O Globo
A pergunta fundamental não é quantas pessoas
um político consegue mobilizar, mas para quê e de que maneira as mobiliza
Confesso que não tenho muita simpatia para mobilizações como as do “Exército do Lula”, embora admita que foi fundamental para a virada nas eleições presidenciais. Mas sempre me incomodou a linguagem militarizada utilizada pelo deputado Janones para arregimentar os apoios. Achei até engraçado quando Lula disse que se alistara no exército com o codinome de “Marechal Silva”. O caso oferece uma oportunidade para refletir sobre os limites entre a legítima mobilização política e a transformação de cidadãos em instrumentos de uma estratégia de poder. Principalmente agora que, passada a eleição, o tetra-presidente anuncia que vai usar o seu “Exército” para se aproximar dos cidadãos.
A questão começa quando a capacidade de
mobilização passa a ser empregada para estimular a hostilidade, dispensar a
reflexão e fazer com que milhares de pessoas reproduzam, de maneira coordenada,
mensagens cuja veracidade ou cujas consequências sequer examinaram. O medo, a
esperança, a indignação e o sentimento de pertencimento são componentes antigos
da comunicação entre líderes e liderados. A contribuição do sociólogo espanhol
Manuel Castells para compreender esse fenômeno é fundamental. Em A “Network
Theory of Power”, Castells aprofunda essa análise ao examinar como o poder se
exerce por meio das redes e como seus organizadores podem influenciar os
valores, as ideias e as percepções dos indivíduos.
O risco surge quando a participação deixa de
ser uma oportunidade de reflexão e se converte em obediência coletiva. Um grupo
organizado pode receber instruções para divulgar determinada mensagem,
pressionar adversários, impulsionar palavras de ordem ou ocupar simultaneamente
diferentes espaços digitais. O problema aparece quando a coordenação é
acompanhada pela disseminação consciente de informações falsas, pela
intimidação de adversários ou pela tentativa de desqualificar qualquer fonte de
informação que contrarie o líder. Nesse ambiente, o cidadão corre o risco de
deixar de atuar como sujeito da política para funcionar como extensão de uma
máquina de comunicação.
Compartilha antes de verificar, reage antes
de compreender e considera uma informação verdadeira porque ela confirma suas
convicções ou porque foi repetida por pessoas em quem confia. Uma mensagem que
aparece inúmeras vezes em diferentes grupos parece adquirir credibilidade pela
própria frequência com que circula. A quantidade de compartilhamentos passa a
ser confundida com a qualidade da informação, e a popularidade de uma afirmação
substitui a verificação de sua veracidade. O que deve ser examinado é o
conteúdo das mensagens, a natureza das instruções transmitidas, o respeito aos
fatos, a relação com os adversários e a disposição para aceitar as regras
comuns da disputa democrática.
A pergunta fundamental não é quantas pessoas
um político consegue mobilizar, mas para quê e de que maneira as mobiliza. A
força de uma organização digital pode servir à participação cidadã ou à
formação de uma militância impermeável a argumentos contrários. Pode ampliar o
debate público ou transformá-lo numa sucessão de ataques. Pode aproximar
pessoas de uma causa ou convencê-las de que qualquer adversário é um inimigo a
ser destruído.
No caso do “Exército do Lula”, as ordens eram
peremptórias - Pessoal, urgente!” — uma das chamadas que Janones usou para
mobilizar os participantes de seu canal no WhatsApp, o Exército do Lula.
“Ninguém tá cumprindo missão, ninguém tá curtindo link.” — reclamação feita em
áudio, ao cobrar dos seguidores o cumprimento das tarefas de divulgação.
“Parece que eu tô lidando com criança.” — frase usada na mesma bronca, ao
reclamar da queda no ritmo das atividades do grupo. “Não posso sair um minuto
que vira bagunça.” — outra passagem do áudio, reveladora da cobrança de
disciplina e da centralização do comando. A democracia exige que as paixões não
eliminem a capacidade de julgar.

Um comentário:
Eu rejeito qualquer tipo de agressividade,dos dois lados.
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