domingo, 8 de novembro de 2026

Sem confiança, a indústria perde fôlego, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Falta investimento e sobra incerteza sobre contas do governo federal

Maior potência industrial do Hemisfério Sul, o Brasil continua acumulando tropeços na trajetória recente da indústria, com quatro resultados mensais negativos nos primeiros nove meses deste ano. Em setembro, a produção do setor foi 0,8% menor do que a de agosto e 2,5% inferior à de um ano antes. O volume produzido no terceiro trimestre foi 0,5% menor do que o dos três meses anteriores e ficou 1,4% abaixo do contabilizado no mesmo período de 2025. Ainda assim, houve um avanço de 0,4% no ano e de 0,2% em 12 meses, segundo o último balanço do governo.

Apesar desse crescimento anual, a média do trimestre encerrado em setembro ainda foi 16,5% inferior ao ponto mais alto da série histórica, registrado em maio de 2011. Mesmo com alguma recuperação a partir de 2017, o setor industrial nunca retornou àquele patamar, embora alguns de seus segmentos tenham se modernizado, avançado em produtividade e conquistado parcelas importantes do mercado internacional.

Juros altos na maior parte do mercado e insegurança quanto ao médio prazo continuam entre os principais obstáculos apontados pelos empresários. Segundo a Confederação

Nacional da Indústria (CNI), a intenção de investir em capacidade produtiva chegou em setembro ao menor patamar desde agosto de 2020, quando o País estava tomado pela pandemia de covid-19.

O governo até pode aumentar seus investimentos quando o empresariado mostra insegurança. Mas o efeito dessa intervenção é muito limitado quando os homens de negócios continuam sem disposição de investir. O resultado final pode até ser negativo se as finanças públicas ficarem mais desajustadas e o setor empresarial permanecer sem disposição de se comprometer. Além disso, a ação governamental muito dificilmente substituirá – exceto em condições muito especiais – as escolhas estratégicas do mercado.

Criar condições favoráveis ao investimento privado, com capitais nacionais e estrangeiros, deveria ser uma das missões mais importantes do governo. Empresários e analistas costumam destacar, entre essas condições, o financiamento barato, as perspectivas de crescimento econômico, a segurança institucional e a previsibilidade pelo menos de médio prazo.

O governo tem papel importante na criação e na manutenção de todas essas condições. Duas valem algum destaque. O capital barato depende especialmente dos juros e, portanto, das perspectivas das contas públicas. Contas sustentáveis e previsíveis são especialmente importantes. Podem até ser deficitárias, como se admite em algumas economias desenvolvidas, mas devem ser confiáveis e financiáveis num ambiente de fácil sustentabilidade.

Rotineiras em várias economias desenvolvidas, finanças públicas sustentáveis e compatíveis com juros baixos continuam fora da normalidade brasileira. Para se tornarem “normais”, terão de ser, provavelmente, cultivadas e repetidas por mais de um governo e por mais de um partido.

Não adianta o presidente da República exigir do Banco Central (BC) uma política monetária “desenvolvimentista” ou mais favorável ao consumo, ao bem-estar das famílias e ao investimento, se faltarem solidez e previsibilidade às contas do governo. Se os dirigentes do BC trabalharem com independência, forem competentes e dispostos a realmente cuidar da moeda, sua tarefa principal, serão forçados a conter o crédito e resfriar os negócios. Se relaxarem essa missão, o resultado aparecerá na desordem dos preços, na insegurança de empresários e consumidores e na desarrumação da economia.

Brasileiros adultos já testemunharam esse desarranjo mais de uma vez – em algumas ocasiões, depois de um período de segurança e de modernização da economia. Fases de irresponsabilidade fiscal e monetária podem ter momentos brilhantes, mas normalmente acabam em desastre, desemprego e sofrimento para grande parte das famílias.

As mais prejudicadas são as desprovidas de poupança e de colchões de proteção econômica. Os efeitos tendem a ser especialmente custosos para aquelas com crianças ou filhos muito jovens. Esforços de educação e de progresso profissional, muitas vezes empreendidos com sacrifício pessoal ou familiar, podem ser interrompidos, com prejuízos para todos.

Com algumas variações, esse filme de horror foi repetido várias vezes no Brasil, depois da 2.ª Guerra Mundial, e as pessoas mais velhas assistiram a várias de suas versões. Mas, diferentemente do que parece ter ocorrido em algumas sociedades, o aprendizado nunca produziu, neste país, efeitos duradouros.

Sucederam-se regimes, governos e constituições. A escolaridade avançou, o analfabetismo formal foi quase extinto e diplomas se multiplicaram, assim como novas formas de trabalho. Mas a cobrança de uma administração pública eficiente, austera e financeiramente responsável continua restrita à vida municipal e, em alguns casos, até estadual. Além disso, a ideia de responsabilidade fiscal continua desprezada em alguns grupos políticos como bandeira reacionária e sustentada apenas por quem despreza interesses populares. Será o povão mesmo, o grande beneficiário da gastança federal e da inflação por ela sustentada?

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