*Antonio Gramsci (1891-1937). Cadernos do Cárcere, v.1. p.237-8. Civilização Brasileira, 2006.
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
quinta-feira, 15 de junho de 2023
Opinião do dia – Antonio Gramsci* (Ideologias)
Bernardo Sorj* - Aniversário de um estadista
O Globo
Num momento em que a sociedade continua
polarizada de forma destrutiva, a figura de FH é um exemplo a seguir
É tempo que o Brasil reconheça a enorme
contribuição de Fernando
Henrique Cardoso ao país. O Brasil deve celebrar, no
aniversário de seus 92 anos, seu papel de estadista, deixando de lado os
julgamentos impregnados pelos vaivéns dos pequenos interesses políticos.
Seu compromisso com a democracia, que se
expressa nas ideias e na prática de governante, reflete sua forma de ser.
Fernando Henrique pratica o pluralismo, gosta de ouvir opiniões divergentes e
possui enorme curiosidade e disposição a sempre aprender e observar o que a
vida traz de novo. Sua bagagem intelectual e seu apetite voraz pela leitura
nunca foram empecilho para que ele acompanhasse as transformações sociais, sem
se deixar aprisionar por enquadramentos ideológicos ou pelas camisas de força
das teorias.
Ele pratica um cosmopolitismo enraizado: a cabeça nos ares do mundo e os pés fincados na realidade brasileira. Fernando Henrique encontra no jeito pragmático de ser brasileiro uma defesa saudável contra os dogmatismos. Pragmatismo que, sem abandonar os valores fundamentais, supõe uma dose de realismo e de disposição a negociar, pois política não é guerra nem imposição da vontade pessoal.
Merval Pereira - E Lula chorou
O Globo
O choro por Daniela do Waguinho não tem o
mesmo peso político do choro que frequentemente toma conta de Lula quando ele
fala de pobreza e de desigualdade
O presidente Lula chorou na reunião em que
demitiria Daniela do Waguinho do Ministério do Turismo. Alguma coisa está
errada nesse emocionalismo excessivo. Os dois, Waguinho e Daniela, nunca foram
petistas, nem próximos a Lula. A saída do ministério não se deu por uma crise
daquelas sérias, que deixam sequelas em velhos amigos, como sempre acontece nos
governos.
Nem o ministério tem importância, infelizmente. A ponto de ser dado para uma deputada que nada tem a ver com o assunto, que agora será sucedida por outro deputado, que também não entende nada de turismo. Não me lembro de Lula ter chorado quando o então todo-poderoso ministro José Dirceu teve de se demitir da Casa Civil em meio à crise do mensalão. Nem mesmo quando vários deputados, esses sim, chorando, saíram do PT em protesto contra a corrupção escancarada.
Malu Gaspar – Autópsia de uma fraude
O Globo
Foram necessários seis meses e uma Comissão
Parlamentar de Inquérito para a Americanas S.A.
admitir publicamente o óbvio. O que houve na maior varejista do Brasil foi um
esquema de proporções épicas, a maior fraude corporativa da História do Brasil.
O atual presidente da companhia, Leonardo
Coelho, afirmou aos deputados que um rombo calculado em R$ 25,7 bilhões foi
escamoteado nas demonstrações financeiras ao longo de vários anos. É uma
enormidade, ainda mais considerando que o faturamento anual foi desse mesmo
valor em 2021.
Impressionaram, ainda, as evidências de que
os antigos diretores trabalhavam ativamente e em equipe (ou talvez fosse melhor
dizer em quadrilha) para transformar prejuízo em lucro, além de produzir uma
contabilidade falsa para o conselho de administração e o mercado.
Havia duas planilhas: a “visão interna”, com os números reais, e a “visão conselho”, com dados inflados. Por e-mail, os executivos discutiam formas de perpetuar e esconder a enganação, pois do contrário seria “morte súbita”.
Míriam Leitão – A economia faz planos
O Globo
Nelson Barbosa, conta que o novo PAC terá mais
projetos de infraestrutura, no entanto, mais agenda de concessões e PPPs que no
passado
O novo plano de investimento que está sendo
preparado pelo governo é diferente dos PACs do passado porque terá um foco
maior em infraestrutura social e ambiental, e mais participação do setor privado,
através de PPPs e concessões. Quem conta é o diretor de investimento do BNDES,
Nelson Barbosa. O BNDES vai captar junto ao BID, ao banco de desenvolvimento da
China e ao banco dos Brics recursos que haviam sido oferecidos ao Brasil e o
governo anterior ignorou. “Somando tudo dá US$ 5 bilhões que estavam na mesa
com taxas competitivas”.
