Valor Econômico
Petistas avaliam que PSD, União Brasil e Republicanos devem liberar diretórios
De olho em um eventual segundo turno contra o
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) articula para manter a neutralidade dos principais partidos do
Centrão na disputa pelo Palácio do Planalto. Nas últimas semanas, coordenadores
petistas vêm conversando com diferentes legendas e trabalham com a avaliação de
que PSD, União Brasil e Republicanos não devem declarar apoio nacional ao
candidato do PL, deixando diretórios e filiados livres para se posicionar de
acordo com as alianças locais.
Republicanos e União já anunciaram neutralidade no primeiro turno. Para o PT, evitar uma adesão formal dessas siglas a Flávio representaria uma vantagem política, porque ajudaria a preservar a disputa aberta pelos votos dos eleitores que escolherem outros candidatos no primeiro turno.
O objetivo, assim, é repetir o cenário da
primeira fase do pleito, em que Lula é o único candidato de esquerda entre os
principais postulantes e conta com o apoio de diversas legendas. O petista
disputa a reeleição por uma coligação formada por PT, PCdoB, PV, Federação
Psol-Rede, PDT e PSB, enquanto Flávio concorre apenas pelo PL.
A neutralidade das legendas do Centrão é
vista como ponto crucial na campanha de Lula, porque há avaliação de que o
presidente já conseguiu os apoios dos partidos mais à esquerda no primeiro
turno, e os demais candidatos que concorrem ao Palácio do Planalto dificilmente
anunciarão apoio a ele no segundo turno. Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema
(Novo) e Renan Santos (Missão), por exemplo, se colocam como líderes
antissistema e fortes críticos do PT.
Nesse cenário, a campanha petista passou a
tratar a neutralidade como uma alternativa mais realista do que uma declaração
formal de apoio. Líderes do partido vêm conversando com presidentes e
dirigentes das legendas na tentativa de construir um entendimento sobre isso. O
presidente do PT, Edinho Silva, tem participado de parte dessas articulações e
construído diálogo.
As conversas indicam, segundo interlocutores
petistas, que PSD, União Brasil e Republicanos tendem a manter uma posição de
neutralidade. O PP, comandado pelo senador Ciro Nogueira (PI), aparece como a
principal incógnita. Entre os petistas, ainda não há segurança sobre qual será
a posição nacional da legenda em um eventual segundo turno. Ao Valor, Nogueira disse que
pretende reunir a federação no dia 6, dois dias após o primeiro turno, para
definir a posição nacional. Já Marcos Pereira, presidente do Republicanos,
disse que avaliará o posicionamento no segundo turno
Por parte dos partidos, a opção pela
neutralidade também é vista como positiva. Pesquisas de opinião apontam um
cenário acirrado entre Lula e Flávio e, dessa forma, a estratégia evita um
compromisso antecipado com qualquer um dos nomes neste momento.
Auxiliares do presidente têm tido conversas
especialmente com o PSD, de Kassab
Nos bastidores, a articulação ultrapassa a
eleição presidencial e envolve também a formação de um eventual novo governo.
Quando assumiu o terceiro mandato, em janeiro de 2023, Lula distribuiu os então
37 ministérios entre nove partidos políticos. O PT foi a legenda com maior
presença na Esplanada, seguido por PSD, MDB e União Brasil.
Fontes afirmam que auxiliares de Lula têm
tido conversas especialmente com o PSD, presidido por Gilberto Kassab, que
concorre no primeiro turno ao Planalto com Caiado. Segundo interlocutores,
integrantes da legenda têm dado sinalizações de que querem aumentar seu espaço
no Executivo. Antes da reformulação da liderança das pastas para as eleições
deste ano, o partido tinha três ministérios. Ainda assim, oficialmente, o PSD
informa que as nomeações de filiados do partido a cargos no Executivo são
pessoais e não colocam automaticamente a legenda na base aliada.
Nesse tabuleiro, também aparece o Congresso.
Em fevereiro de 2027, a Câmara dos Deputados e o Senado farão eleições para as
presidências das duas Casas. O deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) e o
senador Davi Alcolumbre (União-AP) devem buscar a recondução, e a aliança com o
próximo presidente é considerada importante.
O fato de Republicanos e União Brasil terem
optado pela neutralidade no primeiro turno também abre espaço para essas
articulações. Segundo integrantes do governo, manter os dois partidos fora de
um eventual alinhamento formal com Flávio no pleito pode facilitar a construção
de uma base no Parlamento no próximo ano com integrantes desses partidos. Um
fator complicador é o fato de o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas,
ser filiado ao Republicanos e já ser visto como um possível candidato a
presidente em 2030.
Em agosto, inclusive, Motta declarou apoio à
reeleição de Lula e disse acreditar que será “o melhor para o país”. Já na
última semana, o parlamentar ampliou sua participação em prol do petista e
vestiu um boné vermelho com o nome de Lula e do PT durante uma carreata no
interior da Paraíba.

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