Folha de S. Paulo
Campanhas não hesitam em abraçar fake news
que as favoreçam
Embate entre Mendonça e Dino amplia
descrédito do Judiciário
"Ele pode ser um f.d.p., mas é o nosso
f.d.p.", teria dito
Franklin Roosevelt sobre o ditador nicaraguense Anastasio Somoza.
Algo parecido vale para a desinformação eleitoral.
O bolsonarismo, que se esmerou em espalhar notícias falsas sobre o kit gay na campanha de 2018 e sobre o fechamento de igrejas por Lula em 2022, correu para o TSE para pedir a derrubada de postagens, turbinadas pelo lulismo, que falam de uma suposta intenção de Flávio Bolsonaro de cassar o estatuto de Nossa Senhora Aparecida de santa padroeira do Brasil.
Quem procurar consistência ideológica aí
quebrará a cara. Não é a primeira vez que bolsonaristas, que se descrevem como
defensores intransigentes da liberdade de expressão, vão à Justiça para pedir
que ela atue contra a livre expressão. Já haviam feito isso em 2022 para evitar
a associação de Jair a canibalismo e à pedofilia. Já do lado dos petistas,
embora insistam na necessidade de aprovar uma legislação rigorosa contra a
manipulação de notícias, não se sentiram intimidados em disseminar um falso
rumor que os favorece.
A hipocrisia é um universal humano. A refrega
seria só mais do mesmo se não tivesse pegado um Judiciário em avançado processo
de descrédito. O ministro André
Mendonça, atuando pelo TSE, atendeu aos bolsonaristas e suspendeu os
links. Mesmo que a decisão fosse tecnicamente irrepreensível,
Mendonça é visto como líder da bancada bolsonarista no STF, o que
torna seus despachos suspeitos aos olhos de metade do país. Foi o que bastou
para que Flávio Dino,
baluarte da ala lulista, interviesse e
sustasse a decisão de Mendonça, ampliando ainda mais a crise do
Judiciário, que agora ganha uma camada religiosa.
O suicídio
reputacional do STF já está precificado. O que me assusta nesse
episódio é constatar que a eleição presidencial poderá ser decidida por uma
questão que não vai além do simbólico. O Estado brasileiro é laico. O poder
público deveria ser neutro em matéria religiosa e ninguém deveria esperar que
ele tivesse posição sobre esses temas.
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