Barbosa, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, afirma que está sendo pensado um “BNDES do futuro”, muito menos dependente de dinheiro do Estado para se financiar. Eu o entrevistei ontem no meu programa na Globonews. Ele está envolvido tanto na preparação do novo PAC, que não terá este nome, quanto em desenhar esse novo BNDES.
Luiz Carlos Azedo - A estrela de Haddad brilha com a nova classificação de risco
Correio Braziliense
Se a articulação de Haddad na Câmara foi um
sucesso, a crise com o União Brasil está longe de ter sido resolvida. O centro
da disputa não é o Turismo, é o Ministério da Saúde
O ministro mais bem-sucedido do governo
Lula até agora é Fernando Haddad, da Fazenda, que está construindo a sua
própria blindagem no Congresso, com muito diálogo, capacidade de articulação e
uma orientação econômica que vem obtendo resultados positivos e mais aceitação
no mercado. A blindagem política do ministro da Fazenda foi um dos principais
fatores de sucesso do presidente Fernando Henrique Cardoso e do próprio
presidente Lula, nos mandatos anteriores.
O caso do ministro Pedro Malan é o mais simbólico, embora tivesse um perfil técnico muito mais sofisticado do que o de Haddad, que não é economista. Malan pilotou a execução do Plano Real com muito pragmatismo e firmeza, mas isso não impediu o “fogo amigo” dentro do próprio governo. A trombada mais feia foi com o ministro Clovis Carvalho, que havia saído da Casa Civil para assumir o Ministério do Desenvolvimento, no segundo mandato de FHC. Ousou criticar Malan publicamente e acabou defenestrado.
Ruy Castro - Trump e Bolsonaro, não se matem
Folha de S. Paulo
O suicídio não só faz mal à saúde como
impede que se cumpram as sentenças em vida
Na coluna de 10 de janeiro de 2021, quatro dias depois do ataque ao Capitólio pelos zumbis de Donald Trump, e já certo de que ele teria de pagar por este e outros crimes que cometeu na Presidência dos EUA, recomendei a Trump que se matasse. E, como Bolsonaro o copiava em tudo e estava igualmente destinado ao banco dos réus, soprei-lhe que macaqueasse Trump também nessa. A sugestão gerou revolta entre os bolsonaristas e uma ameaça de processo pelo então ministro da Justiça de Bolsonaro, André Mendonça, baseado na Lei de Segurança Nacional.
Bruno Boghossian - Lula e os companheiros do agro
Folha de S. Paulo
Presidente emenda acenos e tenta reduzir
distância com segmento que se entregou a Bolsonaro
Lula quer
reconquistar uma fatia do agronegócio. Nos últimos dias, o presidente emendou
acenos públicos a um setor mergulhado na oposição ao PT. Na Bahia Farm
Show, ele chamou grandes produtores de "companheiros",
prometeu ajuda do governo e disse que não há motivo para rivalidade com a
agricultura familiar.
A distância entre os dois lados não é pequena. O agronegócio se entregou de corpo e alma a Jair Bolsonaro. Políticos ruralistas deram apoio pesado à reeleição do ex-presidente, e empresários chegaram a bancar atos golpistas. O clima azedo levou Lula a se referir a alguns integrantes do setor como "fascistas" —algo que ele repetiu já como presidente.
Maria Cristina Fernandes - A ponte para o atraso entre Cunha e Lira
Valor Econômico
Câmara reage à ofensiva do governo com bom
momento da economia e alinhamento com Judiciário
A agência de classificação de risco S&P
já havia alterado a nota de crédito do Brasil para positiva, retomando o
patamar de quatro anos atrás de maior segurança para o investidor estrangeiro,
quando uma sirene de risco político tocou em alguns gabinetes da Câmara dos
Deputados.
Em meio à guerra entre Executivo e
Congresso pela troca de ministérios e ocupação de cargos em empresas públicas,
começou a circular um novo substitutivo para o projeto de lei que tipifica
crime de discriminação contra “pessoas politicamente expostas”.
Não estava previsto mas logo se arrumou um
jeito de pautar urgência e mérito. Apresentado inicialmente como uma reação dos
parlamentares às dificuldades colocadas pelos bancos para a abertura de contas
suas e de seus familiares, o projeto chegou a entrar em pauta semanas atrás mas
foi barrado.
Voltou mais bojudo. Entre as discriminações sujeitas a penas pelo substitutivo está a de impedir o acesso de alguém “devidamente habilitado, a qualquer cargo da administração direta ou indireta, bem como das concessionárias de serviços públicos”. Ao fim deste artigo, acresça-se “salvo expressa vedação legal”.
