O Estado de S. Paulo
Derrota de Flávio Bolsonaro (PL) nas urnas simboliza derrota política da família; Michelle Bolsonaro, por sua vez, ensaia carreira solo
O resultado das urnas no segundo turno não
simbolizou apenas um tropeço eleitoral para Flávio Bolsonaro (PL). Representou,
acima de tudo, uma derrota política para a família Bolsonaro.
O revés significa que o irmão Eduardo continuará
foragido nos Estados Unidos, enquanto o patriarca, Jair, seguirá recluso na
prisão sem qualquer horizonte de soltura ou anistia.
No Congresso, Carlos Bolsonaro será apenas um entre 81
senadores, desprovido da musculatura política que teria caso o irmão alcançasse
a Presidência da República. Assim como Jair Renan, na Câmara, no meio de
outros 512 deputados federais.
Correndo por fora, Michelle Bolsonaro avança em uma carreira solo. Sem o sangue da dinastia, a ex-primeira-dama já é aconselhada nos bastidores a adotar apenas o primeiro nome. A estratégia visa consolidar sua trajetória individual e blindar seu capital político junto ao eleitorado feminino e de direita.
Flávio teve quase 60 milhões de votos e tem
um ativo político que não pode ser ignorado. Ele tem sido orientado pelo
próprio grupo político a assumir o papel de principal líder da oposição. Mas,
sem mandato, será alvo ainda mais fácil para o Supremo Tribunal Federal.
Ou seja, sua derrota abre espaço para que a
direita séria e equilibrada — focada na defesa dos direitos democráticos e na
responsabilidade econômica e fiscal — comece a trabalhar um nome forte para
2030. Para isso, porém, é imperativo parar de pedir bênção a Bolsonaro.
Representantes de grandes segmentos
econômicos que conversaram com a Coluna
do Estadão fazem a seguinte leitura: a rejeição ao PT continua
forte e também ficou registrada nas urnas, apesar da virada de Lula. Nos
próximos anos, avaliam, a tendência é que o eleitorado entenda que o clã
Bolsonaro entregou o Palácio do Planalto ao PT do presidente Lula mais uma vez
e isso ampliará a rejeição à família.
Se as correntes não alinhadas ao extremismo
bolsonarista souberem trabalhar essa narrativa, poderão capturar o forte
sentimento antipetista que permanece vivo na sociedade, vide o fato de Lula ter
sido reconduzido ao cargo sob reprovação de metade da população e com a maior
parte dos brasileiros considerando que ele não merecia mais um mandato.
Para se reconstruir, essa nova direita
precisa ter projetos e uma cara. O primeiro nome lembrado entre integrantes
desse espectro político é sempre o do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Mas, por
ter chegado ao Palácio dos Bandeirantes pelas mãos de Jair, é difícil ele
romper com seu padrinho político.
Apesar desse histórico, uma “ausência” de
Tarcísio esta semana animou os defensores de uma candidatura presidencial da direita
divorciada do bolsonarismo. O governador ficou em silêncio depois de Flávio
Bolsonaro rejeitar a vitória de Lula e dizer que pediria a anulação do segundo
turno - algo que depois o senador recuou. Calado, Tarcísio deixou recados para
a centro-direita de que o momento exige maturidade política e parcimônia para
construir um nome competitivo.
Maturidade, inclusive, que faltou a Flávio
Bolsonaro. O senador viveu uma incoerência constante entre tentar se mostrar
como moderado, mas cair na tentação de posturas radicais e debochadas, como
vistas nos debates.
Suas dancinhas de TikTok, nas redes sociais
ou nos trios elétricos do bloco do 22 tampouco ajudaram a construir a imagem de
um chefe de Poder Executivo.
Renan Santos (Missão), derrotado no
primeiro turno deste ano, disputa o eleitorado da direita e, de olho em 2030,
rechaçou qualquer apoio a Flávio. Ele também tem publicado várias mensagens
propondo uma reflexão sobre a necessidade de abandonar os métodos bolsonaristas
para voltar a vencer o PT.
“Essa arrogância, falta de humildade (dos
bolsonaristas), construiu uma direita que adora falar de seus números em rede
social, bota as pessoas pra dançar, ganha milhões de reais, milhões de views,
likes e votos, mas que não transforma o Brasil em nada. Eu não tive muitos
votos nesta eleição, mas a certeza que eu tenho é que você não vai conseguir
vencer o PT desse jeito”, avaliou.
Renan também fez uma sugestão para a direita aprender com o passado, enquanto reorganiza o futuro. “Se você quiser voltar a vencer o PT, tem que olhar quem venceu. Na história um homem venceu o PT duas vezes no primeiro turno, o nome dele era Fernando Henrique Cardoso. Ele não se definia como direita e não ficava pisando em ninguém. Ele curiosamente entregou reformas, arrumou a economia brasileira, resolveu problemas concretos”, concluiu.

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