Valor Econômico
O eleitor já fez sua parte, cabe agora às instituições fazerem a sua
Na manhã desta quarta-feira, segundo
comunicado da imigração da Argentina, o senador Flávio Bolsonaro cruzou a ponte
Tancredo Neves para entrar naquele país. A se fiar nesta informação, o
candidato derrotado do PL à Presidência ainda estava em território brasileiro
quando Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro tomaram suas posições.
O governador publicou um vídeo em que reconhece o resultado das eleições e convoca a direita para fiscalizar o governo federal, e a senadora eleita posou para foto com Valdemar Costa Neto nas redes do presidente do partido. Quando Flávio Bolsonaro já estava quase em Miami, depois de escala em Guayaquil, no Equador, outro candidato a herdeiro, o senador eleito Carlos Bolsonaro, gravou vídeo em que, sem citar o irmão, relatou visita ao ex-presidente em prisão domiciliar: “Desculpa, pai, a gente falhou”.
Nenhum deles, porém, avançou tanto para capturar o espólio do PL quanto o senador Davi Alcolumbre (União-AP). Sem Flávio Bolsonaro, a maior força do partido reside nas suas bancadas no Congresso. A da Câmara, onde o PL terá quase um quarto das cadeiras, já havia sido engolida pelo abraço do Centrão à reeleição do deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) antes mesmo do 2º turno. Esta semana, a fatia de mais de um terço do Senado do PL começou a ser bicada pelas beiradas pelo presidente da Casa.
Alcolumbre planeja entregar a relatoria do
Orçamento ao partido do fugitivo, fortalecer a ala Centrão do PL, em detrimento
da fatia mais ideológica, e, assim, desidratar as duas pré-candidaturas do
campo bolsonarista à presidência do Senado, Tereza Cristina (PP-MS) e Rogério
Marinho (PL-RN).
Não foi o Centrão que se fortaleceu para
atrair o PL. Foi o bolsonarismo que se enfraqueceu neste 2º turno.
O apelo em defesa dos golpistas de 8 de
janeiro já havia mostrado sua debilidade quando Cida Villas Boas, esposa do
ex-comandante do Exército Eduardo Villas Boas e defensora dos acampados,
amealhou 4.572 votos na tentativa de alcançar, pelo Novo do DF, a Câmara.
A tentativa de blindar a ofensa à saúde
pública durante a pandemia, um dos maiores flancos do bolsonarismo, foi
atropelada pelos planos do precocemente anunciado ministro da Saúde, Claudio
Lottenberg, para o SUS. A tentativa de tomar de assalto o QG de votos do PT no
Nordeste foi atropelada não apenas pelo campeão de votos da Câmara, o deputado
federal Nikolas Ferreira (PL-MG), e seus sertanejos de Hilux e parabólica, como
pelo próprio candidato. Um dos cortes mais viralizados do último debate foi
aquele em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou dos projetos de
infraestrutura no Nordeste enquanto Flávio Bolsonaro prometeu um trem entre as
capitais que permitiria aos nordestinos “receber sua gorjeta em dólar, euro”.
Nenhuma ofensa ao quinhão de quase 60 milhões
de votos do bolsonarismo, porém, foi maior do que a fuga do senador. Se
Alexandre de Moraes pareceu precipitado em autorizar a PF a recolher o
passaporte de Flávio Bolsonaro, sua evasão do país acabou por dar razão ao
ministro. Não se conhecem as íntegras do pedido da PF e da decisão de Moraes,
mas o argumento de que a fuga foi provocada pela requisição do passaporte cai
por terra ante a intrincada operação envolvida.
Parece claro que a PF não agiu movida apelas
pela dica de fuga dada por Eduardo Bolsonaro. Um deslocamento de 1,6 mil
quilômetros entre Brasília e Foz do Iguaçu (PR), a entrada na Argentina, o voo
no avião de uma empresa de táxi aéreo investigada em suposto esquema de
corrupção no governo de Javier Milei, a escala no Equador e a entrada nos EUA
com visto humanitário exigem planejamento.
Para ter cruzado a fronteira com a Argentina
antes das 23h da terça por terra, é preciso que a família tenha deixado
Brasília 21 horas depois de o senador ter sido notificado da entrega do
passaporte. Se houve falha foi por falta de vigilância para que isso não
acontecesse, não por excesso.
Esta campanha eleitoral parece ter bastado
para deixar claro que a imprensa, os políticos e os próprios estrategistas da
campanha governista se deixaram pautar pela centralidade do banco Master a
partir de vazamentos muito bem operados por setores da Polícia Federal, uma das
corporações mais divididas do país.
A carta que Flávio Bolsonaro divulgou nesta
quarta é uma afronta à inteligência do eleitor e não apenas por querer fazê-lo
crer que os 34 mil votos computados depois do fechamento das urnas são
superiores à diferença de 4,4 milhões de votos com a qual foi superado pelo
adversário. É uma afronta por insistir na suspeição da decisão sobre o
passaporte, mesma tecla que pautou todo o caso Master na campanha.
É evidente que Moraes tem contas a prestar,
mas o foco sobre o Supremo Tribunal Federal numa campanha para a Presidência da
República acabou por relativizar a trajetória, os projetos para o país, os
negócios e os aliados do crime que o ex-candidato do PL amealhou ao longo de
sua carreira.
O eleitor já fez sua parte. Resta à Polícia
Federal e ao STF mostrar o que levou Flávio Bolsonaro a se escafeder. Se tinha
pressa é por que sabe o que fez. Rui Barbosa, que citou na carta em que se
proclama “líder do Brasil”, chamava os cavadores do Tesouro Nacional de
“tatus-canastras”. Lá nos EUA talvez tenha oportunidade de desencavar, para seu
usufruto e de sua família, o que escondeu do eleitor brasileiro.

Um comentário:
Perfeito.
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