Bruno Carazza - União Brasil: o monstro de muitas cabeças que chantageia Lula
Valor Econômico
Metade Centrão, parte bolsonarista e com
DNA do velho PFL, não dá para esperar fidelidade do União Brasil
Na onda de reposicionamento de marcas que
ocorreu na última década entre os partidos brasileiros, saiu a sopa de
letrinhas das siglas que não diziam nada para entrar nomes bonitos que, na
prática, dizem menos ainda. Avante, Cidadania, Novo, Patriota, Podemos,
Progressistas, Rede, Republicanos, Solidariedade, União Brasil: na maioria das
vezes, a postura e a conduta do partido contradizem totalmente a sua
denominação.
Ocupando os noticiários com as negociações
em torno da primeira reforma ministerial de Lula, o União Brasil é símbolo
desses contrassensos entre o nome e sua composição.
Fundado no final de 2021 pela fusão do Democratas (antigo PFL) com o PSL, o União Brasil conta atualmente com 59 deputados (só perde para o PL e o PT) e 9 senadores (atrás apenas de PSD, PL e MDB). Trata-se de uma das maiores forças no Congresso; logo, é natural que tenha sido cortejado por Lula para integrar a sua base desde a promulgação do resultado das urnas.
Assis Moreira - EUA e UE trazem política industrial para a OMC
Valor Econômico
Tema tomará crescente espaço nos foros
internacionais em meio a um mundo cada vez mais fragmentado
Em reunião de ministros dos principais
países comerciantes, na semana passada, em Paris, a portas fechadas, Estados
Unidos e Europa rasgaram a fantasia. Sinalizaram interesse na adaptação de
regras comerciais internacionais para o setor industrial. Na prática, querem
assegurar “policy space”, ou margem de manobra para o Estado fazer política
industrial - algo que se ouvia até agora só de países em desenvolvimento. Os
dois seguem agora passos da China, mas ao mesmo tempo querem enquadrar
subsídios dados por Pequim.
O plano de Washington e Bruxelas é lançar as discussões envolvendo industrialização ou reindustrialização durante a conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) em fevereiro de 2024, nos Emirados Árabes Unidos. Buscam legalizar medidas unilaterais que turbinem sua capacidade industrial oficialmente para fazer a transição verde e energética. Negociadores falam em ter a conclusão da negociação dois anos depois, na conferência ministerial seguinte da OMC.
William Waack - Enredo para uma série
O Estado de S. Paulo
Personagens centrais do Congresso e do Executivo travam luta feroz pelo poder
Pode-se trocar os atores no atual teatro
político em Brasília e não mudam os personagens centrais. Muito menos o enredo:
uma luta feroz pelo poder entre Congresso e Executivo.
Os chefes do Executivo e das Casas
Legislativas estão entrelaçados numa disputa pelos instrumentos básicos de
atuação política – a alocação de recursos via orçamento público e a ocupação da
máquina estatal.
É o resultado lógico de um péssimo “design” de sistema de governo que só piorou na última década. O conflito programado entre Executivo e Legislativo agravou-se com o resultado das últimas eleições, que não deu a lado algum peso decisivo para impor uma agenda política.
Eugênio Bucci* - (A caverna portátil)
O Estado de S. Paulo
A nova traquitana da Apple nos chega com a promessa de mil prazeres, mas como um cinto de castidade: quem aceitar usá-lo não verá mais nada além dele
Quem acompanha as páginas da imprensa já viu que há um sururu festivo em torno do lançamento do novo par de óculos fabricado pela Apple. Estamos às voltas com um incontido frisson, como se dizia nos tempos pré-internet – ou um siricutico assanhado, em tupi-guarani arcaico. Artigos e reportagens propagam uma excitação estridente com o tal objeto, que, sejamos francos, tem o aspecto de uma máscara de mergulho reluzente, mas opaca.
Roberto Macedo* - Taxa do PIB no 1º trimestre será a maior do ano
O Estado de S. Paulo
Ótimo resultado atribuído ao setor agropecuário foi também sazonal e não deverá se repetir nos trimestres seguintes
Só hoje abordarei a variação do Produto
Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre deste ano, pois escrevo neste espaço
na primeira e na terceira quintas-feiras de cada mês, e essa taxa foi anunciada
pelo IBGE na primeira quinta de junho e meu artigo sobre outro tema foi
entregue ao jornal no dia anterior.
