Correio Braziliense
O Departamento de Estado havia preparado um comunicado sobre a eleição, mas sua divulgação foi suspensa depois que Flávio Bolsonaro pediu a anulação do segundo turno
A vitória de virada de Luiz Inácio Lula da Silva deixou uma ressaca que
ultrapassa o desconforto dos derrotados. A contestação do resultado por Flávio
Bolsonaro, o respaldo de Donald Trump às suspeitas lançadas sobre a votação, o
tombo dos ativos brasileiros e uma nova intervenção de Alexandre de Moraes, que
cancelou o passaporte do candidato derrotado e proibiu-o de deixar o país,
compõem um cenário de instabilidade.
Lula conquistou o quarto mandato, mas recebeu, antes mesmo de encerrar a
comemoração, uma advertência sobre as dificuldades de exercê-lo. O primeiro
problema é a recusa de Flávio em reconhecer a derrota. O senador anunciou que
pedirá a anulação da eleição, questionando a decisão do ministro Cristiano
Zanin de ampliar o horário de votação diante de problemas de transporte.
Nessa segunda-feira, Trump acrescentou combustível à crise ao sugerir, sem
apresentar provas, que a eleição brasileira parecia “corrupta”. Como referência
internacional, a declaração fortalece a resistência de Flávio em admitir o
resultado. A afinidade com a família, cultivada desde o governo Bolsonaro,
ajuda a compreender essa convergência, embora não permita concluir que tudo foi
previamente combinado.
Eduardo Bolsonaro tornou explícito o objetivo de internacionalizar a
contestação ao pedir que a comunidade internacional recusasse a vitória de Lula
e pressionasse pela anulação. Trump e o presidente argentino, Javier Milei, são
exceções na comunidade internacional. Todos os demais governantes da América do
Sul, da União Europeia, do Grupo dos 20 e dos Brics reconheceram a reeleição do
presidente brasileiro.
Apostas de risco
Outra ressaca ocorreu no mercado financeiro. Parte dos investidores havia
organizado suas posições em torno da vitória de Flávio e da expectativa de uma
orientação fiscal mais restritiva. Os levantamentos disponíveis na sexta-feira
ajudaram a sustentar essa aposta, mas mostravam uma disputa apertada:
PoderData/Aya apontava 51% a 49% nos votos válidos; o Datafolha, empate em 50%.
Converter vantagem estreita em certeza foi um erro de avaliação de risco.
A correção foi brutal. Nessa segunda-feira, o dólar comercial fechou em alta de
8,21%, a R$ 5,403, depois de alcançar R$ 5,605. O Ibovespa perdeu 14,01%, e a
B3 interrompeu temporariamente as negociações pelo mecanismo de circuit
breaker. A desmontagem das posições favoráveis à troca de governo se somou à
preocupação com as contas públicas. A Bolsa também sofre a ressaca de uma
vitória antecipadamente incorporada aos preços.
Isso não dispensa Lula de responder às dúvidas econômicas. A reação dos
investidores não revoga votos, mas encarece o crédito, pressiona expectativas e
restringe a margem de ação do governo. O governo precisa apresentar
compromissos convincentes com a trajetória da dívida e a sustentabilidade de
suas políticas sociais. A vitória eleitoral não garante a confiança econômica,
que dependerá das decisões que Lula tomar.
No terreno institucional, a determinação de Moraes para que Flávio entregue os
passaportes e fique impedido de deixar o país acrescenta outra frente de
conflito. A medida está relacionada a uma investigação sobre suspeitas de
lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz, que negam
as acusações. Flávio classificou a decisão como intimidação. Investigação
criminal e controvérsia eleitoral juntas tumultuam o processo, perder uma
eleição não justifica restrições judiciais, assim como disputar a Presidência
não assegura imunidade à investigação.
A decisão de Moraes no dia seguinte à eleição precisa ter mais fundamentos. Sua
repercussão atinge em cheio o Congresso, cuja composição conservadora já
representa um obstáculo ao novo mandato. A sobreposição entre a contestação da
votação e as medidas contra Flávio oferece à oposição um eixo de mobilização
contra o Supremo. Reúne naturezas distintas numa acusação geral de
interferência judicial, que agrava o confronto permanente entre Poderes.
Para governar, Lula terá de negociar com o Congresso, onde a oposição ampliou
sua força. A ressaca dessa segunda-feira é uma amostra grátis do que vem por
aí. Lula venceu a eleição, mas terá de construir melhores condições para
governar. A oposição vai jogar pesado.

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