Folha de S. Paulo
Conquista da reeleição foi obra construída a
milhões de mãos, às quais será imprescindível retribuir a confiança
Agora o presidente tem dois meses até a posse
para dizer realmente o que pretende no quarto mandato
Feita a
escolha dos brasileiros, o presidente reeleito terá pela frente pouco mais de
dois meses até a nova posse para dizer realmente a que pretende vir
em seu quarto mandato, sem a máscara cor-de-rosa das contingências de campanha.
No discurso da vitória, Luiz Inácio da Silva (PT) sinalizou ter absorvido aprendizado dessa eleição ao dizer que mudará "o jeito de governar". Não tendo sido mero reflexo do feito memorável da virada e fruto de alívio diante do susto da sombra da derrota, a frase carrega uma boa mensagem.
Auspiciosa, a nota de autocrítica ainda está
para se materializar como diretriz do anunciado novo enredo. A prometida
mudança requer revisão de procedimentos, a começar pelo mais difícil: Lula
contrariar a própria natureza, renunciar à autoexaltação e reconhecer na
prática, além das palavras, que o sucesso da empreitada foi uma obra coletiva.
Indo ao encontro dos fatos, é possível
constatar que Lula ganhou apesar de Lula. O governo mal avaliado foi o dele, o
tom da campanha até a derrota no primeiro turno quem deu foi ele, bem como
foram fruto de sua egolatria os vários equívocos que quase levaram à
Presidência da República o Bolsonaro
da vez.
Mérito dele, porém, ter aberto espaço a uma
correção radical de rumos que levou a uma vitória muito mais ampla que o
previsto no retrato das pesquisas.
Sair de uma desvantagem de (em números
redondos) 2 milhões de votos para uma vantagem de mais de 4 milhões, com um
ganho que ultrapassou 10 milhões de eleitores, é façanha para
não se botar defeito.
A proeza demandou esforço, que foi
correspondido por uma adesão popular cuja mobilização não se via há muito. Aqui
cabe o lugar-comum: Lula é levado de volta à Presidência nos braços de parte
significativa do povo.
A partir de agora, o leme está de novo nas
mãos dele; para retribuir a confiança dos apoiadores e, sobretudo, ampliar seu
campo de visão e atuação para os anseios de todos os brasileiros,
sem distinção.

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