as decisões que penalizaram ambos.

A Globo ofereceu checagem de fatos em tempo real nos seus canais na internet, mas não esclareceu o espectador que acompanhava o debate pela televisão sobre as mentiras ditas ao vivo.

Os sites que fizeram esse trabalho de checagem registraram uma enormidade de fake news ou afirmações imprecisas. Flávio Bolsonaro, como já havia ocorrido no primeiro debate, liderou nesse quesito.

Lula, especialmente no primeiro bloco, tentou fazer graça, dirigindo-se aos espectadores: "Galera, dá um Google". Também disse que o seu adversário tinha feito "decoreba". E insistiu: "É só procurar o Google".

O debochado Flávio Bolsonaro do debate na Band, que não respondeu a quase nenhuma pergunta de Lula, adotou uma postura aparentemente mais séria na Globo. Fugiu menos das perguntas e foi menos agressivo. Mas insistiu nas mentiras, como indicaram os sites de checagem.

Mesmo recorrendo a um tom mais "suave", Flávio Bolsonaro referiu-se aos "nove dedos" do presidente. Cobrado por Lula, pediu desculpas pela referência preconceituosa. Também ofendeu o presidente, dizendo que estava com dificuldade de entender o que o presidente falava e que Lula ouvia mal.

As regras do debate na Globo também limitaram a movimentação dos candidatos pelo palco. Na Band, Flávio Bolsonaro se posicionou nas costas de Lula e fez gestos debochando do presidente.

Na Globo, os candidatos poderiam se movimentar pelo palco somente no quarto e último bloco. Mas, calejado pela má impressão que causou, Flávio Bolsonaro se conteve.

Este último bloco, no qual os candidatos poderiam circular pelo estúdio e administrar um tempo de oito minutos cada um, voltou a lembrar os piores momentos do debate na Band.

Lula insistiu em algumas poucas questões, como a ilha que o jogador Richarlison afirma ter sido tomada por Flávio Bolsonaro e um sócio. Flávio Bolsonaro reagiu falando de um uísque que Lula teria ganhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Os oito minutos que cada candidato teve foram muito mal usados por ambos. Como havia ocorrido no debate da Band, não há conversa possível entre os dois. Flávio Bolsonaro abusou do cinismo, enquanto Lula, aparentemente desconcertado, não conseguiu trazer a conversa para temas da realidade.

Quebra do sigilo bancário, acusações sobre os familiares, tergiversações... Tudo foi jogado no ar, sem chance nenhuma de esclarecimento sobre nada. Para quem assistiu, especialmente a este último bloco, foi uma decepção.

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Lula desmascarou o Pinóquio...