O Globo
O pouso de Flávio Bolsonaro (PL) no aeroporto de Opa-Locka encerrou ontem uma bem-sucedida operação de contrainformação que lhe permitiu chegar em segurança à terra de Donald Trump a partir do país comandado por Javier Milei. Enquanto escapava do Brasil para a Argentina, ainda não se sabe exatamente como, seu irmão Eduardo, com alguns asseclas, plantava notas na imprensa brasileira dizendo que Flávio estava voando ou já havia chegado a Miami e em breve daria uma entrevista coletiva para se explicar. As horas seguintes mostraram que aquela tinha sido a parte fácil e, por incrível que pareça, menos patética do plano.
No final do dia, o próprio Flávio divulgou
uma carta tão golpista quanto delirante em que, além de alegar ter havido
fraude na eleição sem apresentar prova ou argumento que fizesse sentido, se
declarou “o verdadeiro presidente eleito do Brasil” e se comparou a Rui
Barbosa, ao francês Charles de Gaulle e ao cubano José Martí, entre outras
figuras históricas que tiveram de se exilar por motivos políticos.
Não vale a pena nem perder tempo contestando
a tentativa canhestra de deslegitimar a eleição presidencial. Quanto aos heróis
a que Flávio se compara, basta dizer que nenhum estava assombrado por
investigações de corrupção e lavagem de dinheiro. Nem fugiu no primeiro susto,
deixando para trás aliados e eleitores desorientados tentando defender o
indefensável.
Flávio ainda usou no documento um brasão da
República com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, com z, da República
Velha. Depois, divulgou uma espécie de “vale este” da carta, em que já não se
dizia mais presidente, e sim líder do Brasil, com s. Ao todo, três versões
foram divulgadas. Parece um detalhe diante de toda a bizarrice do episódio. Mas
é daqueles detalhes que fazem qualquer um de boa-fé se perguntar se, além de
despreparado para o cargo, Flávio não sofre de algum transtorno narcísico.
Nem Trump comprou o barulho. Numa entrevista
rápida logo após a publicação da carta, ele disse que concederá autorização
para o filho de Jair
Bolsonaro ficar no país, que a eleição brasileira “foi estranha”,
mas afirmou que não se envolverá nesse rolo.
Um dia antes de começar a fugir, já sabendo
da ordem de Alexandre de
Moraes para entregar seus passaportes e se manter longe de Willer
Tomaz — o amigo e advogado que, segundo a Polícia
Federal, operava uma grande lavanderia de dinheiro com apostas em
bets —, Flávio gravou um vídeo dizendo que entregaria os passaportes e ficaria
no Brasil. “Vou organizar a oposição”, disse.
Ao que tudo indica, postou e saiu correndo.
Por mais que se possa — e deva — criticar a
decisão de Moraes, que não apontou nenhum fato concreto sugerindo plano de fuga
ao mandar reter os passaportes de Flávio na mesma noite em que se anunciou o
resultado da eleição, o próprio Flávio, ao sair do Brasil da forma como saiu,
pôs em segundo plano qualquer discussão sobre o caso em si.
Depois de meses se dizendo diferente, se
vendendo ao eleitorado como o Bolsonaro “que tomou vacina”, encenando moderação
e enganando a Faria Lima com uma mal fingida crença na austeridade fiscal, ele
afinal mostrou ser um legítimo representante do clã. Só pensa em si mesmo,
morre de medo de cadeia e solta a mão dos aliados diante de qualquer
dificuldade.
Na carta em que se declarou presidente, líder
ou o que seja, Flávio disse que liderará a oposição dos Estados Unidos porque
hoje seus aliados “não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da
atividade política”. Tanto ele como os parlamentares do PL e da direita sabem
que é tudo balela. Nenhuma rede social ou vídeo diário é capaz de substituir a
política feita no dia a dia, ainda mais com o conteúdo que Flávio passou a
disseminar.
Quem comemora a lambança bolsonarista são o
presidente Lula
e Davi
Alcolumbre (União Brasil-AP),
que tentarão aproveitar a desorientação da direita para atrair o Centrão e
talvez até alguns desgarrados do PL para eleger o comando do Congresso e
garantir acordos que melhorem a governabilidade no próximo mandato do petista.
Se Alcolumbre se reeleger presidente do Senado
Federal, Moraes também poderá respirar aliviado por escapar de um
processo de impeachment.
Quem não tem motivos para celebrar são as
lideranças da direita que agora se veem tendo de juntar os cacos para tentar
organizar a oposição. Mas até isso pode ser temporário, já que em política não
existe vácuo. O difícil é saber quem seria capaz de superar o bolsonarismo e
conduzir a oposição por um rumo consequente.

Um comentário:
Hahahahah... !!!
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