quinta-feira, 15 de junho de 2023

Opinião do dia – Antonio Gramsci* (Ideologias)

“Um elemento de erro na consideração sobre o valor das ideologias, ao que me parece, deve-se ao fato (fato que, ademais, não é casual) de que se dê o nome de ideologia tanto à superestrutura necessária de uma determinada estrutura, como às elucubrações arbitrárias de determinados indivíduos. O sentido pejorativo da palavra tornou-se exclusivo, o que modificou e desnaturou a análise teórica do conceito de ideologia. O processo deste erro pode ser facilmente reconstruído: 1) identifica-se a ideologia como sendo distinta da estrutura e afirma-se que não são as ideologias que modificam a estrutura, mas sim vice-versa; 2) afirma-se que uma determinada solução política é “ideológica”, isto é, insuficiente para modificar a estrutura, enquanto crê poder modificá-la se afirma que é inútil, estúpida, etc.; 3) passa-se a afirmar que toda ideologia é “pura” aparência, inútil; estúpida, etc. É necessário, por conseguinte, distinguir entre ideologias historicamente orgânicas, isto é, que são necessárias a uma determinada estrutura, e ideologias arbitrárias, racionalísticas, “voluntaristas”. Enquanto são historicamente necessárias, as ideologias têm uma validade que é validade “psicológica”: elas “organizam” as massas humanas, formam o terreno no qual os homens se movimentam, adquirem consciência de sua posição, lutam, etc. Enquanto são “arbitrárias”, não criam mais do que “movimentos” individuais, polêmicas, etc. (nem mesmo estas são completamente Inúteis, já que funcionam como o erro que se contrapõe à verdade e a afirma).”

*Antonio Gramsci (1891-1937). Cadernos do Cárcere, v.1. p.237-8. Civilização Brasileira, 2006.

Bernardo Sorj* - Aniversário de um estadista

O Globo

Num momento em que a sociedade continua polarizada de forma destrutiva, a figura de FH é um exemplo a seguir

É tempo que o Brasil reconheça a enorme contribuição de Fernando Henrique Cardoso ao país. O Brasil deve celebrar, no aniversário de seus 92 anos, seu papel de estadista, deixando de lado os julgamentos impregnados pelos vaivéns dos pequenos interesses políticos.

Seu compromisso com a democracia, que se expressa nas ideias e na prática de governante, reflete sua forma de ser. Fernando Henrique pratica o pluralismo, gosta de ouvir opiniões divergentes e possui enorme curiosidade e disposição a sempre aprender e observar o que a vida traz de novo. Sua bagagem intelectual e seu apetite voraz pela leitura nunca foram empecilho para que ele acompanhasse as transformações sociais, sem se deixar aprisionar por enquadramentos ideológicos ou pelas camisas de força das teorias.

Ele pratica um cosmopolitismo enraizado: a cabeça nos ares do mundo e os pés fincados na realidade brasileira. Fernando Henrique encontra no jeito pragmático de ser brasileiro uma defesa saudável contra os dogmatismos. Pragmatismo que, sem abandonar os valores fundamentais, supõe uma dose de realismo e de disposição a negociar, pois política não é guerra nem imposição da vontade pessoal.

Merval Pereira - E Lula chorou

O Globo

O choro por Daniela do Waguinho não tem o mesmo peso político do choro que frequentemente toma conta de Lula quando ele fala de pobreza e de desigualdade

O presidente Lula chorou na reunião em que demitiria Daniela do Waguinho do Ministério do Turismo. Alguma coisa está errada nesse emocionalismo excessivo. Os dois, Waguinho e Daniela, nunca foram petistas, nem próximos a Lula. A saída do ministério não se deu por uma crise daquelas sérias, que deixam sequelas em velhos amigos, como sempre acontece nos governos.

Nem o ministério tem importância, infelizmente. A ponto de ser dado para uma deputada que nada tem a ver com o assunto, que agora será sucedida por outro deputado, que também não entende nada de turismo. Não me lembro de Lula ter chorado quando o então todo-poderoso ministro José Dirceu teve de se demitir da Casa Civil em meio à crise do mensalão. Nem mesmo quando vários deputados, esses sim, chorando, saíram do PT em protesto contra a corrupção escancarada.

Malu Gaspar – Autópsia de uma fraude

O Globo

Foram necessários seis meses e uma Comissão Parlamentar de Inquérito para a Americanas S.A. admitir publicamente o óbvio. O que houve na maior varejista do Brasil foi um esquema de proporções épicas, a maior fraude corporativa da História do Brasil.

O atual presidente da companhia, Leonardo Coelho, afirmou aos deputados que um rombo calculado em R$ 25,7 bilhões foi escamoteado nas demonstrações financeiras ao longo de vários anos. É uma enormidade, ainda mais considerando que o faturamento anual foi desse mesmo valor em 2021.

Impressionaram, ainda, as evidências de que os antigos diretores trabalhavam ativamente e em equipe (ou talvez fosse melhor dizer em quadrilha) para transformar prejuízo em lucro, além de produzir uma contabilidade falsa para o conselho de administração e o mercado.

