Folha de S. Paulo
Tarso Genro, José Genoino e Olívio Dutra
admitem que vitória só veio por eleitores que consideraram Flávio Bolsonaro
ameaça à democracia
Para eles, além dialogar com forças
democráticas de direita, presidente precisa reforçar participação popular nas
decisões
Na avaliação de três ex-presidentes do PT, a vitória
do presidente Lula
no segundo turno da eleição deste ano foi muito maior do que a do partido e
mesmo a de seus aliados na eleição. O petista teve apoio da Rede, PSOL, PSB, PV
e PDT e grupos locais de partidos como o PSD e o MDB.
Por isso, apontam a necessidade de que o PT amplie o diálogo, principalmente com os eleitores que lotaram as ruas durante o mês de outubro. Outros líderes de esquerda que participaram das manifestações destacaram, em discursos, a necessidade de manter uma mobilização popular mesmo após a vitória, inclusive como resposta à força da direita e da extrema direita em governos estaduais, na Câmara dos Deputados, no Senado e nas Assembleias Legislativas.
Para os antigos dirigentes partidários, a
situação exige dos petistas novas respostas para se comunicar com um eleitorado
que decidiu votar em Lula não por apoiá-lo, mas por temer uma ascensão de uma
extrema direita de tendência autocrática, que estaria representada pelo senador
Flávio
Bolsonaro (PL), que conseguiu a maioria dos votos no primeiro turno.
Ministro da Educação, das Relações
Institucionais e da Justiça nos dois primeiros governos Lula e ex-governador do
Rio Grande do Sul, Tarso Genro atribui a vitória do presidente à participação
de grupos que estavam à margem da opinião pública, como os idosos e os
movimentos estudantis, que deram um impulso final para a virada após a derrota
no primeiro turno. Ele acredita que esses grupos não são obrigatoriamente de
esquerda, mas sentiram a necessidade de abraçar Lula contra uma ameaça real.
Genro destaca que o resultado obriga o
partido a repensar a comunicação para além de órgãos oficiais e a buscar uma
comunicação horizontal. "O deputado André Janones jamais conseguiria gerir
o 'Exército do Lula' de dentro da campanha eleitoral ou do PT", afirma.
Ele acredita que a comunicação atual precisa ser feita de maneira menos
hierárquica, sem um controle do partido.
No Congresso Nacional, ele afirma que o
desafio será isolar a extrema direita, de tendência antidemocrática, e
estabelecer um diálogo com a direita democrática. "Será necessário fazer
uma grande frente democrática, com um governo moderado, como sempre foram as
gestões do Lula."
Para o futuro do PT, ele acredita que será
importante conseguir atender as demandas dos novos grupos que ganham peso na
economia, como quem está nas novas formas de trabalho autônomo. "A mudança
já está em curso, só não está orientada", diz.
Para ele, a mudança passa por estudantes,
mulheres e grupos tradicionalmente segregados. E que o partido tende a ter,
após o término do governo Lula, líderes mais variados e menos regionalizados.
"A discussão não é se a nova forma é mais de esquerda ou de direita, é se
atende às novas demandas da sociedade", diz.
Ele aponta como caminhos a possibilidade de
permitir maior acesso de todos os cidadãos aos atos do governo e a expansão das
ferramentas de participação popular. Aos 79, Genro considera que a geração à
qual pertence já cumpriu sua tarefa.
Deputado federal por sete mandatos e
ex-presidente do PT, José Genoino acredita que o quarto governo de Lula deve
atuar em duas frentes: no isolamento da extrema direita e no contato direto com
a população. "Precisamos manter uma comunicação direta com a sociedade,
que foi protagonista na vitória no segundo turno", afirma.
Para ele, o governo precisa ir além da
questão administrativa e apresentar metas para o debate com a população.
"O presidente precisa viajar pelo Brasil, dar entrevistas, participar de
plenárias e ter uma interlocução direta", acredita. Genoino cita como
exemplo a presidente do México, Claudia Sheinbaum.
O ex-dirigente petista, preso durante o
mensalão, defende o diálogo horizontal. "Eu virei um militante de base,
das ruas. Estou disputando ideias e não cargos ou posição política",
afirma.
Aos 80 anos, ele diz que o partido precisa se
oxigenar para novas ideias e novos dirigentes. "Não adianta fazer novos
congressos com os mesmos delegados, precisamos dar espaço para a nova
militância. Quero ser um assessor sem salário dos novos movimentos", diz.
Também ex-governador do Rio Grande do Sul e
ex-presidente do PT, Olívio Dutra diz que a ameaça de enfraquecimento da
democracia e de fragilização da soberania nacional foi fundamental para a
vitória de Lula. "Ele não é perfeito, mas felizmente representa para o
país uma influência muito mais para o bem do que para o mal", afirma.
Dutra afirma que a pluralidade dos grupos de
apoio a Lula fortalece a democracia, o espírito republicano e a convivência
civilizada. "Aprimorar o nosso sistema é criar mais condições para que o
povo seja sujeito da política e não só quem tem mandato", diz.
Ele acredita no poder de interlocução e
diálogo de Lula para construir um governo que consiga dialogar com diferentes
correntes dentro do campo democrático do Congresso. "Eu sou um jovem de 85
anos, que está aprendendo e ensinando na política com jovens que são mais novos
do que eu", afirma.
Genro, Genoino e Dutra têm em comum, além de
terem ocupado a presidência do PT em diferentes momentos, a decisão de não
terem concorrido na eleição deste ano. Os três, no entanto, atuaram na disputa
como militantes.
Além deles, o senador gaúcho Paulo Paim, 76,
também não disputou a eleição deste ano e se aposentou após 40 anos de mandatos
consecutivos em Brasília. Assim como os três, Paim afirmou que deve continuar
sua militância na base partidária.

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