É prudente não confundir determinismo histórico com fatalismo: as condições
históricas revelam a crise, mas não a resolvem. Não basta que a sociedade
produza desigualdade, que o Estado seja instrumento de opressão dos interesses
das classes subalternizadas pelo capital; essas são condições necessárias, mas
não suficientes para a luta de classes. Gramsci nos dirá que a crise não
consiste simplesmente no fato de que o velho perdeu força. Consiste também em
que o novo não adquiriu capacidade suficiente para substituí-lo. As
contradições do capitalismo, tão bem identificadas por Marx, se convertem em
crise de direção, mas essa crise não conduz necessariamente a uma alternativa
emancipatória.
O salto qualitativo entre a passividade e a consciência política, ponte para a
luta de classe, não resulta, automaticamente, naturalmente,
deterministicamente, da existência proletária: é fruto do processo social. O
avanço político se realiza quando as classes subalternas – avançando sobre as
reivindicações econômicas, que no entanto desempenham essencial papel
pedagógico --- entendem que seus interesses, aparentemente particulares, devem
se tornar interesses de outros grupos subalternizados. É quando, retomamos
Gramsci, o proletariado se vê capaz de elaborar um projeto político para toda a
sociedade e disputar a hegemonia; é quando os sindicatos se legitimam e se
politizam.
A crise política brasileira de nossos dias contagia a institucionalidade e se
debruça sobre o Poder Judiciário, no qual a cidadania não sabe se com ele pode
contar para a defesa de seus direitos. Mas nada é mais contundente do que os
números do pleito de 4 de outubro passado, de que resultou a formação de um
Congresso majoritariamente de direita, apto a romper com o pacto social que nos
deu a Constituição liberal de 1988 e, assim, jogar por terra as conquistas
sociais amealhadas pela sociedade ao longo de sua história republicana.
Ademais, e mais facilmente do que em 2016, poderá decretar o impeachment do
futuro Presidente. Lula, reeleito, corre o risco de governar sob esta
verdadeira espada de Dámocles.
Se a direita abocanhar a Presidência da República, terá sob suas rédeas,
os três poderes da República, o que nem mesmo a ditadura militar, de que
o bolsonarismo é herdeiro, logrou alcançar. Porque, além do Executivo e do
Congresso, controlará o Poder Judiciário, de fio a pavio: o próximo Presidente
indicará, em seu mandato, pelo menos quatro novos ministros para o STF. Poderão
ser mais quatro ministros “terrivelmente evangélicos” que se juntarão aos seus
dois péssimos espécimes que já lá estão. A soma mostra seis ministros em um
colegiado de onze!
O novo Congresso é fruto da crise de representação, que põe em risco a
República. Ela resulta da percepção da classe dominante de que o projeto de
centro-esquerda, representado pelos governos liderados pelo PT, cobra
concessões que ela não está disposta a fazer. Justiça seja feita à Faria Lima:
desde 2013 ela dá mostras de insatisfação, sinais que nos recusámos a
identificar, mesmo depois do golpe parlamentar que depôs a presidente Dilma
Rousseff, e ainda mesmo depois das eleições de 2018!
Mesmo após a dificílima eleição de Lula em 2022, nos revelámos incapazes de
construir “uma nova maioria”, como reclama Marcio Pochmann, e assim se explicam
nossas dificuldades de enfrentar o avanço da onda reacionária.
Este foi o preço cobrado pelo “pacto de conciliação”, inarredavelmente
conservador.
De um lado, perfila-se a classe dominante para impor sua vontade, primeiro pelo
voto. Conquistado o pódio, avançará sobre a ordem democrática e os direitos
sociais e fará deste país uma extensão do poder imperial de Washington.
As classes subalternas brasileiras ainda não se encontram em condições de
construir uma alternativa de hegemonia. A resistência à ditadura, a luta pelas Diretas
Já, as greves do ABC, a reconstitucionalização liberal, configuram momentos de
festejada politização, que, no entanto, vive o risco de ser posta a pique
pela avalanche da direita.
Mas há algo de novo a registrar, e muito precioso: o verdadeiro levante popular
que, nos últimos 15 ou 20 dias, tomou as ruas de todo o país, em defesa da
democracia, neste transe reorientada pela necessidade histórica de reeleger o
presidente Lula, o dique que a sociedade pode construir para conter a ameaça
neofascista.
Este levante é, por si só, o fato mais notável desta quadra, e o que mais
ressalta é o caráter inusitado de sua espontaneidade. Desapartada dos partidos,
ou independentemente deles, a juventude veio às ruas numa mobilização que,
entre nós, superou os idos de 1968, empolgou o país, animou o que talvez
possamos chamar de “alma nacional” e possivelmente definirá o pleito.
A emergência dos jovens na política, pondo por terra a apatia em que parecia
adormecida a sociedade, traz de volta a esperança, pois revela um alto nível de
politização que perdurará para além do pleito, indicando a construção de uma
nova sociedade, disposta a construir sua história.
Não estamos mais, passivos, condenados a assistir à emergência dos monstros.
***
Os Trumps parecem uma família boazinha do
subúrbio perto do clã Bolsonaro — Sob esse título (Gegen den Bolsonaro-Clan
wirken die Trumps wie eine brave Vorstadtfamilie!), a revista alemã Sternpublicou,
em 27/09/2026, extensa reportagem sobre o clã Bolsonaro e o processo eleitoral
brasileiro. O professor Pedricto Rocha preparou um resumo da matéria, também
repercutida por Luiz Carlos Azenha. Com sarcasmo, a revista considera
“especialmente grotesca” a pretensão de Flávio Bolsonaro, herdeiro político do
clã, de apresentar-se como “inimigo do sistema”, quando sua trajetória sempre
esteve vinculada à política familiar. A reportagem aborda a tentativa de golpe
de Estado de 8 de janeiro de 2023, as relações com milícias armadas e o esquema
das “rachadinhas”, além do enriquecimento da família, que teria transformado a
política em negócio lucrativo, acumulando patrimônio por meio de salários
públicos, verbas de gabinete e transações suspeitas, incluindo a aquisição de
51 imóveis com dinheiro vivo. Para a Stern, a eventual volta do clã ao poder
representaria um constrangimento internacional para o Brasil. A revista retrata
Flávio Bolsonaro como figura politicamente incapaz, sem ideias próprias ou
projeto a oferecer ao país.
*Com a colaboração de Pedro Amaral

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