O Globo
O espelho do Brasil mostra um país que evitou
o pior em várias áreas. Mas que tem pela frente escolhas difíceis no cotidiano
de governar, principalmente na economia
O presidente Lula irá para a COP31 na Turquia. Notícia que todos já sabem. Agora tentem imaginar o que seria essa viagem, e a participação brasileira, caso o Brasil tivesse colocado na presidência um negacionista do clima? Seria constrangedor, como já foi anos atrás. O país chegará lá com os seus mapas do caminho, um deles para um mundo longe dos combustíveis fósseis e outro para a derrubada do desmatamento. A onda azul nos Estados Unidos elegeu uma exuberante diversidade, mulheres, negros, indígenas, que vão aumentar a representatividade. Tente pensar em como estaríamos no futuro se o Brasil escolhesse a rota oposta ao reconhecimento dos direitos de minorias ou de maiorias que estão sub-representadas, como as mulheres.
O Brasil pode agora se olhar no espelho e ver
defeitos, contradições, mas também conferir suas chances de estar cada vez mais
inserido na contemporaneidade. O mesmo governo Lula que traça um caminho para o
mundo se afastar dos fósseis é o que comemora cada novo poço de petróleo no mar
da Amazônia. O mesmo governo que defende a diversidade, tem ignorado a
necessidade de ter mais mulheres no Supremo e — por que não? — uma mulher
negra. Este é o ponto: contradição se pode criticar, negacionismo é um caminho
perdido. Seja na ciência, na saúde, no clima ou na evolução social.
Lula irá depois à reunião do G20. Tentem
lembrar do ex-presidente Jair Bolsonaro à deriva numa reunião anterior do mesmo
grupo, quando seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, propunha
que o Brasil fosse pária. Ou imagine agora, com Donald Trump indo enfraquecido
para a segunda metade do seu mandato, como seria a política externa caudatária
aos Estados Unidos. Pode-se apontar erros na diplomacia atual, porém o caminho
pragmático e pluralista atende muito mais aos nossos interesses.
Na economia, há formas de projetar um
equilíbrio nas contas públicas sem sacrificar as políticas sociais realmente
progressivas. O país gasta muito com subsídios e isenções não focalizadas nos
mais pobres. O economista Sergio Firpo publicou um artigo, na sexta-feira, na
Folha de S. Paulo, sobre seus estudos na área. Pegando só um de seus exemplos,
o país poderia economizar R$ 25 bilhões se conseguisse acabar com as isenções
de títulos como LCI, LCA, CRI e CRAs e debêntures incentivadas. Essas letras de
crédito e certificados de recebíveis não pagam imposto. Ou seja, quem compra um
título do Tesouro tem que recolher tributo e o investidor desses papéis, não.
Isso está criando uma enorme distorção porque o dinheiro está correndo para lá.
Seus defensores dizem que eles são instrumento importante porque conseguem
emprestar mais barato para o setor do agronegócio, de construção civil e
imobiliário. Só que é subsídio dado a ricos e os setores já têm outros
incentivos. É regressivo. Por isso é importante insistir na proposta de taxar
esses produtos financeiros, que foi apresentada por Fernando Haddad e rejeitada
pelo Congresso.
O presidente Lula fez um bom discurso de
equilíbrio nas contas públicas, no entanto, depois se reuniu com um grupo de
economistas em que vários não acreditam no ajuste fiscal e que, quando
estiveram no governo, cometeram erros. A reunião foi fechada, contudo, é fácil
imaginar que quem fez propostas concretas de ajuste, como o ministro Dario
Durigan, estava minoritário. Lula precisa ouvir outras vozes. De quem acredita
nas políticas sociais progressivas, e aponta a regressividade de alguns gastos
e defende o ajuste fiscal.
Esse é, sim, o mais difícil dos quatro mandatos.
A vida já deu grandes vitórias ao presidente Lula, e também tarefas difíceis
para ele resolver. Na economia, nada será fácil. De fora, os ventos ora parecem
soprar a favor, ora contra. O medo que paira há algum tempo sobre a economia
mundial é se as empresas de alta tecnologia, e de inteligência artificial,
podem provocar uma crise global. Uns dizem que é bolha, outros acreditam que
está havendo apenas um ajuste de preços. “O desafio é que o custo de
financiamento na economia americana está ficando cada vez maior e os volumes
investidos não param de aumentar”, me explicou um integrante do mercado
financeiro.
O espelho do Brasil mostra um país que evitou
o pior em várias áreas. A democracia, os valores ambientais, sociais e
diplomáticos foram reafirmados. Mas que tem pela frente escolhas difíceis no
cotidiano de governar, principalmente na economia.

2 comentários:
A pior provação que Lula passou foi aquela doença na laringe,eu não consigo nem pensar... Deus que nos dê proteção,à direita e à esquerda.
A presença de Guido Mantega na reunião foi um péssimo sinal político, ético e econômico.
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