quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Partido começa a tratar com MDB espaços no governo, por Sofia Aguiar e Lucas Borges Teixeira

Valor Econômico

Sigla presidida por Baleia Rossi, que não apoiou campanha de Lula, busca manter ministérios que já comanda hoje

De olho na formulação do novo governo, o PT deu início às tratativas com o MDB sobre a participação da legenda na composição ministerial. Sem ter anunciado apoio nacional à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o MDB admite, internamente, que terá pouca margem para reivindicar novos espaços na Esplanada. Por conta disso, deve concentrar a negociação na manutenção dos ministérios que já comanda, como Cidades e Transportes, duas pastas de forte capilaridade política e eleitoral.

Os presidentes do PT, Edinho Silva, e o do MDB, Baleia Rossi, se reuniram na quarta-feira (4) em meio à rodada de conversas conduzidas pelo petista com dirigentes partidários sobre a composição do Executivo. O objetivo é sondar o grau de compromisso das legendas com o próximo governo e começar a desenhar a base de nova gestão, diante de um Congresso que terá perfil ainda mais conservador a partir de 2027. Nesse cenário, o Palácio do Planalto pretende condicionar a distribuição de cargos a uma maior garantia de governabilidade no Parlamento, em uma tentativa de evitar reveses como os que ocorreram ao longo do terceiro mandato de Lula.

A conversa com Edinho foi inicial e, agora, a previsão é que Baleia fale com os líderes do partido na Câmara dos Deputados, Isnaldo Bulhões (AL), e no Senado, Eduardo Braga (AM), para avaliar o grau de adesão das bancadas ao governo. Nas eleições deste ano, a sigla conseguiu eleger sete senadores e 36 deputados federais.

Após o encontro na sede do PT, Baleia sinalizou disposição para manter o diálogo com o governo. “Guardadas diferenças entre nossos partidos, podemos encontrar caminhos comuns para os temas nacionais”, escreveu nas redes.

A avaliação de interlocutores do Planalto é que a formação do novo governo exigirá a participação do maior número possível de partidos e, ao mesmo tempo, uma base mais forte. Assim, a ideia é conversar com legendas que, inclusive, não declararam apoio ao petista no segundo turno.

O MDB é um dos exemplos. Historicamente dividido, 17 dos 27 diretórios estaduais da sigla declararam apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), enquanto os demais se posicionaram a favor da reeleição de Lula no segundo turno, em movimento semelhante ao ocorrido em 2022. Diante dessa divisão, integrantes da legenda avaliam que será difícil garantir o alinhamento de toda a bancada ao governo, o que reduz o poder de barganha nas negociações. Por isso, o MDB deve concentrar esforços na manutenção dos ministérios que já comanda.

No atual mandato, o MDB controla dois ministérios, Cidades e Transportes, entregues aos Barbalho, no Pará, e aos Calheiros, em Alagoas. O Planejamento, ocupado por três anos por Simone Tebet, hoje no PSB, era considerado cota pessoal de Lula e não integrava essa matemática.

Nas negociações, o Ministério de Minas e Energia, hoje a cargo do PSD, também aparece como um possível interesse do MDB, já que a sigla comandou a pasta durante os dois primeiros mandatos de Lula. Apesar desse histórico, integrantes da legenda consideram remotas as chances de recuperar o comando do ministério, especialmente por conta da divisão interna do partido.

Com esse cenário, as conversas sobre os cargos devem ficar concentradas nas lideranças do Nordeste e do Norte, mais próximas a Lula. Mesmo após o racha entre PT e MDB após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, caciques seguiram pedindo apoio regional ao petista, o que em muitos momentos trouxe rusgas para as alianças regionais, como neste ano na Paraíba e no Maranhão.

As contas já estão sendo feitas. O senador eleito Helder Barbalho (MDB-PA) é um dos cotados a assumir uma pasta, deixando sua vaga no Senado ao pai, Jader Barbalho (MDB), primeiro suplente. Até março, o irmão Jader Filho (MDB) ocupou Cidades. O senador Renan Filho (MDB-AL) também é cotado para voltar ao Executivo, que integrou como ministro dos Transportes. De famílias tradicionais na política, os dois são vistos como lideranças ao centro, com entrada até nos interiores mais conservadores de suas regiões, e que podem ajudar na interlocução com o Centrão. Não por acaso, ambos eram citados como sugestão de vice no período em que aliados defendiam a retomada da chapa PT-MDB.

Aliados dizem que Lula terá de olhar, ainda, para os cargos de liderança do governo no Congresso. Seja na Câmara, com Isnaldo, ou no Senado, com Braga, Renan Filho, Marcelo Castro (MDB-PI) e Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), tem crescido a defesa, entre auxiliares do presidente, para que ele abra as possibilidades de interlocução e ceda postos relevantes da articulação para a sigla, algo que evitou fazer em seu terceiro mandato, quando esses postos ficaram concentrados com nomes do PT.

 

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