Folha de S. Paulo / Ilustríssima
Obra de Homero parece ter marcado
profundamente o músico, que levou Penélope e Ulisses para suas letras
Protagonismo de anti-herói odisseico redimido
é característica distintiva de parte das canções de Chico
Quando publicou o conto "Ulisses",
em 1966, Chico Buarque
transformou o herói grego num sujeito simplório, com dificuldades
profissionais, sonhador, meio tolo, desamparado, infantil, que volta para casa
de alguma viagem como caixeiro-viajante, inglório, contando desventuras nas
quais berra e bebe e briga — mas só na fantasia ou de mentira ou por
malandragem— com monstros que o derrotam.
Encontra sua esposa, Penélope, fria e distante, muda, fazendo infinitamente seu tricô (como a heroína clássica), sem lhe dar atenção —afinal, ele pensa, ela deve esperar outro Ulisses, um herói de verdade. Ele quer que ela o reconheça como rei, mesmo com seus defeitos, e o acolha, console e abrace; quer que ela o bote no colo, maternal e compreensiva, e enxergue suas grandezas.
Em muitas canções românticas, Chico Buarque
realiza esse desejo do Ulisses do seu conto. Nelas o personagem masculino é o
Ulisses comum; meio criança, meio homem feito; vadio, porém bom amante; cheio
de defeitos e derrotas, que muitas vezes sai, viaja ou some por um tempo, mas
que é amado e enaltecido, perdoado e acolhido pela mulher quando volta para
casa. E a personagem feminina é a Penélope compreensiva, que o espera paciente
e fiel e, amorosa, dá-lhe o leito, o peito, o prato, o regaço e o perdão, destacando
suas virtudes.
Pode-se até dizer que o protagonismo desse
anti-herói odisseico redimido é uma característica distintiva de parte das
canções de Chico. A obra de Homero parece tê-lo marcado de forma profunda. As
referências diretas ao livro clássico —e às vezes por meio da recuperação de
expressões e situações já usadas no conto ("ela e seu tricô", por
exemplo)— são muitas nas suas letras. E as indiretas também, sobretudo nas
imagens de navios, mares, navegantes, embarcações, faróis, portos e cais.
As menções mais manifestas, inaugurais,
daqueles personagens estão em "Ela e Sua
Janela" (1966) e "Sem Fantasia"
(1967). Elas definem, respectivamente, a Penélope sozinha na janela, paciente e
fiel (ainda que atenta a alguns acenos), no período da ausência do amado, e o
Ulisses aceito e aninhado, no momento da volta de seus infortúnios.
Na primeira, ela o espera: "Ela e seu
tricô/ Ela e sua janela, espiando/ Com tanta moça aí/ Na rua o seu amor/ Só
pode estar dançando/ Da sua janela/ Imagina ela/ Por onde hoje ele anda/ [...]
Ela e sua janela, esperando/ Com tão pouco dinheiro/ Será que o seu amor/ Ainda
está jogando/ [...] Ela e sua janela, querendo/ Com tanto velho amigo/ O seu
amor num bar/ Só pode estar bebendo".
Na segunda, ela o recebe: "Vem, meu
menino vadio/ [...], mas vem sem fantasia/ Que da noite pro dia/ Você não vai
crescer/ [...] Vem que eu te quero fraco/ Vem que eu te quero tolo/ Vem que eu
te quero todo meu". E ele então conta sua odisseia: "Ah, eu quero te
dizer/ Que o instante de te ver/ Custou tanto penar/ [...] Eu quero te contar/
Das chuvas que apanhei/ Das noites que varei/ No escuro a te buscar/ Eu quero
te mostrar/ As marcas que ganhei/ Nas lutas contra o rei/ Nas discussões com
Deus". E pede a recompensa, que Penélope, na sua fala, já disse que dará:
"E agora que cheguei/ [...] Eu quero a prenda imensa/ Dos carinhos
teus".
O papel de Penélope esperando é reiterado nas
canções "Carolina" (1967), "Januária"
(1967) e "Morena dos Olhos d'água" (1966). Nelas o foco está em
possíveis competidores de Ulisses, que tentam convencê-la a deixar de esperá-lo
à beira-mar. E também em "Nicanor"
(1969), que é um Ulisses que deixa muitas Penélopes "viúvas" enquanto
viaja pelos mares. São canções na voz masculina. Já em "Pedaço de Mim"
(1977) a espera se frustra, Ulisses segue ausente e a dor é traduzida pelo
barco que, quase na chegada, refuga e retoma o oceano.
O Ulisses malandro, moleque e molambo que
volta e é recebido de braços abertos reaparece, em roupagens variadas, em
"Com Açúcar,
com Afeto" (1966), "Sem Açúcar"
(1975), "Teresinha" (1977) e, considerado o contexto da peça,
"O Meu Amor"
(1978) —todas na voz feminina.
E também em três outras canções, mas em duas
situações que merecem destaque. A primeira situação é a referência ao
acolhimento maternal —de amante, em "Alumbramento"
(1979), e de mãe, em "O Meu Guri"
(1981). A segunda situação é a da reemergência do Ulisses do conto original, em
que o anti-herói pede àquela Penélope indiferente ou relutante que o escute,
receba e perdoe, apesar de seus defeitos, em "Fica"
(1965).
O fim dessa odisseia? Penélope ficou, recebeu
e perdoou Ulisses. Eles fizeram samba e amor até mais tarde e —"Logo que a
Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina"— tiveram muito sono de manhã.
*Economista pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) e doutor em ciência política pela USP. Autor de "Ladrilhadores e Semeadores" e "A Miséria da Economia e da Política"

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