O Globo
Fumar um charuto fornecido por Vorcaro é
quase nada diante do contrato de R$ 130 milhões do banqueiro com o escritório
da mulher do ministro
Mesmo que seja o caso de investigar todos os
magistrados cujos nomes aparecem no celular de Daniel
Vorcaro, é preciso começar com alguém. E, se adotado o critério de
ir dos indícios mais graves para os menos relevantes, o primeiro da fila é
certamente o ministro Alexandre de
Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A sugestão do ministro Flávio Dino — investigar todos de uma só vez — é para não fazer nada. O Supremo cairia em tumulto processual, dada a quantidade de magistrados citados, nas mais diferentes situações. Fumar um charuto fornecido pelo ex-banqueiro é quase nada diante do contrato de R$ 130 milhões assinado por Vorcaro com o escritório Barci de Moraes, da mulher do ministro.
O presidente Lula
também levantou essa, digamos, proposta. Disse que era preciso julgar “todo
mundo no mesmo dia”. Sendo isso praticamente impossível, qual o propósito aqui?
Simples: diluir o caso Moraes, apresentá-lo como mais um entre tantos.
É também uma ameaça que fazem os partidários
de Moraes. Algo assim: querem investigar um do nosso lado? Pois vamos atrás dos
seus. Um com medo do outro, ninguém faz nada. É a preparação da grande pizza,
como perceberam os advogados de Vorcaro. Já entraram com pedido para revogar a
prisão preventiva do ex-banqueiro e colocá-lo em domiciliar, nalguma de suas
mansões.
É o ponto em que estamos. Paralisia. Ou
vazamento contra vazamento, todos de algum modo procurando o empate que dá em
nada. Entretanto, um mínimo de bom senso e mais uma dose de respeito pelo
público poderiam levar ao saneamento das elites do poder. Falemos francamente.
Um ministro do Supremo pode participar de uma degustação de charutos e uísque
promovida e paga por um banqueiro em Londres? O procurador-geral da República
pode pedir que seu filho seja incluído nessa boca-livre? Autoridades políticas
podem pegar carona no jatinho de bilionários sempre com algum interesse em
negócios do governo? O filho ou cônjuge de uma autoridade pode advogar para
clientes com interesses nos tribunais e nos balcões do governo?
Não é preciso código de ética para dizer que
se trata de comportamentos escandalosamente impróprios. Imagine, caro leitor,
que você ocupa um cargo importante em Brasília, de modo que sua caneta manda
pagar e receber, prender e soltar. Aí vem um banqueiro e o convida para uma
festança em Trancoso, tudo pago. Ou lhe oferece um jatinho para você usar
quando quiser. Não pode, não é mesmo? Está na cara que se trata de corrupção
direta ou corrupção preventiva. O corruptor pode nem ter qualquer negócio no
momento, mas se prepara para abrir largos canais na estrutura de poder. Para
quando precisar.
Pessoal das elites costuma dizer que só age
dentro da lei. De fato, não tem lei dizendo que a autoridade não pode fumar
charuto com um banqueiro. Eis o que se pode chamar de cinismo institucional.
Pode até ser difícil construir uma definição jurídica de corrupção. Mas nem
precisa. Você reconhece quando vê. O contrato pode ser legal e, ao mesmo tempo,
claramente impróprio, para dizer o mínimo.
Enquanto isso, estamos a poucos dias de uma
eleição nacional. E até agora não foram apresentadas ao eleitor propostas
consistentes para um país que não vai bem. Sim, o desemprego é baixo, mas os
salários são insuficientes para uma população que foi estimulada a contrair
dívida cara. Os seguidos programas Desenrola mostram que as pessoas solucionam
um passivo para cair em outro. Sim, o país cresce, mas o crescimento é baixo
por causa da baixíssima produtividade que limita o crescimento sustentado.
O governo federal gera sucessivos déficits,
toma mais impostos da população e, ainda assim, não consegue fechar a conta. Aí
toma dinheiro emprestado e, como as famílias e empresas, cai na espiral da
dívida. O maior problema da economia brasileira hoje é este: o gasto excessivo
de todo o setor público, que faz aumentar a dívida. Mas mal aparece nas
campanhas. De outro lado, pesquisas mostram que a falta de propostas e os casos
de corrupção pouco afetam o desempenho dos candidatos.
Ficamos assim: a elite não se investiga, a
campanha não debate, e o eleitor não pune.

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