sábado, 31 de outubro de 2026

Rei morto, rei posto, por Cláudio Couto*

CartaCapital

A fuga de Flávio Bolsonaro acelera a disputa sucessória na ultradireita

Desde a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência, em 2018, os brasileiros se acostumaram a viver sobressaltados com a política. Quase todos os dias, principalmente durante o quadriênio bolsonarista no governo federal, algum absurdo ou bizarrice nos surpreende. Paradoxalmente, as surpresas são tantas que já nem surpreendem tanto assim. Ressalve-se que nisso o clã Bolsonaro não age sozinho, pois conta com a colaboração até mesmo de quem deveria zelar pela tranquilidade do País, o Supremo Tribunal Federal. Entretanto, também aqui não há como desvincular ações atabalhoa­das de membros da Corte do ambiente de caos que a ultradireita suscita. Reconheçamos que ainda antes de 2018 o STF era dado a extravagâncias. Porém, os inúmeros descalabros já consumados ou perto de serem praticados pelo bolsonarismo levam o tribunal a produzi-las em maior quantidade, às vezes porque a Corte, no cumprimento de suas atribuições, é de fato instada a fazê-lo, noutras ocasiões, contudo, porque os desplantes bolsonaristas lhe oferecem pretextos.

Eis o contexto da fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, contando com os prestimosos auxílios dos governos de Javier Milei e Donald Trump. Os muitos enroscos legais do senador do PL, seja com Daniel Vorcaro, seja com Willer Tomaz ou quem quer que seja, tornavam plausível supor que o filho 01 de Jair tinha motivos de sobra para deixar o País, bandeando-se para o refúgio norte-americano, onde já estão seu irmão Eduardo e outros criminosos brasileiros, como Allan dos Santos e Ricardo Magro. Todavia, é duvidoso que o timing da determinação para reter seus passaportes tenha sido o mais acertado – e não à toa rendeu críticas a Alexandre de Moraes no STF e no governo. Afinal, o ex-candidato presidencial do PL estava em meio ao processo de questionar o resultado das urnas e a legitimidade da chapa vitoriosa na disputa presidencial, tornando menos provável de imediato sua evasão do Brasil – que, de uma forma ou de outra, acabou ocorrendo.

Caso fugisse sem prévio aviso, seu descrédito seria maior. No atual cenário, novamente o bolsonarismo brandirá a carta da vitimização, dizendo-se perseguido pelo “sistema” – sempre mencionado e nunca definido pela ultradireita. Ainda assim, a desmoralização é inevitável, sobretudo ao se considerar o histórico da família nesse quesito: a presença de Eduardo em solo norte-americano, conspirando contra o próprio País, o carnaval húngaro de Jair, o episódio do ferro de solda metido na tornozeleira eletrônica. Os desmentidos de sua intenção de fugir, feitos na véspera da debandada, tornam ainda mais vexaminoso o feito.

Tarcísio de Freitas simula a imagem do político de direita moderada e se escondeu durante o discurso golpista de Flávio. O tempo da lealdade canina ao clã parece estar passando

E esse vexame tem consequências para outro processo deflagrado tão logo saiu o veredicto das urnas: a disputa intestina pela liderança do espectro direitista, visando a corrida até 2030. Houvesse optado por permanecer no Brasil, Flávio teria condições de manter o bolsonarismo na disputa pela hegemonia nesse setor do espectro político. Quanto a isso, há duas coisas que devem ficar claras. Primeira: o bolsonarismo é um empreendimento político familiar, daí a preocupação do patriarca em definir com um dedaço seu filho como substituto na ­disputa presidencial, mesmo que ele pudesse não ser a melhor escolha no atinente à competitividade da candidatura e, logo, no concernente à chance de um indulto ou perdão para os golpistas condenados – dos quais Jair é o principal representante. Segunda: a ultradireita é maior que o bolsonarismo, não se confundindo com ele. Portanto, considerando isto e o familismo, o enfraquecimento da família Bolsonaro tende a solapar a hegemonia do bolsonarismo, abrindo espaço para lideranças alternativas que, ironicamente, foram cevadas pelo próprio.

O retrato inicial dessa ­disputa foi o palanque em que Flávio enunciou seu brevíssimo discurso de rechaço ao resultado das urnas, afirmando que não o acataria. Cercado quase única e exclusivamente de homens (nem sequer sua esposa estava ali), uma ausência entre os que se fizeram visíveis chamava atenção: Tarcísio de Freitas. O governador reeleito de São Paulo, antes tido como o nome mais competitivo do campo para a disputa presidencial, embora estivesse presente, ficou escondido – talvez para não ter de se comprometer com o discurso golpista do derrotado. Afinal, embora tenha se empenhado na campanha do filho 01 (principalmente no segundo turno) e subido o tom ideológico contra o governo federal, Tarcísio simula a imagem de político da direita moderada. O tempo da lealdade canina ao clã parece estar passando.

Com Jair preso, Eduardo e Flávio foragidos, Carlos sem os atributos psíquicos necessários e Michelle estigmatizada dentro do próprio núcleo doméstico, o bolsonarismo – como empreendimento político familiar que é – reúne poucas condições de manter sua hegemonia. Além de Tarcísio, outros também disputarão a liderança do campo, mas ninguém tão bem colocado quanto ele. Nikolas Ferreira não terá idade para disputar a Presidência em 2030. Douglas Ruas mal acabou de chegar e tem retaguarda vulnerável demais no Rio de Janeiro. Cleitinho, Sergio Moro e Luciano Zucco ainda precisam ser testados em seus governos. Jorginho Mello é forte em um estado em que a ultradireita domina, mas com pouca projeção nacional. O Novo não tem lideranças do mesmo calibre e o Missão é diminuto e conflagrado com o resto do campo.

Em suma, a fuga de Flávio Bolsonaro, embora o ajude a escapar das grades, acelera e aprofunda um processo que de qualquer forma já se havia iniciado, o da sucessão. Decerto há incógnitas quanto ao que virá. Uma delas será o desempenho de Michelle Bolsonaro no Senado, apesar de sua condição desfavorável no seio da própria família. Note-se que, embora o machismo seja marcante nesse setor, o espectro ideológico projetou um número significativo de mulheres eleitas. Por isso não se deve desconsiderar de pronto as chances de crescimento da ex-primeira-dama. A questão é saber se, no caso de isso ocorrer, ainda se deverá chamar de bolsonarismo. 

* Cláudio Couto é cientista político e professor da FGV.

Publicado na edição n° 1437 de CartaCapital, em 04 de novembro de 2026.

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