Havia duas planilhas: a “visão interna”, com os números reais, e a “visão conselho”, com dados inflados. Por e-mail, os executivos discutiam formas de perpetuar e esconder a enganação, pois do contrário seria “morte súbita”.

Míriam Leitão – A economia faz planos

O Globo

Nelson Barbosa, conta que o novo PAC terá mais projetos de infraestrutura, no entanto, mais agenda de concessões e PPPs que no passado

O novo plano de investimento que está sendo preparado pelo governo é diferente dos PACs do passado porque terá um foco maior em infraestrutura social e ambiental, e mais participação do setor privado, através de PPPs e concessões. Quem conta é o diretor de investimento do BNDES, Nelson Barbosa. O BNDES vai captar junto ao BID, ao banco de desenvolvimento da China e ao banco dos Brics recursos que haviam sido oferecidos ao Brasil e o governo anterior ignorou. “Somando tudo dá US$ 5 bilhões que estavam na mesa com taxas competitivas”.

Barbosa, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, afirma que está sendo pensado um “BNDES do futuro”, muito menos dependente de dinheiro do Estado para se financiar. Eu o entrevistei ontem no meu programa na Globonews. Ele está envolvido tanto na preparação do novo PAC, que não terá este nome, quanto em desenhar esse novo BNDES.

Luiz Carlos Azedo - A estrela de Haddad brilha com a nova classificação de risco

Correio Braziliense

Se a articulação de Haddad na Câmara foi um sucesso, a crise com o União Brasil está longe de ter sido resolvida. O centro da disputa não é o Turismo, é o Ministério da Saúde

O ministro mais bem-sucedido do governo Lula até agora é Fernando Haddad, da Fazenda, que está construindo a sua própria blindagem no Congresso, com muito diálogo, capacidade de articulação e uma orientação econômica que vem obtendo resultados positivos e mais aceitação no mercado. A blindagem política do ministro da Fazenda foi um dos principais fatores de sucesso do presidente Fernando Henrique Cardoso e do próprio presidente Lula, nos mandatos anteriores.

O caso do ministro Pedro Malan é o mais simbólico, embora tivesse um perfil técnico muito mais sofisticado do que o de Haddad, que não é economista. Malan pilotou a execução do Plano Real com muito pragmatismo e firmeza, mas isso não impediu o “fogo amigo” dentro do próprio governo. A trombada mais feia foi com o ministro Clovis Carvalho, que havia saído da Casa Civil para assumir o Ministério do Desenvolvimento, no segundo mandato de FHC. Ousou criticar Malan publicamente e acabou defenestrado.

Ruy Castro - Trump e Bolsonaro, não se matem

Folha de S. Paulo

O suicídio não só faz mal à saúde como impede que se cumpram as sentenças em vida

Na coluna de 10 de janeiro de 2021, quatro dias depois do ataque ao Capitólio pelos zumbis de Donald Trump, e já certo de que ele teria de pagar por este e outros crimes que cometeu na Presidência dos EUA, recomendei a Trump que se matasse. E, como Bolsonaro o copiava em tudo e estava igualmente destinado ao banco dos réus, soprei-lhe que macaqueasse Trump também nessa. A sugestão gerou revolta entre os bolsonaristas e uma ameaça de processo pelo então ministro da Justiça de Bolsonaro, André Mendonça, baseado na Lei de Segurança Nacional.

Bruno Boghossian - Lula e os companheiros do agro

Folha de S. Paulo

Presidente emenda acenos e tenta reduzir distância com segmento que se entregou a Bolsonaro

Lula quer reconquistar uma fatia do agronegócio. Nos últimos dias, o presidente emendou acenos públicos a um setor mergulhado na oposição ao PT. Na Bahia Farm Show, ele chamou grandes produtores de "companheiros", prometeu ajuda do governo e disse que não há motivo para rivalidade com a agricultura familiar.

A distância entre os dois lados não é pequena. O agronegócio se entregou de corpo e alma a Jair Bolsonaro. Políticos ruralistas deram apoio pesado à reeleição do ex-presidente, e empresários chegaram a bancar atos golpistas. O clima azedo levou Lula a se referir a alguns integrantes do setor como "fascistas" —algo que ele repetiu já como presidente.

Maria Cristina Fernandes - A ponte para o atraso entre Cunha e Lira

Valor Econômico

Câmara reage à ofensiva do governo com bom momento da economia e alinhamento com Judiciário

A agência de classificação de risco S&P já havia alterado a nota de crédito do Brasil para positiva, retomando o patamar de quatro anos atrás de maior segurança para o investidor estrangeiro, quando uma sirene de risco político tocou em alguns gabinetes da Câmara dos Deputados.

Em meio à guerra entre Executivo e Congresso pela troca de ministérios e ocupação de cargos em empresas públicas, começou a circular um novo substitutivo para o projeto de lei que tipifica crime de discriminação contra “pessoas politicamente expostas”.

