domingo, 1 de novembro de 2026

Elefante, por Dorrit Harazim

O Globo

Bibi tinha contra si o fatídico massacre terrorista do 7 de Outubro de 2023, ainda sem explicação pelas falhas na segurança

Na semana passada, o jornal Financial Times qualificou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de “Houdini de Israel” ao analisar o quadro eleitoral resultante da votação de terça-feira. Em parte a comparação é acertada. Harry Houdini foi o genial mágico, ilusionista e prestidigitador da virada do século XX que fascinou multidões globais com sua arte de se desvencilhar de correntes e cadeados múltiplos, cofres submersos, amarras sufocantes. Bibi Netanyahu, por sua vez, conseguiu emergir das urnas pronto para lutar pelo poder que já ocupa há quase duas décadas (seis mandatos em três períodos distintos). Aos 77 anos, sua sobrevida política pôs um freio à recente lufada de vento democrático que brotou nas ruas — e reelegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, derrotou o regime autoritário de Aleksandar Vucic na Sérvia e pretende dar uma sova em Donald Trump nas eleições de meio de mandato desta terça-feira, 3 de novembro.

Bibi contrariou previsões, ironizou pesquisas e demoliu esperanças do abrangente bloco político-partidário anti-Netanyahu que se formara. Tinha contra si o fatídico massacre terrorista do 7 de Outubro de 2023, ainda sem explicação pelas falhas na segurança do país sob sua guarda. Somente isso já bastaria para derrubar qualquer governante — ou levar à sua renúncia, como fez Golda Meir em 1974, depois da Guerra do Yom Kippur —, mas Netanyahu se safou distribuindo responsabilidades entre subordinados e recusando-se a criar uma comissão de investigação independente.

Some-se a isso a crise dos reféns capturados na ocasião pelo Hamas, que até hoje convulsiona o país, além do interminável processo por corrupção a que ele responde na Suprema Corte de Jerusalém. Tudo isso mais o isolamento de Israel no cenário mundial, entre acusações de crimes de guerra e genocídio em Cortes interacionais, e a guerra por ora em suspenso para a derrubada do regime dos aiatolás no Irã. Com esse pano de fundo fecundo em animosidade nacional contra si, Netanyahu não obteve a maioria de 61 cadeiras necessárias para formar novo governo. Mas a oposição também não, e nisso reside a vitória dele. Serão necessárias semanas, senão meses, de negociações mediadas pelo presidente de Israel até a formação de uma coligação que se mantenha de pé.

Desta vez, o fiel da balança são as duas legendas de partidos árabes-israelenses, que representam 20% da população do Estado judeu e emplacaram um número inédito de 19 assentos no Parlamento. Se os partidos de oposição feroz a Bibi, que conquistaram 48 cadeiras, aceitassem aliar-se aos representantes desses cidadãos não judeus, o reinado de Netanyahu terminaria hoje. Mas, diante da ambivalência nacional quanto ao lugar que cabe a cidadãos árabes no Estado judaico, essa é uma decisão radioativa. Ao longo da intensa campanha eleitoral israelense, apenas um integrante da coalizão de oposição liderada por Gadi Eisenkot, principal adversário de Bibi, ousou aflorar essa possibilidade: Yair Golan, líder dos Democratas, partido resultante da fusão de legendas de esquerda.

É onde começa a aparecer a figura do elefante citado no título. Numa noite que se tornou histórica para a arte da magia, 7 de janeiro de 1918, Harry Houdini fez desaparecer do palco do New York Hippodrome, maior teatro da época, uma fêmea que pesava entre 5 e 7 toneladas. Sem jamais sair do campo de visão dos 5.300 espectadores, Jennie rodava dentro de uma carroça giratória aberta nas duas extremidades, iluminada de todos os ângulos o tempo todo. Nada mais havia no palco além de operadores de polias e cabos. Em determinado momento, Jennie simplesmente sumiu, deixando todos embasbacados. Embora existam intermináveis especulações contraditórias sobre a façanha, todas partem e terminam longe de qualquer ilusionismo — Jennie sempre continuou onde estava, nunca deixou o palco.

No caso de Israel, o elefante se chama Gaza, ou Palestina, e tem a sociedade israelense por plateia. O slogan da campanha de Netanyahu era simples: Yamin o Falestin (Direita ou Palestina). O mote sugeria não apenas que qualquer aproximação com o eleitorado árabe equivaleria a transformar Israel numa Palestina, como evocava a determinação de Bibi em erradicar a história e vida palestina de Gaza e, quem sabe, também de nacos inteiros da Cisjordânia ocupada. A julgar pelo resultado da eleição, governo e boa parte da oposição optaram novamente pela ilusão de fazer Gaza e a Palestina sumirem do mapa.

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