O Globo
Se Lula pretender continuar com a mesma
política econômica do governo anterior, levará sua derradeira passagem pela
presidência da República em direção a uma grave crise financeira já anunciada.
Estamos vivendo a estranha situação de um governante que prepara a transição para si mesmo tendo como objetivo fazer uma administração radicalmente diferente do que fez até a agora. A famosa “herança maldita”de que Lula sempre se utilizou para justificar suas dificuldades na área econômica, agora virá para ele mesmo. Situação semelhante foi a de Fernando Henrique Cardoso em 1998, quando terminou um governo bem avaliado com a ancora cambial e abriu o segundo com a desvalorização do Real, o que o levou a ter que enfrentar o ressentimento de um eleitorado que votara para continuar vivendo num mundo em que o Real valia tanto quanto o dólar e, de repente, passou a sofrer uma desvalorização que atingiu o dia a dia do eleitor.
Desta vez, se Lula pretender continuar com a
mesma política econômica do governo anterior, levará sua derradeira passagem
pela presidência da República em direção a uma grave crise financeira já
anunciada. Se, porém, der um “cavalo de pau”, na definição do então todo
poderoso chefe do Gabinete Civil José Dirceu, poderá encontrar um novo caminho.
A expressão de José Dirceu — de que o primeiro governo Lula deu um “cavalo de
pau” na política econômica do PT — é bastante significativa, porque reconhece
uma mudança profunda entre o discurso histórico do partido e a orientação
adotada a partir de janeiro de 2003.
O governo Lula, especialmente no primeiro
mandato, rompeu com várias posições econômicas que o PT defendera durante anos.
Entre as principais mudanças estavam: Responsabilidade fiscal: manutenção do
compromisso com o superávit primário. Juros: preservação de uma política
monetária conservadora, com juros elevados para combater a inflação. Dívida
pública: respeito aos contratos e à política de estabilização econômica herdada
de Fernando Henrique Cardoso. Banco Central: manutenção de uma orientação
ortodoxa, com Henrique Meirelles na presidência. Mercado financeiro: aproximação
com investidores e setores empresariais, em contraste com a retórica anterior
do PT.
A declaração foi feita em 23 de maio de 2003,
durante um seminário do PT sobre a reforma da Previdência, em São Paulo. A
frase exata foi: “Se nós não demos um cavalo-de-pau no país, demos um
cavalo-de-pau na economia.” Ele se referia especificamente aos juros de 26,5%
ao ano, ao superávit primário de 4,25% do PIB e ao contingenciamento de R$ 14
bilhões no Orçamento. Dirceu reconhecia, portanto, que o governo estava adotando
medidas que contrariavam os objetivos econômicos tradicionais do PT, mas
considerava que elas eram necessárias para evitar a perda de confiança, a
inflação e uma crise econômica.
Não há indicações, porém, de que o reeleito
Lula esteja disposto a dar esse “cavalo de pau”, inclusive porque não tem a seu
lado uma pessoa como Antonio Palocci, designado ministro da Fazenda com amplos
poderes, e que se impunha dentro da máquina partidária do PT. Quem tentou fazer
também um “cavalo de pau” depois de reeleita foi a presidente Dilma Rousseff,
que trouxe para ministro da Fazenda Joaquim Levy. A começar pela presidente, a
máquina partidária não deu espaços para uma política de maior equilíbrio
fiscal, e Levy não ficou nem um ano no cargo. O resto, sabemos como terminou.
Lula, com uma dimensão interna e externa que
nem de longe se compara à de Dilma, está porém no mesmo dilema em que a
política expansionista do PT colocou o governo. Precisa decidir que rumo dará à
sua última passagem pela Presidência da República, que o marcará na história.
Escapou de ter uma carreira política exitosa interrompida pela derrota
eleitoral mais humilhante que poderia ter, e agora depende apenas dele chegar
ao final com êxito. Quer fazer “o melhor de todos os governos” que já fez, e
não é difícil, pois seus governos foram marcados mais pela ação social
necessária do que pela eficiência. Basta escolher o caminho certo.

2 comentários:
''Eficiência'' pros ricos... Então tá!
Eu ganho apenas um salário mínimo,minha mãe também.
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