segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Duelo de rejeições deixa de lado propostas para o país, por Fernando Exman

Valor Econômico

Debate rendeu farto material negativo sobre ambos os candidatos, a ser explorado nas redes sociais

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) transformaram o debate realizado pela Band na noite deste domingo (18) em um duelo de rejeições. É de se lamentar, diante das urgências de um país com tantos desafios. Mas alguns dados podem ajudar a explicar a estratégia.

Segundo a mais recente pesquisa Quaest, Flávio Bolsonaro tem 54% de rejeição, um ponto percentual maior em relação ao petista, com 53%. Na intenção de votos, os dois estão tecnicamente empatados, com o senador numericamente à frente (46% a 44%). Votos em branco, nulos e eleitores que afirmaram não votar em nenhum dos dois somaram 9%, enquanto 1% não soube ou não respondeu. Entre os assuntos que mais preocupam o eleitor, de acordo com o instituto, são citados violência, corrupção, economia, saúde, problemas sociais e educação.

Já de acordo com a sondagem divulgada pelo Datafolha no dia 15 de outubro, 46% dos eleitores afirmam não votar em Lula de forma alguma, contra 44% que declaram o mesmo em relação a Flávio. “Mudança” e “alternância de poder” são os principais motivos declarados por eleitores que pretendem votar em no segundo turno, enquanto entre os eleitores do presidente Lula pesam mais a “proteção social” e a avaliação do “desempenho” e do “legado” do petista.

Flávio começou o debate mais tranquilo do que Lula, ditando ritmo e pauta. Depois, assumiu o risco de passar a imagem de arrogante. Mas, confirmando uma preocupação de aliados de Lula, acabou desestabilizando o presidente: o petista vinha demonstrando receio com o nível do debate, sobretudo diante da necessidade de um presidente da República evitar a baixaria.

Pois foi o que ocorreu logo depois das primeiras questões feitas pelos mediadores.

Perguntado sobre segurança pública, Flávio reiterou que classificaria facções criminosas e milícias como “grupos narcoterroristas”, mas não ofereceu detalhes ao eleitor. Na sequência, criticou o que chamou de políticas de desencarceramento e “saidinhas” supostamente defendidas pelo adversário, o que voltou a citar mais tarde. É um tema sensível para grande parte do eleitorado.

O presidente rebateu cobrando apoio para a aprovação da proposta de emenda constitucional (PEC) da segurança, o que daria poderes para a União intervir nos Estados. E ao falar da saúde, também numa escolha de executar uma “campanha do medo”, sugeriu que o opositor poderia privatizar o Sistema Único de Saúde (SUS).

E dali em diante a qualidade do debate degringolou, dando início a uma batalha de rejeições. Flávio desviou da provocação feita por Lula sobre o motivo de ter votado contra o aumento da licença maternidade quando era deputado estadual, perguntando se o presidente conhecia Roberta Luchsinger, lobista e amiga de um de seus filhos, investigada pela Polícia Federal (PF) no âmbito do escândalo que atingiu o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A questão deu então início a uma disputa sobre a origem das fraudes no INSS e, também, do Banco Master. Lula partiu para o contra-ataque e insistiu diversas vezes na pergunta sobre o áudio que Flávio mandou para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, cobrando recursos para supostamente financiar a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Acabou chamando em certo momento Flávio de “malandro carioca”, dando a oportunidade para seu adversário fazer campanha negativa contra si junto ao eleitorado do Rio.

Lula buscou explorar a pouca experiência do senador e a reprovação da população à gestão da saúde feita pelo governo Jair Bolsonaro durante a pandemia de covid-19, o que levou Flávio a reconhecer que seu pai poderia ter apresentado um melhor desempenho nessa área. Já o “mea culpa” de Lula se deu em relação à economia, diante da insatisfação da população com o custo de vida. Para tentar neutralizar os ataques sobre corrupção, desafiou Flávio a abrir os sigilos bancário e telefônico até o dia do pleito, o que o candidato do PL evitou se comprometer.

O debate rendeu farto material negativo sobre ambos os candidatos, a ser explorado nas redes sociais pelas campanhas e o que certamente irá alimentar a guerra jurídica que também marca estas eleições. Mas frustrou quem imaginou que poderia ver uma discussão mais aprofundada sobre o futuro do país e os respectivos planos de governo. Lula e Flávio podem acabar ajudando a elevar a abstenção no domingo (25), diante da crescente desesperança e da insatisfação do eleitor com a política, em vez de terem conseguido atrair o voto dos indecisos.

Um comentário:

Anônimo disse...

É bem isto!