Correio Braziliense
É prematuro afirmar que a oposição está acéfala
e se abriu caminho para uma substituição rápida de comando. O bolsonarismo
continua tendo Jair Bolsonaro como principal referência
O autoexílio de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos pode custar ao senador
prestígio entre aliados, mas seria um erro do governo Lula confundir sua fuga
com a desarticulação do bolsonarismo. A distância física não elimina a
capacidade de mobilização de um movimento de massas, de características
messiânicas, sobretudo quando um de seus principais representantes encontra
acolhimento na maior potência mundial. A associação com o secretário de Estado
americano, Marco Rubio, mesmo sem passar recibo, deve ser considerada um
problema político e diplomático, cujo alcance ultrapassa o destino do candidato
derrotado.
Ao chegar aos Estados Unidos, Flávio agradeceu a Donald Trump e ao presidente
argentino, Javier Milei, alegou fraude eleitoral e apresentou sua saída como
reação a uma perseguição política. Proclamou-se o verdadeiro presidente eleito
do Brasil. A declaração parece estapafúrdia, mas tem a finalidade de tratar a
derrota nas urnas como uma usurpação do poder e sua escapada como uma
estratégia de resistência. A fuga deve ser avaliada pela repercussão entre os
seguidores, para os quais a denúncia de perseguição confirma convicções
anteriores.
É aí que mora o perigo. A narrativa dispensa
provas porque oferece uma explicação emocionalmente conveniente para a derrota:
seu eleitor não teria perdido; fora roubado. Flávio não teria abandonado o
país, mas preservado sua liberdade para continuar a luta. No episódio,
Alexandre de Moraes volta a ocupar o lugar de inimigo central, enquanto as
instituições eleitorais são apresentadas como instrumentos do adversário. O
aparente absurdo funciona como linguagem de pertencimento e combustível para
novas mobilizações.
A ausência de reconhecimento da vitória de Lula pela Casa Branca, nesse
contexto, amplia o espaço político para a rearticulação da oposição no
Congresso, nas redes sociais e nas ruas, mesmo que a derrota seja sempre
corrosiva. Segundo relatos de aliados de Flávio, integrantes do governo
americano aguardaram sua posição sobre o resultado antes de definir a própria
manifestação. Isso recomenda cautela diante da hipótese de que Washington
tratará a presença do senador como assunto exclusivamente humanitário. Seus
canais políticos com a administração Trump foram fortalecidos pela grande
votação que obteve, mesmo derrotado.
A parceria com Rubio acrescenta densidade a essa ameaça. Pautas bolsonaristas
podem se associar a pressões comerciais, disputas sobre segurança e ataques ao
Judiciário. Essa convergência oferece instrumentos para envenenar a relação
entre Trump e Lula, mesmo quando os dois presidentes demonstram disposição para
conversar. Relações pragmáticas entre Estados podem sobreviver a conflitos
dessa natureza, mas sua manutenção exigirá muito trabalho diplomático. Nada
acontecerá por inércia na normalização das relações.
Também é prematuro afirmar que a fuga deixou a oposição acéfala e abriu caminho
para uma substituição rápida de comando. O bolsonarismo continua tendo Jair
Bolsonaro como principal referência. Sua capacidade de transferir votos, fixar
inimigos e estabelecer os limites de atuação dos aliados não desaparece com a
prisão domiciliar. A permanência de Lula e do PT no governo, por sua vez,
preserva o antagonismo que organiza o bolsonarismo e permite reunir interesses
distintos sob uma identidade comum.
Poder instalado
Os resultados legislativos dimensionam essa força. A partir de 2027, o PL terá
29 senadores e 121 deputados federais, as maiores bancadas das duas Casas.
Comandará seis governos estaduais: Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina,
Rio de Janeiro, Rondônia e Roraima. Essa estrutura significa recursos,
exposição pública, influência territorial e capacidade de condicionar a agenda
do Congresso. A derrota presidencial coexistiu com uma expressiva acumulação de
poder institucional. Acrescente-se a isso a aliança com o governador de São
Paulo, Tarcisio de Freitas (Republicanos), recém eleito.
Entre os novos senadores estará Carlos Bolsonaro, eleito por Santa Catarina,
cuja atuação nas redes ajuda a compreender a continuidade entre organização
familiar e mobilização digital. Michelle Bolsonaro também chegará ao Senado,
mantendo-se como elo mais forte entre o bolsonarismo e os evangélicos. A
família conservará tribunas, mandatos e instrumentos de intervenção no debate
público. A presença de Flávio nos Estados Unidos pode acrescentar uma frente
internacional a essa estrutura, ainda que produza atritos internos e desgaste
sua autoridade entre dirigentes que permaneceram no Brasil.
Tarcísio de Freitas e Michelle têm luz
própria e projetos pessoais. Rogério Marinho dispõe de experiência, trânsito
parlamentar e capacidade de articulação. Nenhuma dessas qualidades, porém,
resolve automaticamente o problema da sucessão. Todos dependem, em graus
diferentes, do eleitorado e da legitimidade conferida pelo bolsonarismo. Podem
disputar sua direção, adaptar sua linguagem e ampliar suas alianças.
Constituir, no curto prazo, uma alternativa que o substitua exigiria romper
dependências que também sustentam suas ambições.
Há ainda interesses econômicos americanos em jogo nas decisões brasileiras
sobre mercados, plataformas digitais, energia e comércio. Seria simplista
presumir que todos apoiam Flávio, mas suas conexões políticas podem servir de
ponte entre essas agendas e a pressão sobre Brasília. A política externa
independente e multilateralista de Lula torna inevitáveis as divergências com a
Casa Branca. O governo precisa defender a soberania, preservar o diálogo e
compreender a força social do adversário. Subestimar o bolsonarismo seria
facilitar sua reorganização.

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