quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Napoleão de hospício, por Merval Pereira

O Globo

Depois de fugir, Flavio Bolsonaro se coloca como presidente eleito, como se o mundo estivesse no lugar errado, e ele no certo

Qual um Napoleão de hospício, o candidato derrotado à Presidência da República no Brasil, Flávio Bolsonaro, anuncia-se ao mundo como presidente eleito, depois que esse mesmo mundo, por meio dos principais países e organismos internacionais, cumprimentou o presidente Lula por sua reeleição. Talvez o mundo de Flávio seja mesmo outro. Na carta, ele revela que teve ajuda da Argentina, do também extremista de direita Javier Milei, e dos Estados Unidos de Donald Trump, o que representa uma ação política irresponsável daqueles dois países. Até o partido do candidato derrotado aceitou o resultado, reconhecendo Lula como legítimo presidente eleito.

Faz bem o governo brasileiro em não levar adiante reação de protesto, pois não vale a pena se envolver numa crise diplomática por um político medíocre e fujão, que não é reconhecido como líder nem por seus próprios aliados, que já negociam com o governo eleito uma transição pacífica, dentro das regras da Constituição. Dizer que o país vive uma ditadura é simplesmente patético para um candidato que fez uma campanha vitoriosa no primeiro turno e sofreu a reviravolta eleitoral devido principalmente ao salto alto com que encarou a disputa no segundo, despreocupado em garantir seus votos e desinteressado em obter mais eleitores.

Considerando a vitória consolidada, já negociava ministério, candidatos para o Supremo, toda a estrutura do seu pretenso governo, que acabou como a Viúva Porcina, “a que foi sem nunca ter sido”. Flávio não se cansa de fazer bobagem. Na carta que divulgou, usou um brasão da República brasileira com os dizeres “Estados Unidos do Brazil”, nome que vigorou entre 1889 e 1931. A partir daí, Brasil voltou a ser escrito com “s”. Desde 1968, o nome é “República Federativa do Brasil”. Quer dizer, até na ditadura militar, quando o ministro das Relações Exteriores Juracy Magalhães disse “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, foi esclarecido que o país é uma República federativa, não extensão dos Estados Unidos.

Não se sabe por que, talvez em agradecimento à ajuda que Trump deu na fuga, Flávio voltou a usar o nome antigo. Depois de ter enganado seus seguidores fugindo do país, ele faz um pronunciamento sem pé nem cabeça, de teor golpista, da mesma maneira que seu irmão Eduardo atuou junto ao governo americano para punir o Brasil com taxações exorbitantes. Flávio se mostra incapaz de liderar os milhões de eleitores que depositaram votos em seu favor, tanto que, aqui onde a vida real continua, o jogo político está em andamento.

O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, definiu a situação:

— O caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente.

Está na hora certa para que a direita democrática se livre dos Bolsonaros, deixando-os no nicho extremista em que atuam, e passe a liderar a oposição dentro das normas legais, no Congresso e na opinião pública. Flávio revelara sua verdadeira face ao classificar como “sacanagem” o que dizia terem feito com ele, recusando-se a aceitar o desfecho da eleição e usando um palavreado não condizente com o posto que almejava.

Agora, depois de fugir, se coloca como presidente eleito, como se o mundo estivesse no lugar errado, e ele no certo. Como o Simão Bacamarte de Machado de Assis. No manifesto que divulgou, diz que formará um governo no exílio. Nesse caso, adiro ao apelido atualizado que meu amigo Arthur Dapieve lhe pespegou: “De Gaulle de manicômio”.

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