Não estava previsto mas logo se arrumou um jeito de pautar urgência e mérito. Apresentado inicialmente como uma reação dos parlamentares às dificuldades colocadas pelos bancos para a abertura de contas suas e de seus familiares, o projeto chegou a entrar em pauta semanas atrás mas foi barrado.

Voltou mais bojudo. Entre as discriminações sujeitas a penas pelo substitutivo está a de impedir o acesso de alguém “devidamente habilitado, a qualquer cargo da administração direta ou indireta, bem como das concessionárias de serviços públicos”. Ao fim deste artigo, acresça-se “salvo expressa vedação legal”.

Bruno Carazza - União Brasil: o monstro de muitas cabeças que chantageia Lula

Valor Econômico

Metade Centrão, parte bolsonarista e com DNA do velho PFL, não dá para esperar fidelidade do União Brasil

Na onda de reposicionamento de marcas que ocorreu na última década entre os partidos brasileiros, saiu a sopa de letrinhas das siglas que não diziam nada para entrar nomes bonitos que, na prática, dizem menos ainda. Avante, Cidadania, Novo, Patriota, Podemos, Progressistas, Rede, Republicanos, Solidariedade, União Brasil: na maioria das vezes, a postura e a conduta do partido contradizem totalmente a sua denominação.

Ocupando os noticiários com as negociações em torno da primeira reforma ministerial de Lula, o União Brasil é símbolo desses contrassensos entre o nome e sua composição.

Fundado no final de 2021 pela fusão do Democratas (antigo PFL) com o PSL, o União Brasil conta atualmente com 59 deputados (só perde para o PL e o PT) e 9 senadores (atrás apenas de PSD, PL e MDB). Trata-se de uma das maiores forças no Congresso; logo, é natural que tenha sido cortejado por Lula para integrar a sua base desde a promulgação do resultado das urnas.

Assis Moreira - EUA e UE trazem política industrial para a OMC

Valor Econômico

Tema tomará crescente espaço nos foros internacionais em meio a um mundo cada vez mais fragmentado

Em reunião de ministros dos principais países comerciantes, na semana passada, em Paris, a portas fechadas, Estados Unidos e Europa rasgaram a fantasia. Sinalizaram interesse na adaptação de regras comerciais internacionais para o setor industrial. Na prática, querem assegurar “policy space”, ou margem de manobra para o Estado fazer política industrial - algo que se ouvia até agora só de países em desenvolvimento. Os dois seguem agora passos da China, mas ao mesmo tempo querem enquadrar subsídios dados por Pequim.

O plano de Washington e Bruxelas é lançar as discussões envolvendo industrialização ou reindustrialização durante a conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) em fevereiro de 2024, nos Emirados Árabes Unidos. Buscam legalizar medidas unilaterais que turbinem sua capacidade industrial oficialmente para fazer a transição verde e energética. Negociadores falam em ter a conclusão da negociação dois anos depois, na conferência ministerial seguinte da OMC.

William Waack - Enredo para uma série

O Estado de S. Paulo

Personagens centrais do Congresso e do Executivo travam luta feroz pelo poder

Pode-se trocar os atores no atual teatro político em Brasília e não mudam os personagens centrais. Muito menos o enredo: uma luta feroz pelo poder entre Congresso e Executivo.

Os chefes do Executivo e das Casas Legislativas estão entrelaçados numa disputa pelos instrumentos básicos de atuação política – a alocação de recursos via orçamento público e a ocupação da máquina estatal.

É o resultado lógico de um péssimo “design” de sistema de governo que só piorou na última década. O conflito programado entre Executivo e Legislativo agravou-se com o resultado das últimas eleições, que não deu a lado algum peso decisivo para impor uma agenda política.

Eugênio Bucci* - (A caverna portátil)

O Estado de S. Paulo

A nova traquitana da Apple nos chega com a promessa de mil prazeres, mas como um cinto de castidade: quem aceitar usá-lo não verá mais nada além dele

Quem acompanha as páginas da imprensa já viu que há um sururu festivo em torno do lançamento do novo par de óculos fabricado pela Apple. Estamos às voltas com um incontido frisson, como se dizia nos tempos pré-internet – ou um siricutico assanhado, em tupi-guarani arcaico. Artigos e reportagens propagam uma excitação estridente com o tal objeto, que, sejamos francos, tem o aspecto de uma máscara de mergulho reluzente, mas opaca.

Roberto Macedo* - Taxa do PIB no 1º trimestre será a maior do ano

O Estado de S. Paulo

Ótimo resultado atribuído ao setor agropecuário foi também sazonal e não deverá se repetir nos trimestres seguintes

Só hoje abordarei a variação do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre deste ano, pois escrevo neste espaço na primeira e na terceira quintas-feiras de cada mês, e essa taxa foi anunciada pelo IBGE na primeira quinta de junho e meu artigo sobre outro tema foi entregue ao jornal no dia anterior.

