segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Antes que cheguem os americanos, por Miguel de Almeida

O Globo

Os números do Pisa exibem estagnação educacional, enquanto parte da população discute banheiro unissex

Saiu o resultado do Pisa 2025, e o Brasil continuou repetindo sua performance, digo, papelão. Desde a edição de 2015, nada mudou, com o país sem avançar na avaliação. Na matemática, seis países latino-americanos se saem melhor. Friamente: os números revelam estagnação. E não há desculpa, porque os exames envolvem alunos de escolas públicas e das caríssimas privadas.

O que aconteceu no Brasil nos dez anos entre as duas edições? Impeachment de Dilma, campanha do PT contra Temer, adventode Bolsonaro, sua derrota e a vitória de Lula em 2022. Houve ainda a pandemia de Covid-19. Antes, não esqueço Lula-1, 2, 3 e Dilma-1 e dois quintos de Dilma-2.

Olhando mais de perto a gestão (!) bolsonarista, verifica-se a presenças no cargo de ministro da Educação de Ricardo Vélez Rodríguez, Abraham Weintraub, Carlos Decotelli e Milton Ribeiro. Atrás de cada nome, um desastre. Indicado por Olavo de Carvalho, o colombiano Vélez achava que “o brasileiro viajando é um canibal” e defendeu revisão nos livros didáticos nomeando o Golpe de 1964 como “regime democrático de força”. O folclórico Weintraub confundiu o escritor tcheco Franz Kafka com o delicioso prato árabe de carne moída — era o famoso Franz “cafta”. Decotelli foi nomeado, mas não chegou a tomar posse; seu currículo revelou-se recheado de falsidades. E o pastor Milton Ribeiro deixou o cargo em meio às investigações de irregularidades (logo esquecidas) na liberação de verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação para colegas pastores.

No mesmo governo, a ex-deputada Carla Zambelli afirmou que daria em sua vida uma reviravolta de 360 graus. E Bolsonaro formulou a famosa “equação do mito”: 4% negativo + 3% positivo = 7% positivo. Há divergências...

Parece pouca coisa, mas a folha corrida educacional bolsonarista deixou no país outras manchas. Começou com a fake news sobre a “mamadeira de piroca” ou “kit gay”, com a distribuição para creches e escolas públicas de mamadeiras com bico em formato de pênis. Algo falso, o programa nunca existiu. Quando trouxeram ao palco a suspeita pauta de costumes, os bolsonaristas jogaram areia no currículo escolar. Conservadores, influenciadores e evangélicos se mobilizaram contra a ideia de banheiros unissex nas escolas. A população LGBTQIA+ defendia a medida como combate à discriminação a estudantes transgêneros. Tanto celeuma terminou no Supremo — como sempre, nada foi resolvido, e assim a bagunça continua.

O Pisa mostrou que o Brasil não anda só em sua estagnação educacional. Países desenvolvidos sofreram queda nas médias gerais. Alguns dos culpados apontados são a Covid-19 e as redes sociais. Podem ser ambos. O ensino on-line não mostrou eficiência, e o volume de horas gastas nas telas, também dentro de salas de aula, ajuda a formar um batalhão de analfabetos funcionais.

Olhando para os Estados Unidos, desde a posse de Donald Trump, explodem exemplos de pais lutando contra a adoção de títulos nas escolas. Vários estados proibiram livros ou chegaram a queimá-los para demonstrar azedume. Em épocas anteriores, já vimos atos semelhantes.

Por aqui, pais se mostraram contrários a algumas adoções feitas pelos programas estatais de leitura. A crítica, quando conseguem formulá-la, é se tratar de conteúdo impróprio, ideologia de gênero ou pauta identitária. O bolsonarismo tem uma obsessão sinistra com as dinâmicas de aprendizado criadas pelo educador Paulo Freire. O governo petista age nas sombras: editores reclamam de livros recusados por avaliadores do MEC devido a palavrões. E da implicância com obras que contrariem os ditames identitários. Pobre Lobato.

Os números do Pisa exibem estagnação educacional, enquanto parte da população discute banheiro unissex. Antes que os americanos cheguem, seria melhor substituir a pauta de costumes pela melhoria no ensino.

As obsessões conservadoras dos pais colaboram com o embotamento mental. “Capitães da areia”, do baiano Jorge Amado, sofreu veto pela temática sobre a vulnerabilidade social de menores (não ria). Premiado com o Jabuti, “O avesso da pele”, de Jeferson Tenório, padeceu sob protestos no Paraná e em Goiás, acusado de trazer trechos de teor sexual. Quando estudante, sob a ditadura, líamos “O cortiço”, de Aluísio Azevedo, publicado em 1890. Gente, há ali a sedução de uma menor de idade por uma prostituta mais velha. Lemos também “O ateneu”, de Raul Pompeia, de 1888, com sua temática de homoafetividade.

Em resumo: ficamos mais jecas. Me parece a receita indicada para passarmos mais 300 anos só exportando commodities.

 

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