Valor Econômico
Para cientistas políticos, o resultado abre espaço para direita não bolsonarista, mas a família mantém protagonismo do campo político
A derrota
do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
nas eleições legislativas americanas deve ter efeito negativo sobre o
bolsonarismo e pode abrir espaço para que setores mais moderados da direita
disputem a liderança desse campo político. O resultado, porém, não deve retirar
do grupo, por si só, a posição de principal força eleitoral da direita no
Brasil, avaliam especialistas ouvidos pelo Valor.
Até o fechamento desta reportagem, o senador e ex-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e outras lideranças do grupo não haviam se manifestado publicamente sobre o resultado das “midterms’’.
Fernando Bizzarro, doutor em ciência
política pela Universidade Harvard
e professor do Boston
College, avalia que a mudança na composição do Congresso
americano terá pouco impacto sobre a relação entre os países. O Congresso
também pode influenciar decisões por meio da aprovação do orçamento. Segundo
ele, o presidente mantém autonomia na política externa, inclusive sobre tarifas
e relações bilaterais.
Para Bizzarro, o efeito mais relevante da
derrota de Trump é simbólico. Após a derrota do bolsonarismo para Luiz Inácio Lula da Silva
(PT), o resultado nos EUA representa novo revés para a direita populista nas
Américas, que vinha em ascensão, segundo o professor. “Parece que agora a maré
está virando”, disse.
Bizzarro pondera que a sequência de derrotas
não significa perda direta de força eleitoral do bolsonarismo. Ele destaca o
desempenho de Flávio e a presença do sobrenome Bolsonaro entre parlamentares e
governadores eleitos nas eleições. “O bolsonarismo ainda é o principal
movimento eleitoral dentro da direita brasileira”, declarou.
No entanto, o professor não descarta espaço
para uma direita não bolsonarista nas próximas eleições. O enfraquecimento de
Trump pode favorecer setores moderados, sem retirar a força eleitoral do
bolsonarismo. “As duas coisas podem ser verdade”, resumiu Bizzarro, ao dizer
que o movimento bolsonarista continua forte, mas pode enfrentar disputa mais
acirrada na direita.
Bizzarro avalia que a associação explícita
com Trump tende a perder apelo eleitoral no Brasil. Segundo ele, o apoio
americano e as tarifas impostas ao país prejudicaram as intenções de voto de
Flávio durante a campanha, levando o senador a reduzir as menções a Trump no
segundo turno. Com a derrota, ele prevê que a direita mantenha os EUA como
referência, mas evite demonstrações públicas de proximidade com o republicano.
Jorge Chaloub, professor de
ciência política da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal de Juiz de Fora
(UFJF), e pesquisador de movimentos de direita, avalia que a derrota de Trump
repercute mais no Brasil pelo alinhamento do bolsonarismo com a direita radical
americana. “Me parece que impacta mais do que o normal”, afirmou.
Chaloub explica que a aproximação deixou de
ser apenas estratégica e passou a incluir apoio explícito ao trumpismo e
iniciativas de pressão sobre o Brasil. Para ele, o vínculo afeta a imagem dos
Bolsonaro. “O silêncio passa por isso”, disse, sobre a ausência de
manifestações de Flávio e Eduardo. Na avaliação dele, reconhecer o revés do
aliado poderia ser interpretado pelos apoiadores como sinal de derrota do grupo
político.
O professor considera que as perdas de Flávio
e Trump podem levar integrantes da direita a buscar alternativas ao
bolsonarismo. Ressalta, porém, que o ex-presidente Jair Bolsonaro ainda
concentra o maior capital eleitoral desse campo e transferiu votos rapidamente
ao filho.
Chaloub vê cálculos distintos entre
parlamentares e candidatos à Presidência. Para os primeiros, manter proximidade
com o ex-presidente pode ser vantajoso; para quem disputa uma eleição nacional,
a associação pode ser obstáculo. “É difícil ganhar com Bolsonaro, dado que ele
e o filho perderam as últimas eleições, mas também parece ainda mais difícil
ser competitivo sem o Bolsonaro”, afirmou.
Na avaliação do cientista político, a
permanência de lideranças importantes fora do país ou na prisão pode abrir
espaço para que o movimento bolsonarista perca a hegemonia na direita. Ele não
espera rompimento imediato com Trump. O mais provável, disse, é que os
bolsonaristas reduzam a proximidade pública e façam “menos acenos” ao
presidente americano.
Aliado da família Bolsonaro nos EUA, o
influenciador Paulo Figueiredo foi
um dos poucos do grupo a comentar as eleições. Ele comemorou o resultado na
Flórida, estado onde ele e os bolsonaros moram. “Graças ao bom Deus, o meu
livre Estado da Flórida continua republicano [...] Pelo menos isso”, escreveu
nas redes.
Neto do ex-presidente João Figueiredo, último
mandatário da ditadura militar brasileira, Paulo vive nos EUA desde 2016. Foi
denunciado pela
Procuradoria-Geral da República (PGR) por suposto envolvimento
na trama golpista e suspeita de coação no curso do processo, por atuar nos EUA
para pressionar autoridades brasileiras. As ações ainda não resultaram em
condenação pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Flávio está nos EUA, para onde fugiu após a derrota presidencial, em meio a investigações da Polícia Federal (PF). Antes da viagem, Alexandre de Moraes, do STF, determinou que entregasse os passaportes à PF em 24 horas, após a corporação apontar risco de fuga. Já Eduardo vive nos EUA desde 2025. Foi condenado pelo Supremo a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo, por pressionar a Corte por meio de sanções americanas no ano passado.

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