quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Campanha desanimadora, por Merval Pereira

O Globo

Os dois lados não procuram atrair o eleitor pelo que podem vir a fazer, mas pelo que pode afetar o concorrente.

A campanha presidencial está tão anódina que ambos os lados aguardam um escândalo para destravá-la. Não procuram atrair o eleitor pelo que podem vir a fazer, mas pelo que pode afetar o concorrente. A disputa de rejeições parece determinar os passos de cada um, não as qualidades próprias ou os projetos para o país. Nunca, também, houve tanto sexo nas elucubrações da boataria; a festa dos astronautas promovida pelo banqueiro-bandido Daniel Vorcaro parece que mexeu com a criatividade do pessoal de marketing das equipes.

À falta de materialidade, divulgam roteiros engenhosos de vídeos imaginados com parlamentares nus, mas sobriamente de gravata; outros, mais comedidos, mergulhando na piscina de cuecas; mulheres estrangeiras satisfazendo a empresários e políticos tupiniquins, enfim um dossiê completo à Epstein, que, aliás, já se concretizou em parte com o suicídio do tal Sicário, assim como o proxeneta americano. Vorcaro parece não ter essa disposição toda e luta nos bastidores para conseguir uma prisão domiciliar que o deixe mais confortável.

Atribuem a ele os vazamentos em série, que pegam de Chico a Francisco, da esquerda à direita, confundindo o eleitor, misturando indícios e mentiras, verdades e fantasias. Seria uma espécie de salve-geral para os antigos aliados, que hoje tentam contestá-lo. Ficam assim, os eleitores, cidadãos comuns, à espera do que virá a acontecer. Chega-se ao ponto de o candidato Flávio Bolsonaro dar uma entrevista coletiva para negar boatos de que o empresário Luciano Hang financiou o filme “Dark Horse”; que os ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques surgirão em diálogos mais explícitos com Vorcaro; negócios do ministro André Mendonça por meio de seu Instituto Iter, de cuja direção saiu recentemente, e por aí vai.

Seriam acusações contra ministros do Supremo considerados apoiadores de Flávio, depois de vários outros ministros, identificados como apoiadores de Lula, aparecerem em situações no mínimo delicadas, algumas desqualificantes por qualquer Código de Ética. Também o presidente Lula, candidato à reeleição, aborda com tranquilidade boatos contra seu adversário. Como dificilmente a eleição presidencial terminará no primeiro turno, tudo indica que teremos um segundo turno sangrento. O tom agressivo que estava guardado para esse segundo turno foi antecipado, diante da imutabilidade das tendências.

O empate técnico nos dois turnos, previsto por todas as pesquisas, faz com que os dois se armem para o embate final. A tentativa de usar o voto útil para abreviar a disputa, se acontecer, deverá beneficiar Flávio, pois Lula não conseguiu manter a campanha de união nacional que o elegeu em 2022. Pela Quaest, o candidato da oposição herdará a maioria dos votos dos candidatos “nanicos”. Os partidos do Centrão preparam-se para apoiá-lo no segundo turno, e isso pode fazer a diferença numa disputa tão apertada.

Saudades

Zuenir Ventura, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), era o jornalista que todos queríamos ser. Era nosso espelho. Culto, generoso, era repórter e comentarista, editor e redator, chefe e orientador, intelectual e popular, professor e aluno. Tinha um senso de humor refinado. O melhor exemplo foi o banho de tinta marrom que deu num desafeto. É autor de livros seminais para entender o Brasil: “1968, o ano que não terminou”, “Cidade partida”. Poucos atingem o cume, ele foi um desses. Foi um ambientalista genuíno, suas reportagens sobre a morte de Chico Mendes foram marcantes nessa luta. Sua generosidade ficou ressaltada pela decisão de trazer do Acre ao Rio, para sua casa, o menino Genésio, testemunha do assassinato do líder defensor do meio ambiente ameaçado de morte. Tinha várias qualidades e mais uma: era torcedor do Fluminense e do Império Serrano. Como eu. Hoje a ABL faz sua tradicional Sessão da Saudade, em homenagem àquele que nos deixou um legado de vida.

 

Um comentário:

Anônimo disse...

A sociedade com todas as instituições todas os seus acadêmicos toda sua tradição democrática aceitar que um ministro corrupto pego em vários crimes ditador possa ainda mesmo assim julgar e determinar destinos de processos no STF
Moraes tem que se afastado imediatamente e investigado
A imprensa tinha que bater nesse ponto