Folha de S. Paulo
Contradição entre razão e práticas
político-sociais isentas de hábitos morais provoca perplexidade
Quebra dos protocolos de decoro na classe
política e no Judiciário é novidade
Não deverá haver novas sessões públicas do STF, para atenuar a perplexidade nacional com as cenas chocantes da última vez. Por minúsculo que seja, entretanto, o episódio não se esgota na estupefação imediata. A sociedade civil pode estar à espera de algo como "O Guia dos Perplexos" do filósofo judeu Maimônides (1138-1204). Atualizada, a questão desse livro é como conciliar uma ordem supostamente racional com aquilo que parece estar além de seus limites. "Perplexo" hoje é aquele lançado na aflição de compreender dois sistemas contraditórios entre si: o da razão e o de práticas político-sociais isentas de hábitos morais.
Essa reinterpretação comporta o discernimento
do coreano
Byung-Chul Han no sentido de que hoje "a sociedade bem ordenada
não é uma sociedade do desempenho, mas uma sociedade do respeito" (em
"Sem Respeito", Vozes). No que é corroborado por um aforismo da
tradição afro-brasileira: "Só aprende quem respeita". Vale para a
crise disciplinar no âmbito pedagógico, também para as instituições, que formam
cidadania. Respeito requer responsabilidade com relação ao outro. Isso não
existe no desempenho individual como único valor ético, característico da
socialização neoliberal orientada pelo mercado e pelas ilusões teológicas da
prosperidade com o culto do empreendedor de si mesmo, sem vínculo com a
sociedade global.
Na falência desse vínculo, transparece a
"guerra civil molecular", endógena nas sociedades marcadas pela
violência da cidadania contra seu próprio entorno. A falta de respeito tem
visibilidade pronta no cotidiano urbano com a depredação sistemática de
equipamentos públicos, o lixo nas ruas, o caos do trânsito, o claro espírito de
vingança coletiva contra a cidade e suas desigualdades. Desrespeito é o mesmo
que irresponsabilidade individual e social.
Menos visível é a manifestação desse fenômeno
na quebra dos protocolos seculares de convivência das elites herdeiras das
disposições patrimonialistas de poder. Patrimonialismo, convém reiterar, é a
forma social transplantada de Portugal para o Brasil desde os começos, com o
princípio político-social de que as benfeitorias devem circular na
"comunidade dos iguais". Outro modo de dizer que a circulação de
riquezas obedece a critérios de família e de clã, ou seja, à "turma"
do privilégio e conchavo. É o que se perpetua entre nós ao longo dos séculos
sob os véus das ideologias conciliatórias formuladas pela elite letrada e
inteligente.
Bem ou mal, essa elite sempre se inculcou
algum autorrespeito, carteira de trânsito na panelinha dos pares. O que agora
acontece, em meio à crise da representação parlamentar, da responsabilidade
social e da civilidade, é a quebra dos protocolos de decoro tanto na classe política
como nas instâncias do Judiciário.
Deformações moleculares apagaram o sentimento
de vergonha, inerente ao autorrespeito. O patrimonialismo neoliberal virou
ganância financeira controlada pelo crime organizado e, na promiscuidade das
turmas, pouco importa ser percebido como corrupto e sem vergonha. Perplexa, a
sociedade assiste ao "master" corruptor Vorcaro entronizar o crime
acima da lei: "Vou falar com
a turma". Qual? "Turma do KN",
milícia privada?

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