O Globo
Os dois lados não procuram atrair o eleitor
pelo que podem vir a fazer, mas pelo que pode afetar o concorrente.
A campanha presidencial está tão anódina que ambos os lados aguardam um escândalo para destravá-la. Não procuram atrair o eleitor pelo que podem vir a fazer, mas pelo que pode afetar o concorrente. A disputa de rejeições parece determinar os passos de cada um, não as qualidades próprias ou os projetos para o país. Nunca, também, houve tanto sexo nas elucubrações da boataria; a festa dos astronautas promovida pelo banqueiro-bandido Daniel Vorcaro parece que mexeu com a criatividade do pessoal de marketing das equipes.
À falta de materialidade, divulgam roteiros
engenhosos de vídeos imaginados com parlamentares nus, mas sobriamente de
gravata; outros, mais comedidos, mergulhando na piscina de cuecas; mulheres
estrangeiras satisfazendo a empresários e políticos tupiniquins, enfim um
dossiê completo à Epstein, que, aliás, já se concretizou em parte com o
suicídio do tal Sicário, assim como o proxeneta americano. Vorcaro parece não
ter essa disposição toda e luta nos bastidores para conseguir uma prisão
domiciliar que o deixe mais confortável.
Atribuem a ele os vazamentos em série, que
pegam de Chico a Francisco, da esquerda à direita, confundindo o eleitor,
misturando indícios e mentiras, verdades e fantasias. Seria uma espécie de
salve-geral para os antigos aliados, que hoje tentam contestá-lo. Ficam assim,
os eleitores, cidadãos comuns, à espera do que virá a acontecer. Chega-se ao
ponto de o candidato Flávio Bolsonaro dar uma entrevista coletiva para negar
boatos de que o empresário Luciano Hang financiou o filme “Dark Horse”; que os
ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques surgirão em diálogos mais explícitos
com Vorcaro; negócios do ministro André Mendonça por meio de seu Instituto
Iter, de cuja direção saiu recentemente, e por aí vai.
Seriam acusações contra ministros do Supremo
considerados apoiadores de Flávio, depois de vários outros ministros,
identificados como apoiadores de Lula, aparecerem em situações no mínimo
delicadas, algumas desqualificantes por qualquer Código de Ética. Também o
presidente Lula, candidato à reeleição, aborda com tranquilidade boatos contra
seu adversário. Como dificilmente a eleição presidencial terminará no primeiro
turno, tudo indica que teremos um segundo turno sangrento. O tom agressivo que
estava guardado para esse segundo turno foi antecipado, diante da imutabilidade
das tendências.
O empate técnico nos dois turnos, previsto
por todas as pesquisas, faz com que os dois se armem para o embate final. A
tentativa de usar o voto útil para abreviar a disputa, se acontecer, deverá
beneficiar Flávio, pois Lula não conseguiu manter a campanha de união nacional
que o elegeu em 2022. Pela Quaest, o candidato da oposição herdará a maioria dos
votos dos candidatos “nanicos”. Os partidos do Centrão preparam-se para
apoiá-lo no segundo turno, e isso pode fazer a diferença numa disputa tão
apertada.
Saudades
Zuenir Ventura, imortal da Academia
Brasileira de Letras (ABL), era o jornalista que todos queríamos ser. Era nosso
espelho. Culto, generoso, era repórter e comentarista, editor e redator, chefe
e orientador, intelectual e popular, professor e aluno. Tinha um senso de humor
refinado. O melhor exemplo foi o banho de tinta marrom que deu num desafeto. É
autor de livros seminais para entender o Brasil: “1968, o ano que não
terminou”, “Cidade partida”. Poucos atingem o cume, ele foi um desses. Foi um
ambientalista genuíno, suas reportagens sobre a morte de Chico Mendes foram
marcantes nessa luta. Sua generosidade ficou ressaltada pela decisão de trazer
do Acre ao Rio, para sua casa, o menino Genésio, testemunha do assassinato do
líder defensor do meio ambiente ameaçado de morte. Tinha várias qualidades e
mais uma: era torcedor do Fluminense e do Império Serrano. Como eu. Hoje a ABL
faz sua tradicional Sessão da Saudade, em homenagem àquele que nos deixou um
legado de vida.

Um comentário:
A sociedade com todas as instituições todas os seus acadêmicos toda sua tradição democrática aceitar que um ministro corrupto pego em vários crimes ditador possa ainda mesmo assim julgar e determinar destinos de processos no STF
Moraes tem que se afastado imediatamente e investigado
A imprensa tinha que bater nesse ponto
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