domingo, 8 de novembro de 2026

“Cavalo de pau”, por Merval Pereira

O Globo

Se Lula pretender continuar com a mesma política econômica do governo anterior, levará sua derradeira passagem pela presidência da República em direção a uma grave crise financeira já anunciada.

Estamos vivendo a estranha situação de um governante que prepara a transição para si mesmo tendo como objetivo fazer uma administração radicalmente diferente do que fez até a agora. A famosa “herança maldita”de que Lula sempre se utilizou para justificar suas dificuldades na área econômica, agora virá para ele mesmo. Situação semelhante foi a de Fernando Henrique Cardoso em 1998, quando terminou um governo bem avaliado com a ancora cambial e abriu o segundo com a desvalorização do Real, o que o levou a ter que enfrentar o ressentimento de um eleitorado que votara para continuar vivendo num mundo em que o Real valia tanto quanto o dólar e, de repente, passou a sofrer uma desvalorização que atingiu o dia a dia do eleitor.

Desta vez, se Lula pretender continuar com a mesma política econômica do governo anterior, levará sua derradeira passagem pela presidência da República em direção a uma grave crise financeira já anunciada. Se, porém, der um “cavalo de pau”, na definição do então todo poderoso chefe do Gabinete Civil José Dirceu, poderá encontrar um novo caminho. A expressão de José Dirceu — de que o primeiro governo Lula deu um “cavalo de pau” na política econômica do PT — é bastante significativa, porque reconhece uma mudança profunda entre o discurso histórico do partido e a orientação adotada a partir de janeiro de 2003.

O governo Lula, especialmente no primeiro mandato, rompeu com várias posições econômicas que o PT defendera durante anos. Entre as principais mudanças estavam: Responsabilidade fiscal: manutenção do compromisso com o superávit primário. Juros: preservação de uma política monetária conservadora, com juros elevados para combater a inflação. Dívida pública: respeito aos contratos e à política de estabilização econômica herdada de Fernando Henrique Cardoso. Banco Central: manutenção de uma orientação ortodoxa, com Henrique Meirelles na presidência. Mercado financeiro: aproximação com investidores e setores empresariais, em contraste com a retórica anterior do PT.

A declaração foi feita em 23 de maio de 2003, durante um seminário do PT sobre a reforma da Previdência, em São Paulo. A frase exata foi: “Se nós não demos um cavalo-de-pau no país, demos um cavalo-de-pau na economia.” Ele se referia especificamente aos juros de 26,5% ao ano, ao superávit primário de 4,25% do PIB e ao contingenciamento de R$ 14 bilhões no Orçamento. Dirceu reconhecia, portanto, que o governo estava adotando medidas que contrariavam os objetivos econômicos tradicionais do PT, mas considerava que elas eram necessárias para evitar a perda de confiança, a inflação e uma crise econômica.

Não há indicações, porém, de que o reeleito Lula esteja disposto a dar esse “cavalo de pau”, inclusive porque não tem a seu lado uma pessoa como Antonio Palocci, designado ministro da Fazenda com amplos poderes, e que se impunha dentro da máquina partidária do PT. Quem tentou fazer também um “cavalo de pau” depois de reeleita foi a presidente Dilma Rousseff, que trouxe para ministro da Fazenda Joaquim Levy. A começar pela presidente, a máquina partidária não deu espaços para uma política de maior equilíbrio fiscal, e Levy não ficou nem um ano no cargo. O resto, sabemos como terminou.

Lula, com uma dimensão interna e externa que nem de longe se compara à de Dilma, está porém no mesmo dilema em que a política expansionista do PT colocou o governo. Precisa decidir que rumo dará à sua última passagem pela Presidência da República, que o marcará na história. Escapou de ter uma carreira política exitosa interrompida pela derrota eleitoral mais humilhante que poderia ter, e agora depende apenas dele chegar ao final com êxito. Quer fazer “o melhor de todos os governos” que já fez, e não é difícil, pois seus governos foram marcados mais pela ação social necessária do que pela eficiência. Basta escolher o caminho certo.

 

2 comentários:

ADEMAR AMANCIO disse...

''Eficiência'' pros ricos... Então tá!

ADEMAR AMANCIO disse...

Eu ganho apenas um salário mínimo,minha mãe também.