A mais recente taxa trimestral do PIB foi realmente excepcional: 1,9% (!) num único trimestre, relativamente ao anterior. E ela enseja o retorno a comentários de outros analistas, bem como a aportes adicionais. A principal razão do crescimento foi o extraordinário desempenho do setor agropecuário, que avançou 21,6% (!) no período, que coincidiu com o auge de safras agrícolas excepcionais mesmo para os padrões do setor. Na ordenação das taxas setoriais de crescimento do PIB no primeiro trimestre, apresentadas graficamente pelo IBGE, a segunda taxa foi a da indústria extrativa, bem mais baixa, de 2,3%. E a média das 11 taxas setoriais, excluída a agropecuária, foi ainda menor, de apenas 0,4%, o que enfatiza o contraste trazido pelo desempenho deste último setor.
Celso Ming - Acordo emperrado
O Estado de S. Paulo
Esquisita, confusa e inexplicável a
ferrenha oposição do presidente Lula para a cláusula de compras governamentais
no projeto de acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. "Os
europeus querem que o Brasil abra as portas governamentais. A gente não vai
fazer isso", disse Lula.
Compras governamentais é o capítulo de um
acordo comercial que garante fornecimento aos governos de produtos e serviços
pelas empresas dos países signatários do acordo.
Esta é matéria exaustivamente negociada, sobre a qual se obteve convergência desde 2019. Os termos são flexíveis, excluem compras pelos Estados e municípios, preveem prazos, exceções e tratamento favorecido às pequenas e médias empresas.
J. B. Pontes* - Centrão entrava Governo Lula
Mas, de forma contraditória, o povo elegeu
simultaneamente um parlamento
majoritariamente de oposição ao governo Lula. Não restam dúvidas que
isso ocorreu por força da avalanche de dinheiro público colocado por Bolsonaro
nas mãos de seus apoiadores, com a finalidade de angariar apoios políticos e
comprar votos para garantir a sua reeleição.
Especialmente na Região Nordeste, sabedores da grande rejeição dos eleitores pelo ex-presidente Bolsonaro, os candidatos dos partidos do Centrão adotaram a estratégia de deixar os eleitores livres para votar, para presidente, no candidato de suas preferências. Raramente algum candidato dos partidos do Centrão fez campanha para Bolsonaro, no primeiro turno das eleições. E os que fizeram acabaram derrotados. Ao contrário, no segundo turno, já eleitos, todos eles mudaram de postura e passaram a se emprenhar pela reeleição de Bolsonaro, mediante um forte assédio eleitoral e de compra de votos. Apesar disso, só poucos eleitores aceitaram mudar o voto para presidente.
O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões
Fed faz pausa de avaliação no aperto monetário
Valor Econômico
Se há convicção de que o esforço adicional
da política monetária para atingir seus objetivos é de mais 0,5 ponto
percentual, a interrupção é inútil e pode sinalizar indecisão
O Federal Reserve americano deu ontem um
passo incerto ao interromper provisoriamente novas altas de juros e ao mesmo
tempo sinalizar que a maioria de seus membros espera mais dois aumentos das
taxas até o fim do ano. Em março, na reunião do Comitê de Mercado Aberto, em
que apresentaram suas projeções econômicas, seus participantes haviam colocado
como taxa terminal do mais intenso ciclo de aperto monetário em décadas os
juros correntes, na faixa de 5% a 5,25%. Os mercados reagiram sem direção
única: a Dow Jones teve pequena queda (0,68%) e o S&P 500, pequena alta
(0,1%). Os rendimentos dos títulos do Tesouro de 2 anos não se moveram e os de
10 anos caíram 0,04 ponto percentual.
Uma avaliação sobre a trajetória dos efeitos das altas de juros, feitas a partir de março de 2022, indica progressos significativos do Fed, mas nada que ainda tornasse recomendável a interrupção do ciclo neste momento, mesmo que ele esteja perto do fim. A comparação das projeções econômicas atuais com as anteriores, que sugeriam o fim dos aumentos, dá uma ideia quase contrária a essa decisão. O Produto Interno Bruto americano deverá crescer bem mais, 1%, ante 0,4% da previsão anterior. A aposta de queda mais forte do desemprego, para 4,5%, foi reduzida a 4,1% - a taxa atual é 3,7%. O índice de gastos pessoais do consumo em 2023 praticamente não mudou (3,2% ante 3,3%), enquanto que, o que é muito significativo, o núcleo deste índice - a medida considerada mais acurada para a evolução prospectiva da inflação -, subiu de 3,6% para 3,9%.
quarta-feira, 14 de junho de 2023
Opinião do dia – Antonio Gramsci (saber, compreender, sentir)
Antonio Gramsci (1891-1937).
Cadernos do Cárcere, v.1. p.221-2. Civilização Brasileira, 2006.