A mais recente taxa trimestral do PIB foi realmente excepcional: 1,9% (!) num único trimestre, relativamente ao anterior. E ela enseja o retorno a comentários de outros analistas, bem como a aportes adicionais. A principal razão do crescimento foi o extraordinário desempenho do setor agropecuário, que avançou 21,6% (!) no período, que coincidiu com o auge de safras agrícolas excepcionais mesmo para os padrões do setor. Na ordenação das taxas setoriais de crescimento do PIB no primeiro trimestre, apresentadas graficamente pelo IBGE, a segunda taxa foi a da indústria extrativa, bem mais baixa, de 2,3%. E a média das 11 taxas setoriais, excluída a agropecuária, foi ainda menor, de apenas 0,4%, o que enfatiza o contraste trazido pelo desempenho deste último setor.

Celso Ming - Acordo emperrado

O Estado de S. Paulo

Esquisita, confusa e inexplicável a ferrenha oposição do presidente Lula para a cláusula de compras governamentais no projeto de acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. "Os europeus querem que o Brasil abra as portas governamentais. A gente não vai fazer isso", disse Lula.

Compras governamentais é o capítulo de um acordo comercial que garante fornecimento aos governos de produtos e serviços pelas empresas dos países signatários do acordo.

Esta é matéria exaustivamente negociada, sobre a qual se obteve convergência desde 2019. Os termos são flexíveis, excluem compras pelos Estados e municípios, preveem prazos, exceções e tratamento favorecido às pequenas e médias empresas.

J. B. Pontes* - Centrão entrava Governo Lula

Na eleição de 2022, o povo brasileiro elegeu o candidato Luiz Inácio Lula da Silva para presidente do Brasil. É de se presumir que os eleitores optaram por eleger Lula pelo programa de governo que ele apresentou e se comprometeu a realizar, bem como pela insatisfação com o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Mas, de forma contraditória, o povo elegeu simultaneamente um parlamento   majoritariamente de oposição ao governo Lula. Não restam dúvidas que isso ocorreu por força da avalanche de dinheiro público colocado por Bolsonaro nas mãos de seus apoiadores, com a finalidade de angariar apoios políticos e comprar votos para garantir a sua reeleição.

Especialmente na Região Nordeste, sabedores da grande rejeição dos eleitores pelo ex-presidente Bolsonaro, os candidatos dos partidos do Centrão adotaram a estratégia de deixar os eleitores livres para votar, para presidente, no candidato de suas preferências. Raramente algum candidato dos partidos do Centrão fez campanha para Bolsonaro, no primeiro turno das eleições. E os que fizeram acabaram derrotados. Ao contrário, no segundo turno, já eleitos, todos eles mudaram de postura e passaram a se emprenhar pela reeleição de Bolsonaro, mediante um forte assédio eleitoral e de compra de votos. Apesar disso, só poucos eleitores aceitaram mudar o voto para presidente.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Fed faz pausa de avaliação no aperto monetário

Valor Econômico

Se há convicção de que o esforço adicional da política monetária para atingir seus objetivos é de mais 0,5 ponto percentual, a interrupção é inútil e pode sinalizar indecisão

O Federal Reserve americano deu ontem um passo incerto ao interromper provisoriamente novas altas de juros e ao mesmo tempo sinalizar que a maioria de seus membros espera mais dois aumentos das taxas até o fim do ano. Em março, na reunião do Comitê de Mercado Aberto, em que apresentaram suas projeções econômicas, seus participantes haviam colocado como taxa terminal do mais intenso ciclo de aperto monetário em décadas os juros correntes, na faixa de 5% a 5,25%. Os mercados reagiram sem direção única: a Dow Jones teve pequena queda (0,68%) e o S&P 500, pequena alta (0,1%). Os rendimentos dos títulos do Tesouro de 2 anos não se moveram e os de 10 anos caíram 0,04 ponto percentual.

Uma avaliação sobre a trajetória dos efeitos das altas de juros, feitas a partir de março de 2022, indica progressos significativos do Fed, mas nada que ainda tornasse recomendável a interrupção do ciclo neste momento, mesmo que ele esteja perto do fim. A comparação das projeções econômicas atuais com as anteriores, que sugeriam o fim dos aumentos, dá uma ideia quase contrária a essa decisão. O Produto Interno Bruto americano deverá crescer bem mais, 1%, ante 0,4% da previsão anterior. A aposta de queda mais forte do desemprego, para 4,5%, foi reduzida a 4,1% - a taxa atual é 3,7%. O índice de gastos pessoais do consumo em 2023 praticamente não mudou (3,2% ante 3,3%), enquanto que, o que é muito significativo, o núcleo deste índice - a medida considerada mais acurada para a evolução prospectiva da inflação -, subiu de 3,6% para 3,9%.

