Valor Econômico
Sigla presidida por Baleia Rossi, que não apoiou campanha de Lula, busca manter ministérios que já comanda hoje
De olho na formulação do novo governo, o PT
deu início às tratativas com o MDB sobre a participação da legenda na
composição ministerial. Sem ter anunciado apoio nacional à reeleição do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o MDB admite, internamente, que terá
pouca margem para reivindicar novos espaços na Esplanada. Por conta disso, deve
concentrar a negociação na manutenção dos ministérios que já comanda, como
Cidades e Transportes, duas pastas de forte capilaridade política e eleitoral.
Os presidentes do PT, Edinho Silva, e o do MDB, Baleia Rossi, se reuniram na quarta-feira (4) em meio à rodada de conversas conduzidas pelo petista com dirigentes partidários sobre a composição do Executivo. O objetivo é sondar o grau de compromisso das legendas com o próximo governo e começar a desenhar a base de nova gestão, diante de um Congresso que terá perfil ainda mais conservador a partir de 2027. Nesse cenário, o Palácio do Planalto pretende condicionar a distribuição de cargos a uma maior garantia de governabilidade no Parlamento, em uma tentativa de evitar reveses como os que ocorreram ao longo do terceiro mandato de Lula.
A conversa com Edinho foi inicial e, agora, a
previsão é que Baleia fale com os líderes do partido na Câmara dos Deputados,
Isnaldo Bulhões (AL), e no Senado, Eduardo Braga (AM), para avaliar o grau de
adesão das bancadas ao governo. Nas eleições deste ano, a sigla conseguiu
eleger sete senadores e 36 deputados federais.
Após o encontro na sede do PT, Baleia
sinalizou disposição para manter o diálogo com o governo. “Guardadas diferenças
entre nossos partidos, podemos encontrar caminhos comuns para os temas
nacionais”, escreveu nas redes.
A avaliação de interlocutores do Planalto é
que a formação do novo governo exigirá a participação do maior número possível
de partidos e, ao mesmo tempo, uma base mais forte. Assim, a ideia é conversar
com legendas que, inclusive, não declararam apoio ao petista no segundo turno.
O MDB é um dos exemplos. Historicamente
dividido, 17 dos 27 diretórios estaduais da sigla declararam apoio à
candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), enquanto os demais se posicionaram a
favor da reeleição de Lula no segundo turno, em movimento semelhante ao ocorrido
em 2022. Diante dessa divisão, integrantes da legenda avaliam que será difícil
garantir o alinhamento de toda a bancada ao governo, o que reduz o poder de
barganha nas negociações. Por isso, o MDB deve concentrar esforços na
manutenção dos ministérios que já comanda.
No atual mandato, o MDB controla dois
ministérios, Cidades e Transportes, entregues aos Barbalho, no Pará, e aos
Calheiros, em Alagoas. O Planejamento, ocupado por três anos por Simone Tebet,
hoje no PSB, era considerado cota pessoal de Lula e não integrava essa
matemática.
Nas negociações, o Ministério de Minas e
Energia, hoje a cargo do PSD, também aparece como um possível interesse do MDB,
já que a sigla comandou a pasta durante os dois primeiros mandatos de Lula.
Apesar desse histórico, integrantes da legenda consideram remotas as chances de
recuperar o comando do ministério, especialmente por conta da divisão interna
do partido.
Com esse cenário, as conversas sobre os
cargos devem ficar concentradas nas lideranças do Nordeste e do Norte, mais
próximas a Lula. Mesmo após o racha entre PT e MDB após o impeachment da
ex-presidente Dilma Rousseff, caciques seguiram pedindo apoio regional ao
petista, o que em muitos momentos trouxe rusgas para as alianças regionais,
como neste ano na Paraíba e no Maranhão.
As contas já estão sendo feitas. O senador
eleito Helder Barbalho (MDB-PA) é um dos cotados a assumir uma pasta, deixando
sua vaga no Senado ao pai, Jader Barbalho (MDB), primeiro suplente. Até março,
o irmão Jader Filho (MDB) ocupou Cidades. O senador Renan Filho (MDB-AL) também
é cotado para voltar ao Executivo, que integrou como ministro dos Transportes.
De famílias tradicionais na política, os dois são vistos como lideranças ao
centro, com entrada até nos interiores mais conservadores de suas regiões, e
que podem ajudar na interlocução com o Centrão. Não por acaso, ambos eram
citados como sugestão de vice no período em que aliados defendiam a retomada da
chapa PT-MDB.
Aliados dizem que Lula terá de olhar, ainda,
para os cargos de liderança do governo no Congresso. Seja na Câmara, com
Isnaldo, ou no Senado, com Braga, Renan Filho, Marcelo Castro (MDB-PI) e
Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), tem crescido a defesa, entre auxiliares do
presidente, para que ele abra as possibilidades de interlocução e ceda postos
relevantes da articulação para a sigla, algo que evitou fazer em seu terceiro
mandato, quando esses postos ficaram concentrados com nomes do PT.

Nenhum comentário:
Postar um comentário