O Estado de S. Paulo
O mais provável é que Lula opte por um pouco
de ajuste e a velha politicagem a que é contumaz
Vejamos estas opções que Lula tem para a política econômica. A primeira é que continue a política que o levou à reeleição. Como não poderá ser reeleito, escolheria um candidato petista para o próximo governo e tentaria promovê-lo com medidas populistas como as que tomou às vésperas de sua reeleição, a exemplo de um aumento de 15% para todos os inscritos no programa Bolsa Família, do governo federal. Esse caminho oferece riscos, como o do contínuo e elevado crescimento da dívida pública, mas é o que ele gosta de fazer.
O segundo caminho seria promover um ajuste
fiscal nas contas públicas federais, o que exigiria uma mudança em sua política
para o salário mínimo, uma reforma da Previdência, acabar com a indexação dos
pisos constitucionais nas áreas de educação e de saúde, entre outras
providências capazes de reverter a situação deficitária das contas públicas
federais. É um caminho mais difícil, mas colocaria Lula na confortável posição
histórica de ter deixado a casa em ordem.
O terceiro caminho seria intermediário entre
os dois primeiros: um pouco de ajuste e a velha politicagem a que é contumaz. E
é o mais provável, considerando a experiência passada, que aponta nessa
direção. O certo é que Lula também precisará mudar seu comportamento diante de
novos desafios.
Isso não acontecerá de imediato, mas os
próximos meses já definirão o caminho que escolherá. Torço para que seja o
segundo. E gostaria que viesse adicionado de uma preocupação com o baixo
crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). É uma cobrança minha, pois entendo
que o baixo crescimento do PIB é o problema econômico mais sério do País, mas
ele quase só vem à tona quando o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) divulga os dados trimestrais de variação do PIB. Neste caso,
o governo tem parte da culpa, no período pós-1980, ao reduzir os investimentos
públicos em formação de capital fixo (novas e ampliadas estradas, portos,
hospitais, escolas, etc.) de cerca de 10% do PIB para apenas algo em torno de
2% do PIB.
Quanto maior essa taxa na economia como um
todo, maior o crescimento do PIB, que traria mais empregos, renda e tributos.
No Brasil, ela está em torno de 17% do PIB, quando seria necessário aumentá-la
para uns 25%, para começar. A China, no seu período de crescimento mais forte,
chegou a investir 40% do PIB.
Uma visão do período pós1980 foi dada pelo
Fundo Monetário Internacional (FMI), citada numa reportagem publicada neste
jornal (3/5, B1): “Entre 1980 e 2025, o PIB per capita global teve um aumento
de 675%; no mesmo período, o do Brasil teve uma alta de 428%”. Ou seja, estamos
ficando para trás na maratona mundial do crescimento do PIB per capita. E isso
gera menos oportunidades de emprego e renda para a população brasileira. Maior
crescimento econômico é isto: mais empregos e renda e até mais tributos para o
governo gastar.
E assim vai. O Congresso Nacional deveria
cobrar de Lula um maior crescimento do PIB, mas, por pressão das bases, os
parlamentares se int e r e s s a m mesmo é pelas emendas, que ajudam tanto na
reeleição de seus membros. Essas emendas são desiguais entre os parlamentares e
também desiguais relativamente a candidatos sem mandatos e sem emendas. Isso
contraria o dispositivo constitucional de que todos são iguais perante a lei,
uma cláusula pétrea, mas o Supremo Tribunal Federal (STF), que deveria agir,
faz vista grossa.
Note-se que não coloquei entre as opções de
Lula a de não fazer nada, pois os problemas se complicariam se isso
acontecesse, como no caso do aumento da dívida. Lula está calado, mas vai ter
de abrir a boca. Alguma coisa precisa ser feita e ele precisa tomar decisões
para os próximos quatro anos de governo.
Acho que o mais difícil para Lula será
administrar a expectativa petista de um sucessor seu dentro do PT. Ele já
testou Fernando Haddad, e não deu certo. Lula é muito personalista e não deixou
crescerem várias lideranças em torno dele. Ao precisar delas, elas não existem.
E há também um problema com o Banco Central,
cuja taxa básica de juros é a maior mundialmente, relativamente à inflação
vigente em cada país. Isso não pode continuar.
Lula não é bobo e deverá tomar decisões que o
deixem bem quando sair, em 2030, definitivamente do governo. Como já disse, ele
deve estar querendo sair com prestígio para entrar na História. E está
politicamente mais forte depois de ter batido Flávio Bolsonaro por larga margem
de votos no segundo turno das eleições deste ano.
Lula já prometeu que, desta vez, sua gestão
será diferente e sabe-se que está procurando um ministro da Fazenda de peso.
Espero que venham mais novidades, pois ele precisará de bons executivos.
É do entorno de Lula que sairão as grandes
decisões que nortearão a política governamental. Portanto, é preciso seguir com
afinco as decisões que ele vai tomar. É o que pretendo fazer nos próximos
meses, trazendo informações para os nossos leitores. •

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