domingo, 27 de setembro de 2026

O baita ser humano Zuenir Ventura, por Dorrit Harazim

O Globo

Deste Brasil que tão bem entendeu e amou, ele leva mais que admiração: leva gerações inteiras de amigos

Não há idade ou hora justa para a partida de um amigo — nem para quem parte, nem para quem deve continuar a tocar a vida. “A eternidade está no momento”, ensina Walt Whitman no monumental “Folhas de relva”. É na soma de momentos compartilhados que descobrimos nossas profundezas e limites, que nos temperamos ou transcendemos. E isso ocorre mais claramente no fluir da amizade, esse complexo entrelaçamento afetivo capaz de nos proporcionar uma ventura única.

Nem mesmo os gregos da Antiguidade, tão dedicados a definir e catalogar a amálgama de sentimentos humanos, conseguiram isolar e nomear a amizade. Ela escapuliu da sabedoria da época, e acabou incorporada sob o guarda-chuva da palavra philia, designação também para amor. Milênios depois, já temos a palavra, mas a dificuldade em defini-la continua quase inalterada — apesar de amizade ser um componente tão essencial a uma vivência plena. Nossa espécie se agrupa em coletivos maiores que nossa família biológica não apenas para aumentar as chances de sobrevivência. Também pelo impulso de explorar as fronteiras do afeto espontâneo. Só que o sentimento de amizade, além de essencial, também é fugidio, não contempla a todos. Tomem-se as infinitas mandingas para encontrar um grande amor, ou apenas um marido, e a pouca procura por amigo. Talvez por imaginarmos já tê-los em número suficiente para o dia a dia, dispensando as camadas mais profundas de um ombro amigo.

Dois anos antes de conhecer seu companheiro de vida Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, então com apenas 19 anos, se propôs a dissecar a natureza do amor em relação à amizade. À época, ela talvez já tivesse lido Rainer Maria Rilke, para quem o modelo idealizado de uma relação afetiva estava ancorado no “compromisso de duas pessoas tomarem conta da solidão do outro”. Na formulação da intelectual francesa, esse nó afetivo deveria ser construído com duas liberdades e a simples alegria de saber que o outro existe.

Um bonito inventário da convivência com sua primeiríssima “melhor amiga de infância”, Élisabeth Zaza Lacoin, dos 9 aos 20 anos, consta do primeiro volume de sua autobiografia, “Memórias de uma moça bem-comportada” (Nova Fronteira). Foi a rebelde menina Zaza quem bagunçou a convenção até então aceita pela comportada Simone, de que num coração humano bem ordenado a amizade ocupava posição honrosa, mas inferior ao esplendor misterioso do amor e à dignidade sagrada da devoção filial. Era, portanto, um sentimento secundário. A convivência com Zaza mudou a amiga.

— Convenções, rotinas e a categorização cuidadosa das emoções foram varridas, e fui tomada por uma enxurrada de sentimentos que não cabiam em código algum — escreveu ela.

Simone descobriu que uma amizade pode ser mais segura e resistente que um romance, livre dos “grandes ódios do amor, do orgulho irremediável, das rupturas apaixonadas, das torturas mútuas, sem introduzir ciúmes, exigências e dúvidas. (...) Eu não exigia que Zaza tivesse sentimentos tão definidos a meu respeito: para mim, bastava ser sua melhor amiga. A admiração que sentia por ela não me diminuía aos meus próprios olhos”. Zaza morreu aos 21 anos de doença indefinida e sua presença no viver de Beauvoir jamais se extinguiu.

Zuenir Ventura morreu aos 95 anos na terça-feira passada. Não cabe aqui elencar sua dimensão como jornalista, escritor, professor, acadêmico, cidadão brasileiro. Aqui só cabe a alegria de saber ter sido sua amiga. No passar de olhos pelo salão nobre da Academia Brasileira de Letras onde seu corpo foi velado, só se viam amigos do amigo Zuenir. Isso porque ele era um colecionador de amizades. Brasil afora, por onde passava, elas brotavam em seu encalço — genuínas, gratuitas, sem qualquer interesse material, apenas movidas pela alegria da descoberta de um baita ser humano.

Seu maior talento talvez tenha sido esse. Numa época em que qualquer like digital já é tido sofregamente como sinal de amizade, Zuenir morreu com uma fartura extraordinária de amigos verdadeiros, analógicos. Deste Brasil que tão bem entendeu e amou, ele leva mais que admiração: leva gerações inteiras de amigos. Zaza precisou de Simone para ser reconhecida e viveu pouco o prazer da amizade. Zuenir, felizmente, pôde ter vida longa para praticar seu arrastão afetivo. Quem ganhou fomos nós.

 

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