quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Por que debater ficou mais arriscado? Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

O efeito Marçal mostrou como um candidato pode arrastar os demais para o conflito

Hoje, 15 segundos bem editados viram narrativas distribuídas milhões de vezes

Os principais candidatos à Presidência estão refugando os debates eleitorais de 2026. A explicação convencional é simples: quem está bem colocado nas pesquisas tem pouco a ganhar numa arena em que todos os outros têm interesse em atacá-lo. Isso sempre foi verdade. Mas talvez tenha se tornado muito mais verdadeiro depois de 2024.

A eleição para prefeito de São Paulo mostrou de forma impressionante o que um debate pode se tornar na era das redes sociais. Pablo Marçal percebeu que sua função já não precisava ser apenas comparar propostas. O debate podia ser também uma prova de estresse do adversário em público, que consistia em submetê-lo à pressão, tirá-lo do roteiro e usar sua reação como demonstração de caráter, equilíbrio ou capacidade. Em suas próprias palavras, tratava-se de descobrir "quem aguenta o tranco", "quem é de verdade" e até de "expor o caráter de cada um".

Havia, além disso, outra camada. O programa não terminava quando as câmeras eram desligadas. Cada insulto, zombaria, acusação pessoal, provocação ou reação indignada podia virar vídeo curto, meme e cena destinada a circular durante dias em ambientes digitais. O objetivo não precisava ser vencer o argumento, mas produzir cortes capazes de apresentar o adversário como despreparado, desequilibrado ou indigno do cargo e fornecer matéria-prima para a campanha nas redes sociais.

Uma pesquisa que coordeno analisou 848 falas dos candidatos nos 11 debates do primeiro turno paulistano. Procurávamos saber quando o confronto permanecia argumentativo e quando se deteriorava até colapsar. Encontramos um volume sem precedentes de ataques pessoais, zombarias, acusações, provocações, tentativas de humilhação e grosserias várias que degradavam a discussão argumentativa em conflito feroz entre os candidatos.

Além disso, a análise mostrou que o comportamento era contagioso. Uma provocação produzia resposta hostil, que provocava réplica ainda mais agressiva. Aos poucos, candidatos interessados em propostas eram arrastados para o terreno de quem tinha maior interesse em produzir conflito. O problema não era alguém ocasionalmente se comportar mal, mas um único candidato poder deteriorar a qualidade do debate dos outros.

No limite, os debates produziram aquilo de que todos se lembram: cadeirada, expulsões, acusações, insultos e encenações destinadas a sobreviver ao programa. Mais que confronto entre projetos, foram um teatro de pirraças, provocações e brigas desmoralizantes. É difícil acreditar que as campanhas presidenciais de 2026 não tenham aprendido alguma coisa com aquilo.

Para um candidato com 3%, o debate é oportunidade extraordinária: por algumas horas, ocupa o mesmo palco do favorito e pode criar uma cena capaz de mudar sua campanha. Para quem tem 30% ou 40%, os ganhos de visibilidade são pequenos, enquanto o prejuízo de uma frase infeliz, de uma reação emocional ou de uma provocação bem-sucedida pode ser enorme.

As redes ampliaram brutalmente essa assimetria. Antes, uma resposta ruim desaparecia com o programa ou sobrevivia na reportagem do dia seguinte. Hoje, 15 segundos bem editados podem virar narrativas e memes distribuídos milhões de vezes.

Por isso, é interessante que os candidatos pareçam preferir entrevistas ao vivo. Num artigo de 2012 sobre entrevistas presidenciais de 2010, argumentei que o jornalista compensava a impossibilidade de editar o candidato tentando controlar sua fala: interrompia, reiterava perguntas, tentava encurralá-lo e recusava desvios.

Mas há uma diferença decisiva. O jornalista pode pressionar o político, porém não disputa seus votos e atua dentro de uma gramática profissional previsível. A campanha consegue antecipar assuntos difíceis e preparar respostas. No debate, cada adversário tem incentivo eleitoral direto para provocar o pior momento do interlocutor.

A entrevista não se tornou confortável. O debate é que se tornou comparativamente mais perigoso, não apenas porque basta um candidato disposto a provocar e insultar para arrastar os demais para um jogo que não escolheram mas porque a possibilidade de se sair bem já não depende apenas do próprio desempenho no debate real. Não há como prever o efeito político de um debate quando o poder de cortar, editar, reenquadrar e viralizar suas cenas está também nas mãos dos adversários.

Isso não significa, naturalmente, que seja desejável que candidatos à Presidência deixem de debater. Mas não há como negar que o risco de participar tenha aumentado consideravelmente nos últimos tempos.

 

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