segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Lula articula neutralidade do Centrão em eventual 2º turno, por Sofia Aguiar e Lucas Borges Teixeira

Valor Econômico

Petistas avaliam que PSD, União Brasil e Republicanos devem liberar diretórios

De olho em um eventual segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) articula para manter a neutralidade dos principais partidos do Centrão na disputa pelo Palácio do Planalto. Nas últimas semanas, coordenadores petistas vêm conversando com diferentes legendas e trabalham com a avaliação de que PSD, União Brasil e Republicanos não devem declarar apoio nacional ao candidato do PL, deixando diretórios e filiados livres para se posicionar de acordo com as alianças locais.

Republicanos e União já anunciaram neutralidade no primeiro turno. Para o PT, evitar uma adesão formal dessas siglas a Flávio representaria uma vantagem política, porque ajudaria a preservar a disputa aberta pelos votos dos eleitores que escolherem outros candidatos no primeiro turno.

O objetivo, assim, é repetir o cenário da primeira fase do pleito, em que Lula é o único candidato de esquerda entre os principais postulantes e conta com o apoio de diversas legendas. O petista disputa a reeleição por uma coligação formada por PT, PCdoB, PV, Federação Psol-Rede, PDT e PSB, enquanto Flávio concorre apenas pelo PL.

A neutralidade das legendas do Centrão é vista como ponto crucial na campanha de Lula, porque há avaliação de que o presidente já conseguiu os apoios dos partidos mais à esquerda no primeiro turno, e os demais candidatos que concorrem ao Palácio do Planalto dificilmente anunciarão apoio a ele no segundo turno. Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), por exemplo, se colocam como líderes antissistema e fortes críticos do PT.

Nesse cenário, a campanha petista passou a tratar a neutralidade como uma alternativa mais realista do que uma declaração formal de apoio. Líderes do partido vêm conversando com presidentes e dirigentes das legendas na tentativa de construir um entendimento sobre isso. O presidente do PT, Edinho Silva, tem participado de parte dessas articulações e construído diálogo.

As conversas indicam, segundo interlocutores petistas, que PSD, União Brasil e Republicanos tendem a manter uma posição de neutralidade. O PP, comandado pelo senador Ciro Nogueira (PI), aparece como a principal incógnita. Entre os petistas, ainda não há segurança sobre qual será a posição nacional da legenda em um eventual segundo turno. Ao Valor, Nogueira disse que pretende reunir a federação no dia 6, dois dias após o primeiro turno, para definir a posição nacional. Já Marcos Pereira, presidente do Republicanos, disse que avaliará o posicionamento no segundo turno

Por parte dos partidos, a opção pela neutralidade também é vista como positiva. Pesquisas de opinião apontam um cenário acirrado entre Lula e Flávio e, dessa forma, a estratégia evita um compromisso antecipado com qualquer um dos nomes neste momento.

Auxiliares do presidente têm tido conversas especialmente com o PSD, de Kassab

Nos bastidores, a articulação ultrapassa a eleição presidencial e envolve também a formação de um eventual novo governo. Quando assumiu o terceiro mandato, em janeiro de 2023, Lula distribuiu os então 37 ministérios entre nove partidos políticos. O PT foi a legenda com maior presença na Esplanada, seguido por PSD, MDB e União Brasil.

Fontes afirmam que auxiliares de Lula têm tido conversas especialmente com o PSD, presidido por Gilberto Kassab, que concorre no primeiro turno ao Planalto com Caiado. Segundo interlocutores, integrantes da legenda têm dado sinalizações de que querem aumentar seu espaço no Executivo. Antes da reformulação da liderança das pastas para as eleições deste ano, o partido tinha três ministérios. Ainda assim, oficialmente, o PSD informa que as nomeações de filiados do partido a cargos no Executivo são pessoais e não colocam automaticamente a legenda na base aliada.

Nesse tabuleiro, também aparece o Congresso. Em fevereiro de 2027, a Câmara dos Deputados e o Senado farão eleições para as presidências das duas Casas. O deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) e o senador Davi Alcolumbre (União-AP) devem buscar a recondução, e a aliança com o próximo presidente é considerada importante.

O fato de Republicanos e União Brasil terem optado pela neutralidade no primeiro turno também abre espaço para essas articulações. Segundo integrantes do governo, manter os dois partidos fora de um eventual alinhamento formal com Flávio no pleito pode facilitar a construção de uma base no Parlamento no próximo ano com integrantes desses partidos. Um fator complicador é o fato de o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ser filiado ao Republicanos e já ser visto como um possível candidato a presidente em 2030.

Em agosto, inclusive, Motta declarou apoio à reeleição de Lula e disse acreditar que será “o melhor para o país”. Já na última semana, o parlamentar ampliou sua participação em prol do petista e vestiu um boné vermelho com o nome de Lula e do PT durante uma carreata no interior da Paraíba.

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