Luiz Carlos Azedo - Muda tudo no cenário político caso Bolsonaro fique inelegível
Correio Braziliense
A derrota eleitoral e seu possível alijamento
da disputa de 2026 já estão fomentando o surgimento de lideranças de direita
mais esclarecidas e moderadas, capazes de atrair um eleitorado que ficará órfão
O julgamento do ex-presidente Jair
Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi marcado pelo ministro
Alexandre de Moraes para o próximo dia 22. Movida pelo PDT, trata-se de uma
ação por abuso de poder político e econômico ao realizar uma reunião com
embaixadores, em julho do ano passado, e atacar o processo eleitoral
brasileiro. Caso seja condenado, o que é provável, devido à evidência dos fatos
em confronto com a legislação eleitoral vigente, Bolsonaro estará impedido de
disputar quaisquer cargos eletivos, inclusive a Presidência da República em
2026. Isso mudará tudo no cenário político nacional.
O julgamento deve ser concluído ainda neste mês, antes do recesso no Judiciário. Durante o encontro com os embaixadores, no Palácio da Alvorada, Bolsonaro questionou a segurança do sistema eleitoral e apontou risco de fraude nas eleições, sem apresentar provas. Além disso, ele é alvo de 16 investigações no TSE. Sua condenação terá forte impacto no ambiente político do país, porque tira de cena o principal protagonista da extrema direita, que hegemoniza a oposição. Esse espaço político tende a ser ocupado por outra liderança de direita. O conservadorismo continua sendo a força predominante na oposição, na qual emergem novas lideranças, com destaque para os governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos); Minas, Romeu Zema (Novo); e Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB).
Hélio Schwartsman - Limites do pragmatismo
Folha de S. Paulo
Se passam a ideia de que tudo está à venda,
políticos desmoralizam a si mesmos
Apesar de a ministra do Turismo, Daniela
Carneiro, ter ganhado uma sobrevida,
tudo indica que o presidente Lula acabará
atendendo aos apelos do centrão e a trocará por Celso Sabino.
Se é lícito imprimir alguma picância à descrição, Lula substituiria uma aliada
de primeira hora e que tem entrada no público evangélico por um bolsonarista.
Há também uma boa chance de a Embratur, hoje presidida por Marcelo
Freixo, figura icônica da esquerda, ser cedida ao grupo de Arthur Lira.
Sabe-se que a ingratidão é um dever do político, mas, mesmo assim, acho que vale perguntar até onde deve ir o pragmatismo de um governante. Como bom consequencialista, não me oponho às negociações, compromissos e até a algum toma lá dá cá. Se todo mundo for lutar até o fim pelo que acha que é certo, o resultado seria a guerra civil. A democracia funciona porque põe os principais atores políticos para conversar, aplainando as arestas e reforçando os pontos comuns.
Bruno Boghossian - União Brasil contra União Brasil
Folha de S. Paulo
Qualquer proposta de alinhamento será
considerada incerta ou terá preço alto demais
Pouca gente apareceu para defender Daniela
Carneiro durante a passagem da ministra pela Câmara nesta terça (13).
Na Comissão de Turismo, havia mais deputados de oposição do que governistas
para a audiência que pode ter sido um de seus atos finais como titular da
pasta.
Daniela foi ao Congresso depois de conversar com Lula no Planalto. Prestes a perder o cargo, ela não quis passar recibo: disse que receberia os parlamentares na Esplanada e avisou que o Ministério do Turismo estava de portas abertas para os políticos. Os deputados, porém, já tratavam a convidada como ex-ministra.
Vinicius Torres Freire - A quadrilha da Americanas
Folha de S. Paulo
Empresa acusa antiga diretoria; polícia e
CPI têm de ir fundo nessa história mal contada
Os advogados e a
nova direção da Americanas acusaram diretores e outros executivos da empresa
até 2022 de formação de quadrilha, grosso modo. A cúpula da varejista
inventaria descontos na compra de mercadorias, ocultaria dívidas, falsificaria
o cálculo do endividamento relativo, forjaria documentos e publicaria números
mentirosos de resultado, mentira que teria passado da casa de R$ 2,4 bilhões em
2021, por exemplo, no caso do lucro.
A mutreta teria contado com a anuência de auditores externos e mesmo de bancos. O conselho de administração e os ditos acionistas de referência, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira não são envolvidos no rolo segundo essa explicação parcial e, note-se, ainda não auditada.
Fernando Exman - Colhendo na economia, mas de olho na política
Valor Econômico
Melhora dos indicadores econômicos traz
alívio, mas governo mantém cautela
A partir de julho, terá início o
“espetáculo do crescimento”, assegurou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a
uma plateia repleta de sindicalistas. Era junho de 2003, e eram outros tempos.
