segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Não é só um charuto, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Fumar um charuto fornecido por Vorcaro é quase nada diante do contrato de R$ 130 milhões do banqueiro com o escritório da mulher do ministro

Mesmo que seja o caso de investigar todos os magistrados cujos nomes aparecem no celular de Daniel Vorcaro, é preciso começar com alguém. E, se adotado o critério de ir dos indícios mais graves para os menos relevantes, o primeiro da fila é certamente o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

A sugestão do ministro Flávio Dino — investigar todos de uma só vez — é para não fazer nada. O Supremo cairia em tumulto processual, dada a quantidade de magistrados citados, nas mais diferentes situações. Fumar um charuto fornecido pelo ex-banqueiro é quase nada diante do contrato de R$ 130 milhões assinado por Vorcaro com o escritório Barci de Moraes, da mulher do ministro.

O presidente Lula também levantou essa, digamos, proposta. Disse que era preciso julgar “todo mundo no mesmo dia”. Sendo isso praticamente impossível, qual o propósito aqui? Simples: diluir o caso Moraes, apresentá-lo como mais um entre tantos.

É também uma ameaça que fazem os partidários de Moraes. Algo assim: querem investigar um do nosso lado? Pois vamos atrás dos seus. Um com medo do outro, ninguém faz nada. É a preparação da grande pizza, como perceberam os advogados de Vorcaro. Já entraram com pedido para revogar a prisão preventiva do ex-banqueiro e colocá-lo em domiciliar, nalguma de suas mansões.

É o ponto em que estamos. Paralisia. Ou vazamento contra vazamento, todos de algum modo procurando o empate que dá em nada. Entretanto, um mínimo de bom senso e mais uma dose de respeito pelo público poderiam levar ao saneamento das elites do poder. Falemos francamente. Um ministro do Supremo pode participar de uma degustação de charutos e uísque promovida e paga por um banqueiro em Londres? O procurador-geral da República pode pedir que seu filho seja incluído nessa boca-livre? Autoridades políticas podem pegar carona no jatinho de bilionários sempre com algum interesse em negócios do governo? O filho ou cônjuge de uma autoridade pode advogar para clientes com interesses nos tribunais e nos balcões do governo?

Não é preciso código de ética para dizer que se trata de comportamentos escandalosamente impróprios. Imagine, caro leitor, que você ocupa um cargo importante em Brasília, de modo que sua caneta manda pagar e receber, prender e soltar. Aí vem um banqueiro e o convida para uma festança em Trancoso, tudo pago. Ou lhe oferece um jatinho para você usar quando quiser. Não pode, não é mesmo? Está na cara que se trata de corrupção direta ou corrupção preventiva. O corruptor pode nem ter qualquer negócio no momento, mas se prepara para abrir largos canais na estrutura de poder. Para quando precisar.

Pessoal das elites costuma dizer que só age dentro da lei. De fato, não tem lei dizendo que a autoridade não pode fumar charuto com um banqueiro. Eis o que se pode chamar de cinismo institucional. Pode até ser difícil construir uma definição jurídica de corrupção. Mas nem precisa. Você reconhece quando vê. O contrato pode ser legal e, ao mesmo tempo, claramente impróprio, para dizer o mínimo.

Enquanto isso, estamos a poucos dias de uma eleição nacional. E até agora não foram apresentadas ao eleitor propostas consistentes para um país que não vai bem. Sim, o desemprego é baixo, mas os salários são insuficientes para uma população que foi estimulada a contrair dívida cara. Os seguidos programas Desenrola mostram que as pessoas solucionam um passivo para cair em outro. Sim, o país cresce, mas o crescimento é baixo por causa da baixíssima produtividade que limita o crescimento sustentado.

O governo federal gera sucessivos déficits, toma mais impostos da população e, ainda assim, não consegue fechar a conta. Aí toma dinheiro emprestado e, como as famílias e empresas, cai na espiral da dívida. O maior problema da economia brasileira hoje é este: o gasto excessivo de todo o setor público, que faz aumentar a dívida. Mas mal aparece nas campanhas. De outro lado, pesquisas mostram que a falta de propostas e os casos de corrupção pouco afetam o desempenho dos candidatos.

Ficamos assim: a elite não se investiga, a campanha não debate, e o eleitor não pune.

 

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