domingo, 1 de novembro de 2026

As multidões digitais, por Merval Pereira

O Globo

A pergunta fundamental não é quantas pessoas um político consegue mobilizar, mas para quê e de que maneira as mobiliza

Confesso que não tenho muita simpatia para mobilizações como as do “Exército do Lula”, embora admita que foi fundamental para a virada nas eleições presidenciais. Mas sempre me incomodou a linguagem militarizada utilizada pelo deputado Janones para arregimentar os apoios. Achei até engraçado quando Lula disse que se alistara no exército com o codinome de “Marechal Silva”. O caso oferece uma oportunidade para refletir sobre os limites entre a legítima mobilização política e a transformação de cidadãos em instrumentos de uma estratégia de poder. Principalmente agora que, passada a eleição, o tetra-presidente anuncia que vai usar o seu “Exército” para se aproximar dos cidadãos.

A questão começa quando a capacidade de mobilização passa a ser empregada para estimular a hostilidade, dispensar a reflexão e fazer com que milhares de pessoas reproduzam, de maneira coordenada, mensagens cuja veracidade ou cujas consequências sequer examinaram. O medo, a esperança, a indignação e o sentimento de pertencimento são componentes antigos da comunicação entre líderes e liderados. A contribuição do sociólogo espanhol Manuel Castells para compreender esse fenômeno é fundamental. Em A “Network Theory of Power”, Castells aprofunda essa análise ao examinar como o poder se exerce por meio das redes e como seus organizadores podem influenciar os valores, as ideias e as percepções dos indivíduos.

O risco surge quando a participação deixa de ser uma oportunidade de reflexão e se converte em obediência coletiva. Um grupo organizado pode receber instruções para divulgar determinada mensagem, pressionar adversários, impulsionar palavras de ordem ou ocupar simultaneamente diferentes espaços digitais. O problema aparece quando a coordenação é acompanhada pela disseminação consciente de informações falsas, pela intimidação de adversários ou pela tentativa de desqualificar qualquer fonte de informação que contrarie o líder. Nesse ambiente, o cidadão corre o risco de deixar de atuar como sujeito da política para funcionar como extensão de uma máquina de comunicação.

Compartilha antes de verificar, reage antes de compreender e considera uma informação verdadeira porque ela confirma suas convicções ou porque foi repetida por pessoas em quem confia. Uma mensagem que aparece inúmeras vezes em diferentes grupos parece adquirir credibilidade pela própria frequência com que circula. A quantidade de compartilhamentos passa a ser confundida com a qualidade da informação, e a popularidade de uma afirmação substitui a verificação de sua veracidade. O que deve ser examinado é o conteúdo das mensagens, a natureza das instruções transmitidas, o respeito aos fatos, a relação com os adversários e a disposição para aceitar as regras comuns da disputa democrática.

A pergunta fundamental não é quantas pessoas um político consegue mobilizar, mas para quê e de que maneira as mobiliza. A força de uma organização digital pode servir à participação cidadã ou à formação de uma militância impermeável a argumentos contrários. Pode ampliar o debate público ou transformá-lo numa sucessão de ataques. Pode aproximar pessoas de uma causa ou convencê-las de que qualquer adversário é um inimigo a ser destruído.

No caso do “Exército do Lula”, as ordens eram peremptórias - Pessoal, urgente!” — uma das chamadas que Janones usou para mobilizar os participantes de seu canal no WhatsApp, o Exército do Lula. “Ninguém tá cumprindo missão, ninguém tá curtindo link.” — reclamação feita em áudio, ao cobrar dos seguidores o cumprimento das tarefas de divulgação. “Parece que eu tô lidando com criança.” — frase usada na mesma bronca, ao reclamar da queda no ritmo das atividades do grupo. “Não posso sair um minuto que vira bagunça.” — outra passagem do áudio, reveladora da cobrança de disciplina e da centralização do comando. A democracia exige que as paixões não eliminem a capacidade de julgar.

 

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

Eu rejeito qualquer tipo de agressividade,dos dois lados.