Hoje, não se vê tamanha confiança no Palácio do Planalto, ainda que os recentes
sinais da economia representem um alívio para aqueles que no campo político
sofrem diariamente para colher notícias positivas.
Naquele discurso, feito em São Bernardo do
Campo (SP), seu berço eleitoral, Lula ofereceu um roteiro familiar aos
presentes: o governo não teve como tomar providências com mais agilidade porque
o país estava na UTI depois das eleições, a credibilidade internacional
brasileira estava enfim recuperada e já era perceptível uma desaceleração da
inflação.
Para aquecer a economia e modernizar a frota nacional, pontuou, medidas voltadas ao setor automotivo haviam sido adotadas. “Anteontem nós anunciamos o maior Plano de Safra que a agricultura familiar brasileira já ouviu ser anunciado”, acenou ao campo.
Lu Aiko Otta - No fim da temporada, inflação e juro caem
Valor Econômico
No Ministério da Fazenda, a avaliação é de
que o início de ano muito ruim parece estar ficando para trás
Era janeiro de 2003 e nevava levemente em
Davos, na Suíça, quando o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, foi ao
hospital local visitar o então presidente do Banco Central, Henrique Meirelles,
que na véspera lesionara o pé ao escorregar no chão congelado. Na salinha
destinada aos fumantes, o médico sanitarista que vinha surpreendendo o mercado
no comando da economia afirmou que o Brasil cumpriria, sim, seu contrato com o
Fundo Monetário Internacional (FMI). Esse era um ponto de preocupação naquele
momento. Depois, daria um “obrigado” e um “até logo”.
Vinte anos depois, o ministro da Fazenda,
Fernando Haddad, não perde oportunidade para frisar que o Brasil não deve ao
FMI. Dessa forma, deixa clara a diferença da situação atual em relação aos anos
1980, quando o slogan “Fora FMI” foi um hit dos movimentos de esquerda.
No entanto, o Brasil segue como membro do
organismo. No mês passado, uma missão técnica esteve no país para uma avaliação
de rotina e sugeriu que fosse considerada a adoção de uma meta de inflação de
médio prazo. Metas anuais, comentou o organismo, são formas menos eficientes de
ganhar flexibilidade diante de choques.
Essa mudança tem sido defendida por Haddad há algum tempo. É tema que pode estar na pauta da reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) do próximo dia 29, assim como a meta de inflação para 2026.
Vera Magalhães - Descompasso entre economia e política
O Globo
Enquanto Haddad reverte má vontade de
agentes econômicos, presidente não consegue nem demitir ministra inoperante
administrativa e politicamente
Passado quase meio ano, as expectativas
para o governo Lula se inverteram e, hoje, as boas notícias vêm da economia,
enquanto a política inspira cuidados.
Enquanto Fernando Haddad conseguiu superar
uma enorme má vontade dos agentes econômicos quando de sua indicação para a
Fazenda e articulou não apenas o projeto do arcabouço fiscal, mas um plano de
aonde quer chegar ao fim de quatro anos, os demais ministros patinam entre
propostas do passado — as que outrora deram certo e até aquelas que já se
mostraram equivocadas quando eram novas — e a dificuldade de fazer deslanchar
as políticas públicas em suas áreas.
Foi o economista José Roberto Mendonça de Barros quem fez essa síntese que me deu o mote para a coluna. Louvado sempre por seu tirocínio político, Lula não consegue, no momento, sequer decidir se demite uma ministra até aqui inoperante administrativa e politicamente como Daniela Carneiro.
Bernardo Mello Franco – Os últimos dias da irmã Daniela
O Globo
Na política, a solidariedade pode vir de
onde menos se espera. Foi o que descobriu ontem a ministra do Turismo, Daniela
Carneiro. Torpedeada pelo União Brasil e prestes a ser demitida do governo
Lula, ela recebeu apoio de deputados do PL.
“A senhora tem aqui um aliado”, disse o
bolsonarista Bibo Nunes. “Cristianismo é levar pedrada, é ser perseguido. Mas a
palavra final vem de Deus”, emendou o pastor Roberto Monteiro, que se referiu à
ministra como “irmã em Cristo”.
Em visita à Câmara, Daniela citou a Bíblia, jurou fidelidade a Lula e disse ser vítima de “machismo estrutural”. Apesar dos esforços, deve perder o cargo nos próximos dias. A ministra não será dispensada pelo que fez ou deixou de fazer no governo. O Planalto avisou que precisa da cadeira para barganhar votos com o União Brasil.
