domingo, 8 de novembro de 2026

Tax the poor? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

A prisão de Santiago Peña no Paraguai e a crise política, econômica e social de Javier Milei na Argentina são um alerta para a região e o presidente Lula, que participa da cúpula do Mercosul em 4 e 5 de dezembro e faz hoje um pronunciamento sobre o grande dilema do quarto mandato: onde cortar e onde arrecadar mais para cobrir sua própria “herança maldita”?

Do lado oposto de Peña e Milei, Lula tem discurso e base na esquerda (apesar de dizer que jamais foi de esquerda), foi eleito em nome da democracia e da soberania, mas também torrando o orçamento público com políticas eleitoreiras e prometendo, dia sim e outro também, que não cortaria dos pobres. E é assim que vai assumir pela quarta vez em 2027.

Economia não é pura aritmética, mas dois mais dois sempre serão quatro. Não há mágica. Lula está certo em reafirmar, firmemente, que “o pobre não pagará a conta” (da sua própria gastança), mas precisa dizer quem, como e quanto vai pagar. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, anuncia “corte de privilégios”.

Ouvimos isso a vida inteira, mas quem tem privilégios é quem tem poder de pressão sobre governos, Congresso e, como está cada vez mais claro,

Judiciário. Lula tem como resistir, com o PT insistindo nos seus erros, a oposição em maioria na Câmara e no Senado e o Supremo desmoronando?

Voltamos ao velho dilema, que se repete num País e numa região em que o problema original é a desigualdade, a injustiça social, que sacrifica a maioria das populações para beneficiar a minoria insaciável, os mais “fortes” e excrescências como o Banco Master aqui e o Ueno Bank no Paraguai.

A síntese da crise paraguaia é a inscrição na camiseta de Costanza Peña num post: “Tax The Poor” (Taxem os pobres). Uma barbaridade à altura de Eduardo Bolsonaro, que fica ainda pior escrita em inglês e pela filha do presidente, rica e descompromissada, que vive em Nova York e debocha dos compatriotas.

Portanto, a primeira providência para “acertar as contas” não é penalizar quem trabalha, estuda, compra, produz, vende e emprega, mas garantir as engrenagens para prevenir, detectar e punir crimes dessa envergadura, só possíveis com a conivência dos poderes e o enriquecimento ilícito de agentes públicos.

O desafio de Lula, porém, é muito maior: é garantir equilíbrio das contas. Até porque o desequilíbrio não é inimigo só das Bolsas e do câmbio, é sinônimo de “taxe os pobres”.

Um doce para quem acertar a mágica que Lula vai apresentar à Nação nesta noite de domingo para equilibrar as contas e revelar, afinal, quem paga a “herança maldita”. Mais corte ou mais imposto?

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

Eliane,leia Míriam Leitão.