Poesia | Pablo Neruda - Façam Silêncio

 

Música | Evaldo Gouveia - Bloco da solidão

 

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Opinião do dia – Antonio Gramsci (saber, compreender, sentir)

“Passagem do saber ao compreender, ao sentir, e, vice-versa, do sentir ao compreender, ao saber. O elemento popular “sente”, mas nem sempre compreende ou sabe; o elemento intelectual “sabe”, mas nem sempre compreende e, menos ainda, “sente”. Os dois extremos são, portanto, por um lado, o pedantismo e o filisteísmo, e, por outro, a paixão cega e o sectarismo. Não que o pedante não possa ser apaixonado, ao contrário; o pedantismo apaixonado é tão ridículo e perigoso quanto o sectarismo e a mais desenfreada demagogia. O erro do intelectual consiste em acreditar que se possa saber sem compreender e, principalmente, sem sentir e estar apaixonado (não só pelo saber em si, mas também pelo objeto do saber), isto é, em acreditar que o intelectual possa ser um intelectual (e não um mero pedante) mesmo quando distinto e destacado do povo-nação, ou seja, sem sentir as paixões elementares do povo, compreendendo-as e, portanto, explicando-as e justificando-as em determinada situação histórica, bem como relacionando-as dialeticamente com as leis da história, com uma concepção do mundo superior, científica e coerentemente elaborada, com o “saber”; não se faz política-história sem esta paixão, isto é, sem esta conexão sentimental entre intelectuais e povo-nação. Na ausência deste nexo, as relações do intelectual com o povo-nação são, ou se reduzem, a relações de natureza puramente burocrática e formal; os intelectuais se tornam uma casta ou um sacerdócio (o chamado centralismo orgânico). Se a relação entre intelectuais e povo-nação, entre dirigentes e dirigidos, entre governantes e governados, é dada graças a uma adesão orgânica, na qual o sentimento-paixão torna-se compreensão e, desta forma, saber (não de uma maneira mecânica, mas vivida), só então a relação é de representação, ocorrendo a troca de elementos individuais entre governantes e governados, entre dirigentes e dirigidos, isto é, realiza-se a vida do conjunto, a única que é força social; cria-se o “bloco histórico”. De Man “estuda” os sentimentos populares; não concorda com eles para dirigi-los e conduzi-los a uma catarse de civilização moderna: sua posição é semelhante à do estudioso do folclore, que teme continuamente que a modernidade destrua o objeto da sua ciência. Por outro lado, existe em seu livro o reflexo pedante de uma exigência real: a de que os sentimentos populares sejam conhecidos e estudados tais como se apresentam objetivamente e não considerados como algo negligenciável e inerte no movimento histórico.”

Antonio Gramsci (1891-1937). Cadernos do Cárcere, v.1. p.221-2. Civilização Brasileira, 2006.

Luiz Carlos Azedo - Muda tudo no cenário político caso Bolsonaro fique inelegível

Correio Braziliense

A derrota eleitoral e seu possível alijamento da disputa de 2026 já estão fomentando o surgimento de lideranças de direita mais esclarecidas e moderadas, capazes de atrair um eleitorado que ficará órfão

O julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi marcado pelo ministro Alexandre de Moraes para o próximo dia 22. Movida pelo PDT, trata-se de uma ação por abuso de poder político e econômico ao realizar uma reunião com embaixadores, em julho do ano passado, e atacar o processo eleitoral brasileiro. Caso seja condenado, o que é provável, devido à evidência dos fatos em confronto com a legislação eleitoral vigente, Bolsonaro estará impedido de disputar quaisquer cargos eletivos, inclusive a Presidência da República em 2026. Isso mudará tudo no cenário político nacional.

O julgamento deve ser concluído ainda neste mês, antes do recesso no Judiciário. Durante o encontro com os embaixadores, no Palácio da Alvorada, Bolsonaro questionou a segurança do sistema eleitoral e apontou risco de fraude nas eleições, sem apresentar provas. Além disso, ele é alvo de 16 investigações no TSE. Sua condenação terá forte impacto no ambiente político do país, porque tira de cena o principal protagonista da extrema direita, que hegemoniza a oposição. Esse espaço político tende a ser ocupado por outra liderança de direita. O conservadorismo continua sendo a força predominante na oposição, na qual emergem novas lideranças, com destaque para os governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos); Minas, Romeu Zema (Novo); e Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB).

Hélio Schwartsman - Limites do pragmatismo

Folha de S. Paulo

Se passam a ideia de que tudo está à venda, políticos desmoralizam a si mesmos

Apesar de a ministra do Turismo, Daniela Carneiro, ter ganhado uma sobrevida, tudo indica que o presidente Lula acabará atendendo aos apelos do centrão e a trocará por Celso Sabino. Se é lícito imprimir alguma picância à descrição, Lula substituiria uma aliada de primeira hora e que tem entrada no público evangélico por um bolsonarista. Há também uma boa chance de a Embratur, hoje presidida por Marcelo Freixo, figura icônica da esquerda, ser cedida ao grupo de Arthur Lira.

Sabe-se que a ingratidão é um dever do político, mas, mesmo assim, acho que vale perguntar até onde deve ir o pragmatismo de um governante. Como bom consequencialista, não me oponho às negociações, compromissos e até a algum toma lá dá cá. Se todo mundo for lutar até o fim pelo que acha que é certo, o resultado seria a guerra civil. A democracia funciona porque põe os principais atores políticos para conversar, aplainando as arestas e reforçando os pontos comuns.

Bruno Boghossian - União Brasil contra União Brasil

Folha de S. Paulo

Qualquer proposta de alinhamento será considerada incerta ou terá preço alto demais

Pouca gente apareceu para defender Daniela Carneiro durante a passagem da ministra pela Câmara nesta terça (13). Na Comissão de Turismo, havia mais deputados de oposição do que governistas para a audiência que pode ter sido um de seus atos finais como titular da pasta.

Daniela foi ao Congresso depois de conversar com Lula no Planalto. Prestes a perder o cargo, ela não quis passar recibo: disse que receberia os parlamentares na Esplanada e avisou que o Ministério do Turismo estava de portas abertas para os políticos. Os deputados, porém, já tratavam a convidada como ex-ministra.

Vinicius Torres Freire - A quadrilha da Americanas

Folha de S. Paulo

Empresa acusa antiga diretoria; polícia e CPI têm de ir fundo nessa história mal contada

Os advogados e a nova direção da Americanas acusaram diretores e outros executivos da empresa até 2022 de formação de quadrilha, grosso modo. A cúpula da varejista inventaria descontos na compra de mercadorias, ocultaria dívidas, falsificaria o cálculo do endividamento relativo, forjaria documentos e publicaria números mentirosos de resultado, mentira que teria passado da casa de R$ 2,4 bilhões em 2021, por exemplo, no caso do lucro.

A mutreta teria contado com a anuência de auditores externos e mesmo de bancos. O conselho de administração e os ditos acionistas de referência, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira não são envolvidos no rolo segundo essa explicação parcial e, note-se, ainda não auditada.

Fernando Exman - Colhendo na economia, mas de olho na política

Valor Econômico

Melhora dos indicadores econômicos traz alívio, mas governo mantém cautela

A partir de julho, terá início o “espetáculo do crescimento”, assegurou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a uma plateia repleta de sindicalistas. Era junho de 2003, e eram outros tempos. Hoje, não se vê tamanha confiança no Palácio do Planalto, ainda que os recentes sinais da economia representem um alívio para aqueles que no campo político sofrem diariamente para colher notícias positivas.

Naquele discurso, feito em São Bernardo do Campo (SP), seu berço eleitoral, Lula ofereceu um roteiro familiar aos presentes: o governo não teve como tomar providências com mais agilidade porque o país estava na UTI depois das eleições, a credibilidade internacional brasileira estava enfim recuperada e já era perceptível uma desaceleração da inflação.

Para aquecer a economia e modernizar a frota nacional, pontuou, medidas voltadas ao setor automotivo haviam sido adotadas. “Anteontem nós anunciamos o maior Plano de Safra que a agricultura familiar brasileira já ouviu ser anunciado”, acenou ao campo.

Lu Aiko Otta - No fim da temporada, inflação e juro caem

Valor Econômico

No Ministério da Fazenda, a avaliação é de que o início de ano muito ruim parece estar ficando para trás

Era janeiro de 2003 e nevava levemente em Davos, na Suíça, quando o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, foi ao hospital local visitar o então presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que na véspera lesionara o pé ao escorregar no chão congelado. Na salinha destinada aos fumantes, o médico sanitarista que vinha surpreendendo o mercado no comando da economia afirmou que o Brasil cumpriria, sim, seu contrato com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Esse era um ponto de preocupação naquele momento. Depois, daria um “obrigado” e um “até logo”.

Vinte anos depois, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não perde oportunidade para frisar que o Brasil não deve ao FMI. Dessa forma, deixa clara a diferença da situação atual em relação aos anos 1980, quando o slogan “Fora FMI” foi um hit dos movimentos de esquerda.

No entanto, o Brasil segue como membro do organismo. No mês passado, uma missão técnica esteve no país para uma avaliação de rotina e sugeriu que fosse considerada a adoção de uma meta de inflação de médio prazo. Metas anuais, comentou o organismo, são formas menos eficientes de ganhar flexibilidade diante de choques.

Essa mudança tem sido defendida por Haddad há algum tempo. É tema que pode estar na pauta da reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) do próximo dia 29, assim como a meta de inflação para 2026.

Vera Magalhães - Descompasso entre economia e política

O Globo

Enquanto Haddad reverte má vontade de agentes econômicos, presidente não consegue nem demitir ministra inoperante administrativa e politicamente

Passado quase meio ano, as expectativas para o governo Lula se inverteram e, hoje, as boas notícias vêm da economia, enquanto a política inspira cuidados.

Enquanto Fernando Haddad conseguiu superar uma enorme má vontade dos agentes econômicos quando de sua indicação para a Fazenda e articulou não apenas o projeto do arcabouço fiscal, mas um plano de aonde quer chegar ao fim de quatro anos, os demais ministros patinam entre propostas do passado — as que outrora deram certo e até aquelas que já se mostraram equivocadas quando eram novas — e a dificuldade de fazer deslanchar as políticas públicas em suas áreas.

Foi o economista José Roberto Mendonça de Barros quem fez essa síntese que me deu o mote para a coluna. Louvado sempre por seu tirocínio político, Lula não consegue, no momento, sequer decidir se demite uma ministra até aqui inoperante administrativa e politicamente como Daniela Carneiro.

Bernardo Mello Franco – Os últimos dias da irmã Daniela

O Globo

Na política, a solidariedade pode vir de onde menos se espera. Foi o que descobriu ontem a ministra do Turismo, Daniela Carneiro. Torpedeada pelo União Brasil e prestes a ser demitida do governo Lula, ela recebeu apoio de deputados do PL.

“A senhora tem aqui um aliado”, disse o bolsonarista Bibo Nunes. “Cristianismo é levar pedrada, é ser perseguido. Mas a palavra final vem de Deus”, emendou o pastor Roberto Monteiro, que se referiu à ministra como “irmã em Cristo”.

Em visita à Câmara, Daniela citou a Bíblia, jurou fidelidade a Lula e disse ser vítima de “machismo estrutural”. Apesar dos esforços, deve perder o cargo nos próximos dias. A ministra não será dispensada pelo que fez ou deixou de fazer no governo. O Planalto avisou que precisa da cadeira para barganhar votos com o União Brasil.

Elio Gaspari - As travas de Dweck são preventivas

O Globo

O presidente da Câmara, deputado Arthur Lira, está com duas panelas no fogo. Numa, sofre o impacto das investigações que envolvem a compra, pelo governo federal, de kits de robótica para escolas de Alagoas e Pernambuco que não tinham estrutura e, num caso, nem água. É desnecessário lembrar que os kits estavam superfaturados.

Noutra panela está a briga por nomeações. As repórteres Catia Seabra e Julia Chaib revelaram que as queixas do Centrão concentram-se na ministra Esther Dweck, da Gestão e Inovação em Serviços Públicos. Trata-se de uma servidora de perfil técnico, pessoalmente discreta. Ela teria emperrado nomeações na Secretaria do Patrimônio da União. Logo na repartição que leva o nome do Patrimônio da Viúva. As queixas ramificam-se para uma fundação de previdência e estendem-se ao Ministério da Saúde.

Ganha um fim de semana em Caracas quem for capaz de enunciar o questionamento de uma só política pública envolvida nessas disputas. Quase sempre, as queixas estão associadas ao preenchimento de cargos que têm chaves de cofres.

Zeina Latif - Mudanças de crenças e o rumo da política

O Globo

A conquista da confiança e a pacificação da sociedade dependerão de o país provar robustez democrática e conquistar justiça social

Passados dez anos, há muitas análises sobre as razões dos protestos de 2013. São reflexões importantes, pois aquelas manifestações dizem muito sobre as mudanças de crenças e valores de uma sociedade que se tornou mais exigente. São elementos que repercutem na política até hoje.

A imagem é de uma energia potencial acumulada que se materializou diante do gatilho representado pela repressão policial às manifestações de estudantes contra o reajuste da tarifa de ônibus em São Paulo. O sentimento de alívio de muitos ao assistir o fervor nas ruas dá uma dimensão da indignação que se acumulava.

Várias análises remetem ao anseio, até então incompreendido, por maior eficiência na ação estatal, com a oferta de serviços públicos de qualidade e o combate à corrupção. Grosso modo, as análises não contemplam e até afastam a hipótese de a situação econômica ter tido influência nos protestos.

Vera Rosa - O jogo de Alcolumbre para apoiar Zanin

O Estado de S. Paulo

Senador cobra de Lula indicação de Pacheco para 2.ª vaga no STF, de olho na cadeira do afilhado

O apoio conquistado por Cristiano Zanin para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF) conta com um padrinho importante, além do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.

Alcolumbre não só marcou a sabatina de Zanin para o próximo dia 21 como vê a aprovação do advogado de Lula como “favas contadas”. Não é só ele. “Um presidente nunca indica quem sabe que o Senado vai recusar”, disse o ministro do STF Alexandre de Moraes ao lembrar que rasteiras assim só foram registradas no governo do marechal Floriano Peixoto.

Diante desse cenário, o jogo de Alcolumbre, agora, avança para a segunda casa, de olho na vaga a ser aberta em outubro, com a aposentadoria da presidente da Corte, Rosa Weber.

Na recente conversa com Lula, o senador prometeu ajudar Zanin a angariar votos. O presidente da CCJ é conhecido, porém, por cobrar a fatura com insistência. E o que ele quer, além de cargos no Dnit, na Caixa e na Secretaria de Patrimônio da União, entre outros, é transformar o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), em ministro do STF no fim do ano.

Paulo Delgado* - O uso astuto da internet

O Estado de S. Paulo

É preciso desligar o poder de remunerar a mentira. Canal do mundo sombrio, falar de ‘big tech’ é falar de uma ferida que já é incorrigível

Se um boi pudesse usar as redes sociais, certamente o faria como quadrúpede. Mosca varejeira que faz o indivíduo se render à sua picada e, engolido sem esforço, deixá-la digerir seu mundo. Colecionadoras de fantasma em troca do fastio de efusões, as gigantes digitais são o maior sim que o poder já ousou criar. Com faceta velhaca, faz-se aliado do usuário enquanto absorve todas as coisas de quem obedece mais. Canal da adversidade, quer se ver como fortuna.

A fraude intrínseca das redes sociais é a pretensão de saber o modo de funcionamento do indivíduo e se achar espelho da realidade. Quando, na verdade, criaram um padrão – subgênero-gente-digital – tirado da fragilidade da identidade e das ninharias da personalidade. Amo que cindiu e alienou a pessoa a instâncias externas e com práticas desleais de causar sensação, combinadas com almas intrusivas, ilegais e nocivas, usurpou a grandeza da internet. Os atos contradizem os ares de direito que se deram. Malignidade da sagacidade, como foi fácil fabricar um ser rendido!

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Lula põe acordo de Mercosul com UE de volta no limbo

Valor Econômico

“Side letter” que pode ter se tornado um álibi para que o acordo com o Mercosul não prospere

Tanto o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, como o da Argentina, Alberto Fernández, que dirigem as duas maiores economias do Mercosul, manifestaram disposição de rever partes do acordo com a União Europeia, concluído em junho de 2019, após duas décadas de negociações, por seus adversários políticos e antecessores, Jair Bolsonaro e Mauricio Macri. Nesta semana, a presidente da Comissão Europeia, Ursula van der Leyen, se reuniu com Lula e polidamente divergiram. Em tese, o desejo de ambos é concluir o acordo até o fim do ano. Os obstáculos levantados por países dos dois lados colocam o objetivo em dúvida.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Palavra Mágica

 

Música | Luiz Gonzaga - Asa Branca

 

terça-feira, 13 de junho de 2023

João Feres Júnior * - A guerra pela democracia

O Globo

Imaginemos uma campanha política inundada por vídeos falsos, em que o eleitor não pode ter certeza de que a informação é minimamente confiável

A batalha em torno do Projeto de Lei 2.630 — conhecido como PL das Fake News — é somente a primeira parte de um capítulo decisivo de nossa História democrática. O vertiginoso desenvolvimento da comunicação digital tem afetado seriamente o processo político democrático brasileiro há pelo menos uma década. Junho de 2013, a organização política da extrema direita e a consequente vitória de Bolsonaro em 2018 foram somente os marcadores mais visíveis dessa História recente.

Em 2022, uma nova catástrofe foi por pouco evitada, mas isso se deveu mais à virtude de alguns atores políticos, notadamente à determinação do ministro Alexandre de Moraes no comando do Tribunal Superior Eleitoral e à imensa popularidade e habilidade política de Lula, do que propriamente à solidez de nossas instituições perante as ameaças postas pela manipulação dessas novas tecnologias da comunicação.

Míriam Leitão - Banco Central começa a corrigir a rota

O Globo

Cenário de desinflação estava posto, mas só agora BC trabalha até com a possibilidade de a meta ser cumprida

A declaração de ontem do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, é uma correção de rumo. Está ficando difícil para o Banco Central encontrar argumentos para manter a taxa de juros no ponto em que está. As projeções do Boletim Focus para a inflação de 2024 e 2025 estão em 4% e 3,9%. Como o BC diz que leva em conta o Focus e olha para o “horizonte relevante”, está observando esses dois números, entre outros. Em evento em São Paulo, o presidente do BC falou da inflação presente, admitindo que junho provavelmente terá inflação negativa, e que o índice de preços vai terminar o ano entre 4,5% e 5%.

O número 4,5% para o final do ano ainda não tinha aparecido na mesa. A previsão de ontem do Focus para 2023 foi de 5,42%. A diferença entre um e outro é que o número aventado por Roberto Campos significa ficar no intervalo de flutuação da meta para este ano, ou seja, o presidente do BC trabalha até com a possibilidade de a meta ser cumprida este ano.

Merval Pereira - Exposto a chantagens

O Globo

A disposição de Lula de não resistir a pressões dirigidas por interesses particulares mostra como é difícil controlar o Congresso com um governo minoritário e sem projeto, a não ser o personalismo petista

O presidente Lula está tentando organizar seu ministério de acordo com os partidos que teoricamente o apoiam na Câmara, mas o episódio da substituição da ministra do Turismo é exemplar. Nomeada como Daniela do Waguinho, por ser casada com o prefeito de Belford Roxo, logo nos primeiros dias ela pediu para ser chamada de Daniela Carneiro. Muito justo, queria mostrar sua independência política. Mas a vontade não era tanta assim, pois, logo que seu próprio partido, o União Brasil, resolveu trocá-la por outro integrante, eis que entra em campo o mesmo Waguinho, para defender a permanência no cargo de sua mulher.

Os petistas reclamam das críticas feitas a Lula por aceitar as chantagens parlamentares do União Brasil e, sobretudo, do presidente da Câmara, Arthur Lira. Recebem-nas como apoio aos chantagistas. Mas quem se colocou nessa posição foi o próprio Lula, que venceu a eleição sem programa de governo e foi preenchendo os cargos sem a menor lógica. Essa falta de sensatez aparece no comentário do próprio Waguinho, que terá um encontro com Lula provavelmente hoje: “Trocar uma evangélica por um bolsonarista não tem sentido”.