Elio Gaspari - As travas de Dweck são preventivas
O Globo
O presidente da Câmara, deputado Arthur
Lira, está com duas panelas no fogo. Numa, sofre o impacto das investigações
que envolvem a compra, pelo governo federal, de kits de robótica para escolas
de Alagoas e Pernambuco que não tinham estrutura e, num caso, nem água. É
desnecessário lembrar que os kits estavam superfaturados.
Noutra panela está a briga por nomeações.
As repórteres Catia Seabra e Julia Chaib revelaram que as queixas do Centrão
concentram-se na ministra Esther Dweck, da Gestão e Inovação em Serviços
Públicos. Trata-se de uma servidora de perfil técnico, pessoalmente discreta.
Ela teria emperrado nomeações na Secretaria do Patrimônio da União. Logo na
repartição que leva o nome do Patrimônio da Viúva. As queixas ramificam-se para
uma fundação de previdência e estendem-se ao Ministério da Saúde.
Ganha um fim de semana em Caracas quem for capaz de enunciar o questionamento de uma só política pública envolvida nessas disputas. Quase sempre, as queixas estão associadas ao preenchimento de cargos que têm chaves de cofres.
Zeina Latif - Mudanças de crenças e o rumo da política
O Globo
A conquista da confiança e a pacificação da
sociedade dependerão de o país provar robustez democrática e conquistar justiça
social
Passados dez anos, há muitas análises sobre
as razões dos protestos de 2013. São reflexões importantes, pois aquelas
manifestações dizem muito sobre as mudanças de crenças e valores de uma
sociedade que se tornou mais exigente. São elementos que repercutem na política
até hoje.
A imagem é de uma energia potencial
acumulada que se materializou diante do gatilho representado pela repressão
policial às manifestações de estudantes contra o reajuste da tarifa de ônibus
em São Paulo. O sentimento de alívio de muitos ao assistir o fervor nas ruas dá
uma dimensão da indignação que se acumulava.
Várias análises remetem ao anseio, até então incompreendido, por maior eficiência na ação estatal, com a oferta de serviços públicos de qualidade e o combate à corrupção. Grosso modo, as análises não contemplam e até afastam a hipótese de a situação econômica ter tido influência nos protestos.
Vera Rosa - O jogo de Alcolumbre para apoiar Zanin
O Estado de S. Paulo
Senador cobra de Lula indicação de Pacheco para 2.ª vaga no STF, de olho na cadeira do afilhado
O apoio conquistado por Cristiano Zanin
para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF) conta com um padrinho
importante, além do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se de Davi
Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente da Comissão de Constituição e Justiça
(CCJ) do Senado.
Alcolumbre não só marcou a sabatina de
Zanin para o próximo dia 21 como vê a aprovação do advogado de Lula como “favas
contadas”. Não é só ele. “Um presidente nunca indica quem sabe que o Senado vai
recusar”, disse o ministro do STF Alexandre de Moraes ao lembrar que rasteiras
assim só foram registradas no governo do marechal Floriano Peixoto.
Diante desse cenário, o jogo de Alcolumbre,
agora, avança para a segunda casa, de olho na vaga a ser aberta em outubro, com
a aposentadoria da presidente da Corte, Rosa Weber.
Na recente conversa com Lula, o senador prometeu ajudar Zanin a angariar votos. O presidente da CCJ é conhecido, porém, por cobrar a fatura com insistência. E o que ele quer, além de cargos no Dnit, na Caixa e na Secretaria de Patrimônio da União, entre outros, é transformar o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), em ministro do STF no fim do ano.
Paulo Delgado* - O uso astuto da internet
O Estado de S. Paulo
É preciso desligar o poder de remunerar a mentira. Canal do mundo sombrio, falar de ‘big tech’ é falar de uma ferida que já é incorrigível
Se um boi pudesse usar as redes sociais,
certamente o faria como quadrúpede. Mosca varejeira que faz o indivíduo se
render à sua picada e, engolido sem esforço, deixá-la digerir seu mundo.
Colecionadoras de fantasma em troca do fastio de efusões, as gigantes digitais
são o maior sim que o poder já ousou criar. Com faceta velhaca, faz-se aliado
do usuário enquanto absorve todas as coisas de quem obedece mais. Canal da
adversidade, quer se ver como fortuna.
A fraude intrínseca das redes sociais é a pretensão de saber o modo de funcionamento do indivíduo e se achar espelho da realidade. Quando, na verdade, criaram um padrão – subgênero-gente-digital – tirado da fragilidade da identidade e das ninharias da personalidade. Amo que cindiu e alienou a pessoa a instâncias externas e com práticas desleais de causar sensação, combinadas com almas intrusivas, ilegais e nocivas, usurpou a grandeza da internet. Os atos contradizem os ares de direito que se deram. Malignidade da sagacidade, como foi fácil fabricar um ser rendido!
