O Povo (CE)
Depois de um susto, Lula e o campo
progressista empreenderam uma história de engajamento social
extraordinariamente crescente, de mudança de linguagem e de estratégia
comunicacional e mesmo de perspectiva de futuro
Hoje, véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, não somos capazes de dizer quem sairá vencedor das urnas. Na mais acirrada eleição desde a redemocratização, redescobrimos a grande beleza da política: sua abertura ao fluxo da história, dos acontecimentos e das decisões humanas. Que enredo esse segundo turno conta?
Depois de um susto, Lula
e o campo progressista empreenderam uma história de engajamento social
extraordinariamente crescente, de mudança de linguagem e de estratégia
comunicacional e mesmo de perspectiva de futuro. Isso torna o ano de 2026 tão
interessante: o fato de que é um ano de surpresas e recomeços, apesar do teste
difícil para a resiliência da democracia brasileira, o que não deixa de ser um
alento depois de uma composição de Parlamento tão conservadora.
No segundo turno, tivemos uma campanha que,
descolando-se de uma liderança de marketing central e de uma estratégia
previsível de produção de discurso e de imagens, aproximou-se de um conjunto de
lideranças jovens de esquerda que saíram das urnas muito vitoriosas, com um
percentual de votos superlativo.
Ana Elisa, a mais jovem deputada federal
eleita por Minas Gerais, é um exemplo disso, mas eu destacaria os nomes dos
deputados estaduais eleitos Gabriel Biologia e de Léo Suricate, no Ceará, e de
Jones Manoel e Guilherme Cortez, no Pernambuco.
O que eles têm em comum? São muito jovens e
tiveram sua projeção política associada a um trabalho consistente nas redes
sociais, a partir de novo modo de aproximação da base que não nasce das formas
tradicionais da militância partidária, mas do domínio de uma certa linguagem
capaz de estabelecer uma relação de confiança onde a possibilidade de
acompanhar o trabalho e cobrar o resultado é, ou parece ser, mais próxima.
Com isso, tivemos uma campanha com humor
muito diferente. Uma infinidade de atos de rua com participação massiva, puxados
organicamente por jovens e artistas, com engajamento garantido graças a um
ambiente comunicacional novo para a esquerda: os grupos de whatsapp e as
correntes de transmissão de massa.
Como maestro, o nome de André Janones, que
foi capaz de mobilizar um formato simples o bastante para funcionar:
arregimentando "soldados", distribuindo ordens de engajamento
exequíveis e, mais do que isso, injetando esperança numa parcela da população
muito amedrontada com a ideia do retorno de um Bolsonaro ao
poder.
Por que deu certo e vigorou? Porque o maior
combustível da política é, e sempre vai ser, a promessa da utopia, a certeza de
que o envolvimento de cada um é importante para um resultado e que nada, nem a
derrota nem a vitória, estão garantidas de véspera. Ao leitor, desejo um
domingo de bom voto e alegria.
*Doutora em Direito (USP) e professora da
Universidade Federal do Ceará.

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