quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Derrota de Trump nas eleições legislativas afeta o bolsonarismo, por Guilherme Carvalho

Valor Econômico

Para cientistas políticos, o resultado abre espaço para direita não bolsonarista, mas a família mantém protagonismo do campo político

A derrota do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nas eleições legislativas americanas deve ter efeito negativo sobre o bolsonarismo e pode abrir espaço para que setores mais moderados da direita disputem a liderança desse campo político. O resultado, porém, não deve retirar do grupo, por si só, a posição de principal força eleitoral da direita no Brasil, avaliam especialistas ouvidos pelo Valor.

Até o fechamento desta reportagem, o senador e ex-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e outras lideranças do grupo não haviam se manifestado publicamente sobre o resultado das “midterms’’.

Fernando Bizzarro, doutor em ciência política pela Universidade Harvard e professor do Boston College, avalia que a mudança na composição do Congresso americano terá pouco impacto sobre a relação entre os países. O Congresso também pode influenciar decisões por meio da aprovação do orçamento. Segundo ele, o presidente mantém autonomia na política externa, inclusive sobre tarifas e relações bilaterais.

Para Bizzarro, o efeito mais relevante da derrota de Trump é simbólico. Após a derrota do bolsonarismo para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o resultado nos EUA representa novo revés para a direita populista nas Américas, que vinha em ascensão, segundo o professor. “Parece que agora a maré está virando”, disse.

Bizzarro pondera que a sequência de derrotas não significa perda direta de força eleitoral do bolsonarismo. Ele destaca o desempenho de Flávio e a presença do sobrenome Bolsonaro entre parlamentares e governadores eleitos nas eleições. “O bolsonarismo ainda é o principal movimento eleitoral dentro da direita brasileira”, declarou.

No entanto, o professor não descarta espaço para uma direita não bolsonarista nas próximas eleições. O enfraquecimento de Trump pode favorecer setores moderados, sem retirar a força eleitoral do bolsonarismo. “As duas coisas podem ser verdade”, resumiu Bizzarro, ao dizer que o movimento bolsonarista continua forte, mas pode enfrentar disputa mais acirrada na direita.

Bizzarro avalia que a associação explícita com Trump tende a perder apelo eleitoral no Brasil. Segundo ele, o apoio americano e as tarifas impostas ao país prejudicaram as intenções de voto de Flávio durante a campanha, levando o senador a reduzir as menções a Trump no segundo turno. Com a derrota, ele prevê que a direita mantenha os EUA como referência, mas evite demonstrações públicas de proximidade com o republicano.

Jorge Chaloub, professor de ciência política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), e pesquisador de movimentos de direita, avalia que a derrota de Trump repercute mais no Brasil pelo alinhamento do bolsonarismo com a direita radical americana. “Me parece que impacta mais do que o normal”, afirmou.

Chaloub explica que a aproximação deixou de ser apenas estratégica e passou a incluir apoio explícito ao trumpismo e iniciativas de pressão sobre o Brasil. Para ele, o vínculo afeta a imagem dos Bolsonaro. “O silêncio passa por isso”, disse, sobre a ausência de manifestações de Flávio e Eduardo. Na avaliação dele, reconhecer o revés do aliado poderia ser interpretado pelos apoiadores como sinal de derrota do grupo político.

O professor considera que as perdas de Flávio e Trump podem levar integrantes da direita a buscar alternativas ao bolsonarismo. Ressalta, porém, que o ex-presidente Jair Bolsonaro ainda concentra o maior capital eleitoral desse campo e transferiu votos rapidamente ao filho.

Chaloub vê cálculos distintos entre parlamentares e candidatos à Presidência. Para os primeiros, manter proximidade com o ex-presidente pode ser vantajoso; para quem disputa uma eleição nacional, a associação pode ser obstáculo. “É difícil ganhar com Bolsonaro, dado que ele e o filho perderam as últimas eleições, mas também parece ainda mais difícil ser competitivo sem o Bolsonaro”, afirmou.

Na avaliação do cientista político, a permanência de lideranças importantes fora do país ou na prisão pode abrir espaço para que o movimento bolsonarista perca a hegemonia na direita. Ele não espera rompimento imediato com Trump. O mais provável, disse, é que os bolsonaristas reduzam a proximidade pública e façam “menos acenos” ao presidente americano.

Aliado da família Bolsonaro nos EUA, o influenciador Paulo Figueiredo foi um dos poucos do grupo a comentar as eleições. Ele comemorou o resultado na Flórida, estado onde ele e os bolsonaros moram. “Graças ao bom Deus, o meu livre Estado da Flórida continua republicano [...] Pelo menos isso”, escreveu nas redes.

Neto do ex-presidente João Figueiredo, último mandatário da ditadura militar brasileira, Paulo vive nos EUA desde 2016. Foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por suposto envolvimento na trama golpista e suspeita de coação no curso do processo, por atuar nos EUA para pressionar autoridades brasileiras. As ações ainda não resultaram em condenação pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Flávio está nos EUA, para onde fugiu após a derrota presidencial, em meio a investigações da Polícia Federal (PF). Antes da viagem, Alexandre de Moraes, do STF, determinou que entregasse os passaportes à PF em 24 horas, após a corporação apontar risco de fuga. Já Eduardo vive nos EUA desde 2025. Foi condenado pelo Supremo a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo, por pressionar a Corte por meio de sanções americanas no ano passado.

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