Folha de S. Paulo
Preços das ações levam tombo e criam novo
surto de medo de que bolha de IA chegue ao fim
Queda de Bolsas e menos investimento em
inteligência artificial também diminuiriam crescimento americano
A situação econômica do Brasil em 2027 não
vai ser fácil. Ficaria bem difícil em caso de crise nos EUA. É mais um motivo
para que se adotem medidas
urgentes e prudentes de conserto econômico.
Os preços das ações nos EUA levaram um tombão nesta quinta (5). Pode ter sido um dia de furacão, seguido de uma semana de céu azul. Ou o começo de meses de explosões. Sendo otimista, talvez se trate de uma bolha começando a desinflar de modo ordenado. O sinal de fim de longo ciclo de crescimento econômico. Sabe-se lá.
De repente, pareceu que as vitórias do
Partido Democrata poderiam incentivar medidas que limitam o crescimento do
complexo de IA (inteligência
artificial). Mas na quarta, quando já era clara a vitória dos
democratas, dizia-se que a hipótese de paralisia legislativa impediria a
aprovação de leis que podassem o mundo IA (os democratas não têm votos
bastantes para derrubar vetos de Donald Trump a uma possível ofensiva regulatória).
Esqueceram-se de novos governos, parlamentos estaduais e lideranças eleitos
também por causa da mudança do humor popular em relação à IA.
Não raro, explicação de altas e baixas
financeiras é conversa fiada ou parcial. Há recantos desconhecidos dos mercados,
longe de Bolsas, onde por vezes começam explosões. Pode ser que esse súbito
receio de regulação mais restritiva tenha sido amplificado por negócios
financeiros enrolados e arriscados. Ou por mais um surto do temor já antigo de
que as "techs" estejam tomando dinheiro emprestado em excesso.
Mais regulação talvez limite o investimento
em infraestrutura de desenvolvimento de IA e, portanto, em chips (embora tais
leis não provoquem necessariamente um baque). Com menos crescimento, menos
faturamento, talvez mais dificuldade de pagar dívidas. A mera redução de ritmo
pode arrebentar aqueles que tomaram dinheiro emprestado para multiplicar ganhos
com a alta das ações das empresas do complexo IA.
O problema mais sério viria de quedas ou
quebras em cadeia, a derrubada de um dominó financeiro. "Alavancagem"
durante euforias, o endividamento para apostar na alta supostamente sem fim de
um ativo, de bulbos de flores a empréstimos imobiliários, causa desastre
financeiro faz 400 anos.
Umas empresas ditas "neoclouds" pegam
dinheiro emprestado para comprar chips e criar infraestrutura para
desenvolvimento de IA, que alugam. Se o negócio delas parar de crescer, vão dar
calote? Quanto dinheiro tomaram? De quem? Esse financiamento de risco de algum
modo afeta bancos? "Neoclouds" apanharam nesta quinta, mas várias nem
estão na Bolsa.
Existem fundos que se dedicam a replicar a
variação de um índice da Bolsa (Nasdaq,
S&P 500 etc.) ou de ação, mas com o objetivo de obter ganhos maiores do que
esses índices. São por exemplo ETFs alavancados, que usam instrumentos
financeiros enrolados e pegam dinheiro emprestado para tentar multiplicar esses
ganhos. Segundo o "Wall Street Journal", tombos desses fundos podem
ter colocado alguma lenha na fogueira do preço das ações.
Uma baixa importante e duradoura no preço das
ações afeta também a riqueza das famílias, em parte importante investida nas
Bolsas. Um tombo tende a inibir consumo. De resto, investimento na expansão do complexo
de IA é o que tem levado adiante o extraordinário crescimento americano. Ritmo
menor de investimento contém o avanço do PIB. Por duas vias, a economia
americana poderia, pois, vir a crescer pouco ou nada.
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