O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões
Lula põe acordo de Mercosul com UE de volta no limbo
Valor Econômico
“Side letter” que pode ter se tornado um
álibi para que o acordo com o Mercosul não prospere
Tanto o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, como o da Argentina, Alberto Fernández, que dirigem as duas maiores economias do Mercosul, manifestaram disposição de rever partes do acordo com a União Europeia, concluído em junho de 2019, após duas décadas de negociações, por seus adversários políticos e antecessores, Jair Bolsonaro e Mauricio Macri. Nesta semana, a presidente da Comissão Europeia, Ursula van der Leyen, se reuniu com Lula e polidamente divergiram. Em tese, o desejo de ambos é concluir o acordo até o fim do ano. Os obstáculos levantados por países dos dois lados colocam o objetivo em dúvida.
terça-feira, 13 de junho de 2023
João Feres Júnior * - A guerra pela democracia
O Globo
Imaginemos uma campanha política inundada
por vídeos falsos, em que o eleitor não pode ter certeza de que a informação é
minimamente confiável
A batalha em torno do Projeto de Lei 2.630
— conhecido como PL das Fake News — é somente a primeira parte de um capítulo
decisivo de nossa História democrática. O vertiginoso desenvolvimento da
comunicação digital tem afetado seriamente o processo político democrático
brasileiro há pelo menos uma década. Junho de 2013, a organização política da
extrema direita e a consequente vitória de Bolsonaro em 2018 foram somente os
marcadores mais visíveis dessa História recente.
Em 2022, uma nova catástrofe foi por pouco evitada, mas isso se deveu mais à virtude de alguns atores políticos, notadamente à determinação do ministro Alexandre de Moraes no comando do Tribunal Superior Eleitoral e à imensa popularidade e habilidade política de Lula, do que propriamente à solidez de nossas instituições perante as ameaças postas pela manipulação dessas novas tecnologias da comunicação.
Míriam Leitão - Banco Central começa a corrigir a rota
O Globo
Cenário de desinflação estava posto, mas só
agora BC trabalha até com a possibilidade de a meta ser cumprida
A declaração de ontem do presidente do
Banco Central, Roberto Campos Neto, é uma correção de rumo. Está ficando
difícil para o Banco Central encontrar argumentos para manter a taxa de juros
no ponto em que está. As projeções do Boletim Focus para a inflação de 2024 e
2025 estão em 4% e 3,9%. Como o BC diz que leva em conta o Focus e olha para o
“horizonte relevante”, está observando esses dois números, entre outros. Em
evento em São Paulo, o presidente do BC falou da inflação presente, admitindo
que junho provavelmente terá inflação negativa, e que o índice de preços vai
terminar o ano entre 4,5% e 5%.
O número 4,5% para o final do ano ainda não tinha aparecido na mesa. A previsão de ontem do Focus para 2023 foi de 5,42%. A diferença entre um e outro é que o número aventado por Roberto Campos significa ficar no intervalo de flutuação da meta para este ano, ou seja, o presidente do BC trabalha até com a possibilidade de a meta ser cumprida este ano.
Merval Pereira - Exposto a chantagens
O Globo
A disposição de Lula de não resistir a
pressões dirigidas por interesses particulares mostra como é difícil controlar
o Congresso com um governo minoritário e sem projeto, a não ser o personalismo
petista
O presidente Lula está tentando organizar
seu ministério de acordo com os partidos que teoricamente o apoiam na Câmara,
mas o episódio da substituição da ministra do Turismo é exemplar. Nomeada como
Daniela do Waguinho, por ser casada com o prefeito de Belford Roxo, logo nos
primeiros dias ela pediu para ser chamada de Daniela Carneiro. Muito justo,
queria mostrar sua independência política. Mas a vontade não era tanta assim,
pois, logo que seu próprio partido, o União Brasil, resolveu trocá-la por outro
integrante, eis que entra em campo o mesmo Waguinho, para defender a
permanência no cargo de sua mulher.
Os petistas reclamam das críticas feitas a Lula por aceitar as chantagens parlamentares do União Brasil e, sobretudo, do presidente da Câmara, Arthur Lira. Recebem-nas como apoio aos chantagistas. Mas quem se colocou nessa posição foi o próprio Lula, que venceu a eleição sem programa de governo e foi preenchendo os cargos sem a menor lógica. Essa falta de sensatez aparece no comentário do próprio Waguinho, que terá um encontro com Lula provavelmente hoje: “Trocar uma evangélica por um bolsonarista não tem sentido”.


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