O Globo
Depois de fugir, Flavio Bolsonaro se coloca
como presidente eleito, como se o mundo estivesse no lugar errado, e ele no
certo
Qual um Napoleão de hospício, o candidato derrotado à Presidência da República no Brasil, Flávio Bolsonaro, anuncia-se ao mundo como presidente eleito, depois que esse mesmo mundo, por meio dos principais países e organismos internacionais, cumprimentou o presidente Lula por sua reeleição. Talvez o mundo de Flávio seja mesmo outro. Na carta, ele revela que teve ajuda da Argentina, do também extremista de direita Javier Milei, e dos Estados Unidos de Donald Trump, o que representa uma ação política irresponsável daqueles dois países. Até o partido do candidato derrotado aceitou o resultado, reconhecendo Lula como legítimo presidente eleito.
Faz bem o governo brasileiro em não levar
adiante reação de protesto, pois não vale a pena se envolver numa crise diplomática
por um político medíocre e fujão, que não é reconhecido como líder nem por seus
próprios aliados, que já negociam com o governo eleito uma transição pacífica,
dentro das regras da Constituição. Dizer que o país vive uma ditadura é
simplesmente patético para um candidato que fez uma campanha vitoriosa no
primeiro turno e sofreu a reviravolta eleitoral devido principalmente ao salto
alto com que encarou a disputa no segundo, despreocupado em garantir seus votos
e desinteressado em obter mais eleitores.
Considerando a vitória consolidada, já
negociava ministério, candidatos para o Supremo, toda a estrutura do seu
pretenso governo, que acabou como a Viúva Porcina, “a que foi sem nunca ter
sido”. Flávio não se cansa de fazer bobagem. Na carta que divulgou, usou um
brasão da República brasileira com os dizeres “Estados Unidos do Brazil”, nome
que vigorou entre 1889 e 1931. A partir daí, Brasil voltou a ser escrito com
“s”. Desde 1968, o nome é “República Federativa do Brasil”. Quer dizer, até na
ditadura militar, quando o ministro das Relações Exteriores Juracy Magalhães
disse “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, foi esclarecido
que o país é uma República federativa, não extensão dos Estados Unidos.
Não se sabe por que, talvez em agradecimento
à ajuda que Trump deu na fuga, Flávio voltou a usar o nome antigo. Depois de
ter enganado seus seguidores fugindo do país, ele faz um pronunciamento sem pé
nem cabeça, de teor golpista, da mesma maneira que seu irmão Eduardo atuou
junto ao governo americano para punir o Brasil com taxações exorbitantes.
Flávio se mostra incapaz de liderar os milhões de eleitores que depositaram
votos em seu favor, tanto que, aqui onde a vida real continua, o jogo político
está em andamento.
O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio
de Freitas, definiu a situação:
— O caminho é respeitar o resultado das urnas
e seguir em frente.
Está na hora certa para que a direita
democrática se livre dos Bolsonaros, deixando-os no nicho extremista em que
atuam, e passe a liderar a oposição dentro das normas legais, no Congresso e na
opinião pública. Flávio revelara sua verdadeira face ao classificar como
“sacanagem” o que dizia terem feito com ele, recusando-se a aceitar o desfecho
da eleição e usando um palavreado não condizente com